Mais leitor, por favor

Por mais que a gente questione o capitalismo, a monogamia, a religião e tudo isso que gente mala como eu adora questionar, com certas coisas não tem jeito: não adianta contra-argumentar, reclamar nem espernear. Certas coisas foram criadas para acontecer sempre de um determinado jeito e numa ordem precisa. Tentar mudá-las não vai fazer com que você seja visto como um sujeito revolucionário – vai apenas deixar claro para o mundo que você ainda não passou vergonha suficiente na vida.

São estas as coisas inquestionáveis e sua ordem precisa de realização:

– Ao lavar a cabeça —> primeiro passar o xampu, depois enxaguar.

– Ao calçar o sapato —> primeiro vestir a meia, depois o sapato.

– Ao comentar texto na internet —> primeiro ler o texto, depois comentar.

Repare que ninguém está dizendo que essas atividades *precisam* ser realizadas a qualquer custo. Muito pelo contrário: você pode passar um dia absolutamente feliz com os cabelos sequinhos, descalço e por fora da última polêmica da internet.

Mas, se quiser levar a cabo qualquer uma das tarefas acima – por favor, não invente. Saiba, além disso, que um cabelo empastelado de xampu mal-enxaguado e uma meia esgarçada por cima do sapato não são nada perto da vergonha alheia que se sente ao ler um comentário de alguém que claramente não leu o texto que pretendia criticar.

Que mais amor o quê – o mundo precisa de mais leitor, por favor.
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Sobre pedras e bombas

Há uns dias, compartilhei no Facebook uma imagem de um policial chutando a cabeça de uma mulher, com a legenda “vândala ataca o pé de policial”. Compartilhei como se fosse uma caricatura, uma charge do Latuff, pois imaginei que a legenda era falsa (depois ficou provado que a imagem era falsa também). De qualquer forma, achei a mensagem muito boa: a regra número 1 deste nosso clube da luta cotidiano é que sempre se dá um jeito de pôr a culpa nos malditos vândalos.

Mas me arrependi de ter compartilhado essa imagem. No Brasil, não é preciso caricatura, charge, metáfora nem montagem mal-feita da internet. Basta a realidade. Este vídeo tem dois minutos e não é dos black blocs, da mídia ninja, de um primo do sogro do meu vizinho nem de nenhuma dessas fontes modernetes-esquerdinhas-fora-do-eixo-cubocards, que é pra ninguém levantar a estúpida objeção de que “se é mídia esquerdinha então não vale”. Ma ôe, coleguinhas: o vídeo é do insuspeito canal do Silvio Santos. E a polícia sai atirando enquanto a reportagem do SBT está entrevistando moradores do bairro. Tem tiro, tem bomba jogada do helicóptero, tem gente ferida nos olhos, tem de tudo. E no final, é claro, tem a versão oficial da PM.

E qual é a versão oficial da PM, alguém arrisca?

É bem parecida com a legenda da imagem falsa que circulou pelo Facebook uns dias atrás:

“A violência começou depois que os moradores jogaram pedras na viatura”.

Vamos supor que, sim, pedras foram jogadas. Vamos convenientemente esquecer que a PM matou um menino de 16 anos hoje de manhã neste mesmo bairro. Vamos supor que gente sem Jesus no coração entrou em surto psicótico e saiu tacando pedra loucamente em inocentes viaturas. Vamos, para o bem do argumento, supor tudo isso que a PM quer que a gente suponha.

Mesmo com todas essas suposições, o que resta é uma polícia para a qual a resposta adequada para PEDRAS são BOMBAS.

A PM não se preocupa em tentar disfarçar. Não se preocupa em elaborar uma justificativa mais palatável. Acha que essa está mais do que boa. “Jogaram pedra, taquei bomba, ué”. E, quando a gente para pra pensar – realmente, por que não tacariam?

Quando eu era pequena e ouvia algum tiozão reaça defender que tem mesmo é que jogar uma bomba no meio da favela pra explodir com tudo, eu fazia tsc, tsc e pensava, credo, que tio maluco! Onde já se viu uma maldade dessas!

Parte da dolorosa experiência de crescer foi ter aprendido que isso de jogar bomba na favela não é o louco delírio de um  tiozão reaça no almoço de domingo. Jogar bomba na favela é precisamente o que a polícia faz. Bomba na favela é o objetivo de quem está no comando da polícia. Bomba na favela é nada menos que a realidade.

Aconteceu agora há pouco, perto da minha casa.

Molho shoyu

Na fila do restaurante por quilo, um menino de uns 7 ou 8 anos me pede sem mais nem menos:

– Tia, paga um lanchinho pra mim?
 
O lugar estava barulhento e o menino falara baixinho. Como eu estava distraída e fora pega de surpresa, pedi para ele repetir o que dissera.
 
O menino prontamente repetiu:
 
– Pega o molho shoyu pra mim?
 
(O molho shoyu estava em uma prateleira alta, fora de seu alcance.)
 
Acho que não preciso dizer qual era a cor do menino.
 
***
 
Reparem que não fiz qualquer julgamento consciente sobre ele. Não cheguei a formular o pensamento “este menino só pode estar aqui para pedir comida”. Eu simplesmente ouvi. Articulei os sons internamente de modo a formar um significado que fui preparada para ouvir tendo vivido a vida inteira neste mundo que é o nosso.
 
Eu não posso controlar o que vejo e ouço, isto é, aquilo que precede meu julgamento racional – o que é um outro jeito de dizer que não posso controlar meu próprio racismo em seu nível mais insidioso. Posso, quando muito, desconfiar de minha percepção e dar stop-rewind-replay.
 
Mas eu posso fazer algumas perguntas.
 
Quando eu era criança, é extremamente improvável – para não dizer absolutamente impossível – que algum adulto desconhecido tenha cogitado que eu fosse lhe pedir dinheiro ou comida.
 
Para este menino, porém, esta é uma possibilidade bem concreta.
 
Será que ele (já) sabe que esta é uma possibilidade bem concreta para ele?
 
Será que ele sabe que esta nunca foi uma possibilidade para mim?
 
Será que alguma vez já lhe aconteceu o tipo de mal-entendido que hoje só não provoquei por um triz?
 
Qual é a diferença entre um tipo de infância e outra?
 
Qual a diferença entre uma infância em que você está acostumado a ser visto apenas como criança – e uma infância em que você já espera que algumas pessoas o vejam como alguém que vai pedir dinheiro ou comida?
 
***
 
Não sei as respostas destas perguntas. 
 
Mas hoje, pela primeira vez, um menino que queria molho shoyu me levou a fazê-las.

Brasil, Nação Chororô

O assunto deixou de ser as biografias. O assunto agora é outro: nosso eterno e indignado chororô way of life.

No Brasil, ninguém é famoso nem tem espaço na mídia. Pergunte a quem Procura Saber. Ninguém ali tem prestígio, poder, reconhecimento nem tampouco dinheiro para contratar excelentes advogados. São todos pobres artistas da música popular à mercê de biógrafos inescrupulosos que certamente não perderão a chance de caluniá-los.

No Brasil, ninguém é rico. Experimente perguntar àquele seu conhecido bem de vida que tem um BMW na garagem e dois apartamentos de um milhão cada. Ele lhe dirá que rico mesmo é o Antonio Ermírio de Moraes. Ele, não. Ele acorda todo dia às seis da manhã para pegar no batente e não tira férias há dois anos. Ele é apenas esforçado e trabalhador. Rico é outra coisa.

No Brasil, ninguém é latifundiário. Pergunte a qualquer deputado da bancada ruralista. Ele é apenas um produtor rural que tenta fazer o seu trabalho honestamente num pedacinho insignificante de terra. Latifundiários mesmo são os índios, que detêm 30% das terras do Brasil e são menos de 1% da população.

No Brasil, ninguém é racista. Aqui, não precisa perguntar a mais ninguém: basta perguntar a si mesmo. Eu? Como assim eu sou racista? Racistas são o Feliciano, o Walcyr Carrasco e o Bolsonaro, que tem um sogro “quase negão”. Já eu tenho amigos que são negões de verdade!

No Brasil, em suma, ninguém é privilegiado. Somos uma nação de coitadinhos sacaneados e vilipendiados – pelos biógrafos que não deixam nossa privacidade em paz, pelos índios que não nos deixam fazer hidrelétrica e plantar soja, pelos negros que não nos deixam passar no vestibular. E olha que nem cheguei a falar dos gays que não nos deixam ter orgulho hétero e das mulheres que não nos deixam fazer fiu-fiu!

Espero que os orixás não tenham piedade nenhuma de nós.

Nunca amamos nossos ídolos

Sabe, tretas à parte, estou achando realmente terapêutica e produtiva essa nossa catarse coletiva, essa purgação dos ídolos, esse “e agora, quando poderemos voltar a amar o Chico?”, essa desconstrução de heróis que, não tendo morrido de overdose, morrem agora de tanto procurar saber e não encontrar.
 
Chico me apunhalou, me traiu, me fez concordar com Reinaldo Azevedo; está me matando, me envenenando, somos todas potes até aqui de vergonha alheia; como pode Caetano se prestar a um papel desses, como pode não ter concluído o texto com um “ou não” que, com seu dom de iludir, nos permitisse pôr tanta bobagem em dúvida; como pode Gil, o ministro-artista-prafrentex, se dispor a escrever coisa que de tão coxinha até a fé nos falha; já o Djavan, bem, pelo menos do Djavan a gente nunca gostou muito mesmo, podemos respirar aliviadas.
 
É mais ou menos esse o espírito que tenho visto e sentido por aí, e sobretudo visto e sentido em mim mesma – de repente viramos um bando de viúvas abandonadas que não param de perguntar: “senhores, ma che catzo?
 
Esse é o momento mágico. Esse é o momento tão necessário. É o momento em que nos damos conta de que não sabemos nada sobre esses senhores. E não porque eles sejam celebridades inatingíveis que a mídia distorce e fotoxopa e enaltece e coloca em redomas cafonas. Mas porque são outros. Porque não são eu. E, quando se trata de gente que não é eu, a verdade é que dessa gente jamais saberemos grande coisa.
 
Saberemos, com sorte, alguma coisa de três pessoas na vida. Da vó. Do melhor amigo. Da ex-namorada. E mesmo assim, mesmo dessas pessoas de quem mais sabemos, pelo menos uma delas, algum dia, há de fazer algo tão imbecil ou genial e sobretudo tão imprevisível que ao menos sobre ela você terá de se perguntar, mas quem é esse sujeito que até ontem eu achava que conhecia tão bem? [Se você está achando isso dramático, pense na mulher do Zé Dirceu.]
 
Você pensa que conhece uma pessoa e um belo dia ela vê Jesus. Pensa que conhece uma pessoa e ela um dia começa a tocar trombone. Pensa que conhece e ela larga o emprego e desbunda. Pensa, e ela nunca mais retorna suas ligações. Na verdade, não precisa nem pensar. Basta piscar. Você pisca e, quando abre os olhos novamente, percebe que a pessoa de dentro da pálpebra não tem nada a ver com a pessoa de fora. De modo que, entre a sua vó, seu melhor amigo e sua ex-namorada, pode esquecer um deles. Restam agora apenas dois.
 
E jura mesmo que você espera que Chico, Caetano, Gil, Djavan se unam a essas duas pessoas que, mais do que amar, você  realmente conhece bem?
 
Sim, é estranho constatar que um ser capaz de canções geniais é também capaz de textos argumentativos colegiais (mas aí você pensa em si mesma e constata que fazer um risoto divino não lhe tornou mais hábil na solução de problemas matemáticos). É estranho perceber que nosso ídolo pode, às vezes, agir como um rematado idiota (mas aí você se lembra daquela vez em que trocou horas de potencial alegria por uma treta na internet).
 
Esse estranhamento, porém, é tão libertador.
 
Porque quando tiramos da frente o ídolo-idiota, sobra apenas…
 
A obra.
 
Nós nunca amamos esses caras. Amamos suas canções. São elas, aliás, a única coisa que faz com que suas biografias tenham qualquer interesse. Não amamos Chico nem Caetano nem porra de artista nenhum. Amamos grupos de palavrinhas escritas em determinada ordem e com determinada rima, grupos de notas organizadas em determinadas melodias, sequências de acordes que conhecemos de forma mais visceral que consciente. E é só.
 
E já é tanto.

Nuvens, amor e vida

Uma cantora de jazz participava de um destes testes às cegas, uma brincadeira em que várias gravações são mostradas à musicista sem que lhe sejam revelados os nomes dos intérpretes. Esse é um tipo de brincadeira que os jornalistas especializados em jazz adoram fazer em suas entrevistas – e, de fato, é bem divertido ver os entrevistados tentando acertar quem são os músicos, os compositores, a gravadora; é sobretudo muito instrutivo reparar nas estratégias que os entrevistados utilizam para chegar às suas conclusões.

Então o entrevistador foi tocando gravações de clássicos do jazz vocal para a cantora, que muito tranquilamente foi adivinhando e comentando uma a uma, dizendo como Carmen McRae a havia influenciado nisto, Dinah Washington naquilo e assim por diante. Até que começou a tocar a última gravação selecionada pelo entrevistador: Both Sides Now, de Joni Mitchell, com a orquestra de Vince Mendoza.

A cantora começou a chorar. Chorou, chorou, chorou, soluçou e não falou mais nada. O entrevistador estava ficando constrangido. A cantora estava ficando sem rímel nos olhos. Depois de alguns minutos, quando Joni já olhara para as nuvens e para o amor dos-dois-lados-agora, a cantora recompôs-se apenas o suficiente para dizer: “isso é o tanto que esta música significa para mim”, e continuou chorando, e chorando levantou-se, pegou a bolsa e foi embora, deixando o entrevistador sozinho com Joni e Vince e dezenas de músicos, todos juntos empenhados em transmitir a experiência de uma pessoa que conseguiu, enfim, ver a vida dos dois lados, ontem, sempre e principalmente agora.

1 minuto de silêncio pelos envelopes de depósito

Tá lá um envelope de depósito estendido no chão. Um não, vários. Inocentes envelopes de depósito, envelopes de bem que só queriam acolher um pouquinho de dinheiro, umas folhinhas de cheque. Agora estão lá, no chão, sujos e amassados, para sempre impossibilitados de cumprir a função que vieram desempenhar no mundo. Os envelopes de depósito, se você pensa bem, são muito mais significativos na vida de cada um de nós do que os manequins da Toulon. Quantos momentos significativos você viveu ao lado de um envelope de depósito? Teve aquela vez que você teve o louco ímpeto de desobedecer o mandamento de NÃO DESTAQUE, DOBRE e quis arrancar a parte superior do envelope. Teve aquela outra vez que a caneta não funcionava e você fez um sulco no envelope tentando escrever número de agência e conta. Na vida a gente perde muitas coisas, é fato. Por isso mesmo, é fundamental elaborar o luto por aquilo que realmente importa. Um minuto de silêncio, por favor, em respeito aos envelopes de depósito destroçados pelos vândalos.