Um não-assalto

Estou no ônibus com o celular na mão. Assim como metade das pessoas que estão no ônibus. Estou no ônibus com o celular na mão e de repente, outra mão está no meu celular também. Puxando forte, forte, bem forte, sem dizer nada, apenas isso, apenas puxando, e eu puxando do outro lado, um cabo de guerra com um celular no meio, o ônibus parou no ponto, o dono da mão que puxava meu celular saiu correndo. 

Sem o celular.

Todos os clichês: “pega ladrão!” “foi tudo muito rápido”, “você não deveria ter reagido” “eu sei, mas a gente nunca sabe como vai reagir nessas horas”.

O cabo de guerra me deixou sentada no chão do ônibus, como uma cadelinha-do-rabo-pisado.

O moço sentado no banco ao lado continuou ouvindo sua música como se nada tivesse acontecido.

E, de fato, nada acontecera, não? Eu nem sequer fora assaltada.

Uma mulher me ajudou a levantar. (Obrigada, mulher.)

E as pessoas começaram a conversar.

– Eu vi ele entrando no ônibus, bem que achei ele esquisito.

– Ele tava me urubuzando, tava perto demais, aí fiz cara feia e ele mudou de vítima.

– Ele entrou comigo no ponto, era um moreninho de camisa azul, né?

– Azul não, vermelha. 

– Isso, azul ou vermelha.

A cobradora me perguntou qual a marca do meu celular porque os cobradores da região conhecem um pessoal da favela e certamente era para a favela que o ladrão teria fugido, e os cobradores ficariam muito contentes em tirar o meu celular da marca X das mãos do moreninho de camisa azul.

(Ou vermelha.)

Respondi que o celular ficou comigo. E que a camisa também podia ser branca, preta, verde-água, abajur-lilás.

Desci no meu ponto com um celular na bolsa, um hematoma na perna e uma dignidade de mentira no rosto.

Estava chovendo mas não abri o guarda-chuva.

Não vai ter Fla x Flu, vai ter Madureira x Olaria

Sabe quando você lê um texto, concorda com tudo, e fica com a estranha sensação de que não deveria ter concordado?

Aconteceu comigo hoje, com este texto. Por favor, leia-o – sem dúvida será uma experiência muito mais enriquecedora do que ler o resumo que farei dele a seguir.

O argumento do texto é basicamente o seguinte: enquanto alguns se incomodam com o chamado Fla x Flu eleitoral, o perigo mora mesmo é nos Milicos do Senhor F.C. (nome que, confesso, eu adoraria ter inventado), que se imiscuem no PT e no PSDB com suas ideias ultradireitistas e não têm coragem de fundar um partido próprio – e, por outro lado, nem PT e nem PSDB fizeram o favor de expulsá-los dos respectivos times até agora. Os Milicos do Senhor, socialmente conservadores (o que é apenas um termo bonito para designar racismo, homofobia etc.) e viúvos da ditadura, nada têm a ver com o que foram PT e PSDB em suas origens. O texto faz uso de uma metáfora biológica – o parasitismo – para descrever a relação entre os Milicos do Senhor e os dois grandes partidos. Os M do S seriam parasitas de PT e PSDB, que por sua vez se acomodaram na posição de hospedeiros. O texto, então, propõe que PT e PSDB rompam a aliança com o conservadorismo em respeito aos seus eleitores.

À parte uma nivelação um tanto quanto rasteira entre PT e PSDB, como se ambos fossem entidades simetricamente opostas (deslize que me parece completamente perdoável em um texto que não se propõe a tratar extensamente da história dos dois partidos), concordei com tudo após uma primeira leitura. Afinal, como não concordar? Tudo parece muito razoável e sensato. Qual eleitor do PT não preferiria que seu partido parasse de se engraçar com felicianos? Qual eleitor do PSDB não preferiria ver seu partido livre de coronéis telhada? Assim, teríamos um mundo ideal: haveria dois partidos razoáveis nos quais votar – um mais à esquerda, outro mais à direita –, livres dos malucos antigay e pró-ditadura. A eleição não seria motivo de angústia para ninguém.

O texto é mesmo um chamado à razão. Ele conclama os partidos, nobres (ou, no mínimo, não-podres) em suas origens, a parar de bater palma para urso ultradireitista dançar. “Podemos todos pôr a mão na consciência e separar o joio do trigo, por favor?” É isso o que o texto propõe, ao recomendar que PT e PSDB rejeitem os ultraconservadores.

Faz todo sentido, claro. É tudo muito racional.

Sabe o que mais é racional?

Legalizar as drogas e o aborto, por exemplo.

Se a política fosse baseada na racionalidade e no bem geral dos cidadãos, o comércio de drogas e a realização do aborto já teriam sido legalizados faz tempo, poupando milhares de vidas.

Para o bem e para o mal, a racionalidade não dá conta da política.

***

É claro que teríamos um ambiente político muito melhor se PT e PSDB fossem partidos políticos livres de energúmenos antigay e pró-ditadura. Infelizmente, não vai acontecer. Nem o PT deixará de fazer concessões à bancada evangélica, nem o PSDB expulsará o deputado da cura gay. E por quê? Porque PT e PSDB não são organismos parasitados que simplesmente se acomodaram aos parasitas e são coniventes com eles, sem dispor da energia necessária para expulsá-los. O parasitismo não é a metáfora mais adequada neste caso. Para continuar no campo da biologia, teremos de recorrer à metáfora do mutualismo, relação em que as duas espécies se beneficiam mutuamente.

A relação entre PT e PSDB de um lado e Milicos do Senhor de outro só se mantém e se sustenta porque é extremamente vantajosa para ambas as partes (embora, claro, não seja vantajosa nem para mim nem para você, que gostaríamos de votar em algum partido que preste). O PT não vai parar de se engraçar com felicianos porque essa aliança lhe traz benefícios – e da mesma forma o PSDB com seus telhadas. Naturalmente, a aliança com esses partidos também traz amplas vantagens para os ultradireitistas. Em suma, todo mundo ganha: só quem perde é o Brasil.

Essa doce fantasia de separar o joio do trigo é apenas isso: uma fantasia que não encontra estofo na realidade. É fácil apontar os abusos e absurdos de figuras caricatas como Feliciano, Telhada ou Paulo Maluf. É mais difícil reconhecer que os interesses de PT e PSDB convergem com os dessas figuras em inúmeros aspectos. PT e PSDB são hoje partidos conservadores, de direita. É claro que muita gente (a começar pelo Coronel Telhada) vai discordar que o PT seja um partido de direita. A essas pessoas que discordam (e que não são o Coronel Telhada), eu pergunto: se convocar o Exército para conter manifestações populares e defender uma bizarra lei antiterrorismo não são ações políticas de direita, o que exatamente significaria “ser de direita”? Por favor, contem para mim, que eu tenho sincera curiosidade em descobrir o que mais um partido político precisa fazer para ser considerado de direita.

Ao dizer que o PT é hoje um partido de direita, não estou com isso querendo dizer que PT e PSDB é tudo igual, tudo a mesma coisa, tudo a mesma porcaria, PT = PSDB = Hitler = Stálin, etc. Como diz uma amiga minha, tentemos maneirar na burrice. A realidade, já dizia Paulo Mendes Campos, é louca e convém não desprezar jamais sua complexidade. Acho que, hoje em dia, ninguém sabe mais do que o paulistano o quanto é falacioso o discurso do “é tudo a mesma coisa”. Votar no PT, na cidade de São Paulo, fez sim toda a diferença do mundo.

O que não dá – o que é ingênuo demais – é achar que PT e PSDB irão simplesmente botar a mão na consciência e expulsar seus respectivos Milicos do Senhor apenas porque seria a coisa mais razoável a se fazer.

A razão não dá conta da política.

Para sair da metáfora biológica e retomar a metáfora futebolística – sim, todos adoraríamos desfrutar do belo espetáculo de um Fla x Flu. Infelizmente, não vai rolar. O que vai rolar – porque já vem rolando há muito tempo – é um Madureira x Olaria.

Esperar um Fla x Flu é o puro creme da ingenuidade.

Minha academia poderia ser um lugar tão legal

Minha academia é como aquele moço que teria tudo para ser lindo, mas é indisfarçavelmente estrábico. Ou como aquela moça que teria tudo para ser de esquerda, mas insiste em ler o Paulo Henrique Amorim.

Assim é minha academia: teria tudo para ser um lugar sumamente agradável.

Ela está localizada em um bairro delicioso, arborizado, com a temperatura sempre um ou dois graus abaixo do que no bairro onde moro.

Como se esse frescor natural não bastasse, recentemente eles instalaram um ar-condicionado que transformou o ambiente praticamente na seção de congelados do Pão de Açúcar.

Existem cadeiras confortáveis lá, junto a mesas que parecem convidar a um lanchinho.

E por falar em lanchinho, às vezes eles dão bananas na saída.

(A propósito, não entendo por que é que apenas as academias tiveram a maravilhosa ideia de distribuir bananas na saída. Por mim, todo e qualquer estabelecimento deveria adotar essa prática. Biblioteca, pet shop, posto de gasolina – o cliente está indo embora? “Volte sempre, tome aqui uma banana.” Satisfação garantida a custo – literalmente – de banana.)

Há bebedouros com um suprimento infinito de água refrigerada.

O três-gê da Vivo pega bem.

E, de minha parte, sempre levo lindos disquinhos no aipode e ótimos livrinhos no quíndou quando vou lá.

Como se vê, um lugar que teria tudo para ser magnífico.

Minha academia tem um único defeito:

Os aparelhos de musculação e de ginástica.

Não fosse por eles, eu iria lá todos os dias.

Sobre o iRolezinho ou Leave the mequefegues alone

Sim, não vou negar: eu também senti vergonha alheia ao ver gente tão emocionada por conta de um telefone [mentalize uma galera empolgadaça entrando aos pulos e berros na loja da Apple no Brasil]. Eu também achei patético, coxinha, tudo isso aí que vocês acham.

E é justamente por isso que tenho de fazer uma pergunta meio chata, para mim mesma e para vocês que, como eu, se definem como ~de esquerda~:

Por que é que o pessoal dos rolezinhos – gente que pira num boné, nuns óculos escuros, numa camiseta de marca – são uns lindos, uns fofos, uns queridos – e os macfags que invadem a loja da Apple são um bando de babacas?

Vamos nos decidir. Todos eles atribuem um valor extraordinário a determinados objetos. Se esse for o nosso critério para julgar as pessoas, teremos de concluir que ou bem são todos uns lindos ou bem são todos uns babacas.

Ou, talvez, a gente possa concluir que nenhum deles se enquadra em um julgamento tão rápido, rasteiro e maniqueísta.

Tenho impressão de que faríamos bem se parássemos de julgar com tanto desprezo a afeição que outras pessoas nutrem por coisas que não são as mesmas de que a gente gosta. O mundo é este e nos definimos pelo consumo sim – não é porque você prefere livros da Cosac Naify ou maçãs orgânicas que você é menos consumista ou ~ligado nas coisas materiais~ do que o mano que curte o boné da Adidas ou o coxinha que baba no iPhone. Não estou dizendo que somos apenas o que consumimos, mas sim que somos também o que consumimos. A expressão “Sociedade de Consumo” não foi cunhada por acaso.

A diferença entre o cara do rolezinho e o cara do iRolezinho não está nem nos objetos que eles apreciam (óbvio) nem (o que é muito menos óbvio) em alguma diferença de caráter intrínseca ao fato de um ser pobre e o outro ser rico.

A diferença é que no rolezinho teve choro, teve ranger de dentes e sobretudo teve polícia.

No iRolezinho, teve apenas O Globo registrando a empolgação daquela gente bronzeada que foi mostrar o valor que o ser humano é capaz de dar a um  telefone.

Ouso dizer que essa diferença de tratamento é que deveria ser o foco do nosso espanto e da nossa revolta – e não o fato de que algumas pessoas se empolgam demais com determinados objetos.

Senão – se considerarmos os macfags uns rematados babacas – seremos obrigados a considerar os rolezistas pelo menos um pouquinho babacas também (afinal, eles também gostam de produtos de grife).

Então, em vez de:

– considerar todo mundo babaca porque todo mundo está a fim de comprar os produtos da grife X ou Y (caindo naquela velha cilada egocêntrica de achar que *eu* sou melhor que todos eles, afinal meu negócio é rolezinho na biblioteca);

– dividir o mundo em macfagas babacas e rolezistas fofos (caindo naquele velho preconceito da esquerda uspiana – e eu posso dizer porque, querendo ou não, eu faço parte desta esquerda uspiana – de achar que todo pobre, por ser pobre, é um amor de pessoa);

estou me forçando a lembrar que todo mundo está apenas tentando sobreviver como pode na tal Sociedade de Consumo – com a diferença de que, nesta luta pela sobrevivência, uns são recebidos pelos flashes dos fotógrafos enquanto outros são recebidos pelos cassetetes da polícia.

É essa diferença de tratamento que importa, afinal.

Não sei se o mundo seria um lugar melhor se subitamente os coxinhas parassem de dar importância aos produtos Apple – mas tenho certeza de que o mundo seria um lugar infinitamente melhor se os pobres pudessem simplesmente consumir em paz.

(…and let the unfollows begin…)

A educação para o luxo

“É necessário educar o brasileiro para o consumo de luxo”

Li esta frase e precisei citar sem contextualizar, sem dar a fonte e sem dar satisfação – é feio, eu sei, mas é que li esta frase:

“É necessário educar o brasileiro para o consumo de luxo”

e fiquei pensando sobre o brasileiro, este forte, que ora amarra ao poste ora é amarrado,

“É necessário educar o brasileiro para o consumo de luxo”

pensei, enfim, que de todas as coisas que se diz serem necessárias fazer com ou para o brasileiro

“É necessário educar o brasileiro para o consumo de luxo”

necessário dar-lhe dinheiro, dar-lhe peixes, ensiná-lo a pescar, ensiná-lo a votar

“É necessário educar o brasileiro para o consumo de luxo”

ensinar o brasileiro a consumir o luxo

“É necessário educar o brasileiro para o consumo de luxo”

ou ensinar o brasileiro a consumir luxuosamente (é possível consumir pão com mortadela exalando chiquê?)

“É necessário educar o brasileiro para o consumo de luxo”

a educação para o luxo é das propostas pedagógicas mais relevantes para se compreender o Brasil

“É necessário educar o brasileiro para o consumo de luxo”

porque depois do luxo consumido não precisaremos de nada

quem precisa de ar e água e pão com mortadela quando se pode

consumir o luxo

consumir com luxo

educar para o consumo

educar para o luxo

necessário o luxo

necessário o consumo

necessário o brasileiro?

Fazendo a Jolie

Tem um filme do Clint Eastwood que é bem fraquinho – Angelina Jolie, a atriz principal, é canastrona até dizer chega – mas cuja premissa é sensacional (até porque é um filme ~baseado em fatos reais~ e querendo ou não isso deixa a gente óóóóó): o filho de 8 anos de Jolie um belo dia não volta para casa e ela presta queixa na polícia de seu desaparecimento. Até aí, tudo péssimo. Seis meses depois, viva!, acharam o menino. Só que, bem, o menino que acharam não é o filho dela e é aí que tudo começa a ficar interessante, porque a polícia responde: é o seu filho SIM. E explica que, em seis meses, as crianças crescem e se desenvolvem sobremaneira – e, além disso, Jolie estava bastante estressada e deprimida e alucinada e era natural que não conseguisse reconhecer o próprio filho.

A história toda se desenvolve a partir dessa negativa da polícia em admitir o relato da mãe (e de todos os que conheciam a criança) como verdadeiro.

E, bem, como eu tive pesadelos esta noite e não faço análise, vim escrever no blog. Este não é um post, este é um e-mail, mas como não quis sobrecarregar a caixa de entrada de ninguém com esse assunto tão insuportável, resolvi botar no blog para apenas aqueles que quisessem ver (aliás, o que é um blog se não um conjunto de e-mails que você não teve para quem enviar?).

O que mais me incomoda, sabe, não é nem o fato de um dia mostrarem para a nação que o assassino do cinegrafista é um homem branco e meio fortinho – e, dois dias depois, apresentarem um homem negro e magrelo em seu lugar.
 
Eu decididamente não confio nos meus sentidos (beijo, Descartes) e não acho impossível que o homem branco e o homem negro sejam a mesma pessoa.
 
Eu só acho que – podiam explicar, né?
 
Podiam dizer, veja bem, minha senhora, é que a luz da TV deixa todo mundo branco e além disso, como todo mundo sabe, a TV engorda as pessoas.
 
Ah, então tá.
 
Mas não. A ideia é acreditar que o moço branco e fortinho virou negro e magro – por motivos de que a polícia e o Jornal Nacional disseram que é assim, com base no testemunho de uma pessoa.
 
Como vocês sabem, eu vivo na internet e não sei o que acontece no mundo lá fora. Será que vocês podiam me dar notícias do mundo lá fora, por favor? O que dizem as pessoas? As pessoas acham normal que duas pessoas tão diferentes sejam apresentadas como sendo a mesma – desde que tenhamos certeza de que os dois (quer dizer, o um) é o assassino e que, agora que ele está preso, está tudo bem? Ou mais alguém está achando estranho?
 
Beijos, gente, vou fazer o almoço que continuar este post não vai me levar a lugar algum. Talvez ao hospício, como aconteceu com Jolie no filme.

Não usemos o nome de Bill Evans em vão

No Brasil, somos especialistas insuperáveis em negar nosso próprio racismo endêmico. Basta dizer que, outro dia, tuitei a frase, extraída de uma entrevista com um especialista em linchamentos, “se um branco e um negro cometem o mesmo crime, a probabilidade de o negro ser linchado é maior”. Foram necessários poucos segundos para eu receber como resposta o argumento “ah mas os negros são linchadores também”. (Alguém disse que não eram?) Aponte qualquer evidência de racismo que necessariamente surgirá alguém para tentar minimizar o que você disse, sugerindo que não é bem assim e que o “problema principal” é de ordem socio-econômica. Não existem exceções a esta regra.

Nos Estados Unidos, ainda que em grau menor do que aqui, o racismo e o negacionismo também estão alive & kicking. No jazz, especificamente, o negacionismo frequentemente usa como argumento a mera existência de um músico que, por acaso, me é extremamente caro – Bill Evans.

Bill Evans é um dos músicos mais importantes da história do jazz. Como este não é um post sobre música, vou me limitar a mencionar uma das várias maneiras pelas quais Bill Evans mudou o jazz para sempre. Juntamente com o baixista Scott LaFaro e o baterista Paul Motian, Bill Evans simplesmente inventou um jeito novo de se tocar no formato piano-baixo-bateria. Antes dele, baixo e bateria tocavam sempre casadinhos, e sempre com a função de marcar o tempo da música. Bill Evans (e incluo seus parceiros aqui, porque no jazz, talvez mais do que em qualquer outro tipo de música, a criação é sempre coletiva) inventou que não precisava ser assim: ele libertou o baixo de seu papel de condutor do ritmo, tu-tum, tu-tum, convidando-o a voos melódicos mais livres junto do piano. O resultado – uma conversa entre piano e baixo erigida sobre um fundo em que predominam os belíssimos pratos conduzidos por Paul Motian – pode ser ouvido aqui.

Ah – Bill Evans era branco.

Por causa disso, sempre que começa uma conversa sobre as origens negras do jazz; sobre o pressuposto óbvio e básico de que o jazz é uma música que nasceu entre os negros e que é parte fundamental da cultura negra norte-america; e que os negros que criaram o jazz foram vítimas de violências às quais os brancos estavam imunes – do tipo: ter que entrar pela porta dos fundos dos bares onde tocavam; receber uma porcentagem ínfima do que músicos brancos, quase sempre piores do que eles, recebiam para tocar (isto quando chegavam a ser contratados); etc. – sempre, sempre que começa esta conversa, um branco há de surgir para lembrar triunfalmente:

“Ah, mas teve o Bill Evans!”

Como se a mera existência de Bill Evans invalidasse ou de alguma forma pusesse em questão a história e a constituição negras do jazz.

É verdade que Bill Evans existiu e foi importante. É verdade que o jazz é uma forma cultural negra. Essas duas verdades  não se anulam e nem teriam por que se anular.

A música de Bill Evans permaneceu e permanecerá. É triste que seu nome seja invocado em tentativas de minimizar tanto a agência criativa dos negros fundadores do jazz quanto a opressão inegável à qual estes músicos foram submetidos.

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Este parece ser um post sobre racismo, jazz e Bill Evans. Mas é também um post sobre a morte do cinegrafista e o uso que já começa a ser feito dela.