Vovô-cama

Ontem meus primos e eu nos encontramos para jogar as cinzas do nosso avô no mar.

Não eram cinzas, na verdade. Eram uns pedregulhinhos de variados tons de cinza. Decidi que as pedrinhas-cinza-claro eram a parte do meu avô que a gente podia ver, e as pedrinhas-cinza-escuro eram tudo o que ia por dentro, órgãos, ossos, nervos, tudo o que fica por debaixo da pele. Como é bom ser de humanas.

A ideia era sair de lancha e jogar as cinzas-pedrinhas em alto mar.

Levamos para a lancha o potinho contendo um saquinho com aquilo que chamamos erroneamente de “as cinzas do vovô”. Aquelas cinzas nunca foram “do vovô”. Ele nunca as teve. As cinzas eram… Ele. Ao mesmo tempo que, claro, não eram. Restos do vovô? Vovô sublimado?

Mas a vida prática tem seu jeito maravilhoso de atravessar qualquer reflexão semântico-filosófica com suas questões tão bestas, tão essenciais. Como se joga as cinzas de alguém no mar? Jogaríamos as cinzas com potinho e tudo? Sem potinho, dentro do saquinho plástico? Só as cinzas e nada de saquinho ou potinho?

Um dos primos fez a excelente observação segundo a qual se nosso avô pediu para ser cremado e não enterrado, é que ele não queria ficar confinado em um espaço diminuto, portanto melhor seria tirá-lo do potinho, ainda que o crematório tivesse tido o cuidado de nos entregar as cinzas (… as cinzas? o vovô? as cinzas do vovô?… As reflexões semântico-filosóficas têm um jeito maravilhoso de se imiscuírem nas questões práticas mais bestas e essenciais) em um potinho biodegradável.

Foram meus primos que tiveram a ideia de jogar … … … no lugar onde meu avô gostava de pescar. Eu não fiz nada, não pensei em nada, só fui na onda deles.

Que onda.

Primeiro era só um compromisso na agenda. Acordar cedo, pegar estrada, lembrar de passar protetor solar.

Até que os primos todos se reúnem (a última vez foi quando? há uns cinco natais?), os primos todos entram no bote, levam um caldo, sobem na lancha, um dos primos dirige a lancha (atividade para mim tão inconcebível quanto tocar tuba ou fazer suspiro), e de repente não é mais um compromisso na agenda: de repente aquilo é um acontecimento.

Chegamos no lugar onde meu avô levava meus primos para pescar. Eu nunca ia. Ficava em casa lendo e fazendo palavras-cruzadas com a minha avó.

Cada um falou “umas palavras”.

Um primo disse que achava que a paixão dele pelo mar tinha vindo do vovô.

Comecei a chorar ali e acho que não parei até agora, apesar de que meu rosto está sequinho, sequinho.

Me senti bastante idiota dizendo a um pacotinho de pedregulhos: “obrigada por ter ido me buscar na escola”. Mas não era qualquer pacotinho de pedregulhos, não era qualquer dia e, principalmente, eu teria me sentido duas vezes mais idiota se não tivesse dito nada.

Passei bem mal. Enjoei loucamente. Pensei demais no Robinson Crusoe e no Gulliver, livros que li tão recentemente. Pensei na minha mãe, que não está no mar.

E pensei que não faz sentido nenhum dizer que alguém “partiu”. “Se foi”. “Deixou de existir.” Nada deixa de existir. Ninguém vai embora. A NASA ainda não inventou um método de jogar os restos mortais das pessoas no espaço sideral. Os mortos continuam aqui mesmo, neste mundo. Eles apenas não são mais o que um dia foram.

Meu avô nunca mais será meu avô, mas ele está lá, em Ubatuba. Cama para os peixes, ele virou.

All in the game

Dez, quinze anos atrás… Tanta gente com quem eu convivia e que hoje só vejo nas redes sociais, de relance, pipocando na minha TL. Há dez, quinze anos, essas pessoas e eu conversávamos basicamente sobre psicologia (especialmente psicanálise), música (especialmente jazz) e, sei lá, relacionamentos. (Alguns anos depois, séries de TV.) Mas eu nunca soube a opinião delas sobre nenhuma proposta de emenda à Constituição. E elas jamais souberam meu posicionamento sobre o voto distrital. Anos de convivência e relacionamento, e nada disso foi discutido. Claro que houve os anos neoliberais fora-FHC-FMI e privatizações e greves na universidade; mas essas coisas todas eram apenas mais uma área da vida, e não A Grande Área Geradora de Ansiedades de agora. Parece que, tempos atrás, certas coisas ainda não eram normais. Vivíamos sem a ameaça de ouvir que os vagabundos do bolsa família têm mais é que se fuder – “opinião” que hoje, em alguns círculos sociais (e não estou me referindo apenas a gente rica), virou mainstream. Não se trata de ficar ficar de frescurinha porque alguém disse algo politicamente incorreto e minha sensibilidade privilegiada não dá conta de ouvir altas barbaridades. Trata-se de constatar que foi elevado à categoria de opinião algo que é apenas ódio. E quando ódio vira opinião, e botamos a mãozinha no queixo e debatemos ponderadamente sobre o que fazer, afinal, com os vagabundos do BF – acabou. Já passou boi e boiada e vai passar a PEC.

Então é com espanto que vejo que eu e a maioria daqueles amigos mais próximos com quem perdi contato estamos basicamente no mesmo campo político. É curioso, porque jamais conversamos sobre isso naquela época. Mas cá estamos, dez ou quinze anos depois, a favor da saúde pública e universal, do direito à livre manifestação, do Estado laico e contra a violência policial. E por que não falávamos sobre nada disso? Porque éramos uns alienados e subitamente acordamos para a política? Acho que não. Acho apenas que tudo parecia óbvio. Para que perder tempo falando que, por exemplo, “a polícia não deve jogar bombas em manifestantes”? Que tipo de pessoa não concorda com isso?

Aparentemente, o tipo de pessoa que não mora na bolha. E de repente nada mais é óbvio. Então ficamos assim, tateando – tentando encontrar algum terreno comum. E falando sobre política – sobre aquilo que nunca foi óbvio – nas redes sociais.

***

Tomemos a figura do tiozão reaça do almoço de família. Onde estava esse tiozão há dez, quinze anos? A ansiedade com o iminente almoço de família é um fenômeno relativamente recente. O tiozão reaça costumava ser apenas o tiozão do pavê. E agora ele não é muito diferente do Presidente da República.

Parece que esse modus operandi chegou aos Estados Unidos. Tenho visto uma profusão de artigos sobre “como lidar com seu parente eleitor do Trump no almoço de Thanksgiving“. Brasil, exportador de laranja, soja e política do fim do mundo.

Stephen Colbert falou sobre isso lindamente no monólogo pós-eleição – sobre essa sensação de que, antes (quando, exatamente?), não nos preocupávamos com (ocupávamos de) política tanto assim.

E agora isso. Tornou-se normal e aceitável a nomeação de um supremacista branco para um cargo de confiança da presidência dos Estados Unidos. Parecia inconcebível mas it’s all in the game. Nada deve parecer impossível de piorar.

Quando o que parecia óbvio não é mais óbvio e o que parecia inaceitável torna-se o pão nosso de cada dia, é sinal de que ainda passaremos muito e muito tempo conversando sobre aquelas coisas das quais não falávamos dez ou quinze anos atrás.

Sálvia

Se eu tivesse de deixar um e apenas um conseho, recomendação, pílula de sabedoria para a posteridade, seria o seguinte:

PLANTE SÁLVIA

Não importa onde você mora: um vasinho de sálvia bem pequenininho cabe no batente de qualquer janela. O meu eu ganhei da minha sogra, e não durou nem duas semanas: RIP sálvia. Então minha sogra me deu outro vasinho, eu não fiz absolutamente nada de diferente com ele – botei no mesmo lugar e reguei a cada 2/3 dias – e desta vez a sálvia vingou. (Talvez um conselho melhor ainda fosse “tenha uma sogra que te dê plantinhas de presente”, mas vamos focar na sálvia por hoje.)

Plante sálvia, tenha sempre uma sálvia por perto. Porque um dia, o seu avô vai morrer. E você estará sozinha em casa, à noite, e a sopa de mandioquinha que você fez para o almoço não deu muito certo, e você estará pensando no seu avô, na sua avó, que não morreu, e na PEC 241, que também está vivinha da silva, e então você irá à varanda e colherá uma, duas, três, oito folhinhas de sálvia. Você colocará macarrão para ferver, fritará uns cubinhos de bacon, jogará uma manteiguinha por cima, desligará o fogo, lançará na frigideira as oito folhas de sálvia, escorrerá o macarrão, acrescentá-lo-á (leave the mesóclise alone, pls) à misturinha de bacon, manteiga e sálvia, jogará muito parmesão ralado por cima de tudo, e comerá sentindo um quentinho na barriga e um abracinho no peito.

Tudo culpa da sálvia, que perfuma a manteiga e mostra que o seu avô tinha mesmo razão,  viver é bom e macarrão nunca é demais.

O.

Everyone sometime has somebody close die,

between to be or not to be

he’s forced to choose the latter.

 

We can’t admit that it’s a mundane fact,

subsumed in the course of events,

in accordance with procedure:

(Wislawa Szymborska)

 

Meu avô, um touro, o homem mais forte que conheci, que fez musculação até quase os oitenta anos. Meu avô, que de manhã preparava um lanche de pão com manteiga, queijo, requeijão, salame, geleia e depois chuchava tudo no café com leite.

Meu avô, mecânico especialista em câmbio hidramático, dos poucos que havia em São Paulo nos anos 1950.

Meu avô que ouvia Nelson Gonçalves, Ray Conniff e uns discos de flauta paraguaia desses que vendem na Praça da Sé, e que um dia ganhou de mim uma fita cassete cheia de Frank Sinatra e Ella Fitzgerald, e gostou.

Ele me buscava na escola, às vezes. Quando casei, ele disse ao meu marido: “você é gente fina!”, e ele nem sabia nada sobre o meu marido, e mesmo assim ele acertou.

Meu avô que queria jogar uma bomba no Congresso. Que gostava da praia, mas mais ainda da cidade e do concreto; que admirava Niemeyer a ponto de ir a Brasília para a inauguração.

Meu avô eleitor fiel do Maluf, que me explicou por que o Lula perdeu um dedo no torno: “você já viu um torno?” “não, vô” “pois se tivesse visto saberia que o Lula perdeu o dedo de propósito só para nunca mais precisar trabalhar, porque não é possível alguém perder um dedo no torno, tem que ser muito imbecil”.

Ele era o rei das frutas, a fruteira da casa de meus avós sempre transbordou de cheiros e cores e eu tinha certeza de que a fruta preferida dele era abacaxi, mas naquela que eu considero que foi a nossa despedida, ocorreu-me perguntar de qual fruta ele mais gostava, e ele pensou muito sério (fora uma pergunta séria, de fato) e respondeu que a fruta que ele realmente não poderia viver sem era mamão, sem o mamão matinal ele não era ninguém.

Uma vez fomos a um show da Gal Costa e sentamos na primeira fileira. Ela cantou Folhetim olhando nos olhos dele. Nunca vi meu avô sorrir com tantos dentes quanto naquela noite.

Meu avô, que pescava em alto mar. Que torcia pelo Palmeiras. Que fundou uma fábrica com os filhos. E que trabalhava, todos os dias, no chão da fábrica, enrolando fio, fazendo o que precisasse.

Meu avô que me ensinou que eu nunca aprendo que as pessoas morrem.

Diarinho da Tese

A tese foi pensada e escrita ao longo de quatro anos. Mas a reta final – os últimos quatro meses – não foram deste mundo. Foram quatro meses de

STOP

a vida parou

ou foi a tese?

***

Eu simplesmente fui parando. Parei com a internet. Parei com o impijman. Parei de ir à academia. Parei de cozinhar. Parei de lavar a louça. Parei de sair de casa. Joguei tudo para o alto e segui em frente, meu marido e minha avó atrás de mim fazendo malabarismos para que nada se espatifasse no chão.

Nos últimos dois meses eu olhava para a caixinha de 300 cotonetes. Usamos 4 cotonetes por dia, 300 por 4 dá 75 dias. Tenho dois meses para entregar a tese. Eu tenho que entregar a tese antes que os cotonetes acabem. Quando a caixinha estiver vazia, terei terminado a tese. Terei terminado a tese?

***

Eu tinha uma pilha de livros ordenada. Eu não tenho mais uma pilha de livros ordenada. Eles ficam espalhados pelo chão. Às vezes empurro a cadeira com rodinhas para trás e atropelo algum pobre livro. É triste.

Estamos na cena de um crime: o sangue derramado forma duas linhas paralelas no asfalto.

Agenor chamou o livro On Sublimation que está no chão do quarto de Os Saltimbancos. Tá certo.

Ocorre que, à medida que Freud desenvolve o que vai acontecendo com esse organismo vivo ou aparelho psíquico primitivo, a imbricação mútua entre interno e externo começa a aparecer, e o pressuposto do qual partiu desmorona.

Neste momento não estou trabalhando para terminar a tese, para aprender alguma coisa, para ser doutora, nada disso. Estou trabalhando para terminar a parte 2 da tese na sexta-feira e sair para comer um hambúrguer. E, se eu quiser, bolo de chocolate também. Claro que quererei.

A transação entre a cidade de Baltimore e Fatface Rick mostra a relação promíscua entre o tráfico de drogas e políticos locais, com a qual entramos em contato já na primeira temporada: em troca de doações eleitorais, os traficantes conseguem lucrativos negócios no ramo imobiliário.

Hoje interrompi o trabalho para pagar as contas de telefone, gás e internet. A conta de gás veio bem mais barata, já que não tenho cozinhado. Faltou a conta do IPVA. Essa deixei para pagar daqui a uns dias, porque daqui a uns dias certamente precisarei de um motivo para interromper o trabalho e entrar no site do banco.

A realidade é algo com que se estabelece uma relação: guardemos essa ideia. Guardemos também uma intuição: a de que o “mundo externo real” é uma instância simultantemente constituída pelo aparelho psíquico (afinal, o “mundo externo real” entendido como instância separada de Id, Eu e Super-eu é uma conquista do desenvolvimento psíquico) e constitutiva do aparelho psíquico (tanto quanto Id, Eu e Super-eu – afinal, o aparelho psíquico se desenvolve por meio de sua relação com o “mundo externo real” entendido como algo previamente existente ao surgimento do aparelho).

Estou fingindo que a revisora não me mandou e-mail e que preciso mandar tudo prontinho para ela antes do final do mês.

A “conquista de terreno” do princípio de realidade sobre o princípio de prazer é análoga à civilização que vai conquistando a natureza, cuidando para deixar uma parte dela intocada – o Yellowstone Park. Nessa nota de rodapé, Freud estabelece uma ponte entre aparelho psíquico individual e cultura. Com o estabelecimento do princípio de realidade sobre o princípio de prazer, a humanidade domina progressivamente a natureza, alterando-a de modo a satisfazer nela suas necessidades materiais: a agricultura provê alimentos para um número cada vez maior de pessoas, o desvio do curso dos rios e a construção de reservatórios provê água para regiões onde ela era escassa, e assim por diante.

Meu orientador virou meu contato número 1 no Gmail.

A dominação da natureza significa que a humanidade a toma não como imanência e sim como recurso: ela passa a servir aos propósitos que a humanidade determina. Em This Changes Everything (2014), Naomi Klein propõe que Francis Bacon pode ser considerado o “patrono” da dominação da natureza, à qual o filósofo se refere da seguinte forma: “Pois há que tão somente seguir e, por assim dizer, perseguir a natureza em seus desvios e será possível, no momento em que se queira, domá-la e depois reconduzi-la ao mesmo lugar.”

Estou trabalhando até as três, aí durmo até as oito, acordo, trabalho mais duas horas, durmo até o meio-dia, vou almoçar na casa da minha avó, volto para casa, continuo trabalhando e parando para tomar café e jogar o joguinho da corujinha.

Esse país outro que The Wire apresenta é produto do que Simon (Talbot, 2007) chama de “unencumbered capitalism”, isto é, “capitalismo desregulado”, não sujeito à regulação do Estado. O capitalismo – ou, mais precisamente, as instituições em um mundo sob a égide do capitalismo – é justamente o que “move as peças” do jogo (cf. p. 33 e segs.) apresentado por The Wire.

Mas parei de jogar paciência, sabe-se lá por quê.

A nota de rodapé em que Freud menciona o Yellowstone Park relaciona implicitamente os dois princípios de funcionamento do aparelho psíquico a um destino pulsional que talvez possamos chamar de sublimação. Quando fala em exploração dos recursos do solo que leva à riqueza de uma nação, está se referindo à constituição da cultura ou civilização; do progresso tecnológico e científico descrito em “Moral sexual ‘civilizada’” (Freud, 1908/1996), que só pôde ser atingido graças à supressão pulsional.

A tese por enquanto está assim: tem um prólogo. Uma primeira parte cujo esqueleto está prontinho. Uma segunda parte cujo esqueleto está prontinho e está sendo devidamente preenchida com músculos, sangue, gordurinhas. Uma terceira parte igualmente esquelética. E um epílogo que só existe na minha imaginação.

Sustento uma interpretação mais ampla da de Simon para o jogo. Como vimos, para ele o jogo nada mais é que o próprio capitalismo. Mas a obra ultrapassa a interpretação de seu autor: além de mostrar os efeitos do capitalismo, The Wire mostra o legado da segregação racial nos Estados Unidos e da escravidão, já que os efeitos do capitalismo sobre negros e brancos mostrado pela série é bastante diferente. No caso da população negra, essas consequências vêm se somar a uma forma de opressão preexistente.

Minhas unhas não existem.

A mensagem de Hamsterdam é clara: o capitalismo é bom e viável desde que regulado, moderado em suas intenções. Esse raciocínio é análogo ao de Freud ao tratar das pulsões sexuais e da necessidade de sua contenção, no âmbito do primeiro dualismo pulsional. O pressuposto nos dois casos (sistema econômico e sistema psíquico) é o mesmo: assim como a pulsão sexual, o capitalismo, se deixado livre para atingir seus fins, torna-se destrutivo e contrário à civilização. São necessárias rédeas para a pulsão sexual e para o capitalismo: é necessário domar o desejo de satisfação sexual imediata e o desejo de lucros ilimitados. Só assim, segundo Freud e também segundo Simon, se constrói a civilização.

O mais difícil é chegar a um formato adequado. As temporadas da série, as temporadas de Freud.

E, no entanto, sustentarei ao longo deste capítulo que The Wire não se limita a defender o argumento da necessidade de que o Estado regule o capitalismo – argumento este que casa tão bem com a primeira dualidade pulsional freudiana.

No fim de semana trabalhei enquanto Agenor via Star Wars na sala. É bom trabalhar com barulho de lutinha de fundo.

Defendo também que The Wire mostra mais do que isso: a série aponta que, além de satisfazer as pulsões sexuais humanas, o capitalismo também satisfaz pulsões de morte. Enquanto Simon interpreta o capitalismo no âmbito da primeira dualidade pulsional, sua obra vai além e oferece uma leitura do capitalismo condizente com a segunda dualidade pulsional freudiana.

Considerando-se que nesses últimos quatro anos Agenor assistiu às obras completas de David Simon comigo (The Wire do começo ao fim duas vezes, mais alguns episódios avulsos; Tremè; Generation Kill; Show Me a Hero; só faltou Homicide e The Corner, que vi sozinha), acho justo que ele escolha todos os filmes e séries pelos próximos quatro anos.

The Wire mostra, assim, o desenvolvimento do capitalismo através dos sucessivos líderes do tráfico de drogas. É importante ressaltar que se trata de um aperfeiçoamento do capitalismo, certamente não de sua crise. E esse desenvolvimento, para The Wire, tem um sentido bastante claro: é a história da progressiva desvalorização da vida humana.

Dei uma olhada no ombro do Agenor. Fui abraçá-lo e tenho o costume de me jogar em cima dele quando o abraço. Mas desta vez calculei mal e bati com o olho no ombro dele. Doeu. Dei uma olhada no ombro do Agenor.

A dominação de The Wire é aquela de que fala Bacon em relação à natureza (cf. p. 108), mas aplicada a corpos humanos: o outro (seja a terra, os rios, o petróleo – ou os corpos humanos, que não deixam de ser parte da natureza) é tratado como recurso a ser explorado.

O disco novo de piano solo do Fred Hersch é lindo.

Pulsão de morte em ação: a sublimação a partir de The Wire

Um país de tias noveleiras desamparadas

Um das melhores lembranças que tenho das férias na praia é a das minhas tias acompanhando a novela. O ritual que se cumpria às nove horas da noite – todas as tias reunidas na sala e alheias à movimentação dos filhos na varanda; todas aquelas paixões, tão incompreensíveis para mim, das pessoas na televisão; a televisão em si, que magicamente não exibia propagandas no intervalo – me era novo e fascinante.

A novela passava, e as tias comentavam – não os fatos da trama, mas a aparência das atrizes. Roupas, esmaltes e maquiagens eram escrutinados milimetricamente. Enquanto a heroína da novela padecia de dúvidas entre o mocinho bonitão e de bom coração, porém simplório, e o homão feioso e meio cafajeste, porém sedutor, minhas tias analisavam, cena a cena, se os sapatos da atriz estavam de acordo com a bolsa e se seus cabelos estavam corretamente penteados.

Engana-se quem pensa que minhas tias faziam uma leitura superficial da novela e ignoravam a trama. Pelo contrário – se fossem perguntadas, saberiam dizer exatamente se Maria Roberta estava mais inclinada a escolher Claudinho ou Jorjão. Ocorre que, ao mesmo tempo, elas eram perfeitamente cientes do (e sensíveis ao) fato de que Maria Roberta era também uma atriz famosa em permanente disputa com outras atrizes famosas por seu quinhão de fama, beleza e poder no mercado das atrizes globais.

***

Corta para a nossa novelinha política de todos os dias no Brasil de hoje.

A trama principal é o impeachment. Não sabemos se o próximo governo virá daqui a um mês ou três anos; sabemos, porém, que o próximo governo é o único que importa; no atual, ninguém acredita mais. Acordos e conchavos contra ou a favor do impeachment e pesquisas de opinião sobre uma eleição que só virá (se o mundo ainda existir) daqui a três anos tornaram-se a principal matéria-prima da seção política dos jornais. Nenhuma discussão sobre políticas públicas é tão sexy quanto as apostas sobre quem vencerá nossa Guerra dos Tronos que parece cada vez mais perto de chegar no momento da Invasão Zumbi.

Além do impeachment, há duas tramas secundárias: o ajuste – de onde se pode ou se deve cortar (deste ou daquele ministério, deste ou daquele programa social) – e a corrupção. Tramas que equivalem a dois mandamentos negativos, portanto: não gastar mais do que se tem, não roubar. Nada que qualquer mãe suficientemente boa não ensine a seu filho cotidianamente. De resto, porém – cadê a parte positiva da novela? Quais são efetivamente as propostas para o país – seja do governo ou da oposição?

De repente, é como se Maria Roberta não estivesse mais em dúvida entre Claudinho ou Jorjão. É como se a atriz furasse a quarta parede, se dirigisse diretamente aos espectadores e discutisse as qualidades deste ou daquele sapato, deste ou daquele esmalte – admitindo para si mesma e para os espectadores que a vida amorosa de Maria Roberta é uma bobagem e que o que importa mesmo é ela, atriz, tornar-se rica e poderosa vendendo os esmaltes e sapatos que levam seu nome.

***

Não existe mais trama subjacente – um projeto de país – no debate político de hoje. Só sobrou a disputa pelo poder – não há nada além ou aquém disso. Em 31 de dezembro de 2014, estávamos vidrados na vida de Maria Roberta. Em 1 de janeiro de 2015, é como se a Globo, passando por sérios problemas orçamentários, tivesse convertido a novela em um grande infomercial – chega dessa palhaçada de vida sentimental, o negócio aqui é ver quem vai vender mais produtos para ser escalado no elenco da novela seguinte.

Esse mérito, pelo menos, nossa novelinha política atual tem: com todos os seus acordos e conchavos, ela nunca foi tão… Honesta. Permanecer no poder, reconquistar o poder: nunca esses dois objetivos foram tão transparentes como agora. Não existem propostas para o país subjacentes a quaisquer desses objetivos.

Maria Roberta, coitada, deve ficar sem sexo por um bom tempo.

Os melhores discos de 2015

16. Cecile McLorin Salvant – For One to Love. Essa moça é tão talentosa e tão capaz de imitar Sarah Vaughan perfeitamente que chega a dar agonia – às vezes ela ainda parece estar à procura de sua própria voz. Voz essa que ela certamente encontrou nas faixas 4-6 desse disco, sobre dor de amor/traição/medo de ser traído. É ouvir e se identificar na hora, e ter vontade de abraçar a moça, ou talvez uma versão mais jovem de você mesma.

 

15. Terence Blanchard – Breathless. Um disco sem unidade nenhuma, mas com momentos tão bonitos que valem a inclusão em qualquer lista de melhores do ano. Tem funks de New Orleans e temas que parecem trilhas de filme. E Breathless, a canção mais importante, um tributo a Eric Garner e Woody Guthrie ao mesmo tempo (“This land is my land”).

 

14. Björk – Vulnicura. Ninguém transforma angústia em música melhor que essa mulher. E olha que não faço ideia do que ela está falando. Meu foco ao ouvir esse disco, como todos os outros discos dela, é sempre nas sonoridades, texturas, batidas, timbres. Nos sons em que a voz de Björk é capaz de se transformar. Um disco para acabar com qualquer festa (discos que acabam com festas, melhores discos).

 

13. Julian Lage – World’s Fair. Violão de aço solo. Composições próprias. Teria tudo para ser, mas não é, um disco monótono. São tantas as variações de tempo e dinâmica que você cola o ouvido em cada música e não desgruda mais. É um disco (até por causa do instrumento) que soa mais folk e bluegrass do que jazz – mas, claro, o jazz é aquele elemento sem o qual nada ali teria sido possível.

 

12. Brad Mehldau – 10 Years Solo Live. Disco enorme, para se ouvir pelos próximos anos e eternamente descobrir coisas. Ouvi-lo é uma experiência reveladora – Brad Mehldau parece ser o compositor de todas as canções, seja um standard como Get Happy ou um rock moderninho como Bittersweet Symphony, e é um prazer viver por algumas horas nesse mundo assinado por ele.

 

11. José James – Yesterday I Had The Blues – The Music of Billie Holiday. Em geral sou contra tributos. Um tributo no centenário do nascimento de Billie Holiday, então – nossa, “mais caça-níquel impossível”, diria meu self cínico. E de repente me vi torcendo para José James caçar todos os níqueis possíveis com esse disco, porque ele realmente merece. Voz + piano trio. Eu gosto tanto do pianista, até quando ele erra (na primeira música) ele acerta. E o Strange Fruit a capella do final, caramba. Às vezes a coisa mais inovadora e revolucionária que se pode fazer com um standard dos anos 1930 é transformá-lo em algo ainda mais antigo – no caso, um spiritual.

 

10. Tigran Hamasyan – Mockroot. Tem sido uma alegria cada vez maior acompanhar o desenvolvimento da inclassificável obra do Tigran, que mistura jazz e música eletrônica com música armênia. Mockroot é uma ótima adição ao conjunto, mas meu preferido cotinua sendo Red Hail, de 2009.

 

9. Kendrick Lamar – To Pimp a Butterfly. Nunca houve um disco de hip-hop tão ao meu gosto. É para se ouvir com o site Genius Lyrics aberto ao lado para ir sacando as referências todas. Por exemplo, o “Alls my life I has to fight” que abre “Alright” é uma referência a “A Cor Púrpura”, que ainda não li. O conteúdo, em geral, é um pouco careta – a poética de Lamar é totalmente cristã, temos o Bem contra o Mal o tempo todo (um dos personagens principais do disco é Lucy, isto é, Lucifer). Mas, formalmente, é sensacional. Os arranjos são lindos, detalhadíssimos, super complexos. E não há como não se emocionar com a belíssima Alright, o hino informal do Black Lives Matter.

 

8. Donny McCaslin – Fast Future. De repente o Donny McCaslin ficou conhecido como o cara do último disco do David Bowie. E, bem, para mim que sou louca é justamente o contrário, né? Ter chamado o Donny McCaslin para gravar fez o David Bowie subir no meu conceito :-) Enfim. Este disco é, como dizê-lo de maneira politicamente correta, um disco de macho. Cheio de vigor, energia, solos de saxofone arrebatadores e uns mantras.

 

7. Hamilton – Original Broadway Cast Recording. Das coisas mais geniais que já ouvi: um musical de hip-hop contando a história de um dos Pais Fundadores dos EUA, no caso o “10-dollar founding father without a father” (Hamilton estampa a nota de 10 dólares). Mas não é exatamente hip hop. Também não são exatamente musiquinhas de musical. É realmente uma coisa nova. Você tem batalhas de rap entre Hamilton e Jefferson sobre o sistema financeiro dos EUA. E é inacreditável como funciona bem. As rimas são de outro mundo, é tudo tão perfeitamente articulado e fácil de entender. Há vários motivos musicais e líricos que se repetem ao longo da obra, e são facílimos de decorar, e tenho passado os últimos dias cantando “Yo I’m just like my country / I’m young, scrappy and hungry / And I’m not throwing away my shot”. Estou realmente encantada e deslumbrada – é meu disco preferido do momento. Talvez escreva um post separado sobre ele qualquer hora.

 

6. Snarky Puppy – Sylva. O melhor disco do SP até agora – não por acaso, com a Metropole Orkestra. É uma suíte orquestral, com tudo o que nos acostumamos a esperar do SP (“music for the brain and the booty” – i.e. melodias lindas e grooves contagiantes), só que com ainda mais camadas.

 

5. Mathias Eick – Midwest. Sabe como eu falei que o disco do Donny McCaslin é um disco de macho? Pois este é um disco de mulherzinha, o que é um elogio tão grande quanto. Jazz norueguês, com muito ar, muito espaço, tudo acústico, tudo bonito, cristalinamente bonito.

 

4. Lianne La Havas – Blood. Que alegria ter descoberto essa moça no ano passado. Que cantora incrível, que compositora melhor ainda. Cada música é uma pérola, de uma densidade, uma profundidade, uma perfeição. Um disco sem pontos baixos. Obra-prima mesmo.

 

3. Fred Hersch – Solo. O que escrever sobre um disco que reúne meus compositores preferidos (Jobim, Mitchell, Monk)? Bem, vou escrever que esse disco me salvou. Foi o que mais ouvi na reta final da tese. Eu me abrigava nessas músicas todas as noites antes de dormir. Fred Hersch Solo foi minha casa por algumas semanas.

 

2. Kendrick Scott – We Are The Drum. Só não foi meu disco preferido do ano porque 2015 foi o ano do Furacão Kamasi. We Are The Drum foi certamente o segundo disco que mais ouvi ano passado. Até aprendi a cantar This Song In Me. Na verdade aprendi um monte de coisa. Porque ele é desses. Disco de ouvir sem parar e aprender cada um dos solos. Que é das coisas que eu mais gosto de fazer na vida. Kendrick Scott é um compositor bom demais. Eu não entendo nada de harmonia, mas mesmo sem entender, é o tipo de coisa à qual você instintivamente reage, e é impossível não reagir aos caminhos surpreendentes que a música de We Are The Drum vai tomando.

 

1. Kamasi Washington – The Epic. Uma das obras definidoras do nosso tempo. Deixo o link para o maravilhoso perfil do Kamasi que saiu no NYT, e copio o trecho que vai ao ponto:

“That sense of home, of African-American pride and identity, reverberates throughout ‘‘The Epic.’’ It’s not just the tributes to his grandmother and great- grandmother, or the concluding hymn to Malcolm X, which incorporates Ossie Davis’s eulogy as well as one of Malcolm’s speeches. It’s the album’s soaring panorama of black American musical history, from gospel and blues to jazz, doo-wop and funk, offered as a celebration of black beauty in the face of adversity. Its sound is particularly evocative of the early 1970s, when Marvin Gaye, Curtis Mayfield and Stevie Wonder were composing their own epics and jazz musicians like Max Roach were playing spirituals with gospel choirs. The Afro-futurist cover of ‘‘The Epic,’’ too, suggests an early ’70s LP: a picture of Washington in a black dashiki against an interstellar backdrop, saxophone in hand.

That blend of rebellious intent and retro self-fashioning is hardly unique to Washington. It permeates the cultural renaissance spawned by Black Lives Matter, a movement that has combined Black Power nostalgia with an exuberant faith in the revolutionary potential of technology and social media. ‘‘The Epic’’ is arguably the most ambitious expression thus far of this renaissance, whose touchstones also include Claudia Rankine’s prose-poem ‘‘Citizen,’’ Ta-Nehisi Coates’s memoir ‘‘Between the World and Me,’’ D’Angelo’s album ‘‘Black Messiah’’ and Kendrick Lamar’s ‘‘To Pimp a Butterfly,’’ with its indelible refrain, ‘‘We gon’ be alright.’’ Not surprisingly, ‘‘The Epic’’ has found a particularly receptive following among black intellectuals. As Robin Kelley, a historian at U.C.L.A. and a biographer of Thelonious Monk, puts it, ‘‘In a world where you feel like blackness is under assault and you’re looking for a way to express joy, pain and possibility, ‘The Epic’ speaks to what black people feel inside.’’ The writer Greg Tate, who calls Washington the ‘‘jazz voice of Black Lives Matter,’’ told me that his music offers ‘‘a healing force, a place of regeneration when you’re trying to deal with the trauma of being black in America.’’