I do

New Orleans. Dez anos do Katrina hoje. Cinco que voltei. Esses dias terminei de assistir a Tremè, a série do David Simon sobre a reconstrução da cidade. A última temporada se sobrepõe ao começo da minha estada lá – fim de 2008, eleição do Obama. Tenho uma série de críticas pendatíssimas e pentelhérrimas à série que graças a deus não sou obrigada a desenvolver aqui. Só para que se tenha uma ideia: acho os personagens rasos, as histórias arrastadas, a série toda meio panfletária; os personagens parecem meros ventríloquos através dos quais se conta a história de New Orleans. E no entanto…

E no entanto: que belíssimo tributo a New Orleans, com todos as suas lindezas, todos os seus horrores. E que delícia para quem já esteve lá, ainda que por pouco tempo como eu. Todo episódio tem algum restaurante, algum bar, algum músico que conheço ou conheci. Fico empolgadíssima cada vez que reconheço um desses lugares ou pessoas. Fico morta de vergonha quando aparece algo que não cheguei a conhecer – nunca fui ao Preservation Hall, por exemplo, e não foi por falta de convite. Fico toda esnobe e superior com relação ao que a série deixou de mostrar – como que não mostraram a Sasha Masakowski, por exemplo, uma das cantoras de jazz mais interessantes da atualidade?

Que vazio enorme, desde que a série acabou. Desde que a série acabou, tenho ouvido John Boutté quase todos os dias. Fiz spaghetti com camarões semana passada. E esta semana fiz salmão na frigideira aproveitando a deixa de uma das personagens mais legais, a chef Desautel. Na segunda temporada, ela vai para Nova York e começa trabalhando em um restaurante com um daqueles chefs super caricaturais de tão mal-humorados. Ela leva uma bronca porque está se apressando na hora de preparar o salmão. Há que “listen to the fish”, segundo o chef clichê. Não há que se apressar. E a câmera se demora na frigideira, na manteiga derretendo, no salmão mudando de cor. Então, esta semana, eu ouvi meu próprio salmão.

Acho que meu arco narrativo preferido é o do trombonista que vira professor de música numa escola. Ele não quer o emprego, a princípio, mas acaba aceitando por pressão da mulher – uma personagem que aparentemente só está ali para mandar o marido ir trabalhar (eu disse que tinha críticas pedantes). Então o marido vai. E começa numa atitude de “this is only my day job”, eu não sou professor, eu sou músico, sou artista, tenho minha banda, tocar em gigs é meu verdadeiro trabalho.

E então em algum momento ele sente que falhou com os filhos. Que nunca ensinou música a eles e que fracassou em lhes transmitir a herança musical da família. Os filhos, de um primeiro casamento, são adolescentes; do segundo, ele tem uma filha ainda bebê. Aí você imagina que ele irá ensinar algum dos filhos, ou todos, a tocar um instrumento. Mas não: o que acontece é que ele se torna, de verdade, um professor. Ele passa a tradição adiante – não para os filhos, mas para os filhos dos outros; e missão cumprida. É o arco mais bonito de todos; é o que mostra o que significa ser parte de uma comunidade. Não importa que os alunos não sejam seus filhos; eles são de New Orleans, e isso basta.

Hoje o Obama foi lá. Fez um discurso lindo, como sempre. Citou a Rebirth, Dr. John, Trombone Shorty.

O primeiro episódio de Tremè se chama Do You Know What It Means… O último, … To Miss New Orleans.

É uma música que gosto de ouvir e mais ainda de cantar. Gosto principalmente da segunda metade do B (“I dream about magnolias…”), que eu sempre acho que vai se transformar em Angel Eyes (“have fun you happy people…”).

É sobretudo uma música à qual sei exatamente o que responder.

Os melhores discos de 2014

Aí quando for junho ou julho eu faço um post chamado “Os melhores discos de 2014 de cuja existência só vim a saber em 2015”:

10. Richard Galliano, Sentimentale. Muitos hão de achar este disco meio cafona. Porque tem seus momentos de Brazilian jazz. Tem músicas de Ivan Lins e João Donato. E tem como solista o acordeonista mais incrível deste mundo, que é o que de fato importa. Esta foi praticamente a única música brasileira que ouvi este ano, infelizmente.

9. D’Angelo, Black Messiah. Ele voltou. Falando de coisas que precisamos ouvir. Sexo. Violência policial. Mudanças climáticas. Amor. Que sorte a nossa poder ouvir sobre essas coisas no lindo falsete do D’Angelo.

8. Ambrose Akinmusire, the imagined savior is far easier too paint. Este disco de título lindo é o meu preferido do Ambrose até agora. Tem quarteto de cordas, tem cantores convidados sensacionais (principalmente Becca Stevens em uma música cuja batida emula o pulsar de um coração), um tributo a Joni Mitchell, um tributo a homens e meninos negros assassinados pela polícia (Trayvon Martin, Trayvon Martin…). É um disco que me fez gostar de Ambrose ainda mais como compositor e como pessoa do que eu já gostava dele como trompetista.

7. Keith Jarrett & Charlie Haden, Last Dance. Falei sobre ele aqui: “Last Dance é um disco de velhos que graças a deus não precisam provar para a mãe ou a namorada que sabem tocar seus instrumentos.”

6. Dayna Stephens, Peace. Disco impecável do meu saxofonista preferido do momento – só de baladas, e com um repertório daqueles que parecem ter sido escolhidos especialmente para mim: Jobim, Piazzolla, Morricone, Mancini.

5. Meshell Ndegeocello, Comet, Come to Me. O disco de música pop mais inteligente, diferente, interessante, enigmático, surpreendente deste ano. Tem de tudo: R&B, rap, reggae. Meu deus, gostei até do reggae, eu que detesto reggae. Aparentemente o disco é sobre relacionamentos amorosos mas nem cheguei nesse ponto ainda – mal consegui prestar atenção nas letras, de tão focada que ainda estou no baixo da Meshell e nos efeitinhos todos.

4. Billy Childs, Map to the Treasure: Reimagining Laura Nyro. Discos-tributo como esse costumam ser bastante irregulares, com sua profusão de vocalistas. Não é o caso aqui. Além dos lindos arranjos, Billy Childs foi gênio também no pareamento das cantoras com as músicas. Destaque para Esperanza, que é a única pessoa do mundo a ser 1/3 cantora de jazz, 1/3 cantora de r&b e 1/3 cantora de MPB.

3. Eric Harland’s Voyager, Vipassana. Uma das bandas mais interessantes do momento, que se nutre em parte daquele jazz-meets-hip hop do Robert Glasper e em parte da Fellowship do Brian Blade. A bateria (Harland é baterista) é bem proeminente na mix, e adoro que seja assim.

2. Lars Danielsson, Liberetto II. Este disco é apenas o último de uma série – absolutamente tudo o que Lars Danielsson faz é o creme do creme daquela mistura de jazz com música de câmara e música folclórica europeia. Simpesmente não vivo sem.

1. Brian Blade & The Fellowship Band, Landmarks. O que dizer quando seu grupo preferido de músicos lança um disco novo? Este não é o meu disco preferido Fellowship. Mas é um disco novo da Fellowship. Tá tudo ali. O inconfundível bumbo. O clarinete baixo. A sonoridade única dos metais. As levadinhas folk. A igreja e o blues. É emocionante demais.

***

#Jabá

Não poderia deixar de citar também o disco que mais me trouxe alegrias este ano: o do baixista Sérgio Carvalho, amigo querido e belíssimo compositor. Agenor participou do disco tocando teclados e rhodes, e ficou tão especial. Esta é uma das minhas preferidas.

O ano em que não pudemos concordar em mais nada

Este foi para mim o ano em que não pudemos concordar em mais nada, ou quase nada.

Este foi o ano em que se você perguntou:

– Podemos todos concordar que é errado um policial executar um cidadão desarmado?

Você certamente ouviu:

– Não, não podemos, porque temos que ver o outro lado, o lado do policial que estava apenas fazendo o seu trabalho.

Outras perguntas e respostas que marcaram este ano:

Podemos todos concordar que a inflação está alta e que isto é um problema?

Não, não podemos, porque no governo FHC a inflação era ainda maior.

Podemos todos concordar que não é correto um governador construir um aeroporto com dinheiro público na fazenda do vovô?

Não, não podemos, porque o importante é tirar os petralhas do poder.

Podemos todos concordar que não é razoável acusar a presidenta da República de assassinato?

Não, não podemos, porque se o doleiro não morreu, nós bem sabemos do que a presidenta era capaz na sua época de terrorista.

Podemos todos concordar que o governo administrou mal a Petrobras?

Não, não podemos, porque a corrupção na Petrobras começou no governo FHC.

Podemos todos concordar que não é democrático prender manifestantes que não cometeram nenhum crime?

Não, não podemos, porque vai que eles eram black bloc.

Podemos todos concordar que um deputado não deveria ameaçar ninguém de estupro?

Não, não podemos, porque pelo menos o deputado tem a coragem de dizer o que pensa.

Podemos todos concordar que falta água em São Paulo?

Não, não podemos, porque na minha casa não falta água.

Se em 2015 pudermos todos concordar que Boko Haram, Isis e Talebã não são organizações fofinhas, para mim já vai estar de bom tamanho.

Não anote esta receita

Não é comida chique, não é gourmet, não serve para impressionar a sogra nem as visitas, não serve para seduzir o homem nem a mulher amada, não é light nem diet, não ajuda a emagrecer cinco quilos em três dias, não serve para ganhar concurso de cozinheiro, não é uma receita que valha a pena anotar com todo o cuidado.

Para que serve, então?

Serve para você ter um almoço feliz num dia em que você tiver frango, cebola, damasco, laranja e shoyu na sua casa. Faz assim, ó:

1. Tempera uns 250 gramas de cubos de peito de frango com sal, pimenta do reino e o suco de um limão. Peneira duas colheres de sopa de farinha de trigo em cima do frango e mistura bem. Deixa ele lá.

2. Pica uns dez damascos secos em pedaços pequenos e uma cebola em rodela. Deixa eles lá.

3. Espreme uma laranja numa xícara (de preferência usando um coador para interceptar as sementes) e deixa o suco ali.

3. Aquece uma porção generosa de manteiga numa frigideira grandona e funda. Eu disse generosa, senão os deuses da cozinha castigam.

4. Frita o frango no fogo baixo até ele ficar bem moreninho. Vai virando pra fritar de todos os lados. Não tenha pressa. Vai fritando porque já há suficientes tristezas na vida e você não quer deixá-la mais triste ainda com um frango branco. Enquanto o frango vai fritando – isso vai levar uns 20 ou 30 minutos -, vai preparando a salada, o arroz, vai pensando na vida, vai ligando para a sua mãe que ela vai ficar feliz de saber que você está preparando o almoço.

5. O frango morenou? Tirou da frigideira e deixou ele quietinho numa vasilha à parte. Põe mais manteiga na frigideira (não precisa ser generoso agora), põe a cebola lá, deixa amolecer, abaixa o fogo, põe o damasco, deixa mais uns dez minutos até a cebola ficar morena que nem o frango, joga o suco de laranja, joga uma quantidade parecida de shoyu, deixa borbulhar, deixa reduzir, acrescenta o frango que você já tinha fritado e pronto, serve com arroz, serve com salada, tá feito o almoço.

Simetrias

Pus abóbora no forno com: sal, pimenta calabresa, azeite, alecrim.

Linguiça: fritei.

Cebola: fritei na gordura da linguiça.

Fiz salada com: alface e pepino (elementos natureba) + polenguinho e mostarda de dijon (elementos ogros).

Pus num prato: a salada.

No outro: as comidas quentes.

Ficou: simétrico!

A doçura e a maciez da cebola e da abóbora contrastaram com o salgadinho e a crocância da linguiça.

A neutralidade e a refrescância do pepino e da alface contrastaram com a cremosidade e o salgadinho do polenguinho e o salgadinho e o picantezinho da mostarda.

Repeti: tudo.

Achei: que tinha feito comida para a janta e para o almoço.

Amanhã: prepararei o almoço do zero.

Saudade

Minha mãe nasceu em 1958. Votou no Lula em 1989. Morreu em 1992. Passei boa parte da minha vida tentando descobrir que tipo de pessoa ela era – pense na imagem que você fazia da sua mãe aos dez anos (idade que eu tinha quando ela morreu) e pense na imagem que faz dela hoje: são duas pessoas bem diferentes, aposto –, tentando descobrir quais eram seus sonhos, desejos, defeitos, ambições. Ainda tento, claro. Hoje, porém, costumo dedicar mais tempo a um outro tipo de exercício (bastante tonto, reconheço): imaginar que tipo de pessoa minha mãe seria hoje, se um carro na contramão não tivesse tirado sua vida. Não tivesse tirado ela de mim. Não é que eu pense nisso todos os dias. Mas tem dias em que é a única coisa em que consigo pensar. Se eu mostraria para ela o disco novo do Dayna Stephens que acabei de baixar. Se eu contaria para ela que ando insegura demais com minha aparência. Se ela gostaria dos meus bolos e das minhas massas. Se ela já teria me ensinado a fazer bomba de chocolate. Se teria votado em Dilma hoje ou se, como eu, teria anulado angustiada. E obviamente não existe resposta para nada disso. São apenas fabulações tontas e sem sentido. Mas que às vezes, por tontas que sejam, me ajudam um pouco. Como hoje, por exemplo. Eu não sei direito que tipo de pessoa minha mãe era, e sei bem que não adianta pensar em que tipo de pessoa ela teria sido porque a verdade é que ela não pôde ser. Mas dane-se que não adianta, porque de uma coisa eu tenho certeza absoluta: minha mãe não era, de jeito nenhum, mulher de ficar de ~luto pelo Brasil~. De ameaçar mudança para Miami. De defender o impeachment. De xingar nordestino. De querer o separatismo. De achar que o Mal e a Corrupção venceram os Homens de Bem.

Poucas vezes senti tanta saudade dela quanto hoje.

Meus dez mandamentos do segundo turno

Segue um conjunto de mandamentos absolutamente pessoais, escritos de mim para mim mesma, que pretendo seguir até o fim do segundo turno:

1. Não votarás Dilma no segundo turno; não adotarás o discurso do mal menor sem que o governo tenha dado qualquer sinalização de que privilegiará pautas caras à esquerda num eventual próximo mandato; não endossarás com teu voto, enfim, um projeto de país que desaprovas;

2. Não cairás no antipetismo em momento algum – nem o de direita (que é o puro creme do classismo e do ódio), nem o de esquerda (que é justificado pela guinada à direita do próprio PT, mas está mais preocupado em destruir o PT – a ponto de quase esquecer os bons serviços prestados ao país nos últimos doze anos – do que em se colocar como alternativa viável a ele). Não farás do PT, em suma, o centro da tua reflexão política;

3. Não sucumbirás à tentação de achar que o povo é um lindo, fofo, revolucionário e querido quando vota em um candidato que te apraz – nem que é um coitadinho, alienado e manipulado pelas forças da mídia e dos marqueteiros quando vota em um candidato que abominas;

4. Não clicarás na aba “Família” do Facebook até o fim da eleição (mandamento que também poderia ser chamado “Evitarás tretas desnecessárias”);

5. Não perderás teu tempo defendendo Dilma e seu governo de ataques na internet, não só porque desaprovaste quase tudo neste governo como também porque não és paga para isto (ao contrário de tantos colaboradores do PT);

6. Não considerarás, em hipótese alguma, que o coleguinha que exibe o avatar da Dilma no Facebook é um inimigo a ser combatido; ele é, quase sempre, alguém que concorda contigo na maior parte das coisas, apesar de divergir no voto – e tal divergência deve ser celebrada e debatida, jamais combatida e execrada;

7. Não serás blasée e não adotarás a postura do tanto faz, do “petepeessedebê é tudo a merma porcaria, que se dane a eleição, daqui a 100 anos estaremos todos mortos mesmo”;

8. Não lançarás indiretas pela internet (exceto, é claro, as contidas neste decálogo);

9. Não visitarás as TLs dos coleguinhas tucanos, pois teus coleguinhas tucanos são legais, mas todos têm amigos permanentemente dispostos a alertar-te para a progressiva conversão do Brasil em Cuba, Venezuela ou Irã; a xingar o bolsa-família (que eles ignoram ser um compromisso de governo do PSDB); a, enfim, estragar teu dia sem dó nem piedade;

10. Não deixarás que eventuais posicionamentos bizarros, declarações de voto meio patéticas, incongruências gritantes e momentos de vergonha alheia variados te façam perder os amigos que te importam – pois, afinal, tens espelho em casa, e até o fim da eleição sabes muito bem que ainda hás de falar – assim como pessoas muito mais inteligentes do que tu – uma enorme quantidade de bobagens.