O Limbo das Meias

Solucionei um dos grandes mistérios da humanidade: descobri onde vão parar as meias que desaparecem quando as colocamos para lavar.

Minha primeira teoria era de que elas voavam pela janela quando estavam estendidas no varal e batia um vento, mas eu estava errada. Sábado passado, eu vi a mágica acontecer. Eu vi a meia sendo abduzida pelo saci bem na minha frente.

Fui tirar a roupa da máquina. Peguei uma mãozada de roupa molhada e…

A meia escapou do bolo de pano e esgueirou-se por entre o cilindro e a parede da lava-roupa.

Sim: a lava-roupa tem um cilindro, um cesto onde você joga a roupa. E existe um espaço entre esse cilindro e as paredes laterais da máquina, que é para o cilindro dar aquela chacoalhada legal.

A meia caiu ali.

Desconfio que não tenha sido a primeira, e nem será a última. Desconfio também que, se todos virássemos nossas máquinas de lavar de cabeça para baixo, nossas lavanderias seriam tomadas por meias solitárias, calcinhas tristonhas, bilhetes únicos, bilhetes de amor, guarda-chuvas e notas de dez reais.

Recordando a eleição presidencial

Se existe alguma vantagem no fato de que tudo o que somos capazes de discutir atualmente sobre política é se e quando haverá o impeachment e quem e quando assumirá a presidência após Dilma é que… Olha, pensando bem não existe vantagem nenhuma não – juro que tentei começar o texto numa vibe otimista, mas não rolou. Vou reformular e tentar de novo.

Não existe nenhuma vantagem no fato de que tudo o que somos capazes de discutir atualmente sobre política é se e quando haverá o impeachment e quem e quando assumirá a presidência após Dilma. Nada me parece mais grave no debate político atual do que nossa falta de imaginação. Parece que a única pergunta que somos capazes de fazer é “quem ou o que virá em 2018?” – um cenário bastante propício à emergência de políticos carismáticos. (Nossa sorte é que Enéas já morreu.)

Por isso, já que – a começar por mim mesma – aparentemente não nos restou mais nenhuma imaginação e estamos sentadinhos à espera do que virá, vou aproveitar a oportunidade para refletir sobre aquilo que deveria ter passado e não passou. Pois me parece que, quando nos perguntamos sobre 2018, a verdade é que ainda estamos tentando entender o que raios aconteceu em 2014.

Vou retomar, então, o que a eleição presidencial de 2014 foi para mim. Uma mulher de trinta e poucos anos, paulistana, de classe média, preocupada com a falta d’água em São Paulo e com a catástrofe ecológica mundial.

Sobre a crise hídrica em SP: Aécio disse que era culpa do PT. Dilma citou José Simão e disse que São Paulo teria um programa de bolsa-banho. Marina apoiou Alckmin para governador.

Sobre mudanças climáticas: silêncio total. (Considerando-se o pujante debate travado sobre a crise hídrica, chega a ser um alívio que todos tenham ficado calados.)

Ou seja. Para alguém que leva a catástrofe ecológica e as mudanças climáticas a sério. Para quem isso é realmente a questão política mais importante do nosso tempo. Para quem está convencido de que aquecimento global, derretimento das geleiras, acidificação dos oceanos, extinção das espécies, não são questões filosóficas futuras e distantes, mas eventos reais que ameaçam nossa existência no planeta tal como o conhecemos. Para quem quer saber como o Brasil vai replanejar sua economia de modo a diminuir a desigualdade e a violência, ampliar o acesso a serviços públicos de qualidade, acabar com o desmatamento e reduzir drasticamente suas emissões. Simplesmente não havia em quem votar.

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“Na briga entre ortodoxos e heterodoxos, entre neoliberais e desenvolvimentistas, eu ando cada vez mais ambientalista” (Idelber Avelar, 2015)

Repare que não se trata de encontrar o candidato perfeito e idealizado. Trata-se de apontar que uma discussão importantíssima sequer ocorreu. Nenhuma candidatura preocupou-se em explicar como iria conduzir a economia sem cozinhar o planeta. Esta não é uma questão que se coloca no debate político atual. No máximo, ouvimos a palavrinha “sustentabilidade” sendo salpicada aqui e ali. Mas uma efetiva discussão sobre programas econômicos que levasse em conta a realidade material da Terra – isso não existiu.

Não existiu em 2014, e segue não existindo agora, nenhuma liderança nacional, nenhum projeto político para o Brasil, que seja radicalmente sustentável ecologicamente e viável economicamente. Existem diversos políticos em quem votei e votaria com a maior confiança para o legislativo, e há também boas opções de voto para o executivo em nível regional. O que não existe é um projeto econômico que leve em conta o combate às mudanças climáticas – e um projeto de país que parta do princípio de que não existe justiça social sem justiça ambiental.

Estou dizendo o óbvio? Claro que sim. Só que essa obviedade – o de que não existe, por ora, uma alternativa ao desenvolvimentismo x neoliberalismo que está dado – é tão terrorífica que acaba sendo muito mais confortável, entre uma cerveja e um mojito, desviar o papo do bar para “e aí, hein? Lula volta em 2018? e o Ciro? e o Alckmin, será que agora vai?”. Porque é mais fácil. É tranquilizador. Porque com esses nomes conhecidos tentamos preencher um vazio absoluto de novas ideias.

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Nunca cheguei a considerar Marina essa tão esperada terceira via ambientalista: seu programa econômico era o mesmo do PSDB (que é o que Dilma, agora, tenta implementar), apenas revestido de um discurso moralista que é ouvir uma vez e sair correndo na direção oposta sem olhar para trás (Marina, não nos esqueçamos, pretendia instituir “comitês de homens de bem” para ajudar a governar o Brasil). Gostaria que ela tivesse ido para o segundo turno, só para tirar o PSDB de vez da jogada e movimentar as peças no tabuleiro – mas a polarização que ela mesma tanto (e acertadamente) critica, PT x PSDB, permaneceria em grande parte intocada, já que seguiríamos na mesma ladainha desenvolvimentismo x neoliberalismo no debate econômico.

Votei em Luciana só porque anular o voto já no primeiro turno é niilismo demais até para mim. Então, apoiei a candidatura mais engajada na defesa dos direitos humanos, apesar da impraticabilidade de seu programa econômico. Mas, sem dúvida, foi um voto “de mentirinha”, no sentido de que não votaria nela num segundo turno, onde houvesse possibilidade real de vitória – assim como não votaria em nenhum dos demais. A verdade é que, para um segundo turno – a hora em que temos de responder à pergunta “quem você quer, de fato, que governe o Brasil?” – só me sobrou mesmo o nulo. O nada. O ninguém. Não existe uma liderança nacional sequer com um projeto de país no qual eu acredite.

É preciso construí-la.

A mulher da foto

Eu quase nunca penso na minha mãe. Ou talvez eu pense todos os dias, um segundo por dia. Mas alguns dias, é como se eu só vivesse para lembrar que minha mãe existiu.

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Depois de um tempo, é fácil esquecer que as pessoas mortas foram vivas. As pessoas mortas sobrevivem como lembranças. Aquela vez que fomos a Paris. À venda da esquina. Ao simba safári. E vamos nos convencendo disso, que as pessoas mortas das nossas vidas são amálgamas de lembranças sem existência real que não em nossas cabeças, nas nossas e, no máximo, nas daqueles que compartilham conosco a pessoa morta em questão. É difícil, é difícil lembrar que aquele dia da venda da esquina em que ela me ensinou o que era broto de bambu, não era para ser uma lembrança, era para ser apenas mais um dia igual a todos os outros que se repetiriam pela vida afora. A Paris tudo bem, a Paris as pessoas vão para trazer lembranças, mas à venda da esquina vamos apenas para comprar os ingredientes do almoço.

E então de repente a pessoa morta existe como lembrança não apenas para mim meu pai minha avó minha tia mas também para dezenas, centenas de pessoas que não conheço, que não me conhecem, que só sabem de mim como a filha daquela moça que morreu, coitada.

Esta semana conheci uma mulher que conheceu minha mãe – só de longe, só de vista. A mulher nem sabia que minha mãe tinha morrido, mas minha mãe já sobrevivia como lembrança na cabeça dela.

“Era uma mulher elegantíssima”, disse.

Contei sobre o acidente. Minutos depois, ela volta com o marido. Perguntou se ele se lembrava de algum acidente fatal, há não sei quantos anos, na avenida tal e tal. Sim, ele lembrava. A vítima do acidente tinha sido professora de francês dele.

“Era uma mulher lindíssima”, disse.

Adorei a diferença no adjetivo. A mulher enfatizou o processo, percebeu ali uma inteligência em se vestir, se maquiar, se portar. O homem enfatizou o resultado do processo, a beleza final.

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Uma amiga minha passou anos de sua vida bastante imersa e paralisada em um relacionamento amoroso naufragado. Fiquei com bastante aflição dessa amiga (não por acaso ela é e sempre será minha amiga). Eu, afundada no relacionamento amoroso primordial.

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E tem as fotos. Uma foto, no caso. Não a foto que está na sala, esta é a foto para a qual se olha e não mais se vê. Mas uma foto 5×7, dessas de passaporte, com a diferença de que minha mãe está posicionada obliquamente em relação à câmera, o olhar firmemente centrado no além. Uma mulher tão diferente de mim. A pele tão mais escura, o cabelo tão mais crespo, o olhar mais expressivo, o nariz menos escandaloso, a boca menos desmesurada. E essa mulher que está lá, que não tem nada a ver comigo – existiu. Essa mulher abriu conta no banco. Tocou Chopin no piano. Virou a noite preparando aula. E eu não sei nada sobre essa mulher exceto esses detalhes. Exceto o que me contam. Exceto que, às vezes, sobrevém o horror.

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“Pouco tempo depois que ela morreu, a escola de francês fechou, né?”, comentei com o homem de quem minha mãe tinha sido professora. Foi sim, ele respondeu. “Ela era a alma do negócio”.

Elegantíssima, lindíssima, alma do negócio – qualificadores que me são estranhos, que não brotaram da minha cabeça, que jamais apliquei a ela, e que não obstante não são menos legítimos que os meus. Eles não se aplicam à minha mãe. Eles se aplicam à mulher da foto.

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O horror em nada se parece com a ausência da mulher da foto. É difícil ligar os pontos e acreditar que a mulher que existiu, a mulher da foto, é a mesma pessoa que mora na minha cabeça. Tenho muito mais intimidade com a pessoa que mora na minha cabeça. Convivo com ela há vinte e três anos.

Com a mulher da foto, convivi apenas dez.

De como nasce um sonho musical

Restos diurnos:

1. Anteontem: comprei ingressos para o show de lançamento do disco novo de Guinga;
2. Ontem: no salão de beleza, à tarde, passava uma novela no vale a pena ver de novo; tocou uma música de Lenine;
3. Hoje: conversei sobre Lacan no tuíter.

Sonho-resultado:

Guinga + Lenine + baião de Lacan = MINGUS SAMBA na cabeça a manhã toda

Bom dia :-)

A empatia não irá nos salvar (notas esparsas sobre algumas fotos)

– Adoro a página Humans of NY. Na verdade, acho que não conheço ninguém que não adore. Humans of NY é tipo Beyoncé, um produto cultural que é praticamente tabu não gostar. Como não apreciar os relatos sempre surpreendentes ou comoventes, as histórias tantas vezes edificantes, o espanto diante da vida extraordinária de pessoas ordinárias? Como não se encantar com tantas pessoas tão diferentes, com histórias de vida tão diversas, partilhando tantas vezes dos mesmos sofrimentos, apreensões, temores, esperanças?

– Estive na exposição de fotos do Eduardo Viveiros de Castro, com curadoria de Eduardo Sterzi e Veronica Stigger. Demorei a me acostumar com as imagens, a despeito de sua beleza. Na verdade, jamais cheguei a me acostumar. Em todas precisei recorrer a uma legenda, a uma palavra que me ajudasse a fazer sentido do corpo representado. Em todas, pessoas estranhas em situações estranhas. Um homem enfiado num buraco de cabeça para baixo com as pernas para cima, outros homens agachados em volta. A legenda salvadora: “homens desentocam tatu”.

– O fotógrafo/entrevistador de Humans of NY passou pelo Paquistão, agora está no Irã. Mas as pessoas, as pessoas são exatamente as mesmas de Nova York. Em todo lugar, alguém cuidando de um pai com câncer. Um jovem ambicioso que acaba de se formar e pretende dominar o mundo. Uma mãe aflita por estar desempregada. Um casal apaixonado fazendo planos para o futuro. Um rapaz expulso de casa por ser gay.

– Na exposição, uma moça sendo escarificada por uma pessoa mais velha para participar de uma cerimônia. E eu… Bem, eu faço depilação. Também dói. E no entanto…

– O fotógrafo de Humans of New York está na Ásia, mas a verdade é que tanto faz. Por onde passa, fotografa almas gêmeas. Mudam as roupas, a cor da pele. Os sentimentos são iguais. Somos todos humanos.

– Sendo perfeitamente honesta – não, não me identifiquei com a índia. Sua escarificação nada tem a ver com a minha depilação.

– Em Humans of NY, por detrás das diversas aparências, revela-se sempre a mesma essência: um só mundo; uma só humanidade.

– Em Variações do Corpo Selvagem, revela-se outra humanidade. Dane-se que somos todos humanos. Aqueles humanos são humanos de um jeito completamente diferente do meu. Aquelas jovens não poderiam ser eu fazendo depilação, aquele rapaz não poderia ser meu marido caçando o jantar, aqueles bebês não poderiam ser meus filhos. É outra gente, outra vida, outro modo de existência.

– Se vemos (e vejo sempre com prazer) as fotos de Humans of NY, saímos sempre com um novo amigo, uma nova irmã, um novo avô querido. Ainda e principalmente quando a pessoa retratada é, digamos, um mendigo por quem passamos reto na rua. O mendigo, minha nossa, mudadas algumas circunstâncias, poderia ser meu pai; poderia ser eu.

– Nenhum corpo retratado em Variações do Corpo Selvagem poderia ser o meu.

– Se devemos respeito ao outro *porque* no-fundo-no-fundo, por detrás das aparências, somos todos humanos… Para algum não-humano o desrespeito há de sobrar. Sempre há um não-humano da vez, ainda que o Humans of New York viaje pelo mundo inteiro. Somos todos humanos, mas alguns sempre são mais humanos do que outros. (Ou: somos todos humanos; o importante é alimentar, agasalhar e cuidar dos humanos; logo, se para isso for preciso pôr abaixo coisas não-humanas como rios e florestas, paciência; afinal, tudo pelos humanos.)

– Mas e se, em vez de uma humanidade, houver uma multiplicidade de corpos selvagens e de modos de vida?

– Imagens que mostram que alguns são mais humanos do que pensávamos que eram – que se aproximam mais dessa tal essência humana de que todos supostamente partilhamos –; imagens que mostram que iranianos e paquistaneses também fazem compras no shopping e se preocupam com seus pais e filhos… São imagens que, em última instância, nos ajudam a decidir quem merece viver e quem merece morrer. Se você é humano, ou mais humano do que eu pensava, talvez seja menos fácil aceitar que você leve drones na cabeça em nome da preservação do modo de vida americano.

(- Evidente que: se Eduardo Viveiros de Castro fotografasse em Nova York ou no Paquistão, teríamos corpos estranhos com os quais seria impossível empatizar. Se o fotógrafo de Humans of NY fosse ao Xingu, teríamos novos Aylan Kurdis.)

– Mas e se decidíssemos que o direito de viver não depende de uma humanidade intrínseca – humanidade, aqui, entendida como qualidade/característica de uma essência última? E se o direito de viver fosse concedido não a uma alma humana, e sim à totalidade dos corpos selvagens?

– “Se a fotografia de Aylan Kurdi é tão provocadora e parece dizer tanto, talvez seja porque, na verdade, ela nos fale simplesmente da dor genérica da morte, do medo da perda de um filho, sem que por isso possa comunicar a devastadora experiência da guerra.” (Artigo de Gabriel Zacarias.)

– A foto de Aylan poderia estar em Humans of NY. Todos podem projetar o próprio filho no rosto oculto do bebê estendido na praia. A foto teve o mérito de nos mostrar que os refugiados são, afinal, humanos.

– “A força da imagem (…) não está naquilo que ela revela, mas naquilo que ela oculta.” (idem)

– O que a foto revela: que Aylan não deveria ter morrido daquele jeito, pois era humano. O que a foto oculta: que Aylan morreu porque era índio – no caso, curdo.

– As fotos de Eduardo Viveiros de Castro revelam corpos índios.

– Corpos que, por serem índios, estão sendo exterminados.

I do

New Orleans. Dez anos do Katrina hoje. Cinco que voltei. Esses dias terminei de assistir a Tremè, a série do David Simon sobre a reconstrução da cidade. A última temporada se sobrepõe ao começo da minha estada lá – fim de 2008, eleição do Obama. Tenho uma série de críticas pedantíssimas e pentelhérrimas à série que graças a deus não sou obrigada a desenvolver aqui. Só para que se tenha uma ideia: acho os personagens rasos, as histórias arrastadas, a série toda meio panfletária; os personagens parecem meros ventríloquos através dos quais se conta a história de New Orleans. E no entanto…

E no entanto: que belíssimo tributo a New Orleans, com todos as suas lindezas, todos os seus horrores. E que delícia para quem já esteve lá, ainda que por pouco tempo como eu. Todo episódio tem algum restaurante, algum bar, algum músico que conheço ou conheci. Fico empolgadíssima cada vez que reconheço um desses lugares ou pessoas. Fico morta de vergonha quando aparece algo que não cheguei a conhecer – nunca fui ao Preservation Hall, por exemplo, e não foi por falta de convite. Fico toda esnobe e superior com relação ao que a série deixou de mostrar – como que não mostraram a Sasha Masakowski, por exemplo, uma das cantoras de jazz mais interessantes da atualidade?

Que vazio enorme, desde que a série acabou. Desde que a série acabou, tenho ouvido John Boutté quase todos os dias. Fiz spaghetti com camarões semana passada. E esta semana fiz salmão na frigideira aproveitando a deixa de uma das personagens mais legais, a chef Desautel. Na segunda temporada, ela vai para Nova York e começa trabalhando em um restaurante com um daqueles chefs super caricaturais de tão mal-humorados. Ela leva uma bronca porque está se apressando na hora de preparar o salmão. Há que “listen to your fish”, segundo o chef clichê. Não há que se apressar. E a câmera se demora na frigideira, na manteiga derretendo, no salmão mudando de cor. Então, esta semana, eu ouvi meu próprio salmão.

Acho que meu arco narrativo preferido é o do trombonista que vira professor de música numa escola. Ele não quer o emprego, a princípio, mas acaba aceitando por pressão da mulher – uma personagem que aparentemente só está ali para mandar o marido ir trabalhar (eu disse que tinha críticas pedantes). Então o marido vai. E começa numa atitude de “this is only my day job”, eu não sou professor, eu sou músico, sou artista, tenho minha banda, tocar em gigs é meu verdadeiro trabalho.

E então em algum momento ele sente que falhou com os filhos. Que nunca ensinou música a eles e que fracassou em lhes transmitir a herança musical da família. Os filhos, de um primeiro casamento, são adolescentes; do segundo, ele tem uma filha ainda bebê. Aí você imagina que ele irá ensinar algum dos filhos, ou todos, a tocar um instrumento. Mas não: o que acontece é que ele se torna, de verdade, um professor. Ele passa a tradição adiante – não para os filhos, mas para os filhos dos outros; e missão cumprida. É o arco mais bonito de todos; é o que mostra o que significa ser parte de uma comunidade. Não importa que os alunos não sejam seus filhos; eles são de New Orleans, e isso basta.

Hoje o Obama foi lá. Fez um discurso lindo, como sempre. Citou a Rebirth, Dr. John, Trombone Shorty.

O primeiro episódio de Tremè se chama Do You Know What It Means… O último, … To Miss New Orleans.

É uma música que gosto de ouvir e mais ainda de cantar. Gosto principalmente da segunda metade do B (“I dream about magnolias…”), que eu sempre acho que vai se transformar em Angel Eyes (“have fun you happy people…”).

É sobretudo uma música à qual sei exatamente o que responder.

Os melhores discos de 2014

Aí quando for junho ou julho eu faço um post chamado “Os melhores discos de 2014 de cuja existência só vim a saber em 2015”:

10. Richard Galliano, Sentimentale. Muitos hão de achar este disco meio cafona. Porque tem seus momentos de Brazilian jazz. Tem músicas de Ivan Lins e João Donato. E tem como solista o acordeonista mais incrível deste mundo, que é o que de fato importa. Esta foi praticamente a única música brasileira que ouvi este ano, infelizmente.

9. D’Angelo, Black Messiah. Ele voltou. Falando de coisas que precisamos ouvir. Sexo. Violência policial. Mudanças climáticas. Amor. Que sorte a nossa poder ouvir sobre essas coisas no lindo falsete do D’Angelo.

8. Ambrose Akinmusire, the imagined savior is far easier too paint. Este disco de título lindo é o meu preferido do Ambrose até agora. Tem quarteto de cordas, tem cantores convidados sensacionais (principalmente Becca Stevens em uma música cuja batida emula o pulsar de um coração), um tributo a Joni Mitchell, um tributo a homens e meninos negros assassinados pela polícia (Trayvon Martin, Trayvon Martin…). É um disco que me fez gostar de Ambrose ainda mais como compositor e como pessoa do que eu já gostava dele como trompetista.

7. Keith Jarrett & Charlie Haden, Last Dance. Falei sobre ele aqui: “Last Dance é um disco de velhos que graças a deus não precisam provar para a mãe ou a namorada que sabem tocar seus instrumentos.”

6. Dayna Stephens, Peace. Disco impecável do meu saxofonista preferido do momento – só de baladas, e com um repertório daqueles que parecem ter sido escolhidos especialmente para mim: Jobim, Piazzolla, Morricone, Mancini.

5. Meshell Ndegeocello, Comet, Come to Me. O disco de música pop mais inteligente, diferente, interessante, enigmático, surpreendente deste ano. Tem de tudo: R&B, rap, reggae. Meu deus, gostei até do reggae, eu que detesto reggae. Aparentemente o disco é sobre relacionamentos amorosos mas nem cheguei nesse ponto ainda – mal consegui prestar atenção nas letras, de tão focada que ainda estou no baixo da Meshell e nos efeitinhos todos.

4. Billy Childs, Map to the Treasure: Reimagining Laura Nyro. Discos-tributo como esse costumam ser bastante irregulares, com sua profusão de vocalistas. Não é o caso aqui. Além dos lindos arranjos, Billy Childs foi gênio também no pareamento das cantoras com as músicas. Destaque para Esperanza, que é a única pessoa do mundo a ser 1/3 cantora de jazz, 1/3 cantora de r&b e 1/3 cantora de MPB.

3. Eric Harland’s Voyager, Vipassana. Uma das bandas mais interessantes do momento, que se nutre em parte daquele jazz-meets-hip hop do Robert Glasper e em parte da Fellowship do Brian Blade. A bateria (Harland é baterista) é bem proeminente na mix, e adoro que seja assim.

2. Lars Danielsson, Liberetto II. Este disco é apenas o último de uma série – absolutamente tudo o que Lars Danielsson faz é o creme do creme daquela mistura de jazz com música de câmara e música folclórica europeia. Simpesmente não vivo sem.

1. Brian Blade & The Fellowship Band, Landmarks. O que dizer quando seu grupo preferido de músicos lança um disco novo? Este não é o meu disco preferido Fellowship. Mas é um disco novo da Fellowship. Tá tudo ali. O inconfundível bumbo. O clarinete baixo. A sonoridade única dos metais. As levadinhas folk. A igreja e o blues. É emocionante demais.

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#Jabá

Não poderia deixar de citar também o disco que mais me trouxe alegrias este ano: o do baixista Sérgio Carvalho, amigo querido e belíssimo compositor. Agenor participou do disco tocando teclados e rhodes, e ficou tão especial. Esta é uma das minhas preferidas.