Molho shoyu

Na fila do restaurante por quilo, um menino de uns 7 ou 8 anos me pede sem mais nem menos:

– Tia, paga um lanchinho pra mim?
 
O lugar estava barulhento e o menino falara baixinho. Como eu estava distraída e fora pega de surpresa, pedi para ele repetir o que dissera.
 
O menino prontamente repetiu:
 
– Pega o molho shoyu pra mim?
 
(O molho shoyu estava em uma prateleira alta, fora de seu alcance.)
 
Acho que não preciso dizer qual era a cor do menino.
 
***
 
Reparem que não fiz qualquer julgamento consciente sobre ele. Não cheguei a formular o pensamento “este menino só pode estar aqui para pedir comida”. Eu simplesmente ouvi. Articulei os sons internamente de modo a formar um significado que fui preparada para ouvir tendo vivido a vida inteira neste mundo que é o nosso.
 
Eu não posso controlar o que vejo e ouço, isto é, aquilo que precede meu julgamento racional – o que é um outro jeito de dizer que não posso controlar meu próprio racismo em seu nível mais insidioso. Posso, quando muito, desconfiar de minha percepção e dar stop-rewind-replay.
 
Mas eu posso fazer algumas perguntas.
 
Quando eu era criança, é extremamente improvável – para não dizer absolutamente impossível – que algum adulto desconhecido tenha cogitado que eu fosse lhe pedir dinheiro ou comida.
 
Para este menino, porém, esta é uma possibilidade bem concreta.
 
Será que ele (já) sabe que esta é uma possibilidade bem concreta para ele?
 
Será que ele sabe que esta nunca foi uma possibilidade para mim?
 
Será que alguma vez já lhe aconteceu o tipo de mal-entendido que hoje só não provoquei por um triz?
 
Qual é a diferença entre um tipo de infância e outra?
 
Qual a diferença entre uma infância em que você está acostumado a ser visto apenas como criança – e uma infância em que você já espera que algumas pessoas o vejam como alguém que vai pedir dinheiro ou comida?
 
***
 
Não sei as respostas destas perguntas. 
 
Mas hoje, pela primeira vez, um menino que queria molho shoyu me levou a fazê-las.
Anúncios

13 comentários sobre “Molho shoyu

  1. Trabalhei numa radio que ficava na consolaçao, ia a pé pra casa até a joaquim eugenio. Uma vez, noite, confundi um saco de lixo com uma pessoa. Nunca esqueci. Fiz um monte de perguntas pra mim por bom tempo. Acho que também nao vou esquecee do que vc escreveu aqui.

  2. Com o tempo a gente se acostuma, mas não devia. Já estive no lugar do menino várias vezes, sou professora universitária, mas já me pediram para trazer o café mais de uma vez. Já me apontaram em salas de espera ¨´e pra vaga tal?”, mas a gente se acostuma e aprende que nem sempre é “maldade” da pessoa, é só esse racismo nosso de cada dia, que muita gente nem tem consciência que tem, mas é bom saber que cada vez mais o brasileiro reflete sobre isso e se dá conta da realidade em volta. Tento resolver esses “mal entendidos” com bom humor e quando alguém pergunta de quem é o menino louro que levo nos braços eu só sorrio e respondo que é meu caçula, lindo como meu primogênito negro.

  3. Pingback: Como o Google pode nos ensinar mais sobre nós | Livros e afins

  4. Eu cresci sem ter que passar por isso. Sabia que acontecia, mas nunca tinha acontecido comigo.
    Entao, quando ja estava de malas prontas pra fazer meu doutorado na Suecia eu fui ate a Decathlon comprar casacos de frio – de esqui, porque sabia que ia enfrentar temperaturas abaixo de zero. Quando passei minha compra no caixa o rapaz que me atendeu (branco, aparentando classe media) me perguntou como eu ia pagar (era uma compra de poucos mais de 300 reais). Eu disse que com cartao de credito. Dai, entao, ele perguntou em quantas vezes e eu disse que era em uma so.
    Ele me olhou de cima a baixo e me pediu documento.
    Pra mim ficou muito claro naquele momento que pra ele uma pessoa da minha cor nao poderia comprar a vista se nao fosse com um cartao roubado. Foi um tipo de humilhacao q eu nunca tinha sentido na minha vida. E nesse momento eu lembrei das historias que havia ouvido, das pessoas que reclamavam de passar por isso todo os dias de suas vidas. Eh muito dificil saber o que eh racismo ate voce sentir isso na pele e sabe, doi! Doi demais…
    Eu apresentei o documento… E o cara ficou visivelmente puto comigo. Ele devia ter se desculpado, mas ficou bravo…
    Entao, na mesma semana fui ate um mercado perto da casa dos meus pais… E enquanto olhava algumas prateleiras vi uma senhora acenando. Como nao a conhecia nao dei ouvidos. Foi entao que ela chegou perto de mim, no meio de varias outras pessoas e disse bem alto e bem grosseira: “eu estou acenando pra voce me atender, mocinha, onde eu encontro requeijao?”. E eu disse: “eu nao trabalho aqui, senhora, como eu posso saber?”. Ela ficou muito constrangida e me pediu mil desculpas. No mesmo tom de voz alto disse, pra todo mundo ouvir, que nossa sociedade eh tao desigual e hipocrita que ela tinha me julgado pela cor, sem ter notado que eu usava roupas de marca e tinha o cabelo “bom”. Ou seja, tentou arrumar, mas nao arrumou nada.

    • A Decathlon pede meus documentos, mesmo eu sendo mulato, e os da minha esposa, mesmo ela sendo branca. E me perguntam sempre se quero parcelar. E varias vezes me pediram ajuda no mercado. Não estou dizendo que vc não sofreu racismo, mas que isto é contextual e que não transpareceu no seu texto. de resto, sinto por você ter passado por tal humilhação e a parabenizo pela reação.

      • Eu sou branca, “cabelo bom” castanho claro, me visto legal e ja me pediram ajuda no mercado e em lojas diversas!!!!

  5. Olá, muito bom esse espaço, comecei com o post mais recente (dezembro) e cheguei até aqui!
    Fui concordando em -quase- tudo, nada que me fizesse parar pra questionar,… mas então…
    Já não moro em Sampa a algum tempo e estou acostumada a dar bom dia, boa tarde, boa noite e sorrir pra quem passa por mim pela rua. De passagem pela cidade e hospedada na Vila Mariana, fui comprar pão de manhã. Descia a rua ao lado de uma senhora, quando um menino a abordou e disse. – Moça, onde poço comprar pão aqui? A senhora respondeu – Não tenho nada não. Eu intervi – Está procurando uma padaria? E desenrolamos o enrosco. A senhora parou, pediu desculpas e seguiu. O menino era branco, cabelos e olhos castanhos, bonitinho. Me pergunto então se para além dos conceitos e pré-conceitos construídos na nossa mente, quanto não estamos bloqueados pra nos comunicarmos com os desconhecidos… Como se a troca fosse possível apenas com aqueles que “conhecemos” e como se o “conhecer” nos assegurasse alguma coisa… Enfim, além dos pré-conceitos, acredito que estamos cheios de bloqueios em nossas relações….

  6. Camila o texto é ótimo! Me fez refletir sobre como o racismo está incorporado em nossa cultura e sem perceber ele aparece sorrateiramente no nosso coditiano. Me considero uma pessoa sem preconceitos e que respeita muito o outro! Minha avó paterna, com quem convivi diariamente, era uma pessoa muito racista, mas não se dava conta disso, como muitas pessoas não dão até hoje. E na minha infância eu tinha muita vergonha da postura. Mas ontem mesmo, numa conversa tive a percepção do quanto o racismo está entranhado na gente! Fui me referir a momento difícil da minha vida e disse “fase negra”. Logo em seguida me dei conta, nossa que horror, que expressão péssima! E tem várias outras expressões racista que muita gente está acostuma da falar sem pensar! Precisamos realmente parar para pensar!

Os comentários estão desativados.