Os melhores discos de 2016

Sim, 2016. Ocorre que, em 2016, eu não ouvi nenhum disco de 2016 – lo único que ouvi, como nunca tinha ouvido nenhum disco antes, foi Hamilton. Foi um ano musicalmente incrível – e estranhíssimo. Finalmente passou. E em 2017 ouvi a música de 2016. Segue o que mais gostei:

(Como se chama um PS antes de começar uma lista? Vou chamar de INTRO: No ano passado concordei demais com as listas de melhores discos de música pop. E discordei frontalmente das listas de melhores discos de jazz. A maioria dos meus discos preferidos de jazz do ano passado não está em lista-de-melhores quase que nenhuma. Já os de pop, é tudo clichê-no-úrtimo.)

10. Radiohead – A Moon Shaped Pool. O que ficou, do disco, para mim: cordas, cordas, cordas. E timbres e ambiências e uns reverbs lindos na voz. A melancolia de sempre do Radiohead, mas com ainda mais beleza desta vez.

9. Solange – A Seat At The Table. Acho que nunca ouvi um disco que misturasse tão bem fala e música. As vinhetas todas sobre a experiência da negritude nos Estados Unidos são extremamente expressivas e se integram sem esforço algum a uma música que é sempre doce, envolvente, pouco estruturada. E é o disco que deu origem ao mais lindo videoclipe que existe, o de Cranes In The Sky.

8. Wolfgang Muthspiel – Rising Grace. Qualquer grupo que conte com Brian Blade é um grupo dos meus sonhos. Este, além do Brian Blade, é daqueles raros grupos em que todos os integrantes me interessam individualmente (Ambrose Akinmusire, Brad Mehldau, Larry Grenadier), acompanho a carreira de cada um deles com cuidado. Juntos, eles fizeram um disco cheio de espaços, em que os solos são menores e menos importantes do que a interação geral de cada um com todos o tempo inteiro. Não é um disco de composições especialmente fortes. É um disco delicioso de se ouvir de madrugada.

7. Joshua Redman & Brad Mehldau – Nearness. Lá pela terceira ou quarta música me dei conta: cada um desses músicos está no topo do pico do auge do ápice de sua arte. E estão aqui, juntos, para nós. Transformando standards na música mais revolucionária que pode haver.

6. Carla Bley – Andando el Tiempo. Que senhora compositora. Gosto principalmente do tango que abre o disco, mas ouço tudo o que Carla Bley escreve com interesse e atenção. Imagino que ela tenha composto as músicas com esta formação em vista (piano, baixo, saxofone), mas não é difícil imaginá-las transpostas para formações maiores. Outro disco bom de se ouvir de madrugada.

5. Beyoncé – Lemonade. Que realização impressionante. Que força, que poder incomensurável esse de conseguir transformar em arte a mais manjada das narrativas – a experiência da mulher traída pelo marido vira uma viagem de ódio, autodescobrimento, amor, perdão. Tenho nem o que dizer. Obra magna mesmo. Musicalmente, visualmente, liricamente, tudo.

4. Paolo Fresu, Richard Galliano, Jan Lundgren – Mare Nostrum II. Trompete, sanfona, piano: formação linda, músicos belíssimos, temas memoráveis. Um clássico instantâneo da ECM, ainda que o disco tenha sido lançado pela ACT.

3. Knower – Life. Taí um nome apropriado. Knower = vida, pulsante, maluca, esquisita, escatológica, sexy, funky, deprimente, enraivecida, divertida. Knower ocupa hoje um lugar que já foi mezzo da Björk, mezzo de Prince & The Revolution. E eu não consigo imaginar minha vida hoje sem a enxurrada de timbres e grooves maravilhosamente precisos desse duo.

2. Chris Cheek – Saturday Songs. Provavelmente o disco menos badalado desta lista. Chris Cheek não é nenhuma jovem revelação do saxofone – é um músico experiente que fez um disco irretocável de maturidade, com um pedal steel delicioso e o cover mais lindo que um músico de jazz poderia sonhar em fazer de uma música do Tom Jobim. (Googla aí e descobre, ow)

1. Camila Meza – Traces. Lembro que um tempo atrás vi esse programinha que se propunha a descobrir sua provável idade, gênero e nacionalidade com base em seu gosto musical. A ideia era que semelhantes gostam de semelhantes – se você é branco, gosta de música feita por brancos, se é mulher, de música feita por mulheres, etc. Achei meio deprimente essa ideia e pensei que o programa, se eficaz, acabaria revelando minha real identidade de senhor norueguês de aproximadamente 60 anos.

Mas não este ano. Este ano, reparem, amo/sou uma mulher latino-americana de trinta e poucos anos que se chama Camila.

Camila Meza, uma chilena que toca guitarra e canta, já é uma das principais herdeiras do Kurt Rosenwinkel. A forma de tocar e cantar junto é muito influenciada por ele, com um reverbinho característico, e bem diferente do que faz um George Benson, por exemplo.

A banda tem o Kendrick Scott, cujos três discos como líder estão entre meus três discos preferidos deste século, e aqui com a Camila Meza ele não fez por menos.

As músicas da Camila abrem um espaço entre o jazz contemporâneo, a música brasileira e a música pop. É uma música de bastante complexidade que soa incrivelmente leve e falsamente fácil. São músicas que não estariam deslocadas em uma rádio de MPB, se é que isso existe. Em suma, é um jazz que ouvintes ~sérios~ desprezarão como bobinha – e que todos os outros saudarão com aquela alegria que só a música é capaz de despertar.

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