Sobre pedras e bombas

Há uns dias, compartilhei no Facebook uma imagem de um policial chutando a cabeça de uma mulher, com a legenda “vândala ataca o pé de policial”. Compartilhei como se fosse uma caricatura, uma charge do Latuff, pois imaginei que a legenda era falsa (depois ficou provado que a imagem era falsa também). De qualquer forma, achei a mensagem muito boa: a regra número 1 deste nosso clube da luta cotidiano é que sempre se dá um jeito de pôr a culpa nos malditos vândalos.

Mas me arrependi de ter compartilhado essa imagem. No Brasil, não é preciso caricatura, charge, metáfora nem montagem mal-feita da internet. Basta a realidade. Este vídeo tem dois minutos e não é dos black blocs, da mídia ninja, de um primo do sogro do meu vizinho nem de nenhuma dessas fontes modernetes-esquerdinhas-fora-do-eixo-cubocards, que é pra ninguém levantar a estúpida objeção de que “se é mídia esquerdinha então não vale”. Ma ôe, coleguinhas: o vídeo é do insuspeito canal do Silvio Santos. E a polícia sai atirando enquanto a reportagem do SBT está entrevistando moradores do bairro. Tem tiro, tem bomba jogada do helicóptero, tem gente ferida nos olhos, tem de tudo. E no final, é claro, tem a versão oficial da PM.

E qual é a versão oficial da PM, alguém arrisca?

É bem parecida com a legenda da imagem falsa que circulou pelo Facebook uns dias atrás:

“A violência começou depois que os moradores jogaram pedras na viatura”.

Vamos supor que, sim, pedras foram jogadas. Vamos convenientemente esquecer que a PM matou um menino de 16 anos hoje de manhã neste mesmo bairro. Vamos supor que gente sem Jesus no coração entrou em surto psicótico e saiu tacando pedra loucamente em inocentes viaturas. Vamos, para o bem do argumento, supor tudo isso que a PM quer que a gente suponha.

Mesmo com todas essas suposições, o que resta é uma polícia para a qual a resposta adequada para PEDRAS são BOMBAS.

A PM não se preocupa em tentar disfarçar. Não se preocupa em elaborar uma justificativa mais palatável. Acha que essa está mais do que boa. “Jogaram pedra, taquei bomba, ué”. E, quando a gente para pra pensar – realmente, por que não tacariam?

Quando eu era pequena e ouvia algum tiozão reaça defender que tem mesmo é que jogar uma bomba no meio da favela pra explodir com tudo, eu fazia tsc, tsc e pensava, credo, que tio maluco! Onde já se viu uma maldade dessas!

Parte da dolorosa experiência de crescer foi ter aprendido que isso de jogar bomba na favela não é o louco delírio de um  tiozão reaça no almoço de domingo. Jogar bomba na favela é precisamente o que a polícia faz. Bomba na favela é o objetivo de quem está no comando da polícia. Bomba na favela é nada menos que a realidade.

Aconteceu agora há pouco, perto da minha casa.
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