Nunca amamos nossos ídolos

Sabe, tretas à parte, estou achando realmente terapêutica e produtiva essa nossa catarse coletiva, essa purgação dos ídolos, esse “e agora, quando poderemos voltar a amar o Chico?”, essa desconstrução de heróis que, não tendo morrido de overdose, morrem agora de tanto procurar saber e não encontrar.
 
Chico me apunhalou, me traiu, me fez concordar com Reinaldo Azevedo; está me matando, me envenenando, somos todas potes até aqui de vergonha alheia; como pode Caetano se prestar a um papel desses, como pode não ter concluído o texto com um “ou não” que, com seu dom de iludir, nos permitisse pôr tanta bobagem em dúvida; como pode Gil, o ministro-artista-prafrentex, se dispor a escrever coisa que de tão coxinha até a fé nos falha; já o Djavan, bem, pelo menos do Djavan a gente nunca gostou muito mesmo, podemos respirar aliviadas.
 
É mais ou menos esse o espírito que tenho visto e sentido por aí, e sobretudo visto e sentido em mim mesma – de repente viramos um bando de viúvas abandonadas que não param de perguntar: “senhores, ma che catzo?
 
Esse é o momento mágico. Esse é o momento tão necessário. É o momento em que nos damos conta de que não sabemos nada sobre esses senhores. E não porque eles sejam celebridades inatingíveis que a mídia distorce e fotoxopa e enaltece e coloca em redomas cafonas. Mas porque são outros. Porque não são eu. E, quando se trata de gente que não é eu, a verdade é que dessa gente jamais saberemos grande coisa.
 
Saberemos, com sorte, alguma coisa de três pessoas na vida. Da vó. Do melhor amigo. Da ex-namorada. E mesmo assim, mesmo dessas pessoas de quem mais sabemos, pelo menos uma delas, algum dia, há de fazer algo tão imbecil ou genial e sobretudo tão imprevisível que ao menos sobre ela você terá de se perguntar, mas quem é esse sujeito que até ontem eu achava que conhecia tão bem? [Se você está achando isso dramático, pense na mulher do Zé Dirceu.]
 
Você pensa que conhece uma pessoa e um belo dia ela vê Jesus. Pensa que conhece uma pessoa e ela um dia começa a tocar trombone. Pensa que conhece e ela larga o emprego e desbunda. Pensa, e ela nunca mais retorna suas ligações. Na verdade, não precisa nem pensar. Basta piscar. Você pisca e, quando abre os olhos novamente, percebe que a pessoa de dentro da pálpebra não tem nada a ver com a pessoa de fora. De modo que, entre a sua vó, seu melhor amigo e sua ex-namorada, pode esquecer um deles. Restam agora apenas dois.
 
E jura mesmo que você espera que Chico, Caetano, Gil, Djavan se unam a essas duas pessoas que, mais do que amar, você  realmente conhece bem?
 
Sim, é estranho constatar que um ser capaz de canções geniais é também capaz de textos argumentativos colegiais (mas aí você pensa em si mesma e constata que fazer um risoto divino não lhe tornou mais hábil na solução de problemas matemáticos). É estranho perceber que nosso ídolo pode, às vezes, agir como um rematado idiota (mas aí você se lembra daquela vez em que trocou horas de potencial alegria por uma treta na internet).
 
Esse estranhamento, porém, é tão libertador.
 
Porque quando tiramos da frente o ídolo-idiota, sobra apenas…
 
A obra.
 
Nós nunca amamos esses caras. Amamos suas canções. São elas, aliás, a única coisa que faz com que suas biografias tenham qualquer interesse. Não amamos Chico nem Caetano nem porra de artista nenhum. Amamos grupos de palavrinhas escritas em determinada ordem e com determinada rima, grupos de notas organizadas em determinadas melodias, sequências de acordes que conhecemos de forma mais visceral que consciente. E é só.
 
E já é tanto.
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9 comentários sobre “Nunca amamos nossos ídolos

  1. isso aí! continuo amando as obras, mas confesso que to confusa. Parece que estão querendo esconder algo da gente ou que estamos sendo usados para que eles (eles quem?) conquistem algo que nós jamais saberemos. confuso? pois é.

  2. Só a garotada classe média, que pensa ter se redimido da vida de playboy depois de entrar na universidade pública, pra realmente ser tão ingênuo a ponto de esperar alguma atitude digna desses três. É só pra essa turma que esses dinossauros ainda fazem algum sentido. Esses aí já mostraram a que vieram desde que esqueceram, levianamente, de SImonal e Raul Seixas.

  3. Então, eu não me senti traída nem decepcionada nem nada assim, eu coloquei lá no borboletas, é gente, né? Com as fraquezas, vilanias, mesquinharias, pés na jaca, inconsistências de todo mundo e de qualquer um. Acho super ok uma pessoa dizer uma besteira vez ou outra, inda mais com tanta coisa que atravessa o tema, tantos fantasmas pessoais, tantos “pecados antigos” e uma culpa que eu suspeito que o ronde. Acho que se tem que bater – e muito – nessa ideia tosca e, mesmo, ridícula. Mas esse lance que anda por aí que a mpb tem pés de barro, bom, o “meu” chico sempre foi de sangue, osso, pele e talz. E os olhos, daquela cor de promessa, of course.

  4. Cam, você tem andado tão inspirada, que cada vez que meu feedly (#ViuvasGoogleReader) avisa que tem post novo, eu seguro a onda, e espero um momento de calma pra ler. Nunca me arrependo.

    Nós nunca amamos esses caras. A gente ama os escafandristas que virão, a gente ama um amor assim tão delicado, a gente ama o amor que é como um grão.

    (Ou não.)

    • Ótimo, Camila. Vou indicar a todos que dizem não entender porque “eu ainda gosto do Caetano”, leia-se, de sua obra ;-)

  5. me senti meio traída: e aí, onde eles (os que eu via) estão?
    enfim, concordo com a Deborah Leão: “A gente ama os escafandristas que…..”

    Vim hoje te conhecer, Camila. Tenho a certeza que vou voltar muitas vezes.

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