Vovô-cama

Ontem meus primos e eu nos encontramos para jogar as cinzas do nosso avô no mar.

Não eram cinzas, na verdade. Eram uns pedregulhinhos de variados tons de cinza. Decidi que as pedrinhas-cinza-claro eram a parte do meu avô que a gente podia ver, e as pedrinhas-cinza-escuro eram tudo o que ia por dentro, órgãos, ossos, nervos, tudo o que fica por debaixo da pele. Como é bom ser de humanas.

A ideia era sair de lancha e jogar as cinzas-pedrinhas em alto mar.

Levamos para a lancha o potinho contendo um saquinho com aquilo que chamamos erroneamente de “as cinzas do vovô”. Aquelas cinzas nunca foram “do vovô”. Ele nunca as teve. As cinzas eram… Ele. Ao mesmo tempo que, claro, não eram. Restos do vovô? Vovô sublimado?

Mas a vida prática tem seu jeito maravilhoso de atravessar qualquer reflexão semântico-filosófica com suas questões tão bestas, tão essenciais. Como se joga as cinzas de alguém no mar? Jogaríamos as cinzas com potinho e tudo? Sem potinho, dentro do saquinho plástico? Só as cinzas e nada de saquinho ou potinho?

Um dos primos fez a excelente observação segundo a qual se nosso avô pediu para ser cremado e não enterrado, é que ele não queria ficar confinado em um espaço diminuto, portanto melhor seria tirá-lo do potinho, ainda que o crematório tivesse tido o cuidado de nos entregar as cinzas (… as cinzas? o vovô? as cinzas do vovô?… As reflexões semântico-filosóficas têm um jeito maravilhoso de se imiscuírem nas questões práticas mais bestas e essenciais) em um potinho biodegradável.

Foram meus primos que tiveram a ideia de jogar … … … no lugar onde meu avô gostava de pescar. Eu não fiz nada, não pensei em nada, só fui na onda deles.

Que onda.

Primeiro era só um compromisso na agenda. Acordar cedo, pegar estrada, lembrar de passar protetor solar.

Até que os primos todos se reúnem (a última vez foi quando? há uns cinco natais?), os primos todos entram no bote, levam um caldo, sobem na lancha, um dos primos dirige a lancha (atividade para mim tão inconcebível quanto tocar tuba ou fazer suspiro), e de repente não é mais um compromisso na agenda: de repente aquilo é um acontecimento.

Chegamos no lugar onde meu avô levava meus primos para pescar. Eu nunca ia. Ficava em casa lendo e fazendo palavras-cruzadas com a minha avó.

Cada um falou “umas palavras”.

Um primo disse que achava que a paixão dele pelo mar tinha vindo do vovô.

Comecei a chorar ali e acho que não parei até agora, apesar de que meu rosto está sequinho, sequinho.

Me senti bastante idiota dizendo a um pacotinho de pedregulhos: “obrigada por ter ido me buscar na escola”. Mas não era qualquer pacotinho de pedregulhos, não era qualquer dia e, principalmente, eu teria me sentido duas vezes mais idiota se não tivesse dito nada.

Passei bem mal. Enjoei loucamente. Pensei demais no Robinson Crusoe e no Gulliver, livros que li tão recentemente. Pensei na minha mãe, que não está no mar.

E pensei que não faz sentido nenhum dizer que alguém “partiu”. “Se foi”. “Deixou de existir.” Nada deixa de existir. Ninguém vai embora. A NASA ainda não inventou um método de jogar os restos mortais das pessoas no espaço sideral. Os mortos continuam aqui mesmo, neste mundo. Eles apenas não são mais o que um dia foram.

Meu avô nunca mais será meu avô, mas ele está lá, em Ubatuba. Cama para os peixes, ele virou.

O Limbo das Meias

Solucionei um dos grandes mistérios da humanidade: descobri onde vão parar as meias que desaparecem quando as colocamos para lavar.

Minha primeira teoria era de que elas voavam pela janela quando estavam estendidas no varal e batia um vento, mas eu estava errada. Sábado passado, eu vi a mágica acontecer. Eu vi a meia sendo abduzida pelo saci bem na minha frente.

Fui tirar a roupa da máquina. Peguei uma mãozada de roupa molhada e…

A meia escapou do bolo de pano e esgueirou-se por entre o cilindro e a parede da lava-roupa.

Sim: a lava-roupa tem um cilindro, um cesto onde você joga a roupa. E existe um espaço entre esse cilindro e as paredes laterais da máquina, que é para o cilindro dar aquela chacoalhada legal.

A meia caiu ali.

Desconfio que não tenha sido a primeira, e nem será a última. Desconfio também que, se todos virássemos nossas máquinas de lavar de cabeça para baixo, nossas lavanderias seriam tomadas por meias solitárias, calcinhas tristonhas, bilhetes únicos, bilhetes de amor, guarda-chuvas e notas de dez reais.

A mulher da foto

Eu quase nunca penso na minha mãe. Ou talvez eu pense todos os dias, um segundo por dia. Mas alguns dias, é como se eu só vivesse para lembrar que minha mãe existiu.

***

Depois de um tempo, é fácil esquecer que as pessoas mortas foram vivas. As pessoas mortas sobrevivem como lembranças. Aquela vez que fomos a Paris. À venda da esquina. Ao simba safári. E vamos nos convencendo disso, que as pessoas mortas das nossas vidas são amálgamas de lembranças sem existência real que não em nossas cabeças, nas nossas e, no máximo, nas daqueles que compartilham conosco a pessoa morta em questão. É difícil, é difícil lembrar que aquele dia da venda da esquina em que ela me ensinou o que era broto de bambu, não era para ser uma lembrança, era para ser apenas mais um dia igual a todos os outros que se repetiriam pela vida afora. A Paris tudo bem, a Paris as pessoas vão para trazer lembranças, mas à venda da esquina vamos apenas para comprar os ingredientes do almoço.

E então de repente a pessoa morta existe como lembrança não apenas para mim meu pai minha avó minha tia mas também para dezenas, centenas de pessoas que não conheço, que não me conhecem, que só sabem de mim como a filha daquela moça que morreu, coitada.

Esta semana conheci uma mulher que conheceu minha mãe – só de longe, só de vista. A mulher nem sabia que minha mãe tinha morrido, mas minha mãe já sobrevivia como lembrança na cabeça dela.

“Era uma mulher elegantíssima”, disse.

Contei sobre o acidente. Minutos depois, ela volta com o marido. Perguntou se ele se lembrava de algum acidente fatal, há não sei quantos anos, na avenida tal e tal. Sim, ele lembrava. A vítima do acidente tinha sido professora de francês dele.

“Era uma mulher lindíssima”, disse.

Adorei a diferença no adjetivo. A mulher enfatizou o processo, percebeu ali uma inteligência em se vestir, se maquiar, se portar. O homem enfatizou o resultado do processo, a beleza final.

***

Uma amiga minha passou anos de sua vida bastante imersa e paralisada em um relacionamento amoroso naufragado. Fiquei com bastante aflição dessa amiga (não por acaso ela é e sempre será minha amiga). Eu, afundada no relacionamento amoroso primordial.

***

E tem as fotos. Uma foto, no caso. Não a foto que está na sala, esta é a foto para a qual se olha e não mais se vê. Mas uma foto 5×7, dessas de passaporte, com a diferença de que minha mãe está posicionada obliquamente em relação à câmera, o olhar firmemente centrado no além. Uma mulher tão diferente de mim. A pele tão mais escura, o cabelo tão mais crespo, o olhar mais expressivo, o nariz menos escandaloso, a boca menos desmesurada. E essa mulher que está lá, que não tem nada a ver comigo – existiu. Essa mulher abriu conta no banco. Tocou Chopin no piano. Virou a noite preparando aula. E eu não sei nada sobre essa mulher exceto esses detalhes. Exceto o que me contam. Exceto que, às vezes, sobrevém o horror.

***

“Pouco tempo depois que ela morreu, a escola de francês fechou, né?”, comentei com o homem de quem minha mãe tinha sido professora. Foi sim, ele respondeu. “Ela era a alma do negócio”.

Elegantíssima, lindíssima, alma do negócio – qualificadores que me são estranhos, que não brotaram da minha cabeça, que jamais apliquei a ela, e que não obstante não são menos legítimos que os meus. Eles não se aplicam à minha mãe. Eles se aplicam à mulher da foto.

***

O horror em nada se parece com a ausência da mulher da foto. É difícil ligar os pontos e acreditar que a mulher que existiu, a mulher da foto, é a mesma pessoa que mora na minha cabeça. Tenho muito mais intimidade com a pessoa que mora na minha cabeça. Convivo com ela há vinte e três anos.

Com a mulher da foto, convivi apenas dez.

A empatia não irá nos salvar (notas esparsas sobre algumas fotos)

– Adoro a página Humans of NY. Na verdade, acho que não conheço ninguém que não adore. Humans of NY é tipo Beyoncé, um produto cultural que é praticamente tabu não gostar. Como não apreciar os relatos sempre surpreendentes ou comoventes, as histórias tantas vezes edificantes, o espanto diante da vida extraordinária de pessoas ordinárias? Como não se encantar com tantas pessoas tão diferentes, com histórias de vida tão diversas, partilhando tantas vezes dos mesmos sofrimentos, apreensões, temores, esperanças?

– Estive na exposição de fotos do Eduardo Viveiros de Castro, com curadoria de Eduardo Sterzi e Veronica Stigger. Demorei a me acostumar com as imagens, a despeito de sua beleza. Na verdade, jamais cheguei a me acostumar. Em todas precisei recorrer a uma legenda, a uma palavra que me ajudasse a fazer sentido do corpo representado. Em todas, pessoas estranhas em situações estranhas. Um homem enfiado num buraco de cabeça para baixo com as pernas para cima, outros homens agachados em volta. A legenda salvadora: “homens desentocam tatu”.

– O fotógrafo/entrevistador de Humans of NY passou pelo Paquistão, agora está no Irã. Mas as pessoas, as pessoas são exatamente as mesmas de Nova York. Em todo lugar, alguém cuidando de um pai com câncer. Um jovem ambicioso que acaba de se formar e pretende dominar o mundo. Uma mãe aflita por estar desempregada. Um casal apaixonado fazendo planos para o futuro. Um rapaz expulso de casa por ser gay.

– Na exposição, uma moça sendo escarificada por uma pessoa mais velha para participar de uma cerimônia. E eu… Bem, eu faço depilação. Também dói. E no entanto…

– O fotógrafo de Humans of New York está na Ásia, mas a verdade é que tanto faz. Por onde passa, fotografa almas gêmeas. Mudam as roupas, a cor da pele. Os sentimentos são iguais. Somos todos humanos.

– Sendo perfeitamente honesta – não, não me identifiquei com a índia. Sua escarificação nada tem a ver com a minha depilação.

– Em Humans of NY, por detrás das diversas aparências, revela-se sempre a mesma essência: um só mundo; uma só humanidade.

– Em Variações do Corpo Selvagem, revela-se outra humanidade. Dane-se que somos todos humanos. Aqueles humanos são humanos de um jeito completamente diferente do meu. Aquelas jovens não poderiam ser eu fazendo depilação, aquele rapaz não poderia ser meu marido caçando o jantar, aqueles bebês não poderiam ser meus filhos. É outra gente, outra vida, outro modo de existência.

– Se vemos (e vejo sempre com prazer) as fotos de Humans of NY, saímos sempre com um novo amigo, uma nova irmã, um novo avô querido. Ainda e principalmente quando a pessoa retratada é, digamos, um mendigo por quem passamos reto na rua. O mendigo, minha nossa, mudadas algumas circunstâncias, poderia ser meu pai; poderia ser eu.

– Nenhum corpo retratado em Variações do Corpo Selvagem poderia ser o meu.

– Se devemos respeito ao outro *porque* no-fundo-no-fundo, por detrás das aparências, somos todos humanos… Para algum não-humano o desrespeito há de sobrar. Sempre há um não-humano da vez, ainda que o Humans of New York viaje pelo mundo inteiro. Somos todos humanos, mas alguns sempre são mais humanos do que outros. (Ou: somos todos humanos; o importante é alimentar, agasalhar e cuidar dos humanos; logo, se para isso for preciso pôr abaixo coisas não-humanas como rios e florestas, paciência; afinal, tudo pelos humanos.)

– Mas e se, em vez de uma humanidade, houver uma multiplicidade de corpos selvagens e de modos de vida?

– Imagens que mostram que alguns são mais humanos do que pensávamos que eram – que se aproximam mais dessa tal essência humana de que todos supostamente partilhamos –; imagens que mostram que iranianos e paquistaneses também fazem compras no shopping e se preocupam com seus pais e filhos… São imagens que, em última instância, nos ajudam a decidir quem merece viver e quem merece morrer. Se você é humano, ou mais humano do que eu pensava, talvez seja menos fácil aceitar que você leve drones na cabeça em nome da preservação do modo de vida americano.

(- Evidente que: se Eduardo Viveiros de Castro fotografasse em Nova York ou no Paquistão, teríamos corpos estranhos com os quais seria impossível empatizar. Se o fotógrafo de Humans of NY fosse ao Xingu, teríamos novos Aylan Kurdis.)

– Mas e se decidíssemos que o direito de viver não depende de uma humanidade intrínseca – humanidade, aqui, entendida como qualidade/característica de uma essência última? E se o direito de viver fosse concedido não a uma alma humana, e sim à totalidade dos corpos selvagens?

– “Se a fotografia de Aylan Kurdi é tão provocadora e parece dizer tanto, talvez seja porque, na verdade, ela nos fale simplesmente da dor genérica da morte, do medo da perda de um filho, sem que por isso possa comunicar a devastadora experiência da guerra.” (Artigo de Gabriel Zacarias.)

– A foto de Aylan poderia estar em Humans of NY. Todos podem projetar o próprio filho no rosto oculto do bebê estendido na praia. A foto teve o mérito de nos mostrar que os refugiados são, afinal, humanos.

– “A força da imagem (…) não está naquilo que ela revela, mas naquilo que ela oculta.” (idem)

– O que a foto revela: que Aylan não deveria ter morrido daquele jeito, pois era humano. O que a foto oculta: que Aylan morreu porque era índio – no caso, curdo.

– As fotos de Eduardo Viveiros de Castro revelam corpos índios.

– Corpos que, por serem índios, estão sendo exterminados.

A incrível geração de mulheres que se orgulham de não saber realizar tarefas domésticas

Para mim, a característica mais triste da Incrível Geração de Mulheres Modernas e Bem-Sucedidas não é nem o fato de que tais mulheres continuam vendo a conquista de um hómi-macho como o grande objetivo de sua existência.

Triste mesmo, a meu ver, é esse estranho orgulho em não saber realizar tarefas domésticas. Meu coraçãozinho de dona-de-casa enregela-se de compaixão toda vez que uma mulher bate no peito para dizer que não sabe diferenciar uma berinjela de uma abobrinha ou ligar o ferro de passar roupa. Naturalmente, não saber essas coisas não é motivo de vergonha para ninguém – mas por que deveria ser motivo de orgulho?

Ora, algumas mulheres parecem se orgulhar de não saber realizar as tarefas domésticas mais básicas – cozinhar o próprio legume, cuidar da própria roupa – como forma de valorizar as atividades que elas (aí sim) foram muito bem treinadas para fazer. Ao contrário de suas mães e avós, a Incrível Geração de Mulheres Que Assoviam e Chupam Cana foi educada para ter um trabalho e ser bem-sucedida nele. Nada mais justo, portanto, que se orgulhar de ter uma carreira exitosa quando se foi criada para isso.

Ocorre que, se você não sabe diferenciar a salsinha do coentro e o tira-limo do lustra-móveis, eu te garanto que 1) alguém na sua casa sabe 2) esse alguém, muito provavelmente, é uma mulher. Ou essa mulher é uma pessoa mais velha da sua família que não teve acesso à mesma educação que você, ou (mais provável) é uma empregada doméstica que (adivinhe) tampouco teve acesso à mesma educação que você.

A verdade é que a Incrível Geração de Mulheres Que Chupam Mel e Mascam Abelha só pode se orgulhar de sua inaptidão para as tarefas domésticas porque uma Outra Geração de Mulheres, que nunca ganha o epíteto de Incrível, está realizando essas tarefas em seu lugar. E poucas coisas me parecem mais reveladoras do tanto que ainda temos de caminhar para viver em uma sociedade justa do que a própria existência de uma Incrível Geração de Mulheres Ricas (quase sempre brancas) que ganham o mundo apenas para pôr uma Outra Geração de Mulheres Pobres (quase sempre negras) para realizar as tarefas domésticas em seu lugar.

Em tempo: não estou argumentando que contratar uma mulher para trabalhar como empregada doméstica seja uma atitude condenável. Estou falando de um impasse enfrentado pela sociedade brasileira, e não apontando dedos para casos específicos e individuais. Em outras palavras, não acho que você é uma pessoa melhor e admirável se você não tem uma empregada doméstica trabalhando em sua casa, assim como não a considero uma pessoa pior e execrável se, por um acaso, você contratou uma empregada.

Acho, isso sim, que nossa sociedade é pior pelo fato de tantas de nós sermos incapazes de imaginar nossas vidas sem uma diarista – e, claro, pelo fato de este ser um trabalho não valorizado e mal-remunerado, realizado exclusivamente por mulheres. E por que tantas de nós não conseguimos imaginar uma existência desprovida de empregadas? Porque desvalorizamos o trabalho que elas realizam. Porque achamos que são tarefas “menores” e “inferiores”, que não estão à nossa altura (nós, criadas para brilhar no mundo acadêmico e empresarial), em vez de encará-las como fatos inescapáveis da vida. A casa é uma extensão do corpo: cuidar da própria casa é (ou deveria ser) tão inevitável e indispensável quanto cuidar do corpo. Assim como é preciso escovar os dentes, é preciso lavar a louça. O problema não está em, eventualmente, terceirizar algumas tarefas (contratar um cabeleireiro que nos corte o cabelo ou uma empregada que nos lave a louça), mas em ver essas tarefas como indignas – e, no caso das tarefas domésticas, como “coisa de mulher”. Não é – não deveria ser – “coisa de mulher”. Deveria simplesmente ser coisa de todo mundo.

Deveria, mas não é. A ideia de que tarefas domésticas são “indignas” e “coisa de mulher” está tão arraigada em nossa sociedade que a mera ideia de um homem sendo pago para lavar nossos pratos e limpar nossos banheiros nos soa estranha. Não é de admirar, então, que as mulheres da Geração Incrível queiram distância dessas tarefas. É quase como se, para se afirmar como Mulher Incrível, fosse necessário alardear que você não sabe – ou não se sujeita a – lavar o próprio banheiro.

Só que, ao reforçar a ideia de que lavar banheiro é coisa de amélia submetida às hostes do patriarcado, você inadvertidamente empurra essa tarefa para outras mulheres – em vez de dividi-las com outros homens, que deveriam se responsabilizar por esse tipo de trabalho tanto quanto você. E deixa eu dizer uma coisa: quando todos os habitantes de uma casa – homens e mulheres – dividem o trabalho doméstico, é impressionante quão poucas tarefas sobram para que seja necessário contratar um(a) funcionário(a) para executá-las.

As tarefas em si não são indignas. O fato de elas terem de sobrar para mulheres pobres – em vez de serem divididas entre homens e mulheres de todas as classes sociais – é que é.

O Rico Idiota

Depois de infinitas reportagens sobre madames do interior que vêm de helicóptero a São Paulo para comprar bolsas de dez mil reais no shopping-aonde-não-se-chega-de-ônibus; sobre madames da capital que fizeram um protesto indignado no estacionamento desse mesmo shopping; sobre o rei do camarote extremamente afeito a coisas que “agregam”; sobre candidatos a reis do camarote que enchem o quarto da maternidade de charutos e uísque…

… estou ficando um pouco cansada dessas reportagens que bem poderiam ser chamadas de “Alá o Rico Idiota”.

Como os jornais não demoraram a perceber que esse tipo de notícia gera cliques, as reportagens de Alá o Rico Idiota estão cada vez mais bem feitas e bem-sucedidas em gerar níveis estratosféricos de vergonha alheia – quem não compartilhou nenhum meme do rei do camarote que atire a primeira bebida que pisca. Tenho a sensação de que as reportagens de Alá o Rico Idiota apelam justamente ao nosso amor-próprio: “os reis do camarote podem até ser ricos, mas são cafonas e idiotas – já eu, bem, eu sou apenas classe-média, mas pelo menos tenho noção do ridículo”.

Mas o Rico Idiota pode ser um personagem muito conveniente para quem, se não gasta milhares de reais em bebidas que piscam, já era classe média muito antes do primeiro governo Lula (é o meu caso e o da maioria das pessoas com quem convivo). O Rico Idiota reforça a ideia de que quem tem poder econômico na sociedade é sempre o outro, nunca eu: a óbvia disparidade econômica entre a classe média tradicional e os Ricos Idiotas (ninguém em meu círculo social gasta dez mil reais em bolsas e champanhes) cria a ilusão de que estamos mais próximos de nossas faxineiras e manicures do que de fato somos. Se rico e privilegiado é apenas o rei do camarote e a comedora de coxinha de ossobuco, então eu e o pessoal que ganha um ou dois salários mínimos tamojunto nos 99%.

Outra coisa que tem me incomodado nas reportagens de Alá o Rico Idiota é uma consideração bem simples: edição é tudo. Se um repórter acompanhado de um cinegrafista passasse tempo suficiente comigo e fizesse as perguntas certas, não seria difícil que eu dissesse, despretensiosamente, as seguintes frases: 

– Detesto funk carioca e sertanejo universitário.

– Gosto de jazz e MPB.

– Acho o governo Dilma uma decepção.

– Acho os laticínios brasileiros um horror e sinto muita falta do iogurte que eu tomava quando morava nos Estados Unidos.

Faça a edição correta destas quatro frases em vídeo e voilà – nasce, se não propriamente uma Rica Idiota, no mínimo uma Coxinha Esnobe para regalo e deleite da internet.

E mais: para além da edição do vídeo propriamente dita, há também a inevitável edição mental que cada espectador fará do vídeo, que não raro tenderá a privilegiar os elementos que compõem a figura do Rico Idiota e desconsiderar aqueles que não se adequam ao perfil. Também havia dadinho de tapioca no camarote dos yellow blocs, mas falou-se apenas da coxinha de ossobuco; houve pelo menos um rapaz que criticou as vaias à Dilma, mas preferiu-se enfatizar a fala daqueles que apoiaram o xingamento.

Se escrevo este texto, não é para defender gente que certamente não precisa de defesa alguma – nem muito menos para argumentar que #SomosTodosCoxinhaDeOssobuco, pois ainda que o elitismo seja generalizado entre a classe média, o fato é que a maioria de nós não tem mil reais sobrando para gastar na baladjeenha da Copa.

Escrevo este texto porque, além de cansada dessa fórmula caça-cliques, a reportagem dos yellow blocs, diferentemente de reportagens semelhantes que a precederam, não está sendo compartilhada apenas no espírito da zuêra: algumas pessoas também a estão usando como argumento para a eleição.

O argumento é: ou você está com Dilma, ou você está com os yellow blocs. Ou reelegemos Dilma, ou colocaremos um Rico Idiota no poder. 

O problema desse argumento não é só que os ricos – tanto os idiotas quanto os nada bobos – já estão muito bem representados no poder (como, aliás, sempre estiveram). O problema é pensar o Brasil como se não existisse vida para além do PT: se você não é um Rico Idiota que come coxinha de ossobuco e odeia o PT, então só lhe resta votar no PT. Como se tudo na política brasileira precisasse se estruturar em torno do PT: ame-o ou deixe-o. Vote Dilma ou seja um fac-símile de Rico Idiota – com a diferença de que os Ricos Idiotas pelo menos são ricos, e você, não votando em Dilma, será apenas um idiota.

Não há Rico Idiota no Brasil que me preocupe tanto quanto essa ideia de que, em política, temos apenas duas opções: PT ou anti-PT.

Começou a Copa que já não teve

1. Já deixei claro que não considero o futebol uma coisa menor, coisa de alienado, coisa de coxinha, coisa de hómi besta correndo atrás da bola. Considero esses argumentos imbecis e toscos. Considero o futebol tão importante, por exemplo, quanto a literatura. O fato de que eu gosto de uma e não me importo com o outro diz algo sobre mim – não diz absolutamente nada sobre a importância relativa do futebol e da literatura.

2. Isto posto, eu não tenho cabeça para discutir literatura – ainda que seja a literatura que mais amo; ainda que sejam livros de Dostoiévski e de Guimarães Rosa – enquanto essa discussão está sendo garantida e possibilitada por bombas explodindo lá fora.

3. Sim, sempre haverá bombas lá fora – e, espera-se, sempre haverá literatura. Ocorre que, no presente caso, o Congresso Literário está sendo realizado às custas da integridade física de algumas pessoas – por mais que você insista em dizer que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”.

4. “Mas eu tenho o direito de torcer pela Seleção Brasileira!” É claro que tem. NINGUÉM está tendo esse direito negado. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito daqueles que têm o direito de protestar contra a realização da Copa da forma como ela se deu – nem daqueles que têm o direito de fazer greve por melhores salários.

5. Respeito seu direito de torcer pela Seleção Brasileira na mesma medida em que respeito seu direito de votar no Alckmin. Apenas, por favor, não conte comigo para isso. Não é tanto uma questão de convicção política quanto é uma questão de estômago.

Itens 6 e 7 que se fizeram tristemente necessários:

6. Releia o item anterior. Eu não disse que se você torce para a Seleção Brasileira você é eleitor do Alckmin. Eu também não disse que torcer para a Seleção Brasileira é um ato tão desprezível quanto votar no Alckmin.

7. Não estou lhe criticando por torcer pela Seleção Brasileira – não precisa se sentir ofendido. Este texto é para explicar por que EU não torço – o que, obviamente, não representa nenhuma superioridade moral de minha parte. Minha não-torcida indica apenas e simplesmente, reitero, uma fraqueza de estômago.