Lembretes

Ter um amigo negro não faz de você um especialista em questões raciais.

(Ter um amigo branco não faz de você um especialista em questões raciais; por que seu amigo negro teria esse poder mágico?)

Ter um amigo gay não faz de você um especialista em questões de orientação sexual.

(Ter um amigo heterossexual não faz de você um especialista em questões de orientação sexual; por que seu amigo gay teria esse poder mágico?)

Gostar de ler livros não faz de você uma pessoa melhor.

(Gostar de assistir TV não faz de você uma pessoa melhor; por que o livro teria esse poder mágico?)

Não gostar de BBB não faz de você um intelectual.

(Não gostar de espinafre não faz de você um intelectual; por que o BBB teria esse poder mágico?)

E, acima de tudo, não jogar Candy Crush nem nenhum outro joguinho não faz de você uma pessoa espiritualmente iluminada.

Os Capitais

Faz uma semana que o Itaú me comunicou que sou uma grande fã do Capital Inicial.

Recebi um e-mail informando que meu pedido por um show da banda enfim fora atendido.

Xinguei o e-mail mentalmente. Quão arrogante uma empresa precisa ser para achar que sabe qualquer coisa a respeito do meu gosto musical?

Então recebi outro e-mail do Itaú, de rotina.

E me dei conta de que há muito mais tempo o Itaú vem me comunicando que, para realizar meus sonhos, preciso ganhar muito dinheiro.

Esses e-mails sobre os meus sonhos, eu nunca xinguei.

Nunca perguntei “Quão arrogante uma empresa precisa ser para achar que sabe qualquer coisa a respeito dos meus sonhos?”

Mas afirmar que preciso de capital é fazer uma suposição tão arbitrária quanto afirmar que gosto de Capital.

A única diferença é que, se o Itaú me convencer de que gosto de Capital, irei ao show da banda e o banco terá um lucro xis.

E, se o Itaú me convencer de que preciso de capital para realizar meus sonhos, ganharei muito dinheiro e o banco terá um lucro mil-xis.

Um beijo, Dinho Ouro Preto.

Um militar, cem civis

Generation Kill é o relato de um repórter que passou alguns meses junto de uma divisão de elite do Exército dos EUA durante a invasão ao Iraque, em 2003. Em determinado momento da invasão, um soldado atira em um menino desarmado de cerca de 12 anos. Depois de alguns empecilhos burocráticos, o exército americano presta socorro à vítima – e o comandante faz um bonito discurso para seus comandados:

“Ao atirar, precisamos nos certificar de que estamos sob ameaça. É preciso ver que estas pessoas são exatamente como nós. É preciso ver além das cabanas, dos camelos, das roupas diferentes que eles vestem. Eles são apenas pessoas. Esta família aqui pode perder um filho. Além disso, atiramos em seus camelos. Um camelo morto pode significar a renda de um ano inteiro. Não estamos aqui para destruir o modo de viver dessas pessoas.”

Vai dizer que você não se emocionou? Que não escorreu uma lagriminha? “Existe esperança para a humanidade!” “Existem pessoas boas no mundo!” “Ah se a PM do Rio fosse assim!”

Então você continua lendo o discurso:

“Não estou dizendo para vocês não se protegerem. Se for o caso de perder um militar versus uma centena de civis, salvarei o militar.”

Não é que não existem pessoas boas no mundo. Não só elas existem como, em um bom dia, elas podem até mesmo ser você (ou eu) (ou o comandante do Exército dos EUA).

O problema é que, se você tiver paciência para ouvi-las por tempo suficiente, você descobrirá que mesmo as melhores pessoas, em seus melhores dias, acreditam sinceramente em que:

1) Somos todos iguais.

2) Todas as vidas são igualmente valiosas.

3) Algumas vidas valem cem vezes mais do que outras.

***

Texto original, p. 230:

“We must be sure when we take a shot that we are threatened. You have got to see that these people are just like you. You’ve got to see past the huts, the camels, the different clothes they wear. They’re just people. This family here might lose a son. We shot their camels, too. If you kill one camel, that could be a year’s income. We are not here to destroy their way of life.”

“I’m not saying don’t protect yourselves. If it’s a case of losing one Marine versus one hundred civilians, I will save the Marine.”

O mito da real mulher

A capa dupla da revista TPM, que tanto circulou ontem, inicialmente me incomodou por um motivo óbvio: eis que de repente uma revista que põe na capa uma moça branca, magra e dentro dos padrões de beleza passa a ser vista por metade da minha TL como contestadora e revolucionária. Fiquei com vontade, então, de explicar melhor o meu incômodo.

Sem dúvida, a estratégia de marketing de TPM é bastante inteligente. Eu descreveria as duas capas da seguinte forma: a primeira, “falsa”, ironiza as revistas femininas tradicionais, mostrando a atriz Alice Braga de maiô e fazendo cara de quem está se esforçando para ser sensual; a segunda, por oposição, é a capa “verdadeira”, mostrando a mesma atriz em roupas confortáveis e postura relaxada.

A justaposição das fotos é cuidadosamente pensada para nos fazer esquecer que ambas foram igualmente produzidas e retocadas; para nos fazer esquecer que ambas reforçam o mesmo (e dominante) padrão de beleza. A segunda capa, em particular, parece transmitir a ideia de que, para ser uma pessoa famosa, rica, linda, bem-sucedida etc., basta “ser você mesma” – isto é, usar uma ropticha véia de academia e dispensar o laquê no cabelo – que um dia você chega lá.

A Juliana fez uma ótima análise das capas, apontando uma contradição fundamental da TPM em um assunto que adoramos fingir que não existe: o dinheiro. As jovens, belas e bem-sucedidas mulheres retratadas por TPM têm estilos de vida certamente não-financiáveis por profissões “de humanas”. A conta não fecha, por assim dizer: o não-dito da capa em que Alice Braga aparece sorridente é que pertencer aos padrões de beleza (e, de forma mais ampla, levar o estilo de vida das mulheres retratadas pela revista), longe de ser algo que ocorre “naturalmente”, custa dinheiro – um dinheiro que poucas mulheres podem pagar. É sobre dinheiro que TPM insiste em não falar quando mostra em suas páginas pessoas cujas profissões, nas palavras da Juliana, “não comportam o nível de consumo que (…) aparentam ter trabalhando a quantidade de horas que (…) alegam trabalhar.”

E é sobre dinheiro, insisto eu, que TPM continua não falando ao se colocar como a alternativa autêntica/real/verdadeira ao universo fake de Nova com suas mulheres cheias de brilhos e silicones na capa. Enquanto a mulher de Nova seria apenas uma construção imaginária com o objetivo de nos fazer gastar dinheiro em produtos de beleza e outras quinquilharias, a mulher de TPM, por outro lado, seria a “mulher verdadeira”, a mulher do mundo real, que consegue ser sexy mesmo usando roupas confortáveis. O pulo do gato, que escamoteia a dimensão econômica do que está em jogo, é esta oposição entre falsidade e realidade. A capa de TPM nos faz crer que apenas a mulher de Nova é um constructo imaginário cujo objetivo último é gerar lucro; nos faz crer que TPM sim mostra a mulher de verdade, a mulher-como-ela-realmente-é. Como se produto fosse só o que Nova vende; como se TPM estivesse preocupada apenas em celebrar a verdadeira e autêntica mulher que há em cada uma de nós.

Pois bem: ambas são constructos. Ambas são ideais. É disso que as revistas femininas (e masculinas também, diga-se) vivem: da construção e promoção de um ideal, por definição inatingível, a ser perseguido pelas leitoras. A “mulher real” de TPM é tão imaginária quanto as deusas do sexo de Nova ou as rainhas do lar de Claudia. É mais um produto a ser vendido e consumido, com a particularidade de que finge ser “autêntico” (isto é, finge não ser um produto). Em suma, TPM, assim como Dove, faz uso do nosso anseio por autenticidade – do nosso cansaço com o mundo das celebridades perfeitas que já acordam maquiadas de manhã – para vender um produto, a “mulher real”,  que nos “liberta” da opressão das dietas e dicas sexuais acrobáticas apenas para vender uma ideia tão opressora quanto: a de que é possível custear o estilo de vida bacana e descolado que a revista mostra trabalhando pouco e ganhando menos ainda.

Nada disso quer dizer que Nova e TPM sejam “tudo a mesma coisa”. Os produtos – isto é, os ideais de mulher / estilos de vida – que as revistas vendem não poderiam ser mais diferentes – e, estilo de vida por estilo de vida, o meu certamente não envolve enlouquecer homens e testar dietas. Só acho que seria interessante – para não dizer honesto – se TPM reconhecesse que o seu ideal de mulher, em primeiro lugar, é apenas um ideal; e, mais que isso, um ideal tão ou mais inatingível do que aquele que ela chama de mentiroso. Quem é que está mentindo mesmo?