A mulher da foto

Eu quase nunca penso na minha mãe. Ou talvez eu pense todos os dias, um segundo por dia. Mas alguns dias, é como se eu só vivesse para lembrar que minha mãe existiu.

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Depois de um tempo, é fácil esquecer que as pessoas mortas foram vivas. As pessoas mortas sobrevivem como lembranças. Aquela vez que fomos a Paris. À venda da esquina. Ao simba safári. E vamos nos convencendo disso, que as pessoas mortas das nossas vidas são amálgamas de lembranças sem existência real que não em nossas cabeças, nas nossas e, no máximo, nas daqueles que compartilham conosco a pessoa morta em questão. É difícil, é difícil lembrar que aquele dia da venda da esquina em que ela me ensinou o que era broto de bambu, não era para ser uma lembrança, era para ser apenas mais um dia igual a todos os outros que se repetiriam pela vida afora. A Paris tudo bem, a Paris as pessoas vão para trazer lembranças, mas à venda da esquina vamos apenas para comprar os ingredientes do almoço.

E então de repente a pessoa morta existe como lembrança não apenas para mim meu pai minha avó minha tia mas também para dezenas, centenas de pessoas que não conheço, que não me conhecem, que só sabem de mim como a filha daquela moça que morreu, coitada.

Esta semana conheci uma mulher que conheceu minha mãe – só de longe, só de vista. A mulher nem sabia que minha mãe tinha morrido, mas minha mãe já sobrevivia como lembrança na cabeça dela.

“Era uma mulher elegantíssima”, disse.

Contei sobre o acidente. Minutos depois, ela volta com o marido. Perguntou se ele se lembrava de algum acidente fatal, há não sei quantos anos, na avenida tal e tal. Sim, ele lembrava. A vítima do acidente tinha sido professora de francês dele.

“Era uma mulher lindíssima”, disse.

Adorei a diferença no adjetivo. A mulher enfatizou o processo, percebeu ali uma inteligência em se vestir, se maquiar, se portar. O homem enfatizou o resultado do processo, a beleza final.

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Uma amiga minha passou anos de sua vida bastante imersa e paralisada em um relacionamento amoroso naufragado. Fiquei com bastante aflição dessa amiga (não por acaso ela é e sempre será minha amiga). Eu, afundada no relacionamento amoroso primordial.

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E tem as fotos. Uma foto, no caso. Não a foto que está na sala, esta é a foto para a qual se olha e não mais se vê. Mas uma foto 5×7, dessas de passaporte, com a diferença de que minha mãe está posicionada obliquamente em relação à câmera, o olhar firmemente centrado no além. Uma mulher tão diferente de mim. A pele tão mais escura, o cabelo tão mais crespo, o olhar mais expressivo, o nariz menos escandaloso, a boca menos desmesurada. E essa mulher que está lá, que não tem nada a ver comigo – existiu. Essa mulher abriu conta no banco. Tocou Chopin no piano. Virou a noite preparando aula. E eu não sei nada sobre essa mulher exceto esses detalhes. Exceto o que me contam. Exceto que, às vezes, sobrevém o horror.

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“Pouco tempo depois que ela morreu, a escola de francês fechou, né?”, comentei com o homem de quem minha mãe tinha sido professora. Foi sim, ele respondeu. “Ela era a alma do negócio”.

Elegantíssima, lindíssima, alma do negócio – qualificadores que me são estranhos, que não brotaram da minha cabeça, que jamais apliquei a ela, e que não obstante não são menos legítimos que os meus. Eles não se aplicam à minha mãe. Eles se aplicam à mulher da foto.

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O horror em nada se parece com a ausência da mulher da foto. É difícil ligar os pontos e acreditar que a mulher que existiu, a mulher da foto, é a mesma pessoa que mora na minha cabeça. Tenho muito mais intimidade com a pessoa que mora na minha cabeça. Convivo com ela há vinte e três anos.

Com a mulher da foto, convivi apenas dez.

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De como nasce um sonho musical

Restos diurnos:

1. Anteontem: comprei ingressos para o show de lançamento do disco novo de Guinga;
2. Ontem: no salão de beleza, à tarde, passava uma novela no vale a pena ver de novo; tocou uma música de Lenine;
3. Hoje: conversei sobre Lacan no tuíter.

Sonho-resultado:

Guinga + Lenine + baião de Lacan = MINGUS SAMBA na cabeça a manhã toda

Bom dia :-)

A empatia não irá nos salvar (notas esparsas sobre algumas fotos)

– Adoro a página Humans of NY. Na verdade, acho que não conheço ninguém que não adore. Humans of NY é tipo Beyoncé, um produto cultural que é praticamente tabu não gostar. Como não apreciar os relatos sempre surpreendentes ou comoventes, as histórias tantas vezes edificantes, o espanto diante da vida extraordinária de pessoas ordinárias? Como não se encantar com tantas pessoas tão diferentes, com histórias de vida tão diversas, partilhando tantas vezes dos mesmos sofrimentos, apreensões, temores, esperanças?

– Estive na exposição de fotos do Eduardo Viveiros de Castro, com curadoria de Eduardo Sterzi e Veronica Stigger. Demorei a me acostumar com as imagens, a despeito de sua beleza. Na verdade, jamais cheguei a me acostumar. Em todas precisei recorrer a uma legenda, a uma palavra que me ajudasse a fazer sentido do corpo representado. Em todas, pessoas estranhas em situações estranhas. Um homem enfiado num buraco de cabeça para baixo com as pernas para cima, outros homens agachados em volta. A legenda salvadora: “homens desentocam tatu”.

– O fotógrafo/entrevistador de Humans of NY passou pelo Paquistão, agora está no Irã. Mas as pessoas, as pessoas são exatamente as mesmas de Nova York. Em todo lugar, alguém cuidando de um pai com câncer. Um jovem ambicioso que acaba de se formar e pretende dominar o mundo. Uma mãe aflita por estar desempregada. Um casal apaixonado fazendo planos para o futuro. Um rapaz expulso de casa por ser gay.

– Na exposição, uma moça sendo escarificada por uma pessoa mais velha para participar de uma cerimônia. E eu… Bem, eu faço depilação. Também dói. E no entanto…

– O fotógrafo de Humans of New York está na Ásia, mas a verdade é que tanto faz. Por onde passa, fotografa almas gêmeas. Mudam as roupas, a cor da pele. Os sentimentos são iguais. Somos todos humanos.

– Sendo perfeitamente honesta – não, não me identifiquei com a índia. Sua escarificação nada tem a ver com a minha depilação.

– Em Humans of NY, por detrás das diversas aparências, revela-se sempre a mesma essência: um só mundo; uma só humanidade.

– Em Variações do Corpo Selvagem, revela-se outra humanidade. Dane-se que somos todos humanos. Aqueles humanos são humanos de um jeito completamente diferente do meu. Aquelas jovens não poderiam ser eu fazendo depilação, aquele rapaz não poderia ser meu marido caçando o jantar, aqueles bebês não poderiam ser meus filhos. É outra gente, outra vida, outro modo de existência.

– Se vemos (e vejo sempre com prazer) as fotos de Humans of NY, saímos sempre com um novo amigo, uma nova irmã, um novo avô querido. Ainda e principalmente quando a pessoa retratada é, digamos, um mendigo por quem passamos reto na rua. O mendigo, minha nossa, mudadas algumas circunstâncias, poderia ser meu pai; poderia ser eu.

– Nenhum corpo retratado em Variações do Corpo Selvagem poderia ser o meu.

– Se devemos respeito ao outro *porque* no-fundo-no-fundo, por detrás das aparências, somos todos humanos… Para algum não-humano o desrespeito há de sobrar. Sempre há um não-humano da vez, ainda que o Humans of New York viaje pelo mundo inteiro. Somos todos humanos, mas alguns sempre são mais humanos do que outros. (Ou: somos todos humanos; o importante é alimentar, agasalhar e cuidar dos humanos; logo, se para isso for preciso pôr abaixo coisas não-humanas como rios e florestas, paciência; afinal, tudo pelos humanos.)

– Mas e se, em vez de uma humanidade, houver uma multiplicidade de corpos selvagens e de modos de vida?

– Imagens que mostram que alguns são mais humanos do que pensávamos que eram – que se aproximam mais dessa tal essência humana de que todos supostamente partilhamos –; imagens que mostram que iranianos e paquistaneses também fazem compras no shopping e se preocupam com seus pais e filhos… São imagens que, em última instância, nos ajudam a decidir quem merece viver e quem merece morrer. Se você é humano, ou mais humano do que eu pensava, talvez seja menos fácil aceitar que você leve drones na cabeça em nome da preservação do modo de vida americano.

(- Evidente que: se Eduardo Viveiros de Castro fotografasse em Nova York ou no Paquistão, teríamos corpos estranhos com os quais seria impossível empatizar. Se o fotógrafo de Humans of NY fosse ao Xingu, teríamos novos Aylan Kurdis.)

– Mas e se decidíssemos que o direito de viver não depende de uma humanidade intrínseca – humanidade, aqui, entendida como qualidade/característica de uma essência última? E se o direito de viver fosse concedido não a uma alma humana, e sim à totalidade dos corpos selvagens?

– “Se a fotografia de Aylan Kurdi é tão provocadora e parece dizer tanto, talvez seja porque, na verdade, ela nos fale simplesmente da dor genérica da morte, do medo da perda de um filho, sem que por isso possa comunicar a devastadora experiência da guerra.” (Artigo de Gabriel Zacarias.)

– A foto de Aylan poderia estar em Humans of NY. Todos podem projetar o próprio filho no rosto oculto do bebê estendido na praia. A foto teve o mérito de nos mostrar que os refugiados são, afinal, humanos.

– “A força da imagem (…) não está naquilo que ela revela, mas naquilo que ela oculta.” (idem)

– O que a foto revela: que Aylan não deveria ter morrido daquele jeito, pois era humano. O que a foto oculta: que Aylan morreu porque era índio – no caso, curdo.

– As fotos de Eduardo Viveiros de Castro revelam corpos índios.

– Corpos que, por serem índios, estão sendo exterminados.