Sálvia

Se eu tivesse de deixar um e apenas um conseho, recomendação, pílula de sabedoria para a posteridade, seria o seguinte:

PLANTE SÁLVIA

Não importa onde você mora: um vasinho de sálvia bem pequenininho cabe no batente de qualquer janela. O meu eu ganhei da minha sogra, e não durou nem duas semanas: RIP sálvia. Então minha sogra me deu outro vasinho, eu não fiz absolutamente nada de diferente com ele – botei no mesmo lugar e reguei a cada 2/3 dias – e desta vez a sálvia vingou. (Talvez um conselho melhor ainda fosse “tenha uma sogra que te dê plantinhas de presente”, mas vamos focar na sálvia por hoje.)

Plante sálvia, tenha sempre uma sálvia por perto. Porque um dia, o seu avô vai morrer. E você estará sozinha em casa, à noite, e a sopa de mandioquinha que você fez para o almoço não deu muito certo, e você estará pensando no seu avô, na sua avó, que não morreu, e na PEC 241, que também está vivinha da silva, e então você irá à varanda e colherá uma, duas, três, oito folhinhas de sálvia. Você colocará macarrão para ferver, fritará uns cubinhos de bacon, jogará uma manteiguinha por cima, desligará o fogo, lançará na frigideira as oito folhas de sálvia, escorrerá o macarrão, acrescentá-lo-á (leave the mesóclise alone, pls) à misturinha de bacon, manteiga e sálvia, jogará muito parmesão ralado por cima de tudo, e comerá sentindo um quentinho na barriga e um abracinho no peito.

Tudo culpa da sálvia, que perfuma a manteiga e mostra que o seu avô tinha mesmo razão,  viver é bom e macarrão nunca é demais.

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O.

Everyone sometime has somebody close die,

between to be or not to be

he’s forced to choose the latter.

 

We can’t admit that it’s a mundane fact,

subsumed in the course of events,

in accordance with procedure:

(Wislawa Szymborska)

 

Meu avô, um touro, o homem mais forte que conheci, que fez musculação até quase os oitenta anos. Meu avô, que de manhã preparava um lanche de pão com manteiga, queijo, requeijão, salame, geleia e depois chuchava tudo no café com leite.

Meu avô, mecânico especialista em câmbio hidramático, dos poucos que havia em São Paulo nos anos 1950.

Meu avô que ouvia Nelson Gonçalves, Ray Conniff e uns discos de flauta paraguaia desses que vendem na Praça da Sé, e que um dia ganhou de mim uma fita cassete cheia de Frank Sinatra e Ella Fitzgerald, e gostou.

Ele me buscava na escola, às vezes. Quando casei, ele disse ao meu marido: “você é gente fina!”, e ele nem sabia nada sobre o meu marido, e mesmo assim ele acertou.

Meu avô que queria jogar uma bomba no Congresso. Que gostava da praia, mas mais ainda da cidade e do concreto; que admirava Niemeyer a ponto de ir a Brasília para a inauguração.

Meu avô eleitor fiel do Maluf, que me explicou por que o Lula perdeu um dedo no torno: “você já viu um torno?” “não, vô” “pois se tivesse visto saberia que o Lula perdeu o dedo de propósito só para nunca mais precisar trabalhar, porque não é possível alguém perder um dedo no torno, tem que ser muito imbecil”.

Ele era o rei das frutas, a fruteira da casa de meus avós sempre transbordou de cheiros e cores e eu tinha certeza de que a fruta preferida dele era abacaxi, mas naquela que eu considero que foi a nossa despedida, ocorreu-me perguntar de qual fruta ele mais gostava, e ele pensou muito sério (fora uma pergunta séria, de fato) e respondeu que a fruta que ele realmente não poderia viver sem era mamão, sem o mamão matinal ele não era ninguém.

Uma vez fomos a um show da Gal Costa e sentamos na primeira fileira. Ela cantou Folhetim olhando nos olhos dele. Nunca vi meu avô sorrir com tantos dentes quanto naquela noite.

Meu avô, que pescava em alto mar. Que torcia pelo Palmeiras. Que fundou uma fábrica com os filhos. E que trabalhava, todos os dias, no chão da fábrica, enrolando fio, fazendo o que precisasse.

Meu avô que me ensinou que eu nunca aprendo que as pessoas morrem.