O ano em que não pudemos concordar em mais nada

Este foi para mim o ano em que não pudemos concordar em mais nada, ou quase nada.

Este foi o ano em que se você perguntou:

– Podemos todos concordar que é errado um policial executar um cidadão desarmado?

Você certamente ouviu:

– Não, não podemos, porque temos que ver o outro lado, o lado do policial que estava apenas fazendo o seu trabalho.

Outras perguntas e respostas que marcaram este ano:

Podemos todos concordar que a inflação está alta e que isto é um problema?

Não, não podemos, porque no governo FHC a inflação era ainda maior.

Podemos todos concordar que não é correto um governador construir um aeroporto com dinheiro público na fazenda do vovô?

Não, não podemos, porque o importante é tirar os petralhas do poder.

Podemos todos concordar que não é razoável acusar a presidenta da República de assassinato?

Não, não podemos, porque se o doleiro não morreu, nós bem sabemos do que a presidenta era capaz na sua época de terrorista.

Podemos todos concordar que o governo administrou mal a Petrobras?

Não, não podemos, porque a corrupção na Petrobras começou no governo FHC.

Podemos todos concordar que não é democrático prender manifestantes que não cometeram nenhum crime?

Não, não podemos, porque vai que eles eram black bloc.

Podemos todos concordar que um deputado não deveria ameaçar ninguém de estupro?

Não, não podemos, porque pelo menos o deputado tem a coragem de dizer o que pensa.

Podemos todos concordar que falta água em São Paulo?

Não, não podemos, porque na minha casa não falta água.

Se em 2015 pudermos todos concordar que Boko Haram, Isis e Talebã não são organizações fofinhas, para mim já vai estar de bom tamanho.

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Não anote esta receita

Não é comida chique, não é gourmet, não serve para impressionar a sogra nem as visitas, não serve para seduzir o homem nem a mulher amada, não é light nem diet, não ajuda a emagrecer cinco quilos em três dias, não serve para ganhar concurso de cozinheiro, não é uma receita que valha a pena anotar com todo o cuidado.

Para que serve, então?

Serve para você ter um almoço feliz num dia em que você tiver frango, cebola, damasco, laranja e shoyu na sua casa. Faz assim, ó:

1. Tempera uns 250 gramas de cubos de peito de frango com sal, pimenta do reino e o suco de um limão. Peneira duas colheres de sopa de farinha de trigo em cima do frango e mistura bem. Deixa ele lá.

2. Pica uns dez damascos secos em pedaços pequenos e uma cebola em rodela. Deixa eles lá.

3. Espreme uma laranja numa xícara (de preferência usando um coador para interceptar as sementes) e deixa o suco ali.

3. Aquece uma porção generosa de manteiga numa frigideira grandona e funda. Eu disse generosa, senão os deuses da cozinha castigam.

4. Frita o frango no fogo baixo até ele ficar bem moreninho. Vai virando pra fritar de todos os lados. Não tenha pressa. Vai fritando porque já há suficientes tristezas na vida e você não quer deixá-la mais triste ainda com um frango branco. Enquanto o frango vai fritando – isso vai levar uns 20 ou 30 minutos -, vai preparando a salada, o arroz, vai pensando na vida, vai ligando para a sua mãe que ela vai ficar feliz de saber que você está preparando o almoço.

5. O frango morenou? Tirou da frigideira e deixou ele quietinho numa vasilha à parte. Põe mais manteiga na frigideira (não precisa ser generoso agora), põe a cebola lá, deixa amolecer, abaixa o fogo, põe o damasco, deixa mais uns dez minutos até a cebola ficar morena que nem o frango, joga o suco de laranja, joga uma quantidade parecida de shoyu, deixa borbulhar, deixa reduzir, acrescenta o frango que você já tinha fritado e pronto, serve com arroz, serve com salada, tá feito o almoço.