Diário de um menino paulista

Querido diário,

Hoje foi um dia como todos os outros aqui onde eu moro, no estado de São Paulo. No meu estado, a gente resolve os problemas com a polícia. Às vezes dá algum xabu, mas aqui a gente chama os xabus de “incidentes isolados”. Eu li na internet que teve 424 incidentes isolados só no primeiro semestre deste ano, e que 50 incidentes isolados acontecem todos os meses desde 1995. E 1995 é um ano muito antigo, diário querido, eu nem tinha nascido ainda.

Além disso, o mesmo moço do último incidente isolado cometeu outro incidente igualmente isolado em março deste ano. Perguntei pra minha professora como que faz para isolar tanto incidente assim. Constrói uma cerquinha em volta? A professora disse que essas coisas são complicadas, mas que o importante é sempre olhar os dois lados de toda história e separar os bons policiais dos maus. Ela disse também que quando eu crescer e virar um homem de bem, eu vou entender tudo isso muito melhor.

Como sou pequeno, ainda não entendo muito bem, mas minha professora deve estar certa, porque o policial do último incidente isolado foi solto pela Justiça hoje. Ele com certeza deve ser um homem de bem, que nem um dia eu vou ser quando eu for grande.

Enquanto isso, também aqui no estado de São Paulo, um monte de vândalos baderneiros saíram quebrando tudo em uma cidade do interior. Parece que faz 7 meses que os baderneiros não têm água em casa, mas isso não é motivo para vandalismo. Ainda bem que a polícia estava lá para reagir a essa violência toda e prender os vândalos infiltrados.

Aliás, eu tive uma ideia muito boa hoje. Acompanhe meu raciocínio, querido diário: todo mundo sabe que faz um tempão que não chove aqui em São Paulo. Todo mundo sabe também que a polícia combate os vândalos jogando gás lacrimogêneo na cara deles, aí eles começam a chorar e param com o vandalismo.

Então, bem que a polícia podia aproveitar e jogar gás lacrimogêneo nas nuvens! Aí sim as nuvens iam acabar com esse vandalismo de seca e começar a chover!

Boa noite, querido diário. Durma bem, sem incidentes.

Anúncios

Voto Luciana, mas pode me chamar de petralha se quiser

Estou convencida de que a força política mais nefasta do Brasil é o antipetismo de direita. Você sabe que antipetismo é esse. Mas adianto que eu provavelmente sei melhor do que você. É o antipetismo do imagina na Copa. Do fora petralhas. Do bolsa família = bolsa presidiário. Do quem recebe bolsa família não deveria poder votar. Nasci e cresci no bojo desse antipetismo e sabe-se lá como escapei dele.

Mas esse não é o único antipetismo que há. Há o antipetismo de esquerda, que só não é nefasto porque é muito incipiente. Mas que também está me dando engulhos. É um antipetismo assim: qualquer um que se apresente como alternativa ao PT (e que não seja PSDB, afinal trata-se de um antipetismo de esquerda), apenas por não ser PT (e não por algum mérito próprio), vira herói. O objetivo fica sendo tirar o PT do poder porque qualquer coisa não-PT, por definição, será melhor do que o PT. E aí importa muito pouco quem está do outro lado. Não sendo PT, está valendo. O não-petismo é que é fundamental. E desse modo o PT continua firmemente incrustado no centro da imaginação política desse antipetismo (seu nome já diz).

O antipetismo de direita não se conformou até hoje que o PT do Colégio Sion chegou ao poder (provavelmente jamais se conformará). O antipetismo de esquerda não se conforma que esse antigo PT transformou-se noutra coisa. É triste, eu sei. Mas, em vez de superar esse fato e buscar outras alternativas políticas ou no próprio PT ou fora dele, esse antipetismo foca todas as suas forças na destruição do PT. E é aí que o antipetismo de esquerda se parece enormemente com aquele menino que tem ódio mortal do pai e faz tudo ao contrário do que o pai gostaria. O pai é engenheiro? O menino vai ser artista plástico. O pai gosta de churrasco? O menino vira vegetariano. E você morre de pena de dizer para o menino que o pai continua sendo o grande amor da vida dele. O pai é o modelo, o norte, a luz, estrela e luar, a guiar – pelo exemplo negativo – todas as ações do apaixonado garotinho.

Então eu gostaria de deixar claro: não voto Dilma. Nem no primeiro turno, nem no segundo, nem num terceiro turno se terceiro turno houvesse. E no entanto, dois dos meus cinco votos este ano irão para o PT. E não considero de jeito nenhum que ser chamada de petista constitui xingamento. Podem me chamar de petista-petralha à vontade que não me ofendo de jeito nenhum. E sabem por quê? Porque caguei para o PT. Sinceramente e de verdade. Eu não estava lá na fundação do PT no colégio Sion. Não fui traída. Não me sinto horrivelmente decepcionada. É só mais um partido, que no geral está pouco se lixando para as coisas em que acredito.

E no que eu acredito e no que não? Acredito, por exemplo, numa redistribuição de renda que se faça através duma reforma tributária radical, em que os ricos paguem mais impostos do que os pobres. (Parece marxista, mas não é nada diferente do que o queridinho do capitalismo vem dizendo há meses.) Não acredito em destruir o Xingu para gerar energia. Só acredito numa melhora substancial da qualidade da educação que passe pelo aumento estratosférico do salário dos professores. Acredito na legalização das drogas. Não acredito na privatização do saneamento básico. Acredito na desmilitarização da polícia. Não acredito em pagar para aluno de graduação estudar no exterior. Acredito em financiamento público de campanha. Acredito na democratização da mídia. Não acredito que basear toda a economia do país na venda de soja e alumínio para a China seja um bom negócio. Acredito que o acerto de contas com os crimes cometidos pela ditadura militar é fundamental. E assim por diante.

É nisso que acredito. E a candidatura que mais se aproxima das coisas em que acredito é a de Luciana Genro. É nela que eu voto.

Pensando sobre meia dúzia de tuítes de Marina

Dei uma boa olhada na TL de Marina Silva. Eis alguns tuítes recentes seus:

“A legalização do aborto é uma questão delicada, mas é um debate que deve ser feito de forma respeitosa.”

“Denuncio o papel nefasto de duas forças políticas, o PT e o PSDB – irmanados na determinação de nos destruir, não importam os meios.”

“Homens e mulheres de bem estão determinados, de forma livre e independente, a fazer a mudança que o Brasil precisa.”

“Quando você diz que quer fazer uma gestão com as boas pessoas, sem distribuir pedaços do Estado, muita gente duvida.”

“Nossa meta é recuperar a credibilidade do Brasil.”

“No meu governo os recursos do pré-sal vão ser usados para a saúde e a educação, não para a corrupção.”

***

O que foi junho de 2013? O que restou de junho de 2013? Essas são questões que permanecem abertas para o debate e para o pensamento. Diversas narrativas são possíveis. Uma narrativa bastante plausível é a que define junho como um momento em que as pessoas saíram às ruas pelo Bem (“mais saúde e educação!”) e contra o Mal (“menos corrupção!”). Afinal, quem pode ser contra saúde e educação (“defendo a doença e a ignorância para um Brasil melhor!”) e a favor da corrupção (“para mais ladroagem no congresso, vote 666!”)? Esta é uma narrativa, portanto, coerente – só que não apenas não explica muita coisa como também exclui outra narrativa muito mais ousada: por exemplo, a de que os paulistas foram às ruas em 17 de junho de 2013 em repúdio à repressão da polícia militar.

Acho que não preciso dizer qual destas narrativas tem sido dominante.

A narrativa vencedora sobre os protestos de junho está perfeitamente representada no discurso de Marina: basta ler seus tuítes. Está tudo ali: mais investimentos públicos em saúde e educacão, menos corrupção, menos partido político, menos negociata, menos PT (que ninguém aguenta mais) e menos PSDB (que ninguém quer de volta). É perfeito: ela vai usar o dinheiro para a saúde e a educação, não para a corrupção, como fazem esses políticos da velha-política que estão aí. Não sou eu que estou dizendo. Foi Marina quem disse.

E como ela vai fazer isso? Como fará as mudanças de que o Brasil precisa? Ora, é simples: governando com os bons, com os melhores – do PT ou do PSDB, do agronegócio ou do MTST, não importa; basta que sejam homens e mulheres de bem e que acreditem no Brasil. E se você não acredita na viabilidade de nada disso, é porque você foi corrompido pelo cinismo da velha política, não porque você sinceramente desconfia das boas intenções e das (nem tão boas) ações daqueles de quem Marina se cerca.

Marina vai recuperar a credibilidade perdida do Brasil sem “distribuir pedaços do Estado”: sem fazer acordos políticos e sem precisar se posicionar frente às grandes questões. O aborto, por exemplo. É preciso superar essa polarização de que ou você é a favor ou é contra a legalização do aborto. É preciso pairar acima dessa mesquinharia do sou contra ou sou a favor – façamos um plebiscito, pois. Um plebiscito sim é respeitoso: vai respeitar o direito da maioria. Milhares de mulheres continuarão morrendo ao fazer abortos clandestinos, mas pelo menos estas mortes estarão referendadas pela respeitosa e delicada vontade da população em geral. Também não é preciso discutir os possíveis efeitos da religiosidade de Marina em um eventual governo seu. Ela já disse que é a favor do Estado laico e isso deve bastar: afinal, todos precisamos respeitar as religiões, ainda que as religiões muitas vezes não respeitem os direitos de todos.

Marina propõe um olhar “de cima” sobre os conflitos e contradições do Brasil, bem de cima de um altíssimo muro – um olhar tão distante e tão elevado que, de lá de cima, não se percebe mais a diferença entre esquerda e direita, não se enxergam mais essas polaridades toscas que pautam aqueles que se sujam na lama eleitoral do Facebook: enxerga-se apenas o bem do Brasil.

O olhar de sobrevoo é sedutor, sem dúvida, mas eu sou mesmo é #TeamLama. Gosto de olhar para baixo, para o solo, à procura das raízes dos conflitos e contradições. Se isso faz de mim uma pessoa sem imaginação política, que seja. De fato, só acredito em sonhos que estejam firmemente enraizados nos anseios e nas demandas de quem, como disse lindamente o meu amigo Maycon Benedito, tá aí sendo viado todo dia, sendo mulher todo dia, sendo preto todo dia. e vivendo e brigando apesar de partidos e do Estado.

Para mim, o sonho que é sonhado por Marina não se parece com o sonho de quem está sendo mulher, negro, gay, lésbica, pobre, índio, sem terra, sem teto, todo dia, dia após dia, antes e depois da eleição. O sonho sonhado por Marina se parece, isso sim, com o sonho de quem viu as manifestações de junho pela televisão – narradas pelos jornalistas da Globo, repletas de pessoas clamando por saúde e educação, contra a corrupção, contra os políticos, contra os black blocs e unidos por um Brasil melhor.

É um sonho possível, claro. Decididamente não é o meu.

Nova política fast food sabor junho

OK, estou pronta para dar minha primeira opinião sobre o fenômeno Marina \o/ /o\ E tentarei fazê-lo de forma rápida e sucinta, que isso aqui não é polêmica fora-do-eixo. Vamos lá:

Como todos sabem, Nana Gouvêa já foi vista tirando fotos na sede da campanha de Aécio: a estratégia ~Marina-melancia~ (tucanos acusando-a de ser no fundo d’alma uma petista vermelha enrustida) parece que não colou nem tem nenhuma chance de colar. Estou descartando desde já como ineficaz, então, essa estratégia de dizer pro eleitor que ele está sendo enganado por uma melancia. Mas há outra estratégia análoga, proveniente do PT, que é a de dizer pro eleitor que ele está sendo enganado por uma pombinha disfarçada de tucano. Acho que alguns pontos dessa crítica petista fazem todo o sentido (por exemplo, apontar que a equipe econômica de Marina representa a retomada da gestão econômica FHC) e outros não (Marina pode fazer mais três erratas em seu programa LGBT que ainda não terá botado Feliciano para presidir a CDH; para mim, faz sentido o PT criticar a inconsistência do posicionamento de Marina e sua inabilidade em lidar com demandas contraditórias, mas não faz sentido criticá-la pelo “ataque aos direitos das minorias” em si, dado que rifar direitos de minorias para agradar evangélicos é exatamente o que o PT passou os últimos 4 anos fazendo). Não importa, porém, o que faz ou não sentido para mim: importa se a estratégia pombinha-por-fora-tucana-por-dentro vai ou não colar. E o meu palpite é que não vai. Pelo seguinte:

Enquanto o PT aferra-se a todo custo à velha polaridade PT-PSDB (o PSDB agora só mudou de nome), Marina reconfigura e revigora uma polaridade mais velha ainda, a da velha x nova política. E aqui vocês me desculpem mas vou citar um pensador que não é exatamente um queridinho dazinternet. Respirem fundo que eu vou citar o Zizek: “primeiro como tragédia (junho), depois como farsa (Marina)”. Marina transforma o potencial disruptivo e perturbador de junho em um lindo pacotinho pronto para o consumo: para mudar a política, para mais participação popular, para mais serviços públicos de qualidade, basta apertar dois numerinhos no dia da eleição e você pode ficar com a consciência tranquila de que fez a coisa certa. Zizek diz, que no capitalismo atual, a redenção do consumismo já está embutida no próprio ato de consumo: basta eu comprar o café orgânico cultivado na pequena fazendinha sustentável para estar contribuindo para um mundo melhor; não preciso fazer mais nada, pensar em mais nada; não preciso refletir sobre o poder das grandes corporações, sobre o controle da política partidária pelo grande capital, nada disso: minha contribuição para um mundo melhor, eu paguei com esses cinco reais que custam o café e vou pagar apertando quatro e zero na urna. Marina encapsula uma versão suavizada do espírito de junho, transformando-o em produto pronto para o consumo rápido. Por isso é que eu acho que não vai funcionar isso de acusá-la de ser uma falsa isso ou falsa aquilo. Porque o que ela conseguiu fazer é bem real: conseguiu transformar junho de 2013 em canecas, bonés e camisetas de banda. Basta você ver minha camiseta do Rock in Rio para saber que “eu fui”. Ao votar em Marina, o eleitor ganha a convicção de que “ele foi” aos protestos de junho; de que quer um país melhor e sem politicagens. Marina não é apenas a “nova política”, portanto. É a nova política fast food sabor junho.

E como foi que Marina conseguiu encapsular tão bem essa nova política? Sem nenhuma pretensão de esgotar o assunto, arrisco dizer que para isso contribui sua aura inatacável: a trajetória política de Marina é tão completamente acima de qualquer suspeita que o máximo que conseguiram falar dela até agora é que “ganhou dinheiro dando palestra” (depois da criminalização dos protestos, nada mais natural que tivéssemos a criminalização das palestras). E é aí, nesta aura superior, acima dessas mesquinharias petê-peessedebê e direita-esquerda, que entra sua religiosidade. Não se trata de uma pessoa apenas bastante religiosa, apenas que vai à igreja aos domingos, apenas devota de tal ou quanto santo. Trata-se de uma pastora. Isso faz com que ela tenha uma autoridade moral, uma superioridade intrínseca de filha de Deus que políticos tradicionais jamais terão. É nesse sentido que vejo o efeito de sua religiosidade na eleição: ela ajuda a compor essa aura de quem está além e acima da “velha e promíscua política de antes de junho”. Resta saber qual será (se houver) o efeito de sua religiosidade em um eventual governo.

Pronto, agora que venha o debatchy da noite para me contradizer completamente e para que eu possa citar FHC – “esqueçam o que escrevi” :-D