Vovô-cama

Ontem meus primos e eu nos encontramos para jogar as cinzas do nosso avô no mar.

Não eram cinzas, na verdade. Eram uns pedregulhinhos de variados tons de cinza. Decidi que as pedrinhas-cinza-claro eram a parte do meu avô que a gente podia ver, e as pedrinhas-cinza-escuro eram tudo o que ia por dentro, órgãos, ossos, nervos, tudo o que fica por debaixo da pele. Como é bom ser de humanas.

A ideia era sair de lancha e jogar as cinzas-pedrinhas em alto mar.

Levamos para a lancha o potinho contendo um saquinho com aquilo que chamamos erroneamente de “as cinzas do vovô”. Aquelas cinzas nunca foram “do vovô”. Ele nunca as teve. As cinzas eram… Ele. Ao mesmo tempo que, claro, não eram. Restos do vovô? Vovô sublimado?

Mas a vida prática tem seu jeito maravilhoso de atravessar qualquer reflexão semântico-filosófica com suas questões tão bestas, tão essenciais. Como se joga as cinzas de alguém no mar? Jogaríamos as cinzas com potinho e tudo? Sem potinho, dentro do saquinho plástico? Só as cinzas e nada de saquinho ou potinho?

Um dos primos fez a excelente observação segundo a qual se nosso avô pediu para ser cremado e não enterrado, é que ele não queria ficar confinado em um espaço diminuto, portanto melhor seria tirá-lo do potinho, ainda que o crematório tivesse tido o cuidado de nos entregar as cinzas (… as cinzas? o vovô? as cinzas do vovô?… As reflexões semântico-filosóficas têm um jeito maravilhoso de se imiscuírem nas questões práticas mais bestas e essenciais) em um potinho biodegradável.

Foram meus primos que tiveram a ideia de jogar … … … no lugar onde meu avô gostava de pescar. Eu não fiz nada, não pensei em nada, só fui na onda deles.

Que onda.

Primeiro era só um compromisso na agenda. Acordar cedo, pegar estrada, lembrar de passar protetor solar.

Até que os primos todos se reúnem (a última vez foi quando? há uns cinco natais?), os primos todos entram no bote, levam um caldo, sobem na lancha, um dos primos dirige a lancha (atividade para mim tão inconcebível quanto tocar tuba ou fazer suspiro), e de repente não é mais um compromisso na agenda: de repente aquilo é um acontecimento.

Chegamos no lugar onde meu avô levava meus primos para pescar. Eu nunca ia. Ficava em casa lendo e fazendo palavras-cruzadas com a minha avó.

Cada um falou “umas palavras”.

Um primo disse que achava que a paixão dele pelo mar tinha vindo do vovô.

Comecei a chorar ali e acho que não parei até agora, apesar de que meu rosto está sequinho, sequinho.

Me senti bastante idiota dizendo a um pacotinho de pedregulhos: “obrigada por ter ido me buscar na escola”. Mas não era qualquer pacotinho de pedregulhos, não era qualquer dia e, principalmente, eu teria me sentido duas vezes mais idiota se não tivesse dito nada.

Passei bem mal. Enjoei loucamente. Pensei demais no Robinson Crusoe e no Gulliver, livros que li tão recentemente. Pensei na minha mãe, que não está no mar.

E pensei que não faz sentido nenhum dizer que alguém “partiu”. “Se foi”. “Deixou de existir.” Nada deixa de existir. Ninguém vai embora. A NASA ainda não inventou um método de jogar os restos mortais das pessoas no espaço sideral. Os mortos continuam aqui mesmo, neste mundo. Eles apenas não são mais o que um dia foram.

Meu avô nunca mais será meu avô, mas ele está lá, em Ubatuba. Cama para os peixes, ele virou.

Anúncios

Recordando a eleição presidencial

Se existe alguma vantagem no fato de que tudo o que somos capazes de discutir atualmente sobre política é se e quando haverá o impeachment e quem e quando assumirá a presidência após Dilma é que… Olha, pensando bem não existe vantagem nenhuma não – juro que tentei começar o texto numa vibe otimista, mas não rolou. Vou reformular e tentar de novo.

Não existe nenhuma vantagem no fato de que tudo o que somos capazes de discutir atualmente sobre política é se e quando haverá o impeachment e quem e quando assumirá a presidência após Dilma. Nada me parece mais grave no debate político atual do que nossa falta de imaginação. Parece que a única pergunta que somos capazes de fazer é “quem ou o que virá em 2018?” – um cenário bastante propício à emergência de políticos carismáticos. (Nossa sorte é que Enéas já morreu.)

Por isso, já que – a começar por mim mesma – aparentemente não nos restou mais nenhuma imaginação e estamos sentadinhos à espera do que virá, vou aproveitar a oportunidade para refletir sobre aquilo que deveria ter passado e não passou. Pois me parece que, quando nos perguntamos sobre 2018, a verdade é que ainda estamos tentando entender o que raios aconteceu em 2014.

Vou retomar, então, o que a eleição presidencial de 2014 foi para mim. Uma mulher de trinta e poucos anos, paulistana, de classe média, preocupada com a falta d’água em São Paulo e com a catástrofe ecológica mundial.

Sobre a crise hídrica em SP: Aécio disse que era culpa do PT. Dilma citou José Simão e disse que São Paulo teria um programa de bolsa-banho. Marina apoiou Alckmin para governador.

Sobre mudanças climáticas: silêncio total. (Considerando-se o pujante debate travado sobre a crise hídrica, chega a ser um alívio que todos tenham ficado calados.)

Ou seja. Para alguém que leva a catástrofe ecológica e as mudanças climáticas a sério. Para quem isso é realmente a questão política mais importante do nosso tempo. Para quem está convencido de que aquecimento global, derretimento das geleiras, acidificação dos oceanos, extinção das espécies, não são questões filosóficas futuras e distantes, mas eventos reais que ameaçam nossa existência no planeta tal como o conhecemos. Para quem quer saber como o Brasil vai replanejar sua economia de modo a diminuir a desigualdade e a violência, ampliar o acesso a serviços públicos de qualidade, acabar com o desmatamento e reduzir drasticamente suas emissões. Simplesmente não havia em quem votar.

***

“Na briga entre ortodoxos e heterodoxos, entre neoliberais e desenvolvimentistas, eu ando cada vez mais ambientalista” (Idelber Avelar, 2015)

Repare que não se trata de encontrar o candidato perfeito e idealizado. Trata-se de apontar que uma discussão importantíssima sequer ocorreu. Nenhuma candidatura preocupou-se em explicar como iria conduzir a economia sem cozinhar o planeta. Esta não é uma questão que se coloca no debate político atual. No máximo, ouvimos a palavrinha “sustentabilidade” sendo salpicada aqui e ali. Mas uma efetiva discussão sobre programas econômicos que levasse em conta a realidade material da Terra – isso não existiu.

Não existiu em 2014, e segue não existindo agora, nenhuma liderança nacional, nenhum projeto político para o Brasil, que seja radicalmente sustentável ecologicamente e viável economicamente. Existem diversos políticos em quem votei e votaria com a maior confiança para o legislativo, e há também boas opções de voto para o executivo em nível regional. O que não existe é um projeto econômico que leve em conta o combate às mudanças climáticas – e um projeto de país que parta do princípio de que não existe justiça social sem justiça ambiental.

Estou dizendo o óbvio? Claro que sim. Só que essa obviedade – o de que não existe, por ora, uma alternativa ao desenvolvimentismo x neoliberalismo que está dado – é tão terrorífica que acaba sendo muito mais confortável, entre uma cerveja e um mojito, desviar o papo do bar para “e aí, hein? Lula volta em 2018? e o Ciro? e o Alckmin, será que agora vai?”. Porque é mais fácil. É tranquilizador. Porque com esses nomes conhecidos tentamos preencher um vazio absoluto de novas ideias.

***

Nunca cheguei a considerar Marina essa tão esperada terceira via ambientalista: seu programa econômico era o mesmo do PSDB (que é o que Dilma, agora, tenta implementar), apenas revestido de um discurso moralista que é ouvir uma vez e sair correndo na direção oposta sem olhar para trás (Marina, não nos esqueçamos, pretendia instituir “comitês de homens de bem” para ajudar a governar o Brasil). Gostaria que ela tivesse ido para o segundo turno, só para tirar o PSDB de vez da jogada e movimentar as peças no tabuleiro – mas a polarização que ela mesma tanto (e acertadamente) critica, PT x PSDB, permaneceria em grande parte intocada, já que seguiríamos na mesma ladainha desenvolvimentismo x neoliberalismo no debate econômico.

Votei em Luciana só porque anular o voto já no primeiro turno é niilismo demais até para mim. Então, apoiei a candidatura mais engajada na defesa dos direitos humanos, apesar da impraticabilidade de seu programa econômico. Mas, sem dúvida, foi um voto “de mentirinha”, no sentido de que não votaria nela num segundo turno, onde houvesse possibilidade real de vitória – assim como não votaria em nenhum dos demais. A verdade é que, para um segundo turno – a hora em que temos de responder à pergunta “quem você quer, de fato, que governe o Brasil?” – só me sobrou mesmo o nulo. O nada. O ninguém. Não existe uma liderança nacional sequer com um projeto de país no qual eu acredite.

É preciso construí-la.

A mulher da foto

Eu quase nunca penso na minha mãe. Ou talvez eu pense todos os dias, um segundo por dia. Mas alguns dias, é como se eu só vivesse para lembrar que minha mãe existiu.

***

Depois de um tempo, é fácil esquecer que as pessoas mortas foram vivas. As pessoas mortas sobrevivem como lembranças. Aquela vez que fomos a Paris. À venda da esquina. Ao simba safári. E vamos nos convencendo disso, que as pessoas mortas das nossas vidas são amálgamas de lembranças sem existência real que não em nossas cabeças, nas nossas e, no máximo, nas daqueles que compartilham conosco a pessoa morta em questão. É difícil, é difícil lembrar que aquele dia da venda da esquina em que ela me ensinou o que era broto de bambu, não era para ser uma lembrança, era para ser apenas mais um dia igual a todos os outros que se repetiriam pela vida afora. A Paris tudo bem, a Paris as pessoas vão para trazer lembranças, mas à venda da esquina vamos apenas para comprar os ingredientes do almoço.

E então de repente a pessoa morta existe como lembrança não apenas para mim meu pai minha avó minha tia mas também para dezenas, centenas de pessoas que não conheço, que não me conhecem, que só sabem de mim como a filha daquela moça que morreu, coitada.

Esta semana conheci uma mulher que conheceu minha mãe – só de longe, só de vista. A mulher nem sabia que minha mãe tinha morrido, mas minha mãe já sobrevivia como lembrança na cabeça dela.

“Era uma mulher elegantíssima”, disse.

Contei sobre o acidente. Minutos depois, ela volta com o marido. Perguntou se ele se lembrava de algum acidente fatal, há não sei quantos anos, na avenida tal e tal. Sim, ele lembrava. A vítima do acidente tinha sido professora de francês dele.

“Era uma mulher lindíssima”, disse.

Adorei a diferença no adjetivo. A mulher enfatizou o processo, percebeu ali uma inteligência em se vestir, se maquiar, se portar. O homem enfatizou o resultado do processo, a beleza final.

***

Uma amiga minha passou anos de sua vida bastante imersa e paralisada em um relacionamento amoroso naufragado. Fiquei com bastante aflição dessa amiga (não por acaso ela é e sempre será minha amiga). Eu, afundada no relacionamento amoroso primordial.

***

E tem as fotos. Uma foto, no caso. Não a foto que está na sala, esta é a foto para a qual se olha e não mais se vê. Mas uma foto 5×7, dessas de passaporte, com a diferença de que minha mãe está posicionada obliquamente em relação à câmera, o olhar firmemente centrado no além. Uma mulher tão diferente de mim. A pele tão mais escura, o cabelo tão mais crespo, o olhar mais expressivo, o nariz menos escandaloso, a boca menos desmesurada. E essa mulher que está lá, que não tem nada a ver comigo – existiu. Essa mulher abriu conta no banco. Tocou Chopin no piano. Virou a noite preparando aula. E eu não sei nada sobre essa mulher exceto esses detalhes. Exceto o que me contam. Exceto que, às vezes, sobrevém o horror.

***

“Pouco tempo depois que ela morreu, a escola de francês fechou, né?”, comentei com o homem de quem minha mãe tinha sido professora. Foi sim, ele respondeu. “Ela era a alma do negócio”.

Elegantíssima, lindíssima, alma do negócio – qualificadores que me são estranhos, que não brotaram da minha cabeça, que jamais apliquei a ela, e que não obstante não são menos legítimos que os meus. Eles não se aplicam à minha mãe. Eles se aplicam à mulher da foto.

***

O horror em nada se parece com a ausência da mulher da foto. É difícil ligar os pontos e acreditar que a mulher que existiu, a mulher da foto, é a mesma pessoa que mora na minha cabeça. Tenho muito mais intimidade com a pessoa que mora na minha cabeça. Convivo com ela há vinte e três anos.

Com a mulher da foto, convivi apenas dez.

I do

New Orleans. Dez anos do Katrina hoje. Cinco que voltei. Esses dias terminei de assistir a Tremè, a série do David Simon sobre a reconstrução da cidade. A última temporada se sobrepõe ao começo da minha estada lá – fim de 2008, eleição do Obama. Tenho uma série de críticas pedantíssimas e pentelhérrimas à série que graças a deus não sou obrigada a desenvolver aqui. Só para que se tenha uma ideia: acho os personagens rasos, as histórias arrastadas, a série toda meio panfletária; os personagens parecem meros ventríloquos através dos quais se conta a história de New Orleans. E no entanto…

E no entanto: que belíssimo tributo a New Orleans, com todos as suas lindezas, todos os seus horrores. E que delícia para quem já esteve lá, ainda que por pouco tempo como eu. Todo episódio tem algum restaurante, algum bar, algum músico que conheço ou conheci. Fico empolgadíssima cada vez que reconheço um desses lugares ou pessoas. Fico morta de vergonha quando aparece algo que não cheguei a conhecer – nunca fui ao Preservation Hall, por exemplo, e não foi por falta de convite. Fico toda esnobe e superior com relação ao que a série deixou de mostrar – como que não mostraram a Sasha Masakowski, por exemplo, uma das cantoras de jazz mais interessantes da atualidade?

Que vazio enorme, desde que a série acabou. Desde que a série acabou, tenho ouvido John Boutté quase todos os dias. Fiz spaghetti com camarões semana passada. E esta semana fiz salmão na frigideira aproveitando a deixa de uma das personagens mais legais, a chef Desautel. Na segunda temporada, ela vai para Nova York e começa trabalhando em um restaurante com um daqueles chefs super caricaturais de tão mal-humorados. Ela leva uma bronca porque está se apressando na hora de preparar o salmão. Há que “listen to your fish”, segundo o chef clichê. Não há que se apressar. E a câmera se demora na frigideira, na manteiga derretendo, no salmão mudando de cor. Então, esta semana, eu ouvi meu próprio salmão.

Acho que meu arco narrativo preferido é o do trombonista que vira professor de música numa escola. Ele não quer o emprego, a princípio, mas acaba aceitando por pressão da mulher – uma personagem que aparentemente só está ali para mandar o marido ir trabalhar (eu disse que tinha críticas pedantes). Então o marido vai. E começa numa atitude de “this is only my day job”, eu não sou professor, eu sou músico, sou artista, tenho minha banda, tocar em gigs é meu verdadeiro trabalho.

E então em algum momento ele sente que falhou com os filhos. Que nunca ensinou música a eles e que fracassou em lhes transmitir a herança musical da família. Os filhos, de um primeiro casamento, são adolescentes; do segundo, ele tem uma filha ainda bebê. Aí você imagina que ele irá ensinar algum dos filhos, ou todos, a tocar um instrumento. Mas não: o que acontece é que ele se torna, de verdade, um professor. Ele passa a tradição adiante – não para os filhos, mas para os filhos dos outros; e missão cumprida. É o arco mais bonito de todos; é o que mostra o que significa ser parte de uma comunidade. Não importa que os alunos não sejam seus filhos; eles são de New Orleans, e isso basta.

Hoje o Obama foi lá. Fez um discurso lindo, como sempre. Citou a Rebirth, Dr. John, Trombone Shorty.

O primeiro episódio de Tremè se chama Do You Know What It Means… O último, … To Miss New Orleans.

É uma música que gosto de ouvir e mais ainda de cantar. Gosto principalmente da segunda metade do B (“I dream about magnolias…”), que eu sempre acho que vai se transformar em Angel Eyes (“have fun you happy people…”).

É sobretudo uma música à qual sei exatamente o que responder.

Dica de banana

Espelho, espelho meu,

Ontem à noite antes de dormir cliquei num link sobre “dicas de saúde” e uma das dicas de saúde era que devemos comer meia banana ao acordar antes de ir para a aula de spinning.

Então dormi acordei e comi não meia mas uma banana inteira e também um mamão inteiro e umas castanhas de caju e em seguida não fui para a aula de spinning, até porque não sei o que é isso.

Passei a manhã preocupada porque, afinal, não me alimentei como deveria. Não comi direito, senti-me meio estúpida por ter feito isso e prometi para mim mesma, então, que no almoço eu iria me comportar e comer como se deve. Afinal, não sou mais criança e preciso planejar minhas refeições de acordo com as minhas necessidades calóricas.

Então saí para almoçar e comi, de petisco, torresmos e dadinhos de tapioca. De entrada, salada de carpaccio (que no restaurante eles chamam de carpacho) de carne de sol. Depois, atolado de bode com mandioca e jerimum. Por fim, doce de goiaba de sobremesa e duas paçoquinhas de castanha-do-pará para arrematar.

Aí sim, dever cumprido. Porque um café da manhã só de frutas e castanhas não condiz com as minhas necessidades calóricas nem emocionais. Um desjejum digno desse nome deve incluir também café, leite, pão ou torrada, manteiga e queijo.

Agora acabou o dia e posso dormir com a consciência tranquila. Não vou cometer o mesmo erro de hoje no meu café de amanhã.

E, sobretudo, não vou ler dicas de saúde por um bom tempo.

Antônio

Na estação Luz, bem ali por onde passam as pessoas que vão da linha azul para a amarela e da CPTM para a linha azul, existe um homem.

Ele sorri e olha para o alto. Não vê nenhum de nós que transitamos pela estação. Seus olhos brilham de orgulho e esperança. 
 
(Para ser sincera, acho dificílimo definir objetivamente, plasticamente, um brilho no olhar. O que faz um olho brilhar? Não é uma pergunta retórica de supermercado querendo saber o que nos faz feliz. De verdade: o que faz com que um olho brilhe a ponto de que quem o olhe diga, “este olho reluz”? Não sei dizer, mas sei que Antônio – esqueci de dizer que o homem se chama Antônio – tem um imenso e incontestável brilho no olhar.)
 
Antônio sorri com a boca um pouco aberta e tem o olhar fixo em algum ponto não alcançado por nós, que vamos da linha azul para a amarela ou da CPTM para a linha azul.
 
Tudo bem: se Antônio não olha para nós, nós também quase não olhamos para Antônio – no que, aliás, fazemos muito bem. Antônio é apenas uma peça publicitária, apenas uma imagem trabalhada pelo mocinho do fotoxope. Teria o mocinho virado a noite ajustando o brilho daquele olhar? Ou teria dado um control cê control vê qualquer e voltado mais cedo para casa numa sexta-feira à tarde?
 
Seja como for, Antônio segue firme em seu orgulho e indiferente a nós que não paramos de passar. Seu orgulho é tipicamente paulista – a propaganda é do metrô, do governo ou da Sabesp, já não sei e não importa. 
 
É preciso reconhecer, porém, que o mocinho do fotoxope acertou: Antônio tem mesmo todo o jeito de locomotiva do Brasil.
 
Não por acaso, ao lado de Antônio está escrito:
 
GENTE QUE MOVE SÃO PAULO
 
Mas a frase poderia ser mais precisa:
 
GENTE QUE LOCOMOVE SÃO PAULO
 
Ou:
 
GENTE QUE, Ô LOCO, MOVE SÃO PAULO
 
Ou ainda:
 
GENTE QUE, LOUCA, MOVE SÃO PAULO
 
Mas essas são gracinhas que faço agora.
 
Quando passo por Antônio, ouço uma única frase:
 
(Ouço, de fato. Não se trata de alucinação visual e sim auditiva: vejo uma frase e escuto outra quando a leio para mim mesma:)
 
GENTE QUE MORRE EM SÃO PAULO
 
Sinto um calafrio e fujo de Antônio como se ele fosse não o produto finamente acabado do mocinho do fotoxope, mas uma obra de arte com propriedades místicas.
 
Quando passo por Antônio, tenho certeza de que seu olhar altivo transfigura-se em olhar de desprezo e volta-se para mim – afinal, não (loco)movo São Paulo.
 
Desço as escadas rolantes pelo lado esquerdo, pedindo licença suavemente a cada um que teima em não deixar a esquerda livre.
 
Quando chego na plataforma – ufa – já esqueci Antônio.
 
Volto a ser gente que (faz o que mesmo?) em São Paulo.

Gabriel García Márquez e Luciano do Valle

Há umas semanas (meses? anos?), todo mundo estava alegremente fazendo listinha de livro no Feissy. Não lembro o que coloquei na minha, mas se não coloquei O Amor nos Tempos do Cólera, cumpre admitir que menti, blefei, esnobei e quis parecer o que não sou. Porque O Amor é com certeza um dos livros mais importantes e ricos que li, uma das poucas vezes que senti que o mundo inteiro podia caber dentro de umas tantas páginas. Acho que foi o primeiro que peguei depois de Cem Anos. Depois vieram outros. O Outono do Patriarca, Ninguém Escreve ao Coronel, Erêndira, Crônica de uma Morte Anunciada, Do Amor e Outros Demônios, Putas Tristes. Provavelmente algum outro que esqueci.

E, com isso – chega.
 
Gabriel García Márquez é talvez o único autor que realmente amei que, hoje, sinto que não tenho mais como ler – ou o que ler – ou por que ler. (Ops, mentira: Monteiro Lobato é outro. E Thomas Ogden, psicanalista, também – embora este eu ainda lerei por motivos de obrigação profissional, mas certamente não por amor). García Márquez morreu mas, como autor, há muito já não existia para mim. Já li, dele, tudo o que quis.
 
Meu amor por histórias, no entanto, permaneceu.
 
***
 
Em 1992, a programação da TV Bandeirantes era assim:
 
Segunda-feira à noite, campeonato carioca.
 
Terça, campeonato paulista.
 
Quarta, campeonato carioca de novo.
 
Quinta, vôlei masculino.
 
Sexta, boxe.
 
E como eu sei a programação da TV Bandeirantes de 1992?
 
Porque em 1992 a minha mãe morreu e eu morava com meu pai e tudo o que conseguíamos fazer, todas as noites, era ligar a TV no canal 13 e nos deixar embalar pela narração de Luciano do Valle, até dormir.
 
Eu era uma menininha que sabia tudo, tudo mesmo, de futebol. Escalação de todas as seleções brasileiras. Escalação de todos os times brasileiros daquele ano. E isso apesar de que eu não torcia por time nenhum. Afinal, não precisava. Eu só precisava mesmo era de ver os jogos.
 
Mais tarde, substituí esse afã esportivo por religião.
 
Hoje, o único jogador de futebol de que tenho notícia é o Neymar. E, claro, almocei hambúrguer na sexta-feira santa.
 
Ao contrário de García Márquez, não restou nada ou quase nada de Luciano do Valle em mim.
 
E, no entanto, se a morte de García Márquez não me provocou qualquer emoção, a morte de Luciano do Valle despertou em mim tanta coisa que… 
 
Não sei como explicar além de dizer que Luciano do Valle foi um homem que, sem ter a mais remota ideia disso, me pôs no colo e me fez dormir por semanas (meses? anos?) do período mais difícil da minha vida.
 
Adeus, Luciano, e obrigada.