O inglês no mercado

Um anúncio no Facebook pergunta se “meu inglês está pronto para vencer no mercado”.

Imediatamente imaginei um supermercado em dia de sacolão, onde a velocidade máxima dos carrinhos não chega a meio corredor por minuto e onde brasileiros os mais diversos empurram-se sem nenhuma cerimônia na disputa pela batata mais bonita, a verdura mais fresca, o tomate mais firme.

Então, em meio a esses brasileiros todos, imaginei um sisudo homem inglês – o *meu* inglês – disputando as verduras e legumes no mercado.

“Vai lá, meu inglês! Mostra pra eles! Um quilo de mandioquinha, um maço de rabanetes e um pé de alface! Eu sei que você consegue!”

Meu inglês iria de gôndola em gôndola repetindo “excuse me, sir” e “excuse me, mam”, determinado a cumprir minha ordem e vencer no mercado.

Em vão.

O Facebook, tolinho, não sabe que com brasileiro em dia de sacolão não há quem possa.

Aqui no Brasil, felizmente, o inglês – seja ele o meu, o seu ou o nosso – jamais estará pronto para vencer no mercado.

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Seja marginal, seja idiota

Uma famosa livraria de São Paulo tem gôndolas de livro que se empilham formando círculos cada vez menores a partir do chão. Não sei explicar isso a não ser pedindo para você imaginar uma nhá-benta gigante, porém oca e vazia no topo, com livros expostos em cada uma de suas voltas. Pois bem. Na última volta da gôndola-nhá-benta, isto é, a volta do topo, jazia um livro enorme que prometia ensinar às pessoas o mínimo que elas precisariam saber de modo a não serem idiotas. Um adolescente, fazendo um esforço grande demais para não ser, ou pelo menos não parecer, um rematado idiota, estendeu o braço desajeitadamente em direção ao livro. E eis que o guia para candidatos-a-não-idiota cometeu suicídio ali mesmo, caindo no centro abismal da gôndola-nhá-benta, perdendo-se para sempre no vazio que reinava entre fileiras e fileiras de best-sellers literários. Fiquei contente. É um não-idiota a menos que o mundo ganha. O mundo não precisa de gênios. O mundo precisa, cada vez mais, de pessoas que Olavo de Carvalho considere idiotas.

O apito do guarda-noturno

Fuííííííííí-u.

Assim soava o apito do guarda-noturno, quando eu dormia na casa da minha avó.

Ela dizia que o guarda-noturno ficava acordado a noite toda enquanto a gente dormia, e que ele protegia a gente de todo o perigo.

(Na praia, por exemplo, não tinha guarda-noturno, então um ladrão invadiu a casa e roubou todas as toalhas que estavam estendidas no varal.)

O guarda-noturno fazia fuííííííííí-u e essa era a senha de que eu precisava para adormecer. No fu eu bocejava, no í me espreguiçava e no u já estava dormindo.

Então a gente cresce e aprende que o apito do guarda-noturno não era uma varinha mágica espanta-ladrão. Cresce e aprende que o guarda-noturno era apenas um policial mal-pago fazendo um bico para pôr iogurte na merenda do filho. Cresce e aprende que foi uma sorte o ladrão das toalhas de praia não ter sido pego, pois se tivesse sido pego teria sido preso, e não há toalha bordada que justifique a passagem de uma pessoa pelo sistema prisional brasileiro. Sobretudo, a gente cresce e aprende que, no Brasil, a polícia não é menos bandida que o ladrão.

Mesmo crescendo e aprendendo algumas coisas, porém, continuei ouvindo o fuííííííííí-u como canção de ninar. Até hoje, o apito do guarda-noturno é o meu apito da fábrica de tecidos, e ao ouvi-lo me lembro da minha avó. O apito era a certeza de que eu podia dormir, pois havia um adulto tomando conta de tudo. E, se havia um adulto tomando conta de tudo, eu não precisava me preocupar com nada.

Com todo mundo é assim. Todo mundo um dia cresce e aprende que a polícia é essencialmente violenta e corrupta e racista e seu objetivo não é a defesa do povo e sim a defesa do status quo. Decerto poucos aprendem estas coisas nestes termos que acabo de usar. Não importa: podemos não aprender a articular o discurso, mas aprendemos de forma visceral. Cedo ou tarde, aprendemos a sentir medo da polícia.

Mas, na primeira vidraça quebrada, preferimos esquecer o que aprendemos e desejamos ouvir o reconfortante apito do guarda-noturno.

Em junho, foi muito compartilhada pelas redes uma sofisticadíssima Técnica Argentina de Ajudar a Polícia a Preservar a Paz nas Manifestações. A ideia era que os “manifestantes pacíficos” se sentassem no meio da rua sempre que a “minoria vândala” começasse o quebra-quebra, para ajudar a polícia a localizar e prender apenas os “baderneiros”. (A narrativa dominante da “minoria vândala” estava apenas começando a se constituir, naquele momento.)

O curioso é que a Técnica Argentina foi compartilhada pelas mesmas pessoas que, dois ou três dias antes, haviam compartilhado vídeos de policiais atirando em pessoas que gritavam “sem violência”, prendendo pessoas que portavam vinagre, atirando no olho de uma jornalista, etc.

Ou seja: num determinado dia – o dia em que a violência da polícia chegou ao coração da cidade e atingiu seus habitantes mais favorecidos -, estávamos todos cientes de que a polícia existe não para defender o povo, mas para defender o poder.

No dia seguinte, passamos/voltamos a acreditar piamente que a polícia era o mítico guarda-noturno da minha infância, sempre a postos para defender as pessoas de bem contra os ladrões de toalha, quebradores de vidraça e demais criminosos.

É quase irresistível essa ideia de polícia – ou governo – ou deus – ou pai – ou avó – sumamente responsável e bondosa que toma conta de tudo e só quer o nosso bem, e na sua presença podemos respirar aliviados e dormir tranquilamente (ou sentar no meio da rua calmamente) enquanto a polícia – o governo – deus – o pai – a avó nos defende contra todo o Mal.

Mas o Mal não é a toalha roubada ou a vidraça quebrada. O Mal é a crença cega na bondade e sabedoria absoluta de pessoas ou instituições que, na melhor das hipóteses, são tão falíveis quanto nós.

E sabemos que a polícia brasileira não se aproxima, em hipótese alguma, da melhor das hipóteses.

A polícia não existe para nos defender de uma minoria vândala / criminosa / assassina / dê-se-lhe o nome que se queira dar.

A polícia É a minoria vândala.