Um País Sério

Sim, eu sei, o Brasil e tal, mas permitam-me ser colonizada um minutinho –

Cês tão acompanhando os e-mails do Juninho?

Todo o governo Trump vem negando há meses a existência de qualquer tipo de coordenação entre a campanha trombística e o governo russo – “é tudo uma fantasia conspiratória de liberais recalcados floquinhos-de-neve-caviar”…

Aí, gente, o Juninho – filho do presidente.

Ele, o marido da Ivanka e o cara que coordenava a campanha se encontraram com uma advogada russa um ano atrás. Até aí, grandes coisas, qq tem, não pode mais ter amigo russo agora? Etc. Afinal, eles se encontraram para discutir um programa de adoção de criancinhas russas, poxa.

Pergunta daqui, pressiona dali, Juninho divulgou hoje os e-mails que levaram ao agendamento daquela reunião.

A linha de assunto do e-mail: “Russia – Clinton – particular e confidencial”

E segue o primeiro e-mail: “Migo Juninho, o governo russo apóia o seu pai e por isso quer compartilhar com vocês uns lances comprometedores da Hillary. Cê qué?”

A resposta dele, e eu não estou brincando, é praticamente aquele slogan imbecil do McDonalds – “amo muito tudo isso”.

O bom de acompanhar a política estadunidense é que isso nos permite rever a instituição País Sério.

Sabe quando a gente vê o deputado correndinho com a mala e pensa, num País Sério isso não aconteceria?

Clube das construtoras – num País Sério, algo já teria sido feito há muito tempo?

Reforma trabalhista escrota – num País Sério, isso aí nem pensar?

O País Sério, de Homens Competente, Honrados e Probos, certamente existe – apenas não neste século, nem nos anteriores, nem neste continente, nem em nenhum outro.

Alarme falso

Existem três teorias sobre a morte de Amelia Earhart.

(Se você não sabe quem é Amelia Earhart certamente não sabe quem é Joni Mitchell, portanto volte umas mil casinhas na vida e tome tento, por favor.)

Um: acidente do avião que ela pilotava.

Dois: ela foi capturada por japoneses que acharam que ela era espiã, e morreu na prisão. Um cara achou uma foto dia desses que parece dar sustentação a essa teoria.

Três: ela morreu numa ilha deserta onde seu avião caiu. Um outro cara vai levar uns border collies farejadores até essa ilha para tentarem achar uns restos de ossos dela. Se os ossos forem encontrados, teoria confirmada. Se não… Teoria não-refutada. Afinal, muita coisa pode ter acontecido com os tais ossos em oitenta anos.

Fiquei horas e horas angustiada com essas teorias e possibilidades. Para qual teoria eu deveria torcer? Qual morte seria a menos pior? Devo torcer contra ou a favor dos cães farejadores?

Torcemos por mil eventos futuros sobre os quais não temos nenhum controle, e sabemos disso, e tudo bem, porque pelo menos os eventos são futuros e podemos compará-los com a torcida ou palpite, os juros subiram, o Parmera perdeu, um imbecil foi eleito, e eu sempre, sempre posso ter uma ilusão íntima e não-dita de que foi a minha torcida (ou falta dela), no fundo, que fez toda a diferença.

Mas o que dizer da torcida por um evento passado?

Enquanto estou torcendo para que Amelia tenha morrido de um e não de dois, ela já morreu.

O dia de 24 horas

Uma das grandes mentiras que nos contam é que o dia tem 24 horas.

Para o seu dia ter 24 horas, é preciso ser relativamente jovem, sem filhos e com preocupações financeiras que se limitem a “peço caipirinha com vodka nacional ou importada?”.

Aos cinco anos de idade, o dia tem aproximadamente noventa e seis horas. Toda experiência é de vida ou morte, pois toda experiência é quase infinita. O chocolate que se toma, a massinha que se amassa, a mãe que se abraça, é tudo eternamente docinho, molinho e quentinho, não necessariamente nessa ordem. Por outro lado, quando o menino mau te tranca no banheiro da escola você fica lá para o resto da vida também. Ter cinco anos não é fácil.

Aos quinze, dezesseis, dezessete anos, o dia já é um pouco menor, mas ainda dá para fazer bastante coisa. Nas cerca de setenta e duas horas do dia, é possível ir à escola, estudar a tarde inteira, dormir a tarde inteira, ver televisão a tarde inteira, ir ao shopping com os amigos, pensar se ele gosta de mim, ligar para ele e desligar correndo, chorar porque ele não gosta de mim, ficar com o melhor amigo no telefone a madrugada toda – tudo isso em umas trinta e seis horas horas. As trinta e seis horas restantes você emprega em questionamentos acerca das suas reais chances de algum dia fazer sexo na vida, que você sempre conclui serem um pouco maiores do que participar de uma Olimpíada, porém um pouco menores do que ganhar um Oscar.

As horas do dia diminuem drasticamente no momento em que se inicia um curso de graduação. É um mundo novo, repleto de pessoas novas com histórias de vida totalmente diferentes da sua – mas todos estão passando pelo mesmo processo de encolhimento do tempo. De repente, pela primeira vez, é preciso fazer escolhas. As quarenta e oito horas do dia não são suficientes para ir a todas as festas e estudar para todas as provas. É preciso selecionar os bares, as matérias, os amores, os trabalhos, as drogas, as músicas e as pessoas às quais você quer se dedicar. Mesmo assim, em um só dia ainda era possível desenvolver razoável número de atividades. Eu, por exemplo, costumava passar umas oito horas por dia ouvindo música, oito estudando e trabalhando com psicologia e oito parada no trânsito da marginal. Nas outras vinte e quatro horas, eu me dedicava com afinco a ser uma mocinha apaixonada e meio surtada.

É nessa idade, aos vinte e poucos anos, que você se dá conta pela primeira vez de que você não tem tempo. Os mais velhos dizem que você tem, mas secretamente você sabe que eles estão apenas sendo gentis.

Aos vinte e muitos, finalmente, o dia começa a ter cerca de vinte e quatro horas, e você já se conformou com o fato de que não irá cumprir nem com metade daquelas coisas que os livros da série antes-de-morrer exigem que você faça.

Tudo isso, naturalmente, muda num piscar de olhos com a chegada de um filho. Nesse caso, o dia inteiro se reduz a uma única hora.

Nada disso, por outro lado, se aplica se desde sempre e para sempre você tem de trabalhar o dia inteiro para comprar comida. O dinheiro é um dos maiores modificadores do tempo que há, não porque tempo = dinheiro, mas porque falta de dinheiro = tempo a serviço do que alguém determinou, não a serviço do que você quer, precisa ou gosta.

(O outro grande modificador é o amor, mas esse é mais complicado.)

Hoje, aos trinta e cinco e sem filhos, meu dia dura umas vinte horas, que passo basicamente trabalhando, lendo sobre a crise política nos EUA e a crise climática no mundo. Aos vinte e pouco anos, eu reclamava que não havia horas suficientes para ler todos os livros. Aos trinta e médios, já fiz o luto dos livros não-lidos – o que eu queria mesmo eram horas para dormir de verdade.

Ainda estou relativamente próxima do dia de vinte e quatro horas. Por enquanto, dias mais curtos parecem improváveis e inimagináveis.

Mas no fundo eu sei, todos sabemos, não nos enganamos – no futuro, não é que teremos quinze minutos de fama. Teremos quinze minutos, simplesmente. É o tanto que nossos dias irão durar.

Sete marinheiros americanos

Talvez vocês tenham lido, talvez não, que sete marinheiros americanos morreram em uma colisão com um navio japonês.

Bom – eu li. E, claro, sequer registrei a notícia. As pessoas nascem, crescem, fazem selfies e morrem, o que que eu tenho a ver com sete marinheiros americanos, etc.

Até que agora à noite vi uma foto dos marinheiros.

Calma que este não é um post sobre como de repente fui tocada no fundo do meu ser sobre a individualidade e a singularidade dos seres humanos e comecei a chorar loucamente por sete marinheiros americanos. (Não é, mas podia ser, claro – esse tipo de coisa acontece com todo mundo toda hora.)

Este é um post sobre – Jesus, não é incrível o tanto que a gente não sabe de nada?

Vi a foto e quase caí para trás. Os sete marinheiros americanos eram… Meninos. Saídos da escola. Carinha de vinte anos.

A foto me deixou quase ofendida. Mas como assim os sete marinheiros não são homens fortinhos de meia idade?

Foi quando, evidentemente, me dei conta de que, sem perceber, eu já estava plenamente convencida de que os sete marinheiros americanos eram sete marinheiros popeye.

Eu passo pelo mundo sem nem mesmo saber que tenho certeza de que algumas pessoas são marinheiros popeye, cebolinhas, scoobydoos.

Vovô-cama

Ontem meus primos e eu nos encontramos para jogar as cinzas do nosso avô no mar.

Não eram cinzas, na verdade. Eram uns pedregulhinhos de variados tons de cinza. Decidi que as pedrinhas-cinza-claro eram a parte do meu avô que a gente podia ver, e as pedrinhas-cinza-escuro eram tudo o que ia por dentro, órgãos, ossos, nervos, tudo o que fica por debaixo da pele. Como é bom ser de humanas.

A ideia era sair de lancha e jogar as cinzas-pedrinhas em alto mar.

Levamos para a lancha o potinho contendo um saquinho com aquilo que chamamos erroneamente de “as cinzas do vovô”. Aquelas cinzas nunca foram “do vovô”. Ele nunca as teve. As cinzas eram… Ele. Ao mesmo tempo que, claro, não eram. Restos do vovô? Vovô sublimado?

Mas a vida prática tem seu jeito maravilhoso de atravessar qualquer reflexão semântico-filosófica com suas questões tão bestas, tão essenciais. Como se joga as cinzas de alguém no mar? Jogaríamos as cinzas com potinho e tudo? Sem potinho, dentro do saquinho plástico? Só as cinzas e nada de saquinho ou potinho?

Um dos primos fez a excelente observação segundo a qual se nosso avô pediu para ser cremado e não enterrado, é que ele não queria ficar confinado em um espaço diminuto, portanto melhor seria tirá-lo do potinho, ainda que o crematório tivesse tido o cuidado de nos entregar as cinzas (… as cinzas? o vovô? as cinzas do vovô?… As reflexões semântico-filosóficas têm um jeito maravilhoso de se imiscuírem nas questões práticas mais bestas e essenciais) em um potinho biodegradável.

Foram meus primos que tiveram a ideia de jogar … … … no lugar onde meu avô gostava de pescar. Eu não fiz nada, não pensei em nada, só fui na onda deles.

Que onda.

Primeiro era só um compromisso na agenda. Acordar cedo, pegar estrada, lembrar de passar protetor solar.

Até que os primos todos se reúnem (a última vez foi quando? há uns cinco natais?), os primos todos entram no bote, levam um caldo, sobem na lancha, um dos primos dirige a lancha (atividade para mim tão inconcebível quanto tocar tuba ou fazer suspiro), e de repente não é mais um compromisso na agenda: de repente aquilo é um acontecimento.

Chegamos no lugar onde meu avô levava meus primos para pescar. Eu nunca ia. Ficava em casa lendo e fazendo palavras-cruzadas com a minha avó.

Cada um falou “umas palavras”.

Um primo disse que achava que a paixão dele pelo mar tinha vindo do vovô.

Comecei a chorar ali e acho que não parei até agora, apesar de que meu rosto está sequinho, sequinho.

Me senti bastante idiota dizendo a um pacotinho de pedregulhos: “obrigada por ter ido me buscar na escola”. Mas não era qualquer pacotinho de pedregulhos, não era qualquer dia e, principalmente, eu teria me sentido duas vezes mais idiota se não tivesse dito nada.

Passei bem mal. Enjoei loucamente. Pensei demais no Robinson Crusoe e no Gulliver, livros que li tão recentemente. Pensei na minha mãe, que não está no mar.

E pensei que não faz sentido nenhum dizer que alguém “partiu”. “Se foi”. “Deixou de existir.” Nada deixa de existir. Ninguém vai embora. A NASA ainda não inventou um método de jogar os restos mortais das pessoas no espaço sideral. Os mortos continuam aqui mesmo, neste mundo. Eles apenas não são mais o que um dia foram.

Meu avô nunca mais será meu avô, mas ele está lá, em Ubatuba. Cama para os peixes, ele virou.

All in the game

Dez, quinze anos atrás… Tanta gente com quem eu convivia e que hoje só vejo nas redes sociais, de relance, pipocando na minha TL. Há dez, quinze anos, essas pessoas e eu conversávamos basicamente sobre psicologia (especialmente psicanálise), música (especialmente jazz) e, sei lá, relacionamentos. (Alguns anos depois, séries de TV.) Mas eu nunca soube a opinião delas sobre nenhuma proposta de emenda à Constituição. E elas jamais souberam meu posicionamento sobre o voto distrital. Anos de convivência e relacionamento, e nada disso foi discutido. Claro que houve os anos neoliberais fora-FHC-FMI e privatizações e greves na universidade; mas essas coisas todas eram apenas mais uma área da vida, e não A Grande Área Geradora de Ansiedades de agora. Parece que, tempos atrás, certas coisas ainda não eram normais. Vivíamos sem a ameaça de ouvir que os vagabundos do bolsa família têm mais é que se fuder – “opinião” que hoje, em alguns círculos sociais (e não estou me referindo apenas a gente rica), virou mainstream. Não se trata de ficar ficar de frescurinha porque alguém disse algo politicamente incorreto e minha sensibilidade privilegiada não dá conta de ouvir altas barbaridades. Trata-se de constatar que foi elevado à categoria de opinião algo que é apenas ódio. E quando ódio vira opinião, e botamos a mãozinha no queixo e debatemos ponderadamente sobre o que fazer, afinal, com os vagabundos do BF – acabou. Já passou boi e boiada e vai passar a PEC.

Então é com espanto que vejo que eu e a maioria daqueles amigos mais próximos com quem perdi contato estamos basicamente no mesmo campo político. É curioso, porque jamais conversamos sobre isso naquela época. Mas cá estamos, dez ou quinze anos depois, a favor da saúde pública e universal, do direito à livre manifestação, do Estado laico e contra a violência policial. E por que não falávamos sobre nada disso? Porque éramos uns alienados e subitamente acordamos para a política? Acho que não. Acho apenas que tudo parecia óbvio. Para que perder tempo falando que, por exemplo, “a polícia não deve jogar bombas em manifestantes”? Que tipo de pessoa não concorda com isso?

Aparentemente, o tipo de pessoa que não mora na bolha. E de repente nada mais é óbvio. Então ficamos assim, tateando – tentando encontrar algum terreno comum. E falando sobre política – sobre aquilo que nunca foi óbvio – nas redes sociais.

***

Tomemos a figura do tiozão reaça do almoço de família. Onde estava esse tiozão há dez, quinze anos? A ansiedade com o iminente almoço de família é um fenômeno relativamente recente. O tiozão reaça costumava ser apenas o tiozão do pavê. E agora ele não é muito diferente do Presidente da República.

Parece que esse modus operandi chegou aos Estados Unidos. Tenho visto uma profusão de artigos sobre “como lidar com seu parente eleitor do Trump no almoço de Thanksgiving“. Brasil, exportador de laranja, soja e política do fim do mundo.

Stephen Colbert falou sobre isso lindamente no monólogo pós-eleição – sobre essa sensação de que, antes (quando, exatamente?), não nos preocupávamos com (ocupávamos de) política tanto assim.

E agora isso. Tornou-se normal e aceitável a nomeação de um supremacista branco para um cargo de confiança da presidência dos Estados Unidos. Parecia inconcebível mas it’s all in the game. Nada deve parecer impossível de piorar.

Quando o que parecia óbvio não é mais óbvio e o que parecia inaceitável torna-se o pão nosso de cada dia, é sinal de que ainda passaremos muito e muito tempo conversando sobre aquelas coisas das quais não falávamos dez ou quinze anos atrás.

Sálvia

Se eu tivesse de deixar um e apenas um conseho, recomendação, pílula de sabedoria para a posteridade, seria o seguinte:

PLANTE SÁLVIA

Não importa onde você mora: um vasinho de sálvia bem pequenininho cabe no batente de qualquer janela. O meu eu ganhei da minha sogra, e não durou nem duas semanas: RIP sálvia. Então minha sogra me deu outro vasinho, eu não fiz absolutamente nada de diferente com ele – botei no mesmo lugar e reguei a cada 2/3 dias – e desta vez a sálvia vingou. (Talvez um conselho melhor ainda fosse “tenha uma sogra que te dê plantinhas de presente”, mas vamos focar na sálvia por hoje.)

Plante sálvia, tenha sempre uma sálvia por perto. Porque um dia, o seu avô vai morrer. E você estará sozinha em casa, à noite, e a sopa de mandioquinha que você fez para o almoço não deu muito certo, e você estará pensando no seu avô, na sua avó, que não morreu, e na PEC 241, que também está vivinha da silva, e então você irá à varanda e colherá uma, duas, três, oito folhinhas de sálvia. Você colocará macarrão para ferver, fritará uns cubinhos de bacon, jogará uma manteiguinha por cima, desligará o fogo, lançará na frigideira as oito folhas de sálvia, escorrerá o macarrão, acrescentá-lo-á (leave the mesóclise alone, pls) à misturinha de bacon, manteiga e sálvia, jogará muito parmesão ralado por cima de tudo, e comerá sentindo um quentinho na barriga e um abracinho no peito.

Tudo culpa da sálvia, que perfuma a manteiga e mostra que o seu avô tinha mesmo razão,  viver é bom e macarrão nunca é demais.