Nuvens, amor e vida

Uma cantora de jazz participava de um destes testes às cegas, uma brincadeira em que várias gravações são mostradas à musicista sem que lhe sejam revelados os nomes dos intérpretes. Esse é um tipo de brincadeira que os jornalistas especializados em jazz adoram fazer em suas entrevistas – e, de fato, é bem divertido ver os entrevistados tentando acertar quem são os músicos, os compositores, a gravadora; é sobretudo muito instrutivo reparar nas estratégias que os entrevistados utilizam para chegar às suas conclusões.

Então o entrevistador foi tocando gravações de clássicos do jazz vocal para a cantora, que muito tranquilamente foi adivinhando e comentando uma a uma, dizendo como Carmen McRae a havia influenciado nisto, Dinah Washington naquilo e assim por diante. Até que começou a tocar a última gravação selecionada pelo entrevistador: Both Sides Now, de Joni Mitchell, com a orquestra de Vince Mendoza.

A cantora começou a chorar. Chorou, chorou, chorou, soluçou e não falou mais nada. O entrevistador estava ficando constrangido. A cantora estava ficando sem rímel nos olhos. Depois de alguns minutos, quando Joni já olhara para as nuvens e para o amor dos-dois-lados-agora, a cantora recompôs-se apenas o suficiente para dizer: “isso é o tanto que esta música significa para mim”, e continuou chorando, e chorando levantou-se, pegou a bolsa e foi embora, deixando o entrevistador sozinho com Joni e Vince e dezenas de músicos, todos juntos empenhados em transmitir a experiência de uma pessoa que conseguiu, enfim, ver a vida dos dois lados, ontem, sempre e principalmente agora.

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5 comentários sobre “Nuvens, amor e vida

  1. a versão original de both sides now é bem mais legal que a desse álbum, tá num disco chamado clouds aliás. A capa é uma pintura. Dá uma checada no youtube. legal o blog.

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