A eleição para o governo do estado de São Paulo

De 13 a 17 de junho de 2013, todas as imagens de bebês e gatinhos fofos que normalmente povoam o Facebook foram substituídas por imagens da Polícia Militar de São Paulo fechando a Avenida Paulista e atirando em pessoas desarmadas cujo único crime fora protestar contra o aumento da tarifa do ônibus. 

Em 17 de junho de 2013, centenas de milhares de paulistas foram às ruas contra essa violência policial – e, além disso, em apoio aos que reivindicavam a revogação do aumento da tarifa. 

Em 10 de junho de 2014, 41% dos paulistas aprovam o governo de Geraldo Alckmin – que, não custa lembrar, comanda a Polícia Militar, que de lá para cá não apenas não parou de atirar em manifestantes pacíficos como inclusive encarcerou dois deles

***

Eu detesto perder a piada, mas desta vez vou ter que deixar passar a piada do Alckmin como Maria Antonieta e do paulista como o imbecil que não sabe votar. Para a piada ter graça, você tem que acreditar nela, e eu sinceramente não acredito que os paulistas que aprovam o governo Alckmin sejam masoquistas com grandes quantidades inatas de pulsão de morte. Prefiro uma explicação mais simples: se há uma grande aprovação do governo Alckmin, é porque alguma coisa este governo está fazendo certo, oras. Resta saber o quê.

Então, pensando nas coisas que não estão exatamente indo bem no estado de São Paulo, fiz uma ligeira retrospectiva mental de algumas das explicações e justificativas que o governo Alckmin vem fornecendo para estes problemas. Atenção para a minha tabelinha: 

Problema – explicação/justificativa tucana (comentário meu)

Falta d’água (cinco municípios em estado de emergência, racionamento há seis meses em Itu) – veja bem, é que não choveu (verdade, não choveu mesmo!)

70% das doações para a campanha de Alckmin até agora vieram de empresas acusadas de participar do cartel do metrô – veja bem, essas doações não são ilegais (verdade, não são mesmo!)

O cartel do metrô causou prejuízo estimado em R$800 milhões aos cofres públicos – veja bem, o estado foi lesado pela ação do cartel, se é que tal cartel existiu (verdade, foi mesmo!)

O metrô de São Paulo apresenta uma falha grave a cada 3 dias – veja bem, todos os sistemas de metrô do mundo estão sujeitos a falhas (verdade, estão mesmo!) 

Repare que a operação é sempre a mesma: apresenta-se como explicação ou justificativa para o problema um fato obviamente verdadeiro (alguém vai negar que não choveu?). É claro que, em todos os casos acima, basta pensar um minuto e um centímetro a mais do que sugerem as explicações e justificativas oficiais para concluir que elas não se sustentam: é evidente que não choveu, mas o governo do estado não só não fez os investimentos necessários nos sistemas de abastecimento de SP ao longo dos últimos 20 anos como também não seguiu o plano de contingência proposto pela Sabesp no início de 2014; as doações das empresas não são ilegais, mas certamente são ilegais (se comprovadas) as 11 licitações de contratos públicos vencidas por essas empresas durante governos de um partido para cuja reeleição estão contribuindo; obviamente os cofres públicos foram lesados pelo “suposto” cartel das empresas – e isso só foi possível porque servidores do governo – como o conselheiro tucano Robson Marinho, afastado do TCE esta semana – “supostamente” facilitaram o conluio; por vim, é verdade que todos os sistemas de metrô do mundo estão sujeitos a falhas, mas nem todos os sistemas de metrô do mundo foram reformados por empresas acusadas de vencer licitações de forma ilegal. 

Nenhum dos argumentos que apresentei no parágrafo anterior é especialmente complexo ou brilhante. Pelo contrário, é tudo de uma simplicidade tão rasteira que dói. Mesmo a imprensa paulista sendo descaradamente tucana (ou antipetista – o que, na prática, dá no mesmo), basta ler as matérias que saem nos grandes veículos da imprensa para chegar às conclusões que expus acima. Não é preciso – aliás, não é nem mesmo recomendável – ler blogs governistas. Os títulos das reportagens d’O Estado e da Folha, de fato, falam em “cartel da Siemens” e em “pagamento de propina” sem mencionar que tais propinas, se comprovadas, foram pagas a políticos do PSDB; mencionam um tal “Marinho” em vez de “conselheiro tucano”; alertam para a “crise hídrica” e o “rodízio” em vez de “falta d’água” e “racionamento”; e – cúmulo da ~neutralidade jornalística~ – anunciam “medidas equivalentes a racionamento” em vez de, simplesmente, “racionamento”. No entanto, basta ler essas matérias de títulos suaves até o final para chegar à conclusão de que há algo muito errado com o governo do estado de São Paulo.

Mas acontece que pouca gente se interessa em ler essas matérias até o final. A isso se chama despolitização. Despolitização não é apenas achar que política não importa ou não se interessar pela mesquinharia PT x PSDB. É não ver implicações políticas em determinados fatos da vida pública. É não estabelecer uma conexão entre problemas políticos (colapso do sistema de abastecimento, colapso do transporte público, colapso da USP etc.) e, justamente, os políticos que nos governam.

É isso que o governo Geraldo Alckmin faz extremamente bem: aproveita-se como nenhum outro dessa despolitização generalizada, com uma capacidade magnífica de dar explicações e justificativas absolutamente racionais e aceitáveis, desde que você não leia as letrinhas miúdas dos jornais (afinal, não está chovendo – você não está sentindo como o ar está seco?).

*** 

Uns meses atrás, um pessoal no tuíter criticava Dilma porque um tuíte de seu perfil oficial continha um erro de ortografia. Considerei aquelas críticas uma tremenda babaquice – em linguagem tuítica, algo como “plmdds tanta coisa pra falar mal da Gilma e vcs tretando pq ela falou nóis vai nóis vorta vamo repensar as prioridade aê né glr” – e complementei minha crítica lembrando que o tuíter do governador Geraldo Alckmin era gramaticalmente impecável.

Qual não foi minha surpresa quando:

 Conversa governador inteira

Para além do fato de que a equipe responsável pelo tuíter do governador é ótima em gramática porém péssima em interpretação de texto, uma coisa ficou muito clara para mim: a correção gramatical do tuíter de Geraldo Alckmin é a mais completa tradução do governo do PSDB em São Paulo. A PM-SP mata mais do que todas as polícias dos EUA juntas – mas, no tuíter oficial do governador, todas as vírgulas e acentos e concordâncias verbais e nominais estão em seus devidos lugares. A PM-SP expulsou moradores do Pinheirinho de suas casas com uma violência chocante – mas, pouco depois, lá estava o governador no tuíter para explicar, em um português impecável, que a polícia simplesmente cumprira uma determinação judicial.

Em suma, a barbárie absoluta revestida por um fino verniz de cultura e civilização.

Um mundo despolitizado é solo fértil para um fruto que reluz por fora e está podre por dentro.

*** 

Mas ocorre que, em primeiro lugar, essa despolitização de que estou falando, apesar de generalizada, não é fixa nem imutável. Há brechas, há possibilidades. Não nos esqueçamos: houve o 17 de junho de 2013.

Em segundo lugar – com a eleição, mesmo a pessoa mais despolitizada se vê obrigada a pensar um minuto e um centímetro além do que dizem as explicações e justificativas oficiais do governo. Até os mais despolitizados entrarão em contato com as críticas que Skaf e Padilha (e todos os demais candidatos, suponho) certamente farão.

O verniz está a ponto de rachar.

De minha parte, acho que é possível contribuir para a quebra do verniz. Cito duas possibilidades:

- Fazendo a crítica da imprensa. É a coisa mais fácil do mundo. Basta LER o que diz a própria imprensa. Não é preciso fazer nenhuma pesquisa adicional. Basta ler as reportagens d’O Estado até o final para aprender que o “Marinho” do título não é qualquer zé mané, é um cara que foi chefe da Casa Civil do Covas, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, indicado por Alckmin e acusado (com fortíssimos indícios) de ter recebido propina da Alstom. Tudo isso está lá nas matérias sobre o cartel do metrô. Compartilhar essas informações no Facebook talvez não faça diferença alguma? É, talvez não. Mas certamente não atrapalha.

- Mostrando que o antipetismo não precisa se reduzir ao tucanismo. É perfeitamente possível ter ojeriza ao PT e votar em outro partido que não o PSDB. Existem outras opções certamente não piores do que o PSDB – se nada mais puder ser dito desses outros candidatos e partidos, que se diga que eles não destruíram o sistema Cantareira nem contribuíram para o sucateamento do metrô de São Paulo. Acho esse raciocínio – a não-redução do antipetismo ao tucanismo e vice-versa – bastante saudável, inclusive, em nível nacional, só que ao contrário: você odeia o PSDB? Ótimo: você não é obrigado a votar no PT por causa disso. 

Mas voltando a São Paulo: o mundo não se restringe ao PSDB e ao Alckmin. O mundo não pode se restringir ao PSDB e ao Alckmin. A vida pode ser melhor do que viver em um estado muito engraçado, que não tinha USP, não tinha água.

O verniz vai quebrar. 

#VaiTerSegundoTurnoEmSãoPaulo

Cuidando da TL

A vida é um constante cuidar. Cuidamos da casa e do corpo, dos filhos e cônjuges, de cachorros e gatos; cuidamos da saúde e cuidamos para não ficar loucos.

Por que não haveríamos de cuidar da própria TL?
 
Não estou falando das pessoas com quem efetivamente nos relacionamos na internet, mas daquelas que vemos de longe na TL e, não obstante, participam do nosso cotidiano, sobretudo se você é uma pessoa que passa o dia diante do computador (se você está me lendo, provavelmente é o seu caso).
 

Já são pouquíssimas as coisas que escolhemos nesta vida. Não escolhemos o país, a família ou a classe social em que nascemos. Não escolhemos orientação sexual nem aqueles por quem nos apaixonamos – somos escolhidos por eles. Não escolhemos altura nem cor dos olhos. Não escolhemos talento para as artes nem para os esportes. Não escolhemos sogro e não escolhemos chefe.

Mas podemos escolher as pessoas que lemos nas redes sociais.
 
O coleguinha é inteligente, mas acha que o político X deveria ter estado no avião?
 
A moça compartliha umas fotos lindas de pôr-do-sol, mas acha que gay não pode dar bandeira?
 
A prima distante é querida, mas acha que bolsa presidiário é uma coisa que existe?
 
Repita com a tia: Você. Não. É. Obrigado.
 
Estou falando de um problema que acomete diariamente a todos os que usam bastante as redes sociais, mas que vem à tona de forma especialmente inescapável quando ocorre alguma morte trágica e, com ela, o infeliz advento de comentários que acabam com qualquer possibilidade de fé na espécie humana. Como proceder: abrir-se para toda e qualquer pessoa que lhe adicionar (incluindo aí pessoas sabidamente malucas, como os combatentes da ditadura comunista que assola o Brasil) ou selecionar a TL cada vez mais (de modo que, no limite e no fim das contas, você exclua todos os seus contatos e só reste você mesmo)?
 
Entre esses dois caminhos, existe um que não é o do meio-termo (pois o meio-termo, amigos, não é solução para nada: uma comida que está no meio do caminho entre o doce e o salgado é apenas uma comida horrivelmente insossa) e não é nada fácil, mas me parece o único possível – o caminho da Leila Diniz:
 
“Na minha TL pode entrar todo mundo, mas não entra qualquer um.”
 
Eu não sei quais são os seus limites, seus critérios, suas (im)possibilidades. Eu não sei, em suma, quem é o seu “qualquer um”. Mas você com certeza sabe. Não estou falando simplesmente de coisas com as quais não concordamos, e sim daquelas que têm o potencial de acabar com nosso dia quando as lemos. Vai ver, por exemplo, você tolera numa boa o cara bonachão que reclama da tal ditadura comunista, mas não suporta que façam contagem regressiva para a morte do Sarney.
 
Meu ponto é: se você viu algo que lhe desagradou profundamente, faça algo a respeito. Não deixe passar batido nem busque explicações profundas para o seu incômodo; apenas tome uma atitude, pare de sofrer e evite sofrimentos futuros, porque as pessoas são fundamentalmente previsíveis – quem desejou a morte do Sarney no acidente de ontem voltará a desejá-la apenas surja a notícia da internação hospitalar de alguma celebridade.
 
Exclua, oculte, organize listas: todas as redes sociais têm diversos mecanismos de apagamento de barbaridades (sem eles, já teriam entrado em combustão espontânea). Não passe nervoso com isso. Já passamos nervoso o suficiente com o executivo e o legislativo, com a Tim e com a Net.
 
Não é preciso, creia, passar nervoso com “amigos” que só existem em nossas vidas porque, um dia, clicamos em um botãozinho chamado “aceitar solicitação de amizade”.

A arte de escolher o inimigo

Acho normal e compreensível uma pessoa feminista e de esquerda não gostar do Alex Castro (se você não o conhece, ei-lo). Acho mais normal e compreensível ainda uma pessoa feminista e de esquerda *gostar* do Alex, dado que ele é um simpatizante da causa – mas as preferências do coração têm razões que a própria razão e a própria esquerda desconhecem. Então, não tenho nenhuma dificuldade em entender ou empatizar com quem não gosta do Alex. Normal, ué. Até aí, eu não gosto de Clarice Lispector – vou julgar quem não gosta do Alex Castro? Acontece.

Para além das preferências do coração, entendo também quem acha que um homem não tem nada a contribuir com o feminismo. Não é esta minha posição: sendo o machismo um problema estrutural da sociedade, parece-me evidente que a sociedade como um todo deve enfrentá-lo, e a sociedade como um todo, goste-se disso ou não, inclui também (pausa para revelação bombástica) os homens. Mas, enfim, o debate sobre o papel dos homens no feminismo é obviamente muito complexo e não tenho nenhuma dificuldade em entender ou empatizar com quem tem uma opinião diferente da minha. Eu mesma não tenho certeza nenhuma de estar certa sobre isso – francamente, meu conhecimento sobre o feminismo só não é menor que meu conhecimento sobre o javanês.

Entendo, portanto, quem, por um motivo ou por outro, acha que os textos do Alex não são lá essas coisas – ainda que, pessoalmente, eu considere que eles oscilam entre o “apenas bom” e o “escandalosamente brilhante”.

Mas existe uma distância considerável entre achar que o Alex (ou antes, seus textos) não são nada demais nem grande coisa – ou mesmo inúteis e equivocados – e elegê-lo como O INIMIGO a ser combatido.

Essa distância, inacreditavelmente, foi percorrida por coletivos feministas e de esquerda.

E, quando essa distância é percorrida – isto é, quando você elege um *simpatizante do feminismo* como um inimigo contra quem vale a pena lutar – bem, aí eu sinto muito, mas meu entendimento e minha empatia, diferentemente da zuêra, TÊM LIMITES.

Meus inimigos neste mundo são a crueldade e a ignorância, o racismo e a falta de empatia, o machismo e o desejo de transformar índios em pobres, e por aí vai. Como bem sabe qualquer pessoa que já ligou a TV, entrou na internet ou abriu um jornal, estes “inimigos” têm espaço cativo em veículos como a Globo, a Record, o SBT, a Editora Abril – e em partidos políticos como o PSDB e, infelizmente com cada vez mais frequência, o PT. É essa, para mim, a luta que vale a pena ser lutada, no miudinho, todos os dias. A luta contra o jornal que anuncia “medidas equivalentes a racionamento”. A luta contra a propaganda do metrô de que trem lotado é bom para pegar mulher. Esses são discursos que quero escrachar, denunciar, ridicularizar, sempre que eu puder e conseguir.

Já a ideia de que “devemos abrir mãos de nossos privilégios” (Castro, Alex) – essa é uma ideia que quero ver sendo debatida, disseminada, até mesmo contestada. Mas nunca, jamais, banida – ainda que ela tenha sido enunciada por um homem-branco-hétero-cis.

***

A Mary W. comentou o lance do Alex com as feministas muito melhor do que eu (óbvio). Para mim, a parte mais tristemente reveladora da resposta dela é o P.S., em que o Alex explica como foi que o escritor “ó-tão-poderoso” (para usar uma expressão tipicamente alex-castrista) conseguiu seu espaço na revista ó-tão-poderosa:

Ele foi lá e se ofereceu para escrever de graça.

No que eu me pergunto: o que as pessoas ó-tão-revoltadas com o Alex Castro estão fazendo para que seus textos e ideias sejam lidos e divulgados? Elas estão entrando em contato com diversos veículos, oferecendo conteúdo, comprometendo-se a escrever regularmente e de graça – ou estão olhando fixamente para a caixa de entrada do gmail esperando aquele (1) em negrito com um convite para escrever uma coluna paga na revista de sua preferência?

(Disclaimer: sim, eu também sonho com o dia em que a Piauí vai me mandar esse maravilhoso e-mail, beijo pra todos vocês que tão na mesma.)

A vida real, ela é bem ridícula. Ela é feita de escritores que escrevem de graça e de não-escritores que não entendem que é possível escrever de graça. Para escrever de graça, não precisa nem ligar para a Revista Fórum. Basta, por exemplo, criar um blog.

Munro-Hopper

Não sou uma pessoa visual. Esta é uma ressalva covarde porém necessária em um post que tem o nome Hopper já no título. Mas, mais que não ser uma pessoa visual, não sou uma pessoa “multi”, com tudo o que de bom e de péssimo isso implica. Não é só que não consigo multitarefar – comer ouvindo música, trabalhar assistindo filme etc. -; também sou incapaz de multisentir. Porque há pessoas que ouvem uma sinfonia e são remetidas a suaves noites de verão; há pessoas que leem um poema e é quase como se sentissem um agradável aroma floral. Eu não sou essas pessoas. Sinfonias me remetem a outras sinfonias, noites de verão a outras noites de verão e assim por diante. Não costumo misturar as coisas.
 
Por isso, fui tomada de surpresa ao perceber que o livro que eu estava lendo não me remetia a nenhum outro livro, e sim a… Pinturas.
 
Vida Querida, de Alice Munro, é um conjunto de contos. Li o primeiro e achei meio besta. Mas continuei lendo e lendo e fui sendo tomada por algo que eu só tinha sentido uma vez antes, e por isso custei um pouco a identificar: a sensação de olhar para uma pintura de Hopper por tempo suficiente.
 
Então, já que graças a deus isto é um blog e não um trabalho acadêmico, eu não vou falar propriamente nem dos contos nem das pinturas, mas da minha sensação.
 
Esta sensação, que só posso chamar de Munro-Hopper, tem, em primeiro lugar, algo de familiaridade e cotidianeidade. E tudo bem que Munro trate basicamente do Canadá e Hopper dos EUA da década de 1950: os contos e pinturas não precisam tratar do meu cotidiano para que eu reconheça, neles, algum cotidiano e familiaridade. São pessoas comuns, levando vidas comuns, sem fazer nada demais.
 
Mas os contos de Munro não falam de um cotidiano do tipo que a pessoa acorda, toma café, vai pro trabalho, tem mil pensamentos loucos, volta pra casa e no fim das contas nada realmente aconteceu. Há suficientes acontecimentos memoráveis e traumáticos ali – traições, mortes, acidentes. Que familiaridade e que cotidiano, então, são esses?
 
Quanto mais penso nisso, mais me convenço de que essa sensação de “vida comum” vem do mundo interno dos personagens. Exceto em um caso específico, os personagens não têm pensamentos muito loucos e dignos de nota. Eles têm pensamentos, assim, meio bobos. Como os meus e, suponho, como os seus também. Como, por exemplo, a menina que, ao ser questionada pela mãe se ela se divertiu com o pai no fim de semana, responde que sim – porque, para ela, “divertir-se” era simplesmente o nome que se dava a “sair para passear com o pai”; ela não sabia que a palavra se referia a um estado de espírito. Ou como a senhora que, depois de procurar um endereço pela cidade toda, de repente sente aquela mistura de pânico com vergonha: “será que o endereço certo estava esse tempo todo logo ali onde eu estacionei o carro e eu não olhei direito?!” – e quando ela vai ver, não, ela tinha olhado direito sim, o endereço não era mesmo aquele.
 
São detalhes como esses que foram compondo um quadro maior de familiaridade para mim – que, no entanto, nunca chegou a se completar, como um quebra-cabeças onde faltassem as principais peças.
 
E as principais peças do quebra-cabeça da sensação Hopper-Munro são formadas por uma coisa só: a solidão. Profunda e inescapável, ela está presente em todos os contos, em todos os quadros – é ela que impede a sensação de familiaridade de se transformar em uma chatice sem fim, uma sucessão previsível de vidinhas e casinhas e cinemas e faróis. Em Hopper, acho que é algo na luz, mais que na expressão vazia das pessoas, o que comunica a solidão (nada poderia ser mais solitário, por exemplo, que aqueles faróis). Em Munro, acho que a solidão é dada pelos desencontros entre os personagens. Não é que não haja amor, pelo contrário – é só que as histórias de Vida Querida deixam claro que nenhum amor elimina a solidão. Como a mulher que enlouquece de ciúme quando o marido reencontra sua paixão de juventude – o amor entre mulher e marido existe; a solidão da loucura é só dela. Ou a mulher que tem a sensação de estar traindo a família – seja com algum amante, seja com seu ofício de poeta. Ou como a mulher que tem de conviver com a realidade de, quando menina, não ter sido capaz de salvar a irmã. Ou a menina que, pelo contrário, é invadida por um desejo tenebroso de estrangular a irmã (sendo este é o único caso de “pensamentos muito loucos” do livro). No fim das contas, todos esses personagens, por mais que tenham maridos e amigos e parentes, enfrentam fantasmas que simplesmente não podem ser compartilhados.
 
Estou citando contos cujo personagem principal é feminino, mas o conto que mais me encantou, “Trem”, descreve um homem que, se eu disser que foi “marcado por um trauma de infância”, certamente não estarei fazendo jus à sutileza do texto. Direi apenas, então, que o título me fez lembrar do comentário de Freud sobre a tendência das crianças – ou pelo menos das crianças vienenses do início do século XX – de usar os trens como símbolos sexuais (uma colisão de trens representando uma relação sexual, por exemplo). O conto não afirma nada disso, claro – prova de sua potência é o fato de ter despertado em mim essa lembrança, há muito tempo esquecida.
 
Os quatro últimos contos do livro são autobiográficos – e isso não faz diferença nenhuma. Todos os elementos dos outros contos estão lá: o cotidiano, a solidão, os desencontros, a delicadeza. Fico um pouco hesitante em usar da palavra “delicada” para descrever a escrita de uma mulher, porque pode parecer a alguns que “delicado” tem algo a ver com florzinhas ou bichinhos fofinhos. E delicada, na escrita de Munro, é a composição das personagens – assim como é delicada, em Hopper, a forma de pintar a luz.
 
Penso nesses contos mais como descrições, pinturas, panoramas do que como apenas narrações de histórias. Ao mesmo tempo, sinto que as pinturas de Hopper frequentemente querem me contar histórias.
 
É isso: se as pinturas de Hopper escrevessem, escreveriam os conto de Munro.
 
E mais não digo.

Declaração de Princípios e de Voto

- Mônica (gorduchinha e sabichona) ganha do Super Homem.
- TV > cinema
- Gente que bota açúcar no café: eu julgo.
- Gente que bota uva passa no arroz: julgo também.
- Gente que toma café adoçado, come arroz uvapassado porém no meu aniversário me dá livro de presente: tá perdoado.
- Acho que (1) as crianças precisam ser ensinadas pelos adultos a: ler; escrever; fazer conta; cuidar de si; respeitar os coleguinhas. 
- Acho que (2) os adultos não precisam explicar para as crianças: por que o Brasil perdeu o jogo; por que choveu justo no dia do piquenique; por que não podemos almoçar bomba de chocolate todo dia.
- Acho que (3) o carro é a atual saúva do Brasil.
- Tenho certeza de que (1): o xampu Kérastase é bem melhor que o Seda, não é frescura não.
- Tenho certeza de que (2): Nova York é do caralho.
- Tenho certeza de que (3): ser rico é melhor do que ser pobre (vide itens anteriores).
- Suco de melancia com gengibre > suco de abacaxi com hortelã
- Catherine Deneuve > Marilyn Monroe > Brigitte Bardot
- Seinfeld >>>>> todas as séries de comédia
- The Wire >>>>> todas as séries de drama
- Acho que (4) a primeira temporada de OITNB foi melhor do que a segunda. A segunda teve um jeitão meio Barrados no Baile (só que na prisão).
- Acho que (5) a morte de Hélène Kuragin em Guerra e Paz (e ai de quem reclamar que é spoiler – tá bom que eu vou acreditar que você ia começar a ler Guerra e Paz justo hoje) foi uma puta sacanagem.
- Tenho certeza de que (4) hambúrguer de soja é um erro.
- Tenho certeza de que (5) repassar foto de criança morta na internet não faz a dita criança ressuscitar.
- Virginia Woolf > Clarice Lispector
- Bob Dylan < Elomar
- Nat King Cole = Cartola
- Não voto no Alckmin nem fudendo.

(texto descaradamente plagiado do Felipe de Amorim)

 

Morreremos

Sempre que vejo pessoas se xingando na internet e desejando a morte uma da outra, minha vontade é dizer:

- Calma, pessoal, tem morte pra todo mundo: não precisa brigar para saber quem é que vai morrer.

Mas, como sou educada, prefiro não dizer nada. Seria o cúmulo da falta de educação interromper uma briga dessas para dizer que ambos os contendores um dia certamente hão de morrer.

Afinal, se eles soubessem disso – se realmente estivessem convencidos de que um dia só existirão na lembrança dos que ficam e no caché do Google -, seriam obrigados a interromper a disputa para chorar de desespero e aflição – com o fato de que a morte é certa e a vida, tão errada, foi gasta em gritos de MORRA para cá e MORRA VOCÊ para lá.

Se os gladiadores virtuais realmente, sinceramente soubessem que um dia o tuíter deixará de existir e eles também, é possível que sua primeira reação – não de todo ilógica, aliás – fosse o suicídio.

Melhor, então, ficar bem quieta e deixá-los em paz com sua guerra.

Assim, esquecem-se de se matar.

Assim, esquecem-se de que irão morrer.

A incrível geração de mulheres que se orgulham de não saber realizar tarefas domésticas

Para mim, a característica mais triste da Incrível Geração de Mulheres Modernas e Bem-Sucedidas não é nem o fato de que tais mulheres continuam vendo a conquista de um hómi-macho como o grande objetivo de sua existência.

Triste mesmo, a meu ver, é esse estranho orgulho em não saber realizar tarefas domésticas. Meu coraçãozinho de dona-de-casa enregela-se de compaixão toda vez que uma mulher bate no peito para dizer que não sabe diferenciar uma berinjela de uma abobrinha ou ligar o ferro de passar roupa. Naturalmente, não saber essas coisas não é motivo de vergonha para ninguém – mas por que deveria ser motivo de orgulho?

Ora, algumas mulheres parecem se orgulhar de não saber realizar as tarefas domésticas mais básicas – cozinhar o próprio legume, cuidar da própria roupa – como forma de valorizar as atividades que elas (aí sim) foram muito bem treinadas para fazer. Ao contrário de suas mães e avós, a Incrível Geração de Mulheres Que Assoviam e Chupam Cana foi educada para ter um trabalho e ser bem-sucedida nele. Nada mais justo, portanto, que se orgulhar de ter uma carreira exitosa quando se foi criada para isso.

Ocorre que, se você não sabe diferenciar a salsinha do coentro e o tira-limo do lustra-móveis, eu te garanto que 1) alguém na sua casa sabe 2) esse alguém, muito provavelmente, é uma mulher. Ou essa mulher é uma pessoa mais velha da sua família que não teve acesso à mesma educação que você, ou (mais provável) é uma empregada doméstica que (adivinhe) tampouco teve acesso à mesma educação que você.

A verdade é que a Incrível Geração de Mulheres Que Chupam Mel e Mascam Abelha só pode se orgulhar de sua inaptidão para as tarefas domésticas porque uma Outra Geração de Mulheres, que nunca ganha o epíteto de Incrível, está realizando essas tarefas em seu lugar. E poucas coisas me parecem mais reveladoras do tanto que ainda temos de caminhar para viver em uma sociedade justa do que a própria existência de uma Incrível Geração de Mulheres Ricas (quase sempre brancas) que ganham o mundo apenas para pôr uma Outra Geração de Mulheres Pobres (quase sempre negras) para realizar as tarefas domésticas em seu lugar.

Em tempo: não estou argumentando que contratar uma mulher para trabalhar como empregada doméstica seja uma atitude condenável. Estou falando de um impasse enfrentado pela sociedade brasileira, e não apontando dedos para casos específicos e individuais. Em outras palavras, não acho que você é uma pessoa melhor e admirável se você não tem uma empregada doméstica trabalhando em sua casa, assim como não a considero uma pessoa pior e execrável se, por um acaso, você contratou uma empregada.

Acho, isso sim, que nossa sociedade é pior pelo fato de tantas de nós sermos incapazes de imaginar nossas vidas sem uma diarista – e, claro, pelo fato de este ser um trabalho não valorizado e mal-remunerado, realizado exclusivamente por mulheres. E por que tantas de nós não conseguimos imaginar uma existência desprovida de empregadas? Porque desvalorizamos o trabalho que elas realizam. Porque achamos que são tarefas “menores” e “inferiores”, que não estão à nossa altura (nós, criadas para brilhar no mundo acadêmico e empresarial), em vez de encará-las como fatos inescapáveis da vida. A casa é uma extensão do corpo: cuidar da própria casa é (ou deveria ser) tão inevitável e indispensável quanto cuidar do corpo. Assim como é preciso escovar os dentes, é preciso lavar a louça. O problema não está em, eventualmente, terceirizar algumas tarefas (contratar um cabeleireiro que nos corte o cabelo ou uma empregada que nos lave a louça), mas em ver essas tarefas como indignas – e, no caso das tarefas domésticas, como “coisa de mulher”. Não é – não deveria ser – “coisa de mulher”. Deveria simplesmente ser coisa de todo mundo.

Deveria, mas não é. A ideia de que tarefas domésticas são “indignas” e “coisa de mulher” está tão arraigada em nossa sociedade que a mera ideia de um homem sendo pago para lavar nossos pratos e limpar nossos banheiros nos soa estranha. Não é de admirar, então, que as mulheres da Geração Incrível queiram distância dessas tarefas. É quase como se, para se afirmar como Mulher Incrível, fosse necessário alardear que você não sabe – ou não se sujeita a – lavar o próprio banheiro.

Só que, ao reforçar a ideia de que lavar banheiro é coisa de amélia submetida às hostes do patriarcado, você inadvertidamente empurra essa tarefa para outras mulheres – em vez de dividi-las com outros homens, que deveriam se responsabilizar por esse tipo de trabalho tanto quanto você. E deixa eu dizer uma coisa: quando todos os habitantes de uma casa – homens e mulheres – dividem o trabalho doméstico, é impressionante quão poucas tarefas sobram para que seja necessário contratar um(a) funcionário(a) para executá-las.

As tarefas em si não são indignas. O fato de elas terem de sobrar para mulheres pobres – em vez de serem divididas entre homens e mulheres de todas as classes sociais – é que é.