Meus dez mandamentos do segundo turno

Segue um conjunto de mandamentos absolutamente pessoais, escritos de mim para mim mesma, que pretendo seguir até o fim do segundo turno:

1. Não votarás Dilma no segundo turno; não adotarás o discurso do mal menor sem que o governo tenha dado qualquer sinalização de que privilegiará pautas caras à esquerda num eventual próximo mandato; não endossarás com teu voto, enfim, um projeto de país que desaprovas;

2. Não cairás no antipetismo em momento algum – nem o de direita (que é o puro creme do classismo e do ódio), nem o de esquerda (que é justificado pela guinada à direita do próprio PT, mas está mais preocupado em destruir o PT – a ponto de quase esquecer os bons serviços prestados ao país nos últimos doze anos – do que em se colocar como alternativa viável a ele). Não farás do PT, em suma, o centro da tua reflexão política;

3. Não sucumbirás à tentação de achar que o povo é um lindo, fofo, revolucionário e querido quando vota em um candidato que te apraz – nem que é um coitadinho, alienado e manipulado pelas forças da mídia e dos marqueteiros quando vota em um candidato que abominas;

4. Não clicarás na aba “Família” do Facebook até o fim da eleição (mandamento que também poderia ser chamado “Evitarás tretas desnecessárias”);

5. Não perderás teu tempo defendendo Dilma e seu governo de ataques na internet, não só porque desaprovaste quase tudo neste governo como também porque não és paga para isto (ao contrário de tantos colaboradores do PT);

6. Não considerarás, em hipótese alguma, que o coleguinha que exibe o avatar da Dilma no Facebook é um inimigo a ser combatido; ele é, quase sempre, alguém que concorda contigo na maior parte das coisas, apesar de divergir no voto – e tal divergência deve ser celebrada e debatida, jamais combatida e execrada;

7. Não serás blasée e não adotarás a postura do tanto faz, do “petepeessedebê é tudo a merma porcaria, que se dane a eleição, daqui a 100 anos estaremos todos mortos mesmo”;

8. Não lançarás indiretas pela internet (exceto, é claro, as contidas neste decálogo);

9. Não visitarás as TLs dos coleguinhas tucanos, pois teus coleguinhas tucanos são legais, mas todos têm amigos permanentemente dispostos a alertar-te para a progressiva conversão do Brasil em Cuba, Venezuela ou Irã; a xingar o bolsa-família (que eles ignoram ser um compromisso de governo do PSDB); a, enfim, estragar teu dia sem dó nem piedade;

10. Não deixarás que eventuais posicionamentos bizarros, declarações de voto meio patéticas, incongruências gritantes e momentos de vergonha alheia variados te façam perder os amigos que te importam – pois, afinal, tens espelho em casa, e até o fim da eleição sabes muito bem que ainda hás de falar – assim como pessoas muito mais inteligentes do que tu – uma enorme quantidade de bobagens.

A revolução do cotidiano é mais importante que a eleição

Tive o privilégio de viver minha primeira eleição achando que aquilo era um fato normal e corriqueiro da vida. Eu não fazia ideia de que um mundo sem eleição, pesquisa eleitoral e partidos políticos sequer pudesse existir. Foram precisos anos para eu entender que muita gente morreu na luta contra a ditadura para que hoje alguns tivessem o direito de, no horário político, clamar pela volta desta mesma ditadura.

Mas o ano era 1988, corriam as eleições municipais de São Paulo e eu amava o processo eleitoral. Especialmente, eu amava a Erundina. Achava que ela seria a Mônica dos quadrinhos em forma de prefeita. Fiz campanha para ela hasteando uma bandeira no quintal de casa. E decidi fazer também a minha própria pesquisa eleitoral na família.

Os votos da minha família dividiam-se entre Paulo Maluf (que eu escrevia Paulo Malúfi) e Mario Covas (que eu escrevia direitinho). Não sei como explicar a intenção de voto em Mario Covas naquele momento dado que o candidato do PSDB era José Serra. Mas os fatos que importam são: o embate tucanismo x malufismo, que por muito tempo foi mais importante em São Paulo do que tucanismo x petismo, já se fazia presente na minha família; a única que votava em Erundina era minha mãe. Ainda assim, como se sabe, Erundina ganhou a eleição – ensinando-me deveras precocemente, portanto, o conceito de “falta de reprentatividade da amostra”.

Eu tinha 6 anos.

Todo mundo na família participou da minha pesquisa, exceto uma pessoa: a empregada doméstica (e já diz muito sobre nossa sociedade que eu tenha incluído a empregada doméstica num grupo que, de resto, só continha familiares). Perguntei e perguntei em quem ela iria votar e ela sempre desconversava e mudava de assunto. Falei que se ela não sabia não tinha problema, era só me falar e eu a colocaria entre os “indecisos”. Até que uma hora ela se cansou e me disse:

“Não digo em quem vou votar pois o voto é secreto.”

Confesso que fiquei não só estupefata como também um pouco magoada com a recusa dela em participar da minha pesquisa. Mas passaram-se os anos e esqueci essa história. Até agora.

Depois de ler inúmeros relatos de amigos tentando influenciar o voto de suas empregadas domésticas, faxineiras, manicures e motoristas, entendi perfeitamente por que a empregada doméstica de minha família não quis revelar seu voto em 1988: ela provavelmente não aguentava mais ser importunada por suas patroas sobre as virtudes de Covas e Malúfi, e tudo que ela não precisava era de uma garotinha de 6 anos discursando sobre o programa de governo da Erundina enquanto ela tentava passar a roupa e arrumar a cozinha.

Na época não entendi – ao menos não racionalmente – a recusa da empregada em responder a minha pergunta, mas algo dessa experiência certamente permaneceu comigo: desde então, nunca tive qualquer desejo ou intenção de convencer qualquer pessoa a votar em quem quer que seja. Sou muito mais arrogante e megalomaníaca do que isso: minha pretensão é ajudar (ou atrapalhar, conforme o caso) os outros a pensar, a partir do meu próprio pensamento (que se constitui à medida que escrevo). Esse desejo de botar os outros e a mim mesma para pensar nada tem a ver com desejar que as pessoas votem X ou Y. Acredito sinceramente no seguinte: se você acha esse negócio de casamento gay uma sem-vergonhice e se você está convencido de que bolsa família é bolsa esmola, acho mesmo que você deve votar no pastor Esmeraldo – e acho maravilhoso que seu voto valha rigorosamente tanto quanto o meu. Democracia é isso, oras.

Então vocês podem imaginar meu incômodo quando, em 2014, minha avó me liga dizendo que não tem candidato a deputado estadual e querendo saber quem é o meu candidato para poder votar nele também.

Respondi assim:

“Olha, vovó, eu posso até te contar em quem eu vou votar, mas não sei se você vai querer votar nele. É um moço novo, que está se candidatando pela primeira vez. Vou votar nele porque ele defende os direitos dos gays e das lésbicas e isso, pra mim, é muito importante no momento que estamos vivendo. Mas, na minha opinião, se você está em dúvida, acho que você podia pensar em votar na legenda do partido que você gosta mais. Eu, por exemplo, se não tivesse um candidato específico, votaria na legenda do PSOL.”

Aí ela me pergunta se o moço é do PSOL e eu digo que sim.

E ela responde:

“Em todo caso, me dá o número dele.”

Eu dei: 50505.

Sim, eu sei que se eu tivesse dito que ela deveria votar no Capitão Telhada, ela provavelmente votaria nele sem pestanejar. Não, eu não sei se minha avó realmente votará no Todd Tomorrow. E isso pouco me importa. Porque sabe o que realmente importa? É o seguinte:

Hoje, 05 de outubro de 2014, uma senhora de 79 anos, crente da Congregação Cristã do Brasil, ouviu dizer que tem um deputado que defende os direitos dos gays e das lésbicas e anotou o número dele.

Entendem a enormidade disso? Ela podia ter mudado de assunto e fingido que não era com ela (Deus sabe como minha avó é boa de mudar de assunto e fingir que não é com ela). Ela podia ter pegado a deixa do “votar na legenda” e encerrado a conversa ali.

Em vez disso, ela colocou um ativista da causa LGBT em seu campo de possibilidades para o voto no legislativo.

Se isso não é motivo para chorar de emoção, não sei o que é.

***

Eleições são lindas e podem trazer mudanças importantes. Mas as mudanças que realmente importam, para mim, são as pequeninas. Do cotidiano. Do miudinho. Feitas por gente como eu e você. O que me interessa são as meninas que perguntam onde está a água. É o rapaz que se recusa a cumprimentar o candidato. E agora é também minha avó, que anotou o número de um defensor da causa LGBT.

Vai por mim: os vencedores e perdedores da eleição são apenas um pálido reflexo dessas mudanças todas. A revolução do cotidiano é o que de mais importante podemos fazer.

PS: Minha avó, em 1988 e em outras ocasiões, votou no PSDB contra Maluf. E em 2014, ela vai votar no Skaf. Porque, segundo ela, o Alckmin simplesmente não dá mais. Não preciso dizer que chorei de emoção de novo.

Diário de um menino paulista

Querido diário,

Hoje foi um dia como todos os outros aqui onde eu moro, no estado de São Paulo. No meu estado, a gente resolve os problemas com a polícia. Às vezes dá algum xabu, mas aqui a gente chama os xabus de “incidentes isolados”. Eu li na internet que teve 424 incidentes isolados só no primeiro semestre deste ano, e que 50 incidentes isolados acontecem todos os meses desde 1995. E 1995 é um ano muito antigo, diário querido, eu nem tinha nascido ainda.

Além disso, o mesmo moço do último incidente isolado cometeu outro incidente igualmente isolado em março deste ano. Perguntei pra minha professora como que faz para isolar tanto incidente assim. Constrói uma cerquinha em volta? A professora disse que essas coisas são complicadas, mas que o importante é sempre olhar os dois lados de toda história e separar os bons policiais dos maus. Ela disse também que quando eu crescer e virar um homem de bem, eu vou entender tudo isso muito melhor.

Como sou pequeno, ainda não entendo muito bem, mas minha professora deve estar certa, porque o policial do último incidente isolado foi solto pela Justiça hoje. Ele com certeza deve ser um homem de bem, que nem um dia eu vou ser quando eu for grande.

Enquanto isso, também aqui no estado de São Paulo, um monte de vândalos baderneiros saíram quebrando tudo em uma cidade do interior. Parece que faz 7 meses que os baderneiros não têm água em casa, mas isso não é motivo para vandalismo. Ainda bem que a polícia estava lá para reagir a essa violência toda e prender os vândalos infiltrados.

Aliás, eu tive uma ideia muito boa hoje. Acompanhe meu raciocínio, querido diário: todo mundo sabe que faz um tempão que não chove aqui em São Paulo. Todo mundo sabe também que a polícia combate os vândalos jogando gás lacrimogêneo na cara deles, aí eles começam a chorar e param com o vandalismo.

Então, bem que a polícia podia aproveitar e jogar gás lacrimogêneo nas nuvens! Aí sim as nuvens iam acabar com esse vandalismo de seca e começar a chover!

Boa noite, querido diário. Durma bem, sem incidentes.

Voto Luciana, mas pode me chamar de petralha se quiser

Estou convencida de que a força política mais nefasta do Brasil é o antipetismo de direita. Você sabe que antipetismo é esse. Mas adianto que eu provavelmente sei melhor do que você. É o antipetismo do imagina na Copa. Do fora petralhas. Do bolsa família = bolsa presidiário. Do quem recebe bolsa família não deveria poder votar. Nasci e cresci no bojo desse antipetismo e sabe-se lá como escapei dele.

Mas esse não é o único antipetismo que há. Há o antipetismo de esquerda, que só não é nefasto porque é muito incipiente. Mas que também está me dando engulhos. É um antipetismo assim: qualquer um que se apresente como alternativa ao PT (e que não seja PSDB, afinal trata-se de um antipetismo de esquerda), apenas por não ser PT (e não por algum mérito próprio), vira herói. O objetivo fica sendo tirar o PT do poder porque qualquer coisa não-PT, por definição, será melhor do que o PT. E aí importa muito pouco quem está do outro lado. Não sendo PT, está valendo. O não-petismo é que é fundamental. E desse modo o PT continua firmemente incrustado no centro da imaginação política desse antipetismo (seu nome já diz).

O antipetismo de direita não se conformou até hoje que o PT do Colégio Sion chegou ao poder (provavelmente jamais se conformará). O antipetismo de esquerda não se conforma que esse antigo PT transformou-se noutra coisa. É triste, eu sei. Mas, em vez de superar esse fato e buscar outras alternativas políticas ou no próprio PT ou fora dele, esse antipetismo foca todas as suas forças na destruição do PT. E é aí que o antipetismo de esquerda se parece enormemente com aquele menino que tem ódio mortal do pai e faz tudo ao contrário do que o pai gostaria. O pai é engenheiro? O menino vai ser artista plástico. O pai gosta de churrasco? O menino vira vegetariano. E você morre de pena de dizer para o menino que o pai continua sendo o grande amor da vida dele. O pai é o modelo, o norte, a luz, estrela e luar, a guiar – pelo exemplo negativo – todas as ações do apaixonado garotinho.

Então eu gostaria de deixar claro: não voto Dilma. Nem no primeiro turno, nem no segundo, nem num terceiro turno se terceiro turno houvesse. E no entanto, dois dos meus cinco votos este ano irão para o PT. E não considero de jeito nenhum que ser chamada de petista constitui xingamento. Podem me chamar de petista-petralha à vontade que não me ofendo de jeito nenhum. E sabem por quê? Porque caguei para o PT. Sinceramente e de verdade. Eu não estava lá na fundação do PT no colégio Sion. Não fui traída. Não me sinto horrivelmente decepcionada. É só mais um partido, que no geral está pouco se lixando para as coisas em que acredito.

E no que eu acredito e no que não? Acredito, por exemplo, numa redistribuição de renda que se faça através duma reforma tributária radical, em que os ricos paguem mais impostos do que os pobres. (Parece marxista, mas não é nada diferente do que o queridinho do capitalismo vem dizendo há meses.) Não acredito em destruir o Xingu para gerar energia. Só acredito numa melhora substancial da qualidade da educação que passe pelo aumento estratosférico do salário dos professores. Acredito na legalização das drogas. Não acredito na privatização do saneamento básico. Acredito na desmilitarização da polícia. Não acredito em pagar para aluno de graduação estudar no exterior. Acredito em financiamento público de campanha. Acredito na democratização da mídia. Não acredito que basear toda a economia do país na venda de soja e alumínio para a China seja um bom negócio. Acredito que o acerto de contas com os crimes cometidos pela ditadura militar é fundamental. E assim por diante.

É nisso que acredito. E a candidatura que mais se aproxima das coisas em que acredito é a de Luciana Genro. É nela que eu voto.

Pensando sobre meia dúzia de tuítes de Marina

Dei uma boa olhada na TL de Marina Silva. Eis alguns tuítes recentes seus:

“A legalização do aborto é uma questão delicada, mas é um debate que deve ser feito de forma respeitosa.”

“Denuncio o papel nefasto de duas forças políticas, o PT e o PSDB – irmanados na determinação de nos destruir, não importam os meios.”

“Homens e mulheres de bem estão determinados, de forma livre e independente, a fazer a mudança que o Brasil precisa.”

“Quando você diz que quer fazer uma gestão com as boas pessoas, sem distribuir pedaços do Estado, muita gente duvida.”

“Nossa meta é recuperar a credibilidade do Brasil.”

“No meu governo os recursos do pré-sal vão ser usados para a saúde e a educação, não para a corrupção.”

***

O que foi junho de 2013? O que restou de junho de 2013? Essas são questões que permanecem abertas para o debate e para o pensamento. Diversas narrativas são possíveis. Uma narrativa bastante plausível é a que define junho como um momento em que as pessoas saíram às ruas pelo Bem (“mais saúde e educação!”) e contra o Mal (“menos corrupção!”). Afinal, quem pode ser contra saúde e educação (“defendo a doença e a ignorância para um Brasil melhor!”) e a favor da corrupção (“para mais ladroagem no congresso, vote 666!”)? Esta é uma narrativa, portanto, coerente – só que não apenas não explica muita coisa como também exclui outra narrativa muito mais ousada: por exemplo, a de que os paulistas foram às ruas em 17 de junho de 2013 em repúdio à repressão da polícia militar.

Acho que não preciso dizer qual destas narrativas tem sido dominante.

A narrativa vencedora sobre os protestos de junho está perfeitamente representada no discurso de Marina: basta ler seus tuítes. Está tudo ali: mais investimentos públicos em saúde e educacão, menos corrupção, menos partido político, menos negociata, menos PT (que ninguém aguenta mais) e menos PSDB (que ninguém quer de volta). É perfeito: ela vai usar o dinheiro para a saúde e a educação, não para a corrupção, como fazem esses políticos da velha-política que estão aí. Não sou eu que estou dizendo. Foi Marina quem disse.

E como ela vai fazer isso? Como fará as mudanças de que o Brasil precisa? Ora, é simples: governando com os bons, com os melhores – do PT ou do PSDB, do agronegócio ou do MTST, não importa; basta que sejam homens e mulheres de bem e que acreditem no Brasil. E se você não acredita na viabilidade de nada disso, é porque você foi corrompido pelo cinismo da velha política, não porque você sinceramente desconfia das boas intenções e das (nem tão boas) ações daqueles de quem Marina se cerca.

Marina vai recuperar a credibilidade perdida do Brasil sem “distribuir pedaços do Estado”: sem fazer acordos políticos e sem precisar se posicionar frente às grandes questões. O aborto, por exemplo. É preciso superar essa polarização de que ou você é a favor ou é contra a legalização do aborto. É preciso pairar acima dessa mesquinharia do sou contra ou sou a favor – façamos um plebiscito, pois. Um plebiscito sim é respeitoso: vai respeitar o direito da maioria. Milhares de mulheres continuarão morrendo ao fazer abortos clandestinos, mas pelo menos estas mortes estarão referendadas pela respeitosa e delicada vontade da população em geral. Também não é preciso discutir os possíveis efeitos da religiosidade de Marina em um eventual governo seu. Ela já disse que é a favor do Estado laico e isso deve bastar: afinal, todos precisamos respeitar as religiões, ainda que as religiões muitas vezes não respeitem os direitos de todos.

Marina propõe um olhar “de cima” sobre os conflitos e contradições do Brasil, bem de cima de um altíssimo muro – um olhar tão distante e tão elevado que, de lá de cima, não se percebe mais a diferença entre esquerda e direita, não se enxergam mais essas polaridades toscas que pautam aqueles que se sujam na lama eleitoral do Facebook: enxerga-se apenas o bem do Brasil.

O olhar de sobrevoo é sedutor, sem dúvida, mas eu sou mesmo é #TeamLama. Gosto de olhar para baixo, para o solo, à procura das raízes dos conflitos e contradições. Se isso faz de mim uma pessoa sem imaginação política, que seja. De fato, só acredito em sonhos que estejam firmemente enraizados nos anseios e nas demandas de quem, como disse lindamente o meu amigo Maycon Benedito, tá aí sendo viado todo dia, sendo mulher todo dia, sendo preto todo dia. e vivendo e brigando apesar de partidos e do Estado.

Para mim, o sonho que é sonhado por Marina não se parece com o sonho de quem está sendo mulher, negro, gay, lésbica, pobre, índio, sem terra, sem teto, todo dia, dia após dia, antes e depois da eleição. O sonho sonhado por Marina se parece, isso sim, com o sonho de quem viu as manifestações de junho pela televisão – narradas pelos jornalistas da Globo, repletas de pessoas clamando por saúde e educação, contra a corrupção, contra os políticos, contra os black blocs e unidos por um Brasil melhor.

É um sonho possível, claro. Decididamente não é o meu.

Nova política fast food sabor junho

OK, estou pronta para dar minha primeira opinião sobre o fenômeno Marina \o/ /o\ E tentarei fazê-lo de forma rápida e sucinta, que isso aqui não é polêmica fora-do-eixo. Vamos lá:

Como todos sabem, Nana Gouvêa já foi vista tirando fotos na sede da campanha de Aécio: a estratégia ~Marina-melancia~ (tucanos acusando-a de ser no fundo d’alma uma petista vermelha enrustida) parece que não colou nem tem nenhuma chance de colar. Estou descartando desde já como ineficaz, então, essa estratégia de dizer pro eleitor que ele está sendo enganado por uma melancia. Mas há outra estratégia análoga, proveniente do PT, que é a de dizer pro eleitor que ele está sendo enganado por uma pombinha disfarçada de tucano. Acho que alguns pontos dessa crítica petista fazem todo o sentido (por exemplo, apontar que a equipe econômica de Marina representa a retomada da gestão econômica FHC) e outros não (Marina pode fazer mais três erratas em seu programa LGBT que ainda não terá botado Feliciano para presidir a CDH; para mim, faz sentido o PT criticar a inconsistência do posicionamento de Marina e sua inabilidade em lidar com demandas contraditórias, mas não faz sentido criticá-la pelo “ataque aos direitos das minorias” em si, dado que rifar direitos de minorias para agradar evangélicos é exatamente o que o PT passou os últimos 4 anos fazendo). Não importa, porém, o que faz ou não sentido para mim: importa se a estratégia pombinha-por-fora-tucana-por-dentro vai ou não colar. E o meu palpite é que não vai. Pelo seguinte:

Enquanto o PT aferra-se a todo custo à velha polaridade PT-PSDB (o PSDB agora só mudou de nome), Marina reconfigura e revigora uma polaridade mais velha ainda, a da velha x nova política. E aqui vocês me desculpem mas vou citar um pensador que não é exatamente um queridinho dazinternet. Respirem fundo que eu vou citar o Zizek: “primeiro como tragédia (junho), depois como farsa (Marina)”. Marina transforma o potencial disruptivo e perturbador de junho em um lindo pacotinho pronto para o consumo: para mudar a política, para mais participação popular, para mais serviços públicos de qualidade, basta apertar dois numerinhos no dia da eleição e você pode ficar com a consciência tranquila de que fez a coisa certa. Zizek diz, que no capitalismo atual, a redenção do consumismo já está embutida no próprio ato de consumo: basta eu comprar o café orgânico cultivado na pequena fazendinha sustentável para estar contribuindo para um mundo melhor; não preciso fazer mais nada, pensar em mais nada; não preciso refletir sobre o poder das grandes corporações, sobre o controle da política partidária pelo grande capital, nada disso: minha contribuição para um mundo melhor, eu paguei com esses cinco reais que custam o café e vou pagar apertando quatro e zero na urna. Marina encapsula uma versão suavizada do espírito de junho, transformando-o em produto pronto para o consumo rápido. Por isso é que eu acho que não vai funcionar isso de acusá-la de ser uma falsa isso ou falsa aquilo. Porque o que ela conseguiu fazer é bem real: conseguiu transformar junho de 2013 em canecas, bonés e camisetas de banda. Basta você ver minha camiseta do Rock in Rio para saber que “eu fui”. Ao votar em Marina, o eleitor ganha a convicção de que “ele foi” aos protestos de junho; de que quer um país melhor e sem politicagens. Marina não é apenas a “nova política”, portanto. É a nova política fast food sabor junho.

E como foi que Marina conseguiu encapsular tão bem essa nova política? Sem nenhuma pretensão de esgotar o assunto, arrisco dizer que para isso contribui sua aura inatacável: a trajetória política de Marina é tão completamente acima de qualquer suspeita que o máximo que conseguiram falar dela até agora é que “ganhou dinheiro dando palestra” (depois da criminalização dos protestos, nada mais natural que tivéssemos a criminalização das palestras). E é aí, nesta aura superior, acima dessas mesquinharias petê-peessedebê e direita-esquerda, que entra sua religiosidade. Não se trata de uma pessoa apenas bastante religiosa, apenas que vai à igreja aos domingos, apenas devota de tal ou quanto santo. Trata-se de uma pastora. Isso faz com que ela tenha uma autoridade moral, uma superioridade intrínseca de filha de Deus que políticos tradicionais jamais terão. É nesse sentido que vejo o efeito de sua religiosidade na eleição: ela ajuda a compor essa aura de quem está além e acima da “velha e promíscua política de antes de junho”. Resta saber qual será (se houver) o efeito de sua religiosidade em um eventual governo.

Pronto, agora que venha o debatchy da noite para me contradizer completamente e para que eu possa citar FHC – “esqueçam o que escrevi” :-D

5 discos de 2013

Dois mil e treze foi um ano em que não ouvi muita música, então estou correndo atrás agora daquilo que passou batido ano passado – e não é que estou descobrindo que o ano passado foi um ano excelente para o jazz? Queria falar sobre cinco imensas, maravilhosas descobertas:
 
Gerald Clayton – Life Forum. Se quiser me dar um voto de confiança e guglar apenas um desses cinco discos que estou listando, esse é o cara. Estou gostando mais até desse disco do que do fabuloso Black Radio do Robert Glasper, apesar de (talvez justamente por?) não ser tão inovador quanto. Robert Glasper está a meio caminho entre o jazz e o R&B, revigorando, com isso, ambas as tradições; Gerald Clayton é mais propriamente um pianista de jazz, e principalmente compositor e arranjador. As 12 composições são suas, para formações diversas que incluem, além da seção rítmica, trompete (Ambrose Akinmusire), saxofones (Dayna Stephens e Logan Richardson) e vozes (Gretchen Parlato e Sachal Vasandani) (mas nem todos esses instrumentos aparecem em todas as músicas). Os cantores dão um colorido lindíssimo ao disco (inclusive esse moço Vasandani é o maior e melhor herdeiro do Chet Baker que já ouvi, guglem-no), os arranjos para metais e vozes são um desbunde, os improvisos todos dão vontade de decorar. É um disco de arranjos bem estruturados, com bastante espaço para improvisação – e acho que é por isso (além de algumas combinações timbrísticas, tipo uma melodia tocada por piano e trompete em uma região bem aguda e a condução da bateria em “Some Always”) que o disco me lembra um pouco o Pat Metheny Group dos anos 2000, só que mais rico composicionalmente e com uma sonoridade mais acústica (i.e. em vez de guitar synth, temos um trompete de verdade). Deixei para falar no fim sobre a primeira faixa, em que Gerald Clayton cria uma trilha sonora para um texto recitado pelo poeta Carl Hancock Rux – é um jeito brilhante de dar o tom do disco inteiro, com música e palavras, já nos primeiros compassos. É um disco que realmente merece ser ouvido inteiro – recomendo, então, começar a audição pelo começo.
 
Kendrick Scott Oracle – Conviction. Kendrick Scott lança mão do mesmo recurso usado por Gerald Clayton em Life Forum na primeira música: ele compôs música de fundo para uma oração – “Lord, make me an instrument of thy peace” -, que introduz de cara a vocação espiritual do disco. Kendrick Scott é baterista, mas este graças a deus não é um disco de baterista, e sim de compositor: impossível não lembrar, então, do outro grande (maior, eu diria) baterista-e-compositor do-mundo-e-do-universo de-todos-os-tempos, Brian Blade. Acho que a influência (apesar de ambos serem contemporâneos) da Brian Blade Fellowship sobre a Kendrick Scott Oracle é fato tão consumado que em “Liberty or Death”, por exemplo, não se trata nem de influência mais, e sim de um tributo escancarado mesmo, quando a guitarra se une ao clarinete baixo (aos 2:00 cravados). Mas, de modo geral, a Oracle é mais pop que a Fellowship – o disco tem duas lindas canções pop cantadas por Alan Hampton, que é um cara que não sei como não tem um disco solo até hoje. Eis aqui a primeira (e deliciosa) dessas canções.
 
Dayna Stephens – I’ll Take My Chances. Este é um disco da mesma “prateleira” que o do Gerald Clayton, até porque metade da banda se repete: em ambos, temos Dayna Stephens no sax tenor, Gerald Clayton no piano e hammond, Joe Sanders no baixo. A diferença maior de sonoridade é que aqui não há trompete e em vez da Gretchen Parlato temos a Becca Stevens, naquela que já é a minha versão preferida de Prelude to a Kiss (até falei sobre ela outro dia). Se você deu aquela chance ao Gerald Clayton e gostou, o próximo disco que você vai adorar ouvir é este – deixo o link também para o projeto atual do DS, que baixei mas ainda não ouvi.
 
Joshua Redman – Walking Shadows. Então você vai me perguntar como é que uma pessoa que supostamente gosta de jazz não ficou nem sabendo do disco novo do Joshua Redman no ano passado. E eu tenho uma teoria para isso. A teoria é que, como esse é um disco sax-com-cordas, os críticos reviram os olhos só de pensar no conceito (“musiquinha dos Beatles versão sax com violininhos ao fundo, com pouca ou quase nenhuma improvisação? NEXT”), e sendo assim o disco não entrou em nenhuma lista de melhores do ano em dezembro e não fiquei sabendo dele. Mas pode ser que eu esteja simplesmente projetando uma reação que foi a minha: afinal, convenhamos, que preguiça dum músico famoso que nesta altura da carreira e da vida escolhe regravar Beatles com orquestrinha em vez de desbravar novos territórios. Mas aí ouvi o disco, e minha conclusão imediata foi que sou uma idiota preconceituosa – por mais que o disco tenha sido feito no padrãozão mais batido que há 1) que mal há nisso se ele já começa com uma versão de The Folks Who Live on The Hill que mostra quem é que manda no mundo do saxofone atualmente 2) Wes já gravou esse tipo de disco pop com orquestra cinquenta anos atrás com lindos resultados 3) se tem uma pessoa que pode fazer isso dar certo é mesmo o Joshua Redman, ainda mais se assessorado pelo Brad Mehldau. Ajuda também o fato dele ter escolhido para o repertório 3 dos meus standards preferidos – além de The Foks, Lush Life e Easy Living.
 
Leszek Mozdzer, Lars Danielsson e Zohar Fresco – Polska. Aqui entramos em outra prateleira, outro tipo de música, outra categoria. O jazz nórdico é uma das paixões da minha vida, mas esse disco não é exatamente (ou melhor: não é apenas) o que normalmente eu espero dos discos suecos e poloneses que eu adoro, porque a percussão é do Oriente Médio (!) – não só os instrumentos (cujos nomes obviamente desconheço) como alguns padrões rítmicos me lembram bastante os que se ouvem nos discos do Avishai Cohen e do Shai Maestro, por exemplo. Guglei o percussionista Zohar Fresco e ele é israelense de pais turcos (o que fez todo o sentido). Não é um disco de composições fortes, eu acho, mas é todo uniformemente bonito – para alguns, talvez, soe “bonito” e “agradável” demais, reconheço. Mas sou suspeita mesmo para falar: absolutamente tudo em que Lars Danielsson está envolvido me interessa – e acho que você bem que podia se interessar um pouquinho também.