Gabriel García Márquez e Luciano do Valle

Há umas semanas (meses? anos?), todo mundo estava alegremente fazendo listinha de livro no Feissy. Não lembro o que coloquei na minha, mas se não coloquei O Amor nos Tempos do Cólera, cumpre admitir que menti, blefei, esnobei e quis parecer o que não sou. Porque O Amor é com certeza um dos livros mais importantes e ricos que li, uma das poucas vezes que senti que o mundo inteiro podia caber dentro de umas tantas páginas. Acho que foi o primeiro que peguei depois de Cem Anos. Depois vieram outros. O Outono do Patriarca, Ninguém Escreve ao Coronel, Erêndira, Crônica de uma Morte Anunciada, Do Amor e Outros Demônios, Putas Tristes. Provavelmente algum outro que esqueci.

E, com isso – chega.
 
Gabriel García Márquez é talvez o único autor que realmente amei que, hoje, sinto que não tenho mais como ler – ou o que ler – ou por que ler. (Ops, mentira: Monteiro Lobato é outro. E Thomas Ogden, psicanalista, também – embora este eu ainda lerei por motivos de obrigação profissional, mas certamente não por amor). García Márquez morreu mas, como autor, há muito já não existia para mim. Já li, dele, tudo o que quis.
 
Meu amor por histórias, no entanto, permaneceu.
 
***
 
Em 1992, a programação da TV Bandeirantes era assim:
 
Segunda-feira à noite, campeonato carioca.
 
Terça, campeonato paulista.
 
Quarta, campeonato carioca de novo.
 
Quinta, vôlei masculino.
 
Sexta, boxe.
 
E como eu sei a programação da TV Bandeirantes de 1992?
 
Porque em 1992 a minha mãe morreu e eu morava com meu pai e tudo o que conseguíamos fazer, todas as noites, era ligar a TV no canal 13 e nos deixar embalar pela narração de Luciano do Valle, até dormir.
 
Eu era uma menininha que sabia tudo, tudo mesmo, de futebol. Escalação de todas as seleções brasileiras. Escalação de todos os times brasileiros daquele ano. E isso apesar de que eu não torcia por time nenhum. Afinal, não precisava. Eu só precisava mesmo era de ver os jogos.
 
Mais tarde, substituí esse afã esportivo por religião.
 
Hoje, o único jogador de futebol de que tenho notícia é o Neymar. E, claro, almocei hambúrguer na sexta-feira santa.
 
Ao contrário de García Márquez, não restou nada ou quase nada de Luciano do Valle em mim.
 
E, no entanto, se a morte de García Márquez não me provocou qualquer emoção, a morte de Luciano do Valle despertou em mim tanta coisa que… 
 
Não sei como explicar além de dizer que Luciano do Valle foi um homem que, sem ter a mais remota ideia disso, me pôs no colo e me fez dormir por semanas (meses? anos?) do período mais difícil da minha vida.
 
Adeus, Luciano, e obrigada.

Um Conto de Duas Sopas

Fiquei meio doentinha esses dias e, embora já esteja plenamente recuperada hoje, minha avó, mais amorosa impossível, fez questão de vir me trazer uma sopa – ao que lhe agradeci intensamente.

Ocorre que eu mesma tinha feito uma sopa ontem.
 
Foi inevitável comparar a minha com a dela.
 
O que eu mais temia aconteceu:
 
Minha sopa deu um pau na sopa da minha avó. Mas um pau.
 
Infinitamente melhor.
 
***
 
Esta parece ser apenas uma história insuportável de sucesso culinário e descaso com os mais velhos, mas na raelidade é uma história insuportável de luto da infância.
 
Existe uma única desvantagem em saber cozinhar, e a desvantagem é esta: perceber que muitas das comidas mágicas da sua infância são perfeitamente replicáveis por você mesma na vida adulta – frequentemente, com resultados muito melhores.
 
Pois, na infância, mágico não era apenas o sabor: era a própria aparição miraculosa da comida no prato. Um minuto você está brincando de cabaninha; no minuto seguinte, pimba – um prato de sopa! Vinda de onde, feita como? Você não sabia; você até podia suspeitar que o preparo da sopa transcorrera na cozinha, mas era impossível saber ao certo: o único fato incontestável era que a sopa, não mais que de repente, surgira à sua frente.
 
Referimo-nos à descoberta da não-existência de Papai Noel e do Coelhinho da Páscoa como dois marcos importantes da superação da infância (alguns incluiriam Deus nesta lista).
 
Parece-me que um marco muito mais importante é o dia em que você descobre como são feitas as sopas.
 
Afinal, o que é dar adeus a renas voadoras ou a um coelho falante perto de dar adeus a um prato de sopa que magicamente se materializa diante de você?
 
Mais importante ainda é o dia em que você descobre que a sua sopa de agorinha mesmo é melhor do que a melhor sopa da sua infância.
 
De repente, não existe mais aquele “ingrediente secreto” que sua avó usava. Existe uma hora de caldo de legumes em fogo baixo. Não existe “tempero misterioso”. Existe a paciência de lavar e picar três alhos-porós grandes em rodelas fininhas. Existe, enfim, trabalho e dedicação. 
 
Trabalho e dedicação estes que – você se dá conta – eram os tais ingredientes secretos e temperos misteriosos da sua avó.
 
E de repente você está fazendo sopa como ela.
 
De repente você está fazendo sopa melhor que ela.
 
(Fazer uma sopa melhor que a da sua avó, a grande cozinheira da família, é um pouco como matar os pais.)
 
Daqui a pouco ela está fazendo oitenta anos (e ainda está te fazendo sopa).
 
Você sabe que é impossível retribuir em igual medida tudo o que ela lhe fez. Que a única retribuição possível é passar adiante o que você ganhou em trabalho e dedicação, em amor e sopa.
 
Minha avó me criou para ser uma mulher que faz sopas melhores do que ela.
 
Não consigo pensar em um amor maior.

House of Cards e Game of Thrones são a mesma série

Comecei a assistir a House of Cards pelo mesmo motivo que todo mundo: porque somos cínicos e estamos acostumados a pensar que nós, que somos inteligentes, sabemos que há “algo a mais” ou “algo detrás” de toda notícia que sai no jornal, só não sabemos exatamente o quê, mas geralmente colocamos esse não-sei-quê-a-mais da notícia na conta de “disputas políticas” e ficamos nos achando muito inteligentes, os outros é que são manipulados pelo PIG, eu não, eu sou esperto demais para acreditar na notícia-manifesta, I can see the notícia-latente. Exemplo:

Notícia-manifesta: IPEA faz besteira.

Notícia-latente: isso é uma estratégia do PSDB para desviar nosso foco do cartel do metrô.

Vamos focar na forma e não no conteúdo do exemplo: o importante é que estamos sempre atrás da notícia-latente, e House of Cards nos oferece essa voyeurística oportunidade de ver o latente das notícias, o latente que é tão inapreensível na vida real mas que numa série de TV nos é entregue de bandeja, embrulhadinho para presente.

House of Cards existe em um mundo em que tudo é movido pela intencionalidade: a intencionalidade maquiavélica de meia dúzia de indivíduos inteligentes que comandam os milhões de boizinhos no pasto que, claro, somos eu e você. Tudo é planejado, previsível e, fundamentalmente, tudo sai de acordo com os planos: quando não, quando há um milimétrico desvio nos planos da gente maquiavélica, esse desvio é causado por algum erro de cálculo, porque o Maquiavelinho 1 subestimou a maquiavelice de Maquiavelinho 2, mas basta corrigir esta falha que logo tudo se resolve. Não existe acaso e, sobretudo, não existem instituições. Existem pessoas e seus interesses mesquinhos, e a política é apenas isto, a disputa entre esses interesses pessoais. Fundamentalmente, existe Kevin Spacey, e muito rapidamente aprendemos que, embora ele possa apanhar como Rocky em meio a alguma disputa, ele sempre sairá vitorioso no final.

(Só um exemplo para a coisa toda não ficar teórica demais: na water bill, é isso. Kevin Spacey tem tudo muito bem planejadinho desde o princípio, e a coisa toda só dá errado porque ele subestimou a maquiavelice – e o desejo, e o orgulho – da esposa. É tudo uma questão de vaidade, orgulho e desejo de poder, enfim. Tudo uma questão de interesses pessoais.)

E essa é narrativa é boa e é reconfortante e é fofa porque nos leva a crer que, poxa, se ao menos pudéssemos nos livrar dos Zé Dirceus da vida, aí sim poderíamos encontrar Uma Nova Forma de Fazer Política!…

(Para não correr o risco de ser mal-entendida: estou pensando aqui no Zé Dirceu pré-mensalão, ok? No homem forte fodão maquiavélico do governo, que se responsabiliza pelo trabalho sujo para que o presidente possa continuar a ser o boa-praça amado por todos.)

((Full disclaimer: assisti até o décimo-primeiro episódio da primeira temporada só, e bodeei. Bodeei bonito porque, veja, embora ninguém realmente queira ver a-vida-como-ela-é na televisão – pense que desagradável seria ver Sandra Bullock usando fralda geriátrica em Gravidade – todos temos um limite pessoal de suspensão da descrença. Sandra Bullock de cuequinha acho OK, acho sécssi; agora, Zé Dirceu himself matando Zé Mané com.as.próprias.fucking.mãos, sinto muito, minha gente: menos Hollywood e mais fralda geriátrica, por favor.))

Game of Thrones também é assim, meia dúzia de pessoas espertas manipulando a massa e uns aos outros o tempo todo. Com a diferença de que não há um Kevin Spacey, há vários, e não sabemos quem será o vencedor no final, o que torna tudo mais imprevisível e divertido. Além disso, Game of Thrones tem 1) Tyrion, que escapa a essa lógica 2) muito mais gente pelada.

Não sei o que acontece na segunda temporada de House of Cards (porque não vi e não sei se vou ver) nem o que acontece na quarta de Game of Thornes (porque ela mal começou), mas parece que ambas estão se encaminhando para o mesmo ponto:

O ponto em que os maquiavelinhos todos terão de superar suas diferenças, unir-se em um grande bloco e lutar contra um inimigo comum: os republicanos, no caso de House of Cards, e os zumbis, no caso de Game of Thornes.

E é aí, penso eu, que HoC pode se tornar muito mais divertido que GoT, porque não apenas republicanos >>> zumbis como também republicanos >>> gente pelada.

Pensando bem, acho que vou assistir à segunda temporada sim :-)

P.S. A magnífica Mary disse que discorda de mim com relação a Game of Thrones – ela não acha que a série seja sobre maquiavelices. Pelo contrário (isso foi o que eu entendi do que ela disse, então pode estar tudo errado), ela acha que a série aponta para os limites da política, mostra como a política é ultrapassada pela vida. Aí eu respondi assim:

“Mary querida, esqueçamos o termo maquiavelices, por favor, que afinal – quem estamos tentando enganar – nunca li Maquiavel :-P O q eu quis dizer foi uma coisa muito mais simples. Que Game of Thrones é, de fato, sobre Game of Thrones. Sem pegadinhas. Sem “conteúdos latentes”. O tema da série é realmente um bandigente se estapeando e brigando pelo trono – como vc bem disse, ‘inebriando e sendo desejado e matando quem se inebriou’. Um bando de indivíduos cheio de desejos e vontades e ambições super mesquinhas. Indivíduos com agência. Que controlam outros indivíduos sem agência. E é claro que nada é tão pão-pão queijo-queijo e essas categorias mudam a toda hora, e aí é que tá a graça – quem parece poderoso e fodão num instante no outro se revela um bobinho manipulado etc. Mas é isso – é um seriado que mostra pessoas ativamente brigando por algo. E elas só são limitadas nessa briga pelo desejo de outras pessoas iguaizinhas a elas. A única coisa q pode impedir um Lannister qualquer de chegar a poder é um Stark, ou uma Daenyris (não sei como escreve) etc. Em suma. Volto pra primeira coisa q escrevi no meu textinho. Q GoT (e HoC também) são séries baseadas em *intencionalidades*. Não tem inconsciente ali. As pessoas não são sabotadas em suas intenções por burocracias, instituições – não são sabotadas nem mesmo (quase nunca, que me lembre) pelo acaso. Elas se sabotam mutuamente, claro. Mas é isso: fulaninhos brigando contra sicraninhos. Esse é o mundo que as duas séries retratam. Não sei se você vai continuar discordando… Mas eu tô falando menos de política que de visão de mundo mesmo (ueulxxtautung – não sei como escreve).”

Brigadeiro com pistache

Aquela preguiça de todos os dias de ir à academia, mas que você exagera e diz para si mesma se tratar de uma preguiça muito maior que a de todos os dias, para justificar a premente necessidade de ficar em casa lendo livrinho.

Acontece que, ontem, você já ficou em casa.

Acontece que, na academia, você pode ler livrinho.

Então você vai à academia e, surpresa, não é que você está menos cansada do que parecia?

Meia hora de esteira e vinte minutos subindo degrau como se você existisse em uma realidade paralela onde o elevador ainda não foi inventado.

Você chega em casa e já está se preparando para contar esta história de #vitória #sucesso e #superação nas redes sociais quando de repente -

Aquela vontade de doritos.

Aquela certeza de que a vontade não vai passar enquanto todos os seus dedos não estiverem completamente alaranjados.

Você vai para a cozinha e lembra que, sabiamente, não comprou doritos da última vez que foi ao mercado.

Em vez de doritos, você comprou pistache – que é cinco vezes mais caro que doritos mas 1) é comida de verdade 2) rola aquela ligeira terapia ocupacional ao abrir cada casquinha para chegar no salgadinho, o que 3) tem o poder de reduzir o consumo do salgadinho (hahahahahaha).

Comamos pistaches então, você pensa. Uma meia dúzia, por que não.

Meio potinho de pistache depois, você lembra que tem brigadeiro em casa.

Brigadeiro com pistache, iupi!!!

(Pausa para recomendar fortemente a combinação brigadeiro-pistache, seja qual for sua raça, orientação sexual ou religião.)

Muitos brigadeiros e muitos pistaches depois, você come uma pêra para conseguir esperar o jantar.

***

Faço academia para me livrar das calorias adquiridas ao voltar morta de fome da academia.

Não vai ter menino de 7 anos

A cunhada da colega de uma conhecida minha conhece uma moça. Essa moça tem um filho de 7 anos. O menino um dia teve um pesadelo, mas não quis contar para a mãe o que foi que ele sonhou. Disse que tinha que contar na igreja, no culto.

Lá vão eles ao culto e o pastor chama o menino para dar testemunho. Que nada mais é do que contar para todo mundo o que ele tinha sonhado. E o menino disse que Deus tinha mandado um recado para ele (aliás, dois): que ia acontecer uma coisa muito terrível no (ou com o?) Brasil depois da Copa; e que Deus iria levá-lo em 3 dias.

Dali a 3 dias – claro – o menino morreu.

“Morreu do quê, Claudia?” (Claudia é a pessoa que me contou a história.)

“De nada, morreu dormindo.”

Então agora todo mundo na congregação está desesperado, o menino não tinha doença nenhuma, ninguém sabe do que ele morreu.

***

De tudo o que foi contado, muitos pontos podem ter sido aumentados, mas tenho cá para mim que o fato essencial deve ser verídico e deve ter sido preservado ao longo das diferentes versões: um menino de 7 anos morreu.

E ficamos apoquentados com a coisa horrível que vai acontecer depois da Copa. (Como se já não soubéssemos que essa coisa horrível é a eleição…)

Sendo que a coisa horrível já aconteceu.

Um menino de 7 anos morreu.

Mas bora esquecer isso rapidinho e focar no imagina-depois-da-copa.

Não está tendo Copa, não está tendo menino de 7 anos, não está tendo luto pelo menino de 7 anos.

Fim

A Liga do Barril

A história, como eu a lembro, é assim: P. e seus amigos, uns 15 anos de idade, picharam alguns muros, em 1969 ou 1970. Não sei se a pichação como a entendemos hoje já existia naquela época, e tampouco sei se é correto chamar inscrições a giz de pichação. O que me disseram é que os meninos escreveram “Liga do Barril” em muros do bairro, a giz. Era o nome da turma deles – e, aos 15 anos, você tem certeza de que a Liga do Barril é para sempre.

Tanto espalharam seu nome pelo bairro, que um policial viu.

Veio perguntar para os meninos que Liga do Barril era aquela.

Se eles se interessavam por política.

Se aquilo era coisa de subversivo.

A história não tem graça nenhuma, adianto desde já: o policial rapidamente se convenceu de que Barril não era um código secreto para Foice ou Martelo (“ô seu guarda, a gente só quer saber de estudar, a gente não sabe nada desse negócio de política não!”), mandou os meninos apagarem as marcas a giz, e pronto.

Graças a Deus, me contaram, não aconteceu nada demais.

Graças a Deus, ninguém ali se interessava por política.

Graças a Deus, ninguém ali era subversivo.

Tudo acabou bem. 

***

Conheço pessoas que sofreram marcas profundas da ditadura.

A minha marca foi esta outra: de giz, no muro. Apagada às pressas.

Estas foram algumas lições que a ditadura me ensinou:

Que, se você se interessa por política, alguma coisa você tem para esconder. Alguma você fez. 

Que, se você se interessa por política, você está a um passo de ser subversivo. Você é, por princípio, suspeito.

Que quem não deve, não teme – e quem não deve certamente não se interessa por política.

Quem não deve é gente que só cuida de estudar e trabalhar, e deixa o interesse pela política para os subversivos que não têm mais o que fazer.

Que um policial pode lhe perguntar, a qualquer momento, se você se interessa por política.

(Aliás, que um policial pode lhe perguntar, a qualquer momento, qualquer coisa.)

E, quando ele lhe perguntar o que quer que seja, é bom saber a resposta certa.

***

Encontrar as marcas da ditadura no Brasil é um jogo dos sete mil erros. 

Mas este não é um post sobre o Brasil – é um post sobre mim.

Em mim, a grande marca que a ditadura deixou foi esta: o aprendizado de que, no mundo, existem as pessoas que estudam, trabalham e não querem saber de política. Estas estão a salvo. Para elas, tudo acabará bem.

E existem as pessoas que querem saber de política – e não querem saber de estudar ou trabalhar. Estas são as que foram se meter onde não deviam. Se apenas tivessem se limitado a trabalhar e estudar, como fazem os bons cidadãos! Mas não: foram inventar de fazer graça.  Depois se metem em encrenca e ainda reclamam. 

*** 

O post é sobre mim, mas minha história não tem nada de especial. Esta dicotomia trabalho/estudo (gente séria e competente, bons cidadãos) x ativismo político (gente preguiçosa e/ou incompetente, que em vez de assistir aula prefere participar de reunião do C.A.; em vez de trabalhar duro, prefere ser sindicalista etc.), para citar Noel, é coisa nossa, muito nossa. Mesmo minha TL, que é decidamente esquerdista, criticou Sininho com base nesta dicotomia. Afinal, “ser cineasta” não é um trabalho de verdade, para o imaginário popular – não é como se ela fosse médica ou engenheira. Então, ela foi encaixada precisamente nesta segunda categoria: de pessoa que se interessa por política e não quer saber de estudar ou trabalhar.

E todo mundo sabe que gente assim sempre acaba se metendo em confusão.

***

Cada vez que questionamos o trabalho de Sininho, encarnamos o guarda que perguntou à Liga do Barril, talvez não com estas palavras, mas certamente com este espírito: 

Afinal, vocês são estudantes ou uns subversivos que só querem saber de política?

O Estado policial, para citar Emicida, é nóis.

*** 

O caminho em direção a um país menos escroto é árduo e incerto. Suspeito, porém, que ele inclui um importante passo: o reconhecimento das marcas que a ditadura deixou impressas em nós.

Mesmo que sejam de giz – mesmo que tenham tentado apagá-las.

Cabô o mito da cordialidade?

Olhei meio rápido para esta pesquisa e não entendi muito bem a comoção que ela está gerando. Achei que fosse apenas mais uma a confirmar aquilo que eu e você já sabíamos: que a violência lava-que-cobre-tudo no Brasil é sempre minimizada, atenuada, justificada, “mas pera lá”, “não é bem assim”, “você está exagerando”, “deixa disso”, “anistia ampla, geral e irrestrita para os assassinos da ditadura”.

Do tipo: o racismo até existe no Brasil, claro – mas não aí onde você está vendo (e sobretudo não em mim, jamais!), isso que você está dizendo é um problema socio-econômico e não racial.

Ou: alguns militares realmente torturaram durante a ditadura – mas no geral, fala sério, nossa ditadura foi uma ditabranda, poxa!

Ou: a polícia às vezes exagera na violência, é óbvio – mas esses vândalos infiltrados também fazem por merecer, né?

Analogamente, achei que, nesta pesquisa, as pessoas fossem dizer que a violência contra a mulher é errada (claro que sim!) – mas essas piriguetes também usam umas roupas enfiadas no útero que até parece que elas estão pedindo, não?

Não: aparentemente, as pessoas não acham nem mesmo que a violência contra a mulher é errada.

As pessoas – 2/3 delas – acham que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”.

Deixemos as roupas de lado por um instante para ter a real dimensão do horror:

Mulheres. Merecem. Ser. Atacadas.

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O mito da cordialidade sempre fez todo o sentido para mim; sempre informou minhas tentativas de entender quem somos. Esse “não somos racistas” / “não somos violentos” / “somos uns fofos” que recobre a abissal violência da nossa sociedade sempre foi uma característica definidora, para mim, do que é “ser brasileira”.

Mas, ultimamente… Estou com a impressão de que o tal mito da cordialidade não está se aplicando mais, viu.

Parece que o mito diz respeito a outra era. Parece que, cada vez mais, estão caindo as máscaras. Não há uma tentativa (ainda que mal-sucedida) de disfarçar ou minimizar as violências. Não há mais pudor; não há mais um ímpeto de dizer que o horror, na verdade, era outra coisa, nem-tão-horrível-assim.

É isso: parece que não há mais pudor. Ao contrário, há o *orgulho* do horror. A afirmação da violência em todo seu esplendor.

Há os adolescentes amarrados em postes. O leilão para comprar armas para atirar em índios. As mulheres que, descubro agora, devem ser atacadas.

Não estou sabendo direito o que pensar. Só sei que estou com vontade de usar shortinho e minissaia pelo resto do ano agora. Como ato político mesmo.