Um país de tias noveleiras desamparadas

Um das melhores lembranças que tenho das férias na praia é a das minhas tias acompanhando a novela. O ritual que se cumpria às nove horas da noite – todas as tias reunidas na sala e alheias à movimentação dos filhos na varanda; todas aquelas paixões, tão incompreensíveis para mim, das pessoas na televisão; a televisão em si, que magicamente não exibia propagandas no intervalo – me era novo e fascinante.

A novela passava, e as tias comentavam – não os fatos da trama, mas a aparência das atrizes. Roupas, esmaltes e maquiagens eram escrutinados milimetricamente. Enquanto a heroína da novela padecia de dúvidas entre o mocinho bonitão e de bom coração, porém simplório, e o homão feioso e meio cafajeste, porém sedutor, minhas tias analisavam, cena a cena, se os sapatos da atriz estavam de acordo com a bolsa e se seus cabelos estavam corretamente penteados.

Engana-se quem pensa que minhas tias faziam uma leitura superficial da novela e ignoravam a trama. Pelo contrário – se fossem perguntadas, saberiam dizer exatamente se Maria Roberta estava mais inclinada a escolher Claudinho ou Jorjão. Ocorre que, ao mesmo tempo, elas eram perfeitamente cientes do (e sensíveis ao) fato de que Maria Roberta era também uma atriz famosa em permanente disputa com outras atrizes famosas por seu quinhão de fama, beleza e poder no mercado das atrizes globais.

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Corta para a nossa novelinha política de todos os dias no Brasil de hoje.

A trama principal é o impeachment. Não sabemos se o próximo governo virá daqui a um mês ou três anos; sabemos, porém, que o próximo governo é o único que importa; no atual, ninguém acredita mais. Acordos e conchavos contra ou a favor do impeachment e pesquisas de opinião sobre uma eleição que só virá (se o mundo ainda existir) daqui a três anos tornaram-se a principal matéria-prima da seção política dos jornais. Nenhuma discussão sobre políticas públicas é tão sexy quanto as apostas sobre quem vencerá nossa Guerra dos Tronos que parece cada vez mais perto de chegar no momento da Invasão Zumbi.

Além do impeachment, há duas tramas secundárias: o ajuste – de onde se pode ou se deve cortar (deste ou daquele ministério, deste ou daquele programa social) – e a corrupção. Tramas que equivalem a dois mandamentos negativos, portanto: não gastar mais do que se tem, não roubar. Nada que qualquer mãe suficientemente boa não ensine a seu filho cotidianamente. De resto, porém – cadê a parte positiva da novela? Quais são efetivamente as propostas para o país – seja do governo ou da oposição?

De repente, é como se Maria Roberta não estivesse mais em dúvida entre Claudinho ou Jorjão. É como se a atriz furasse a quarta parede, se dirigisse diretamente aos espectadores e discutisse as qualidades deste ou daquele sapato, deste ou daquele esmalte – admitindo para si mesma e para os espectadores que a vida amorosa de Maria Roberta é uma bobagem e que o que importa mesmo é ela, atriz, tornar-se rica e poderosa vendendo os esmaltes e sapatos que levam seu nome.

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Não existe mais trama subjacente – um projeto de país – no debate político de hoje. Só sobrou a disputa pelo poder – não há nada além ou aquém disso. Em 31 de dezembro de 2014, estávamos vidrados na vida de Maria Roberta. Em 1 de janeiro de 2015, é como se a Globo, passando por sérios problemas orçamentários, tivesse convertido a novela em um grande infomercial – chega dessa palhaçada de vida sentimental, o negócio aqui é ver quem vai vender mais produtos para ser escalado no elenco da novela seguinte.

Esse mérito, pelo menos, nossa novelinha política atual tem: com todos os seus acordos e conchavos, ela nunca foi tão… Honesta. Permanecer no poder, reconquistar o poder: nunca esses dois objetivos foram tão transparentes como agora. Não existem propostas para o país subjacentes a quaisquer desses objetivos.

Maria Roberta, coitada, deve ficar sem sexo por um bom tempo.

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