Os melhores discos de 2015

16. Cecile McLorin Salvant – For One to Love. Essa moça é tão talentosa e tão capaz de imitar Sarah Vaughan perfeitamente que chega a dar agonia – às vezes ela ainda parece estar à procura de sua própria voz. Voz essa que ela certamente encontrou nas faixas 4-6 desse disco, sobre dor de amor/traição/medo de ser traído. É ouvir e se identificar na hora, e ter vontade de abraçar a moça, ou talvez uma versão mais jovem de você mesma.

 

15. Terence Blanchard – Breathless. Um disco sem unidade nenhuma, mas com momentos tão bonitos que valem a inclusão em qualquer lista de melhores do ano. Tem funks de New Orleans e temas que parecem trilhas de filme. E Breathless, a canção mais importante, um tributo a Eric Garner e Woody Guthrie ao mesmo tempo (“This land is my land”).

 

14. Björk – Vulnicura. Ninguém transforma angústia em música melhor que essa mulher. E olha que não faço ideia do que ela está falando. Meu foco ao ouvir esse disco, como todos os outros discos dela, é sempre nas sonoridades, texturas, batidas, timbres. Nos sons em que a voz de Björk é capaz de se transformar. Um disco para acabar com qualquer festa (discos que acabam com festas, melhores discos).

 

13. Julian Lage – World’s Fair. Violão de aço solo. Composições próprias. Teria tudo para ser, mas não é, um disco monótono. São tantas as variações de tempo e dinâmica que você cola o ouvido em cada música e não desgruda mais. É um disco (até por causa do instrumento) que soa mais folk e bluegrass do que jazz – mas, claro, o jazz é aquele elemento sem o qual nada ali teria sido possível.

 

12. Brad Mehldau – 10 Years Solo Live. Disco enorme, para se ouvir pelos próximos anos e eternamente descobrir coisas. Ouvi-lo é uma experiência reveladora – Brad Mehldau parece ser o compositor de todas as canções, seja um standard como Get Happy ou um rock moderninho como Bittersweet Symphony, e é um prazer viver por algumas horas nesse mundo assinado por ele.

 

11. José James – Yesterday I Had The Blues – The Music of Billie Holiday. Em geral sou contra tributos. Um tributo no centenário do nascimento de Billie Holiday, então – nossa, “mais caça-níquel impossível”, diria meu self cínico. E de repente me vi torcendo para José James caçar todos os níqueis possíveis com esse disco, porque ele realmente merece. Voz + piano trio. Eu gosto tanto do pianista, até quando ele erra (na primeira música) ele acerta. E o Strange Fruit a capella do final, caramba. Às vezes a coisa mais inovadora e revolucionária que se pode fazer com um standard dos anos 1930 é transformá-lo em algo ainda mais antigo – no caso, um spiritual.

 

10. Tigran Hamasyan – Mockroot. Tem sido uma alegria cada vez maior acompanhar o desenvolvimento da inclassificável obra do Tigran, que mistura jazz e música eletrônica com música armênia. Mockroot é uma ótima adição ao conjunto, mas meu preferido cotinua sendo Red Hail, de 2009.

 

9. Kendrick Lamar – To Pimp a Butterfly. Nunca houve um disco de hip-hop tão ao meu gosto. É para se ouvir com o site Genius Lyrics aberto ao lado para ir sacando as referências todas. Por exemplo, o “Alls my life I has to fight” que abre “Alright” é uma referência a “A Cor Púrpura”, que ainda não li. O conteúdo, em geral, é um pouco careta – a poética de Lamar é totalmente cristã, temos o Bem contra o Mal o tempo todo (um dos personagens principais do disco é Lucy, isto é, Lucifer). Mas, formalmente, é sensacional. Os arranjos são lindos, detalhadíssimos, super complexos. E não há como não se emocionar com a belíssima Alright, o hino informal do Black Lives Matter.

 

8. Donny McCaslin – Fast Future. De repente o Donny McCaslin ficou conhecido como o cara do último disco do David Bowie. E, bem, para mim que sou louca é justamente o contrário, né? Ter chamado o Donny McCaslin para gravar fez o David Bowie subir no meu conceito :-) Enfim. Este disco é, como dizê-lo de maneira politicamente correta, um disco de macho. Cheio de vigor, energia, solos de saxofone arrebatadores e uns mantras.

 

7. Hamilton – Original Broadway Cast Recording. Das coisas mais geniais que já ouvi: um musical de hip-hop contando a história de um dos Pais Fundadores dos EUA, no caso o “10-dollar founding father without a father” (Hamilton estampa a nota de 10 dólares). Mas não é exatamente hip hop. Também não são exatamente musiquinhas de musical. É realmente uma coisa nova. Você tem batalhas de rap entre Hamilton e Jefferson sobre o sistema financeiro dos EUA. E é inacreditável como funciona bem. As rimas são de outro mundo, é tudo tão perfeitamente articulado e fácil de entender. Há vários motivos musicais e líricos que se repetem ao longo da obra, e são facílimos de decorar, e tenho passado os últimos dias cantando “Yo I’m just like my country / I’m young, scrappy and hungry / And I’m not throwing away my shot”. Estou realmente encantada e deslumbrada – é meu disco preferido do momento. Talvez escreva um post separado sobre ele qualquer hora.

 

6. Snarky Puppy – Sylva. O melhor disco do SP até agora – não por acaso, com a Metropole Orkestra. É uma suíte orquestral, com tudo o que nos acostumamos a esperar do SP (“music for the brain and the booty” – i.e. melodias lindas e grooves contagiantes), só que com ainda mais camadas.

 

5. Mathias Eick – Midwest. Sabe como eu falei que o disco do Donny McCaslin é um disco de macho? Pois este é um disco de mulherzinha, o que é um elogio tão grande quanto. Jazz norueguês, com muito ar, muito espaço, tudo acústico, tudo bonito, cristalinamente bonito.

 

4. Lianne La Havas – Blood. Que alegria ter descoberto essa moça no ano passado. Que cantora incrível, que compositora melhor ainda. Cada música é uma pérola, de uma densidade, uma profundidade, uma perfeição. Um disco sem pontos baixos. Obra-prima mesmo.

 

3. Fred Hersch – Solo. O que escrever sobre um disco que reúne meus compositores preferidos (Jobim, Mitchell, Monk)? Bem, vou escrever que esse disco me salvou. Foi o que mais ouvi na reta final da tese. Eu me abrigava nessas músicas todas as noites antes de dormir. Fred Hersch Solo foi minha casa por algumas semanas.

 

2. Kendrick Scott – We Are The Drum. Só não foi meu disco preferido do ano porque 2015 foi o ano do Furacão Kamasi. We Are The Drum foi certamente o segundo disco que mais ouvi ano passado. Até aprendi a cantar This Song In Me. Na verdade aprendi um monte de coisa. Porque ele é desses. Disco de ouvir sem parar e aprender cada um dos solos. Que é das coisas que eu mais gosto de fazer na vida. Kendrick Scott é um compositor bom demais. Eu não entendo nada de harmonia, mas mesmo sem entender, é o tipo de coisa à qual você instintivamente reage, e é impossível não reagir aos caminhos surpreendentes que a música de We Are The Drum vai tomando.

 

1. Kamasi Washington – The Epic. Uma das obras definidoras do nosso tempo. Deixo o link para o maravilhoso perfil do Kamasi que saiu no NYT, e copio o trecho que vai ao ponto:

“That sense of home, of African-American pride and identity, reverberates throughout ‘‘The Epic.’’ It’s not just the tributes to his grandmother and great- grandmother, or the concluding hymn to Malcolm X, which incorporates Ossie Davis’s eulogy as well as one of Malcolm’s speeches. It’s the album’s soaring panorama of black American musical history, from gospel and blues to jazz, doo-wop and funk, offered as a celebration of black beauty in the face of adversity. Its sound is particularly evocative of the early 1970s, when Marvin Gaye, Curtis Mayfield and Stevie Wonder were composing their own epics and jazz musicians like Max Roach were playing spirituals with gospel choirs. The Afro-futurist cover of ‘‘The Epic,’’ too, suggests an early ’70s LP: a picture of Washington in a black dashiki against an interstellar backdrop, saxophone in hand.

That blend of rebellious intent and retro self-fashioning is hardly unique to Washington. It permeates the cultural renaissance spawned by Black Lives Matter, a movement that has combined Black Power nostalgia with an exuberant faith in the revolutionary potential of technology and social media. ‘‘The Epic’’ is arguably the most ambitious expression thus far of this renaissance, whose touchstones also include Claudia Rankine’s prose-poem ‘‘Citizen,’’ Ta-Nehisi Coates’s memoir ‘‘Between the World and Me,’’ D’Angelo’s album ‘‘Black Messiah’’ and Kendrick Lamar’s ‘‘To Pimp a Butterfly,’’ with its indelible refrain, ‘‘We gon’ be alright.’’ Not surprisingly, ‘‘The Epic’’ has found a particularly receptive following among black intellectuals. As Robin Kelley, a historian at U.C.L.A. and a biographer of Thelonious Monk, puts it, ‘‘In a world where you feel like blackness is under assault and you’re looking for a way to express joy, pain and possibility, ‘The Epic’ speaks to what black people feel inside.’’ The writer Greg Tate, who calls Washington the ‘‘jazz voice of Black Lives Matter,’’ told me that his music offers ‘‘a healing force, a place of regeneration when you’re trying to deal with the trauma of being black in America.’’

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