Recordando a eleição presidencial

Se existe alguma vantagem no fato de que tudo o que somos capazes de discutir atualmente sobre política é se e quando haverá o impeachment e quem e quando assumirá a presidência após Dilma é que… Olha, pensando bem não existe vantagem nenhuma não – juro que tentei começar o texto numa vibe otimista, mas não rolou. Vou reformular e tentar de novo.

Não existe nenhuma vantagem no fato de que tudo o que somos capazes de discutir atualmente sobre política é se e quando haverá o impeachment e quem e quando assumirá a presidência após Dilma. Nada me parece mais grave no debate político atual do que nossa falta de imaginação. Parece que a única pergunta que somos capazes de fazer é “quem ou o que virá em 2018?” – um cenário bastante propício à emergência de políticos carismáticos. (Nossa sorte é que Enéas já morreu.)

Por isso, já que – a começar por mim mesma – aparentemente não nos restou mais nenhuma imaginação e estamos sentadinhos à espera do que virá, vou aproveitar a oportunidade para refletir sobre aquilo que deveria ter passado e não passou. Pois me parece que, quando nos perguntamos sobre 2018, a verdade é que ainda estamos tentando entender o que raios aconteceu em 2014.

Vou retomar, então, o que a eleição presidencial de 2014 foi para mim. Uma mulher de trinta e poucos anos, paulistana, de classe média, preocupada com a falta d’água em São Paulo e com a catástrofe ecológica mundial.

Sobre a crise hídrica em SP: Aécio disse que era culpa do PT. Dilma citou José Simão e disse que São Paulo teria um programa de bolsa-banho. Marina apoiou Alckmin para governador.

Sobre mudanças climáticas: silêncio total. (Considerando-se o pujante debate travado sobre a crise hídrica, chega a ser um alívio que todos tenham ficado calados.)

Ou seja. Para alguém que leva a catástrofe ecológica e as mudanças climáticas a sério. Para quem isso é realmente a questão política mais importante do nosso tempo. Para quem está convencido de que aquecimento global, derretimento das geleiras, acidificação dos oceanos, extinção das espécies, não são questões filosóficas futuras e distantes, mas eventos reais que ameaçam nossa existência no planeta tal como o conhecemos. Para quem quer saber como o Brasil vai replanejar sua economia de modo a diminuir a desigualdade e a violência, ampliar o acesso a serviços públicos de qualidade, acabar com o desmatamento e reduzir drasticamente suas emissões. Simplesmente não havia em quem votar.

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“Na briga entre ortodoxos e heterodoxos, entre neoliberais e desenvolvimentistas, eu ando cada vez mais ambientalista” (Idelber Avelar, 2015)

Repare que não se trata de encontrar o candidato perfeito e idealizado. Trata-se de apontar que uma discussão importantíssima sequer ocorreu. Nenhuma candidatura preocupou-se em explicar como iria conduzir a economia sem cozinhar o planeta. Esta não é uma questão que se coloca no debate político atual. No máximo, ouvimos a palavrinha “sustentabilidade” sendo salpicada aqui e ali. Mas uma efetiva discussão sobre programas econômicos que levasse em conta a realidade material da Terra – isso não existiu.

Não existiu em 2014, e segue não existindo agora, nenhuma liderança nacional, nenhum projeto político para o Brasil, que seja radicalmente sustentável ecologicamente e viável economicamente. Existem diversos políticos em quem votei e votaria com a maior confiança para o legislativo, e há também boas opções de voto para o executivo em nível regional. O que não existe é um projeto econômico que leve em conta o combate às mudanças climáticas – e um projeto de país que parta do princípio de que não existe justiça social sem justiça ambiental.

Estou dizendo o óbvio? Claro que sim. Só que essa obviedade – o de que não existe, por ora, uma alternativa ao desenvolvimentismo x neoliberalismo que está dado – é tão terrorífica que acaba sendo muito mais confortável, entre uma cerveja e um mojito, desviar o papo do bar para “e aí, hein? Lula volta em 2018? e o Ciro? e o Alckmin, será que agora vai?”. Porque é mais fácil. É tranquilizador. Porque com esses nomes conhecidos tentamos preencher um vazio absoluto de novas ideias.

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Nunca cheguei a considerar Marina essa tão esperada terceira via ambientalista: seu programa econômico era o mesmo do PSDB (que é o que Dilma, agora, tenta implementar), apenas revestido de um discurso moralista que é ouvir uma vez e sair correndo na direção oposta sem olhar para trás (Marina, não nos esqueçamos, pretendia instituir “comitês de homens de bem” para ajudar a governar o Brasil). Gostaria que ela tivesse ido para o segundo turno, só para tirar o PSDB de vez da jogada e movimentar as peças no tabuleiro – mas a polarização que ela mesma tanto (e acertadamente) critica, PT x PSDB, permaneceria em grande parte intocada, já que seguiríamos na mesma ladainha desenvolvimentismo x neoliberalismo no debate econômico.

Votei em Luciana só porque anular o voto já no primeiro turno é niilismo demais até para mim. Então, apoiei a candidatura mais engajada na defesa dos direitos humanos, apesar da impraticabilidade de seu programa econômico. Mas, sem dúvida, foi um voto “de mentirinha”, no sentido de que não votaria nela num segundo turno, onde houvesse possibilidade real de vitória – assim como não votaria em nenhum dos demais. A verdade é que, para um segundo turno – a hora em que temos de responder à pergunta “quem você quer, de fato, que governe o Brasil?” – só me sobrou mesmo o nulo. O nada. O ninguém. Não existe uma liderança nacional sequer com um projeto de país no qual eu acredite.

É preciso construí-la.

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