A revolução do cotidiano é mais importante que a eleição

Tive o privilégio de viver minha primeira eleição achando que aquilo era um fato normal e corriqueiro da vida. Eu não fazia ideia de que um mundo sem eleição, pesquisa eleitoral e partidos políticos sequer pudesse existir. Foram precisos anos para eu entender que muita gente morreu na luta contra a ditadura para que hoje alguns tivessem o direito de, no horário político, clamar pela volta desta mesma ditadura.

Mas o ano era 1988, corriam as eleições municipais de São Paulo e eu amava o processo eleitoral. Especialmente, eu amava a Erundina. Achava que ela seria a Mônica dos quadrinhos em forma de prefeita. Fiz campanha para ela hasteando uma bandeira no quintal de casa. E decidi fazer também a minha própria pesquisa eleitoral na família.

Os votos da minha família dividiam-se entre Paulo Maluf (que eu escrevia Paulo Malúfi) e Mario Covas (que eu escrevia direitinho). Não sei como explicar a intenção de voto em Mario Covas naquele momento dado que o candidato do PSDB era José Serra. Mas os fatos que importam são: o embate tucanismo x malufismo, que por muito tempo foi mais importante em São Paulo do que tucanismo x petismo, já se fazia presente na minha família; a única que votava em Erundina era minha mãe. Ainda assim, como se sabe, Erundina ganhou a eleição – ensinando-me deveras precocemente, portanto, o conceito de “falta de reprentatividade da amostra”.

Eu tinha 6 anos.

Todo mundo na família participou da minha pesquisa, exceto uma pessoa: a empregada doméstica (e já diz muito sobre nossa sociedade que eu tenha incluído a empregada doméstica num grupo que, de resto, só continha familiares). Perguntei e perguntei em quem ela iria votar e ela sempre desconversava e mudava de assunto. Falei que se ela não sabia não tinha problema, era só me falar e eu a colocaria entre os “indecisos”. Até que uma hora ela se cansou e me disse:

“Não digo em quem vou votar pois o voto é secreto.”

Confesso que fiquei não só estupefata como também um pouco magoada com a recusa dela em participar da minha pesquisa. Mas passaram-se os anos e esqueci essa história. Até agora.

Depois de ler inúmeros relatos de amigos tentando influenciar o voto de suas empregadas domésticas, faxineiras, manicures e motoristas, entendi perfeitamente por que a empregada doméstica de minha família não quis revelar seu voto em 1988: ela provavelmente não aguentava mais ser importunada por suas patroas sobre as virtudes de Covas e Malúfi, e tudo que ela não precisava era de uma garotinha de 6 anos discursando sobre o programa de governo da Erundina enquanto ela tentava passar a roupa e arrumar a cozinha.

Na época não entendi – ao menos não racionalmente – a recusa da empregada em responder a minha pergunta, mas algo dessa experiência certamente permaneceu comigo: desde então, nunca tive qualquer desejo ou intenção de convencer qualquer pessoa a votar em quem quer que seja. Sou muito mais arrogante e megalomaníaca do que isso: minha pretensão é ajudar (ou atrapalhar, conforme o caso) os outros a pensar, a partir do meu próprio pensamento (que se constitui à medida que escrevo). Esse desejo de botar os outros e a mim mesma para pensar nada tem a ver com desejar que as pessoas votem X ou Y. Acredito sinceramente no seguinte: se você acha esse negócio de casamento gay uma sem-vergonhice e se você está convencido de que bolsa família é bolsa esmola, acho mesmo que você deve votar no pastor Esmeraldo – e acho maravilhoso que seu voto valha rigorosamente tanto quanto o meu. Democracia é isso, oras.

Então vocês podem imaginar meu incômodo quando, em 2014, minha avó me liga dizendo que não tem candidato a deputado estadual e querendo saber quem é o meu candidato para poder votar nele também.

Respondi assim:

“Olha, vovó, eu posso até te contar em quem eu vou votar, mas não sei se você vai querer votar nele. É um moço novo, que está se candidatando pela primeira vez. Vou votar nele porque ele defende os direitos dos gays e das lésbicas e isso, pra mim, é muito importante no momento que estamos vivendo. Mas, na minha opinião, se você está em dúvida, acho que você podia pensar em votar na legenda do partido que você gosta mais. Eu, por exemplo, se não tivesse um candidato específico, votaria na legenda do PSOL.”

Aí ela me pergunta se o moço é do PSOL e eu digo que sim.

E ela responde:

“Em todo caso, me dá o número dele.”

Eu dei: 50505.

Sim, eu sei que se eu tivesse dito que ela deveria votar no Capitão Telhada, ela provavelmente votaria nele sem pestanejar. Não, eu não sei se minha avó realmente votará no Todd Tomorrow. E isso pouco me importa. Porque sabe o que realmente importa? É o seguinte:

Hoje, 05 de outubro de 2014, uma senhora de 79 anos, crente da Congregação Cristã do Brasil, ouviu dizer que tem um deputado que defende os direitos dos gays e das lésbicas e anotou o número dele.

Entendem a enormidade disso? Ela podia ter mudado de assunto e fingido que não era com ela (Deus sabe como minha avó é boa de mudar de assunto e fingir que não é com ela). Ela podia ter pegado a deixa do “votar na legenda” e encerrado a conversa ali.

Em vez disso, ela colocou um ativista da causa LGBT em seu campo de possibilidades para o voto no legislativo.

Se isso não é motivo para chorar de emoção, não sei o que é.

***

Eleições são lindas e podem trazer mudanças importantes. Mas as mudanças que realmente importam, para mim, são as pequeninas. Do cotidiano. Do miudinho. Feitas por gente como eu e você. O que me interessa são as meninas que perguntam onde está a água. É o rapaz que se recusa a cumprimentar o candidato. E agora é também minha avó, que anotou o número de um defensor da causa LGBT.

Vai por mim: os vencedores e perdedores da eleição são apenas um pálido reflexo dessas mudanças todas. A revolução do cotidiano é o que de mais importante podemos fazer.

PS: Minha avó, em 1988 e em outras ocasiões, votou no PSDB contra Maluf. E em 2014, ela vai votar no Skaf. Porque, segundo ela, o Alckmin simplesmente não dá mais. Não preciso dizer que chorei de emoção de novo.

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