Voto Luciana, mas pode me chamar de petralha se quiser

Estou convencida de que a força política mais nefasta do Brasil é o antipetismo de direita. Você sabe que antipetismo é esse. Mas adianto que eu provavelmente sei melhor do que você. É o antipetismo do imagina na Copa. Do fora petralhas. Do bolsa família = bolsa presidiário. Do quem recebe bolsa família não deveria poder votar. Nasci e cresci no bojo desse antipetismo e sabe-se lá como escapei dele.

Mas esse não é o único antipetismo que há. Há o antipetismo de esquerda, que só não é nefasto porque é muito incipiente. Mas que também está me dando engulhos. É um antipetismo assim: qualquer um que se apresente como alternativa ao PT (e que não seja PSDB, afinal trata-se de um antipetismo de esquerda), apenas por não ser PT (e não por algum mérito próprio), vira herói. O objetivo fica sendo tirar o PT do poder porque qualquer coisa não-PT, por definição, será melhor do que o PT. E aí importa muito pouco quem está do outro lado. Não sendo PT, está valendo. O não-petismo é que é fundamental. E desse modo o PT continua firmemente incrustado no centro da imaginação política desse antipetismo (seu nome já diz).

O antipetismo de direita não se conformou até hoje que o PT do Colégio Sion chegou ao poder (provavelmente jamais se conformará). O antipetismo de esquerda não se conforma que esse antigo PT transformou-se noutra coisa. É triste, eu sei. Mas, em vez de superar esse fato e buscar outras alternativas políticas ou no próprio PT ou fora dele, esse antipetismo foca todas as suas forças na destruição do PT. E é aí que o antipetismo de esquerda se parece enormemente com aquele menino que tem ódio mortal do pai e faz tudo ao contrário do que o pai gostaria. O pai é engenheiro? O menino vai ser artista plástico. O pai gosta de churrasco? O menino vira vegetariano. E você morre de pena de dizer para o menino que o pai continua sendo o grande amor da vida dele. O pai é o modelo, o norte, a luz, estrela e luar, a guiar – pelo exemplo negativo – todas as ações do apaixonado garotinho.

Então eu gostaria de deixar claro: não voto Dilma. Nem no primeiro turno, nem no segundo, nem num terceiro turno se terceiro turno houvesse. E no entanto, dois dos meus cinco votos este ano irão para o PT. E não considero de jeito nenhum que ser chamada de petista constitui xingamento. Podem me chamar de petista-petralha à vontade que não me ofendo de jeito nenhum. E sabem por quê? Porque caguei para o PT. Sinceramente e de verdade. Eu não estava lá na fundação do PT no colégio Sion. Não fui traída. Não me sinto horrivelmente decepcionada. É só mais um partido, que no geral está pouco se lixando para as coisas em que acredito.

E no que eu acredito e no que não? Acredito, por exemplo, numa redistribuição de renda que se faça através duma reforma tributária radical, em que os ricos paguem mais impostos do que os pobres. (Parece marxista, mas não é nada diferente do que o queridinho do capitalismo vem dizendo há meses.) Não acredito em destruir o Xingu para gerar energia. Só acredito numa melhora substancial da qualidade da educação que passe pelo aumento estratosférico do salário dos professores. Acredito na legalização das drogas. Não acredito na privatização do saneamento básico. Acredito na desmilitarização da polícia. Não acredito em pagar para aluno de graduação estudar no exterior. Acredito em financiamento público de campanha. Acredito na democratização da mídia. Não acredito que basear toda a economia do país na venda de soja e alumínio para a China seja um bom negócio. Acredito que o acerto de contas com os crimes cometidos pela ditadura militar é fundamental. E assim por diante.

É nisso que acredito. E a candidatura que mais se aproxima das coisas em que acredito é a de Luciana Genro. É nela que eu voto.
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