Pensando sobre meia dúzia de tuítes de Marina

Dei uma boa olhada na TL de Marina Silva. Eis alguns tuítes recentes seus:

“A legalização do aborto é uma questão delicada, mas é um debate que deve ser feito de forma respeitosa.”

“Denuncio o papel nefasto de duas forças políticas, o PT e o PSDB – irmanados na determinação de nos destruir, não importam os meios.”

“Homens e mulheres de bem estão determinados, de forma livre e independente, a fazer a mudança que o Brasil precisa.”

“Quando você diz que quer fazer uma gestão com as boas pessoas, sem distribuir pedaços do Estado, muita gente duvida.”

“Nossa meta é recuperar a credibilidade do Brasil.”

“No meu governo os recursos do pré-sal vão ser usados para a saúde e a educação, não para a corrupção.”

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O que foi junho de 2013? O que restou de junho de 2013? Essas são questões que permanecem abertas para o debate e para o pensamento. Diversas narrativas são possíveis. Uma narrativa bastante plausível é a que define junho como um momento em que as pessoas saíram às ruas pelo Bem (“mais saúde e educação!”) e contra o Mal (“menos corrupção!”). Afinal, quem pode ser contra saúde e educação (“defendo a doença e a ignorância para um Brasil melhor!”) e a favor da corrupção (“para mais ladroagem no congresso, vote 666!”)? Esta é uma narrativa, portanto, coerente – só que não apenas não explica muita coisa como também exclui outra narrativa muito mais ousada: por exemplo, a de que os paulistas foram às ruas em 17 de junho de 2013 em repúdio à repressão da polícia militar.

Acho que não preciso dizer qual destas narrativas tem sido dominante.

A narrativa vencedora sobre os protestos de junho está perfeitamente representada no discurso de Marina: basta ler seus tuítes. Está tudo ali: mais investimentos públicos em saúde e educacão, menos corrupção, menos partido político, menos negociata, menos PT (que ninguém aguenta mais) e menos PSDB (que ninguém quer de volta). É perfeito: ela vai usar o dinheiro para a saúde e a educação, não para a corrupção, como fazem esses políticos da velha-política que estão aí. Não sou eu que estou dizendo. Foi Marina quem disse.

E como ela vai fazer isso? Como fará as mudanças de que o Brasil precisa? Ora, é simples: governando com os bons, com os melhores – do PT ou do PSDB, do agronegócio ou do MTST, não importa; basta que sejam homens e mulheres de bem e que acreditem no Brasil. E se você não acredita na viabilidade de nada disso, é porque você foi corrompido pelo cinismo da velha política, não porque você sinceramente desconfia das boas intenções e das (nem tão boas) ações daqueles de quem Marina se cerca.

Marina vai recuperar a credibilidade perdida do Brasil sem “distribuir pedaços do Estado”: sem fazer acordos políticos e sem precisar se posicionar frente às grandes questões. O aborto, por exemplo. É preciso superar essa polarização de que ou você é a favor ou é contra a legalização do aborto. É preciso pairar acima dessa mesquinharia do sou contra ou sou a favor – façamos um plebiscito, pois. Um plebiscito sim é respeitoso: vai respeitar o direito da maioria. Milhares de mulheres continuarão morrendo ao fazer abortos clandestinos, mas pelo menos estas mortes estarão referendadas pela respeitosa e delicada vontade da população em geral. Também não é preciso discutir os possíveis efeitos da religiosidade de Marina em um eventual governo seu. Ela já disse que é a favor do Estado laico e isso deve bastar: afinal, todos precisamos respeitar as religiões, ainda que as religiões muitas vezes não respeitem os direitos de todos.

Marina propõe um olhar “de cima” sobre os conflitos e contradições do Brasil, bem de cima de um altíssimo muro – um olhar tão distante e tão elevado que, de lá de cima, não se percebe mais a diferença entre esquerda e direita, não se enxergam mais essas polaridades toscas que pautam aqueles que se sujam na lama eleitoral do Facebook: enxerga-se apenas o bem do Brasil.

O olhar de sobrevoo é sedutor, sem dúvida, mas eu sou mesmo é #TeamLama. Gosto de olhar para baixo, para o solo, à procura das raízes dos conflitos e contradições. Se isso faz de mim uma pessoa sem imaginação política, que seja. De fato, só acredito em sonhos que estejam firmemente enraizados nos anseios e nas demandas de quem, como disse lindamente o meu amigo Maycon Benedito, tá aí sendo viado todo dia, sendo mulher todo dia, sendo preto todo dia. e vivendo e brigando apesar de partidos e do Estado.

Para mim, o sonho que é sonhado por Marina não se parece com o sonho de quem está sendo mulher, negro, gay, lésbica, pobre, índio, sem terra, sem teto, todo dia, dia após dia, antes e depois da eleição. O sonho sonhado por Marina se parece, isso sim, com o sonho de quem viu as manifestações de junho pela televisão – narradas pelos jornalistas da Globo, repletas de pessoas clamando por saúde e educação, contra a corrupção, contra os políticos, contra os black blocs e unidos por um Brasil melhor.

É um sonho possível, claro. Decididamente não é o meu.

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