Nova política fast food sabor junho

OK, estou pronta para dar minha primeira opinião sobre o fenômeno Marina \o/ /o\ E tentarei fazê-lo de forma rápida e sucinta, que isso aqui não é polêmica fora-do-eixo. Vamos lá:

Como todos sabem, Nana Gouvêa já foi vista tirando fotos na sede da campanha de Aécio: a estratégia ~Marina-melancia~ (tucanos acusando-a de ser no fundo d’alma uma petista vermelha enrustida) parece que não colou nem tem nenhuma chance de colar. Estou descartando desde já como ineficaz, então, essa estratégia de dizer pro eleitor que ele está sendo enganado por uma melancia. Mas há outra estratégia análoga, proveniente do PT, que é a de dizer pro eleitor que ele está sendo enganado por uma pombinha disfarçada de tucano. Acho que alguns pontos dessa crítica petista fazem todo o sentido (por exemplo, apontar que a equipe econômica de Marina representa a retomada da gestão econômica FHC) e outros não (Marina pode fazer mais três erratas em seu programa LGBT que ainda não terá botado Feliciano para presidir a CDH; para mim, faz sentido o PT criticar a inconsistência do posicionamento de Marina e sua inabilidade em lidar com demandas contraditórias, mas não faz sentido criticá-la pelo “ataque aos direitos das minorias” em si, dado que rifar direitos de minorias para agradar evangélicos é exatamente o que o PT passou os últimos 4 anos fazendo). Não importa, porém, o que faz ou não sentido para mim: importa se a estratégia pombinha-por-fora-tucana-por-dentro vai ou não colar. E o meu palpite é que não vai. Pelo seguinte:

Enquanto o PT aferra-se a todo custo à velha polaridade PT-PSDB (o PSDB agora só mudou de nome), Marina reconfigura e revigora uma polaridade mais velha ainda, a da velha x nova política. E aqui vocês me desculpem mas vou citar um pensador que não é exatamente um queridinho dazinternet. Respirem fundo que eu vou citar o Zizek: “primeiro como tragédia (junho), depois como farsa (Marina)”. Marina transforma o potencial disruptivo e perturbador de junho em um lindo pacotinho pronto para o consumo: para mudar a política, para mais participação popular, para mais serviços públicos de qualidade, basta apertar dois numerinhos no dia da eleição e você pode ficar com a consciência tranquila de que fez a coisa certa. Zizek diz, que no capitalismo atual, a redenção do consumismo já está embutida no próprio ato de consumo: basta eu comprar o café orgânico cultivado na pequena fazendinha sustentável para estar contribuindo para um mundo melhor; não preciso fazer mais nada, pensar em mais nada; não preciso refletir sobre o poder das grandes corporações, sobre o controle da política partidária pelo grande capital, nada disso: minha contribuição para um mundo melhor, eu paguei com esses cinco reais que custam o café e vou pagar apertando quatro e zero na urna. Marina encapsula uma versão suavizada do espírito de junho, transformando-o em produto pronto para o consumo rápido. Por isso é que eu acho que não vai funcionar isso de acusá-la de ser uma falsa isso ou falsa aquilo. Porque o que ela conseguiu fazer é bem real: conseguiu transformar junho de 2013 em canecas, bonés e camisetas de banda. Basta você ver minha camiseta do Rock in Rio para saber que “eu fui”. Ao votar em Marina, o eleitor ganha a convicção de que “ele foi” aos protestos de junho; de que quer um país melhor e sem politicagens. Marina não é apenas a “nova política”, portanto. É a nova política fast food sabor junho.

E como foi que Marina conseguiu encapsular tão bem essa nova política? Sem nenhuma pretensão de esgotar o assunto, arrisco dizer que para isso contribui sua aura inatacável: a trajetória política de Marina é tão completamente acima de qualquer suspeita que o máximo que conseguiram falar dela até agora é que “ganhou dinheiro dando palestra” (depois da criminalização dos protestos, nada mais natural que tivéssemos a criminalização das palestras). E é aí, nesta aura superior, acima dessas mesquinharias petê-peessedebê e direita-esquerda, que entra sua religiosidade. Não se trata de uma pessoa apenas bastante religiosa, apenas que vai à igreja aos domingos, apenas devota de tal ou quanto santo. Trata-se de uma pastora. Isso faz com que ela tenha uma autoridade moral, uma superioridade intrínseca de filha de Deus que políticos tradicionais jamais terão. É nesse sentido que vejo o efeito de sua religiosidade na eleição: ela ajuda a compor essa aura de quem está além e acima da “velha e promíscua política de antes de junho”. Resta saber qual será (se houver) o efeito de sua religiosidade em um eventual governo.

Pronto, agora que venha o debatchy da noite para me contradizer completamente e para que eu possa citar FHC – “esqueçam o que escrevi” :-D

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