A eleição para o governo do estado de São Paulo

De 13 a 17 de junho de 2013, todas as imagens de bebês e gatinhos fofos que normalmente povoam o Facebook foram substituídas por imagens da Polícia Militar de São Paulo fechando a Avenida Paulista e atirando em pessoas desarmadas cujo único crime fora protestar contra o aumento da tarifa do ônibus. 

Em 17 de junho de 2013, centenas de milhares de paulistas foram às ruas contra essa violência policial – e, além disso, em apoio aos que reivindicavam a revogação do aumento da tarifa. 

Em 10 de junho de 2014, 41% dos paulistas aprovam o governo de Geraldo Alckmin – que, não custa lembrar, comanda a Polícia Militar, que de lá para cá não apenas não parou de atirar em manifestantes pacíficos como inclusive encarcerou dois deles

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Eu detesto perder a piada, mas desta vez vou ter que deixar passar a piada do Alckmin como Maria Antonieta e do paulista como o imbecil que não sabe votar. Para a piada ter graça, você tem que acreditar nela, e eu sinceramente não acredito que os paulistas que aprovam o governo Alckmin sejam masoquistas com grandes quantidades inatas de pulsão de morte. Prefiro uma explicação mais simples: se há uma grande aprovação do governo Alckmin, é porque alguma coisa este governo está fazendo certo, oras. Resta saber o quê.

Então, pensando nas coisas que não estão exatamente indo bem no estado de São Paulo, fiz uma ligeira retrospectiva mental de algumas das explicações e justificativas que o governo Alckmin vem fornecendo para estes problemas. Atenção para a minha tabelinha: 

Problema – explicação/justificativa tucana (comentário meu)

Falta d’água (cinco municípios em estado de emergência, racionamento há seis meses em Itu) – veja bem, é que não choveu (verdade, não choveu mesmo!)

70% das doações para a campanha de Alckmin até agora vieram de empresas acusadas de participar do cartel do metrô – veja bem, essas doações não são ilegais (verdade, não são mesmo!)

O cartel do metrô causou prejuízo estimado em R$800 milhões aos cofres públicos – veja bem, o estado foi lesado pela ação do cartel, se é que tal cartel existiu (verdade, foi mesmo!)

O metrô de São Paulo apresenta uma falha grave a cada 3 dias – veja bem, todos os sistemas de metrô do mundo estão sujeitos a falhas (verdade, estão mesmo!) 

Repare que a operação é sempre a mesma: apresenta-se como explicação ou justificativa para o problema um fato obviamente verdadeiro (alguém vai negar que não choveu?). É claro que, em todos os casos acima, basta pensar um minuto e um centímetro a mais do que sugerem as explicações e justificativas oficiais para concluir que elas não se sustentam: é evidente que não choveu, mas o governo do estado não só não fez os investimentos necessários nos sistemas de abastecimento de SP ao longo dos últimos 20 anos como também não seguiu o plano de contingência proposto pela Sabesp no início de 2014; as doações das empresas não são ilegais, mas certamente são ilegais (se comprovadas) as 11 licitações de contratos públicos vencidas por essas empresas durante governos de um partido para cuja reeleição estão contribuindo; obviamente os cofres públicos foram lesados pelo “suposto” cartel das empresas – e isso só foi possível porque servidores do governo – como o conselheiro tucano Robson Marinho, afastado do TCE esta semana – “supostamente” facilitaram o conluio; por vim, é verdade que todos os sistemas de metrô do mundo estão sujeitos a falhas, mas nem todos os sistemas de metrô do mundo foram reformados por empresas acusadas de vencer licitações de forma ilegal. 

Nenhum dos argumentos que apresentei no parágrafo anterior é especialmente complexo ou brilhante. Pelo contrário, é tudo de uma simplicidade tão rasteira que dói. Mesmo a imprensa paulista sendo descaradamente tucana (ou antipetista – o que, na prática, dá no mesmo), basta ler as matérias que saem nos grandes veículos da imprensa para chegar às conclusões que expus acima. Não é preciso – aliás, não é nem mesmo recomendável – ler blogs governistas. Os títulos das reportagens d’O Estado e da Folha, de fato, falam em “cartel da Siemens” e em “pagamento de propina” sem mencionar que tais propinas, se comprovadas, foram pagas a políticos do PSDB; mencionam um tal “Marinho” em vez de “conselheiro tucano”; alertam para a “crise hídrica” e o “rodízio” em vez de “falta d’água” e “racionamento”; e – cúmulo da ~neutralidade jornalística~ – anunciam “medidas equivalentes a racionamento” em vez de, simplesmente, “racionamento”. No entanto, basta ler essas matérias de títulos suaves até o final para chegar à conclusão de que há algo muito errado com o governo do estado de São Paulo.

Mas acontece que pouca gente se interessa em ler essas matérias até o final. A isso se chama despolitização. Despolitização não é apenas achar que política não importa ou não se interessar pela mesquinharia PT x PSDB. É não ver implicações políticas em determinados fatos da vida pública. É não estabelecer uma conexão entre problemas políticos (colapso do sistema de abastecimento, colapso do transporte público, colapso da USP etc.) e, justamente, os políticos que nos governam.

É isso que o governo Geraldo Alckmin faz extremamente bem: aproveita-se como nenhum outro dessa despolitização generalizada, com uma capacidade magnífica de dar explicações e justificativas absolutamente racionais e aceitáveis, desde que você não leia as letrinhas miúdas dos jornais (afinal, não está chovendo – você não está sentindo como o ar está seco?).

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Uns meses atrás, um pessoal no tuíter criticava Dilma porque um tuíte de seu perfil oficial continha um erro de ortografia. Considerei aquelas críticas uma tremenda babaquice – em linguagem tuítica, algo como “plmdds tanta coisa pra falar mal da Gilma e vcs tretando pq ela falou nóis vai nóis vorta vamo repensar as prioridade aê né glr” – e complementei minha crítica lembrando que o tuíter do governador Geraldo Alckmin era gramaticalmente impecável.

Qual não foi minha surpresa quando:

 Conversa governador inteira

Para além do fato de que a equipe responsável pelo tuíter do governador é ótima em gramática porém péssima em interpretação de texto, uma coisa ficou muito clara para mim: a correção gramatical do tuíter de Geraldo Alckmin é a mais completa tradução do governo do PSDB em São Paulo. A PM-SP mata mais do que todas as polícias dos EUA juntas – mas, no tuíter oficial do governador, todas as vírgulas e acentos e concordâncias verbais e nominais estão em seus devidos lugares. A PM-SP expulsou moradores do Pinheirinho de suas casas com uma violência chocante – mas, pouco depois, lá estava o governador no tuíter para explicar, em um português impecável, que a polícia simplesmente cumprira uma determinação judicial.

Em suma, a barbárie absoluta revestida por um fino verniz de cultura e civilização.

Um mundo despolitizado é solo fértil para um fruto que reluz por fora e está podre por dentro.

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Mas ocorre que, em primeiro lugar, essa despolitização de que estou falando, apesar de generalizada, não é fixa nem imutável. Há brechas, há possibilidades. Não nos esqueçamos: houve o 17 de junho de 2013.

Em segundo lugar – com a eleição, mesmo a pessoa mais despolitizada se vê obrigada a pensar um minuto e um centímetro além do que dizem as explicações e justificativas oficiais do governo. Até os mais despolitizados entrarão em contato com as críticas que Skaf e Padilha (e todos os demais candidatos, suponho) certamente farão.

O verniz está a ponto de rachar.

De minha parte, acho que é possível contribuir para a quebra do verniz. Cito duas possibilidades:

– Fazendo a crítica da imprensa. É a coisa mais fácil do mundo. Basta LER o que diz a própria imprensa. Não é preciso fazer nenhuma pesquisa adicional. Basta ler as reportagens d’O Estado até o final para aprender que o “Marinho” do título não é qualquer zé mané, é um cara que foi chefe da Casa Civil do Covas, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, indicado por Alckmin e acusado (com fortíssimos indícios) de ter recebido propina da Alstom. Tudo isso está lá nas matérias sobre o cartel do metrô. Compartilhar essas informações no Facebook talvez não faça diferença alguma? É, talvez não. Mas certamente não atrapalha.

– Mostrando que o antipetismo não precisa se reduzir ao tucanismo. É perfeitamente possível ter ojeriza ao PT e votar em outro partido que não o PSDB. Existem outras opções certamente não piores do que o PSDB – se nada mais puder ser dito desses outros candidatos e partidos, que se diga que eles não destruíram o sistema Cantareira nem contribuíram para o sucateamento do metrô de São Paulo. Acho esse raciocínio – a não-redução do antipetismo ao tucanismo e vice-versa – bastante saudável, inclusive, em nível nacional, só que ao contrário: você odeia o PSDB? Ótimo: você não é obrigado a votar no PT por causa disso. 

Mas voltando a São Paulo: o mundo não se restringe ao PSDB e ao Alckmin. O mundo não pode se restringir ao PSDB e ao Alckmin. A vida pode ser melhor do que viver em um estado muito engraçado, que não tinha USP, não tinha água.

O verniz vai quebrar. 

#VaiTerSegundoTurnoEmSãoPaulo

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