Cuidando da TL

A vida é um constante cuidar. Cuidamos da casa e do corpo, dos filhos e cônjuges, de cachorros e gatos; cuidamos da saúde e cuidamos para não ficar loucos.

Por que não haveríamos de cuidar da própria TL?
 
Não estou falando das pessoas com quem efetivamente nos relacionamos na internet, mas daquelas que vemos de longe na TL e, não obstante, participam do nosso cotidiano, sobretudo se você é uma pessoa que passa o dia diante do computador (se você está me lendo, provavelmente é o seu caso).
 

Já são pouquíssimas as coisas que escolhemos nesta vida. Não escolhemos o país, a família ou a classe social em que nascemos. Não escolhemos orientação sexual nem aqueles por quem nos apaixonamos – somos escolhidos por eles. Não escolhemos altura nem cor dos olhos. Não escolhemos talento para as artes nem para os esportes. Não escolhemos sogro e não escolhemos chefe.

Mas podemos escolher as pessoas que lemos nas redes sociais.
 
O coleguinha é inteligente, mas acha que o político X deveria ter estado no avião?
 
A moça compartliha umas fotos lindas de pôr-do-sol, mas acha que gay não pode dar bandeira?
 
A prima distante é querida, mas acha que bolsa presidiário é uma coisa que existe?
 
Repita com a tia: Você. Não. É. Obrigado.
 
Estou falando de um problema que acomete diariamente a todos os que usam bastante as redes sociais, mas que vem à tona de forma especialmente inescapável quando ocorre alguma morte trágica e, com ela, o infeliz advento de comentários que acabam com qualquer possibilidade de fé na espécie humana. Como proceder: abrir-se para toda e qualquer pessoa que lhe adicionar (incluindo aí pessoas sabidamente malucas, como os combatentes da ditadura comunista que assola o Brasil) ou selecionar a TL cada vez mais (de modo que, no limite e no fim das contas, você exclua todos os seus contatos e só reste você mesmo)?
 
Entre esses dois caminhos, existe um que não é o do meio-termo (pois o meio-termo, amigos, não é solução para nada: uma comida que está no meio do caminho entre o doce e o salgado é apenas uma comida horrivelmente insossa) e não é nada fácil, mas me parece o único possível – o caminho da Leila Diniz:
 
“Na minha TL pode entrar todo mundo, mas não entra qualquer um.”
 
Eu não sei quais são os seus limites, seus critérios, suas (im)possibilidades. Eu não sei, em suma, quem é o seu “qualquer um”. Mas você com certeza sabe. Não estou falando simplesmente de coisas com as quais não concordamos, e sim daquelas que têm o potencial de acabar com nosso dia quando as lemos. Vai ver, por exemplo, você tolera numa boa o cara bonachão que reclama da tal ditadura comunista, mas não suporta que façam contagem regressiva para a morte do Sarney.
 
Meu ponto é: se você viu algo que lhe desagradou profundamente, faça algo a respeito. Não deixe passar batido nem busque explicações profundas para o seu incômodo; apenas tome uma atitude, pare de sofrer e evite sofrimentos futuros, porque as pessoas são fundamentalmente previsíveis – quem desejou a morte do Sarney no acidente de ontem voltará a desejá-la apenas surja a notícia da internação hospitalar de alguma celebridade.
 
Exclua, oculte, organize listas: todas as redes sociais têm diversos mecanismos de apagamento de barbaridades (sem eles, já teriam entrado em combustão espontânea). Não passe nervoso com isso. Já passamos nervoso o suficiente com o executivo e o legislativo, com a Tim e com a Net.
 
Não é preciso, creia, passar nervoso com “amigos” que só existem em nossas vidas porque, um dia, clicamos em um botãozinho chamado “aceitar solicitação de amizade”.
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