A arte de escolher o inimigo

Acho normal e compreensível uma pessoa feminista e de esquerda não gostar do Alex Castro (se você não o conhece, ei-lo). Acho mais normal e compreensível ainda uma pessoa feminista e de esquerda *gostar* do Alex, dado que ele é um simpatizante da causa – mas as preferências do coração têm razões que a própria razão e a própria esquerda desconhecem. Então, não tenho nenhuma dificuldade em entender ou empatizar com quem não gosta do Alex. Normal, ué. Até aí, eu não gosto de Clarice Lispector – vou julgar quem não gosta do Alex Castro? Acontece.

Para além das preferências do coração, entendo também quem acha que um homem não tem nada a contribuir com o feminismo. Não é esta minha posição: sendo o machismo um problema estrutural da sociedade, parece-me evidente que a sociedade como um todo deve enfrentá-lo, e a sociedade como um todo, goste-se disso ou não, inclui também (pausa para revelação bombástica) os homens. Mas, enfim, o debate sobre o papel dos homens no feminismo é obviamente muito complexo e não tenho nenhuma dificuldade em entender ou empatizar com quem tem uma opinião diferente da minha. Eu mesma não tenho certeza nenhuma de estar certa sobre isso – francamente, meu conhecimento sobre o feminismo só não é menor que meu conhecimento sobre o javanês.

Entendo, portanto, quem, por um motivo ou por outro, acha que os textos do Alex não são lá essas coisas – ainda que, pessoalmente, eu considere que eles oscilam entre o “apenas bom” e o “escandalosamente brilhante”.

Mas existe uma distância considerável entre achar que o Alex (ou antes, seus textos) não são nada demais nem grande coisa – ou mesmo inúteis e equivocados – e elegê-lo como O INIMIGO a ser combatido.

Essa distância, inacreditavelmente, foi percorrida por coletivos feministas e de esquerda.

E, quando essa distância é percorrida – isto é, quando você elege um *simpatizante do feminismo* como um inimigo contra quem vale a pena lutar – bem, aí eu sinto muito, mas meu entendimento e minha empatia, diferentemente da zuêra, TÊM LIMITES.

Meus inimigos neste mundo são a crueldade e a ignorância, o racismo e a falta de empatia, o machismo e o desejo de transformar índios em pobres, e por aí vai. Como bem sabe qualquer pessoa que já ligou a TV, entrou na internet ou abriu um jornal, estes “inimigos” têm espaço cativo em veículos como a Globo, a Record, o SBT, a Editora Abril – e em partidos políticos como o PSDB e, infelizmente com cada vez mais frequência, o PT. É essa, para mim, a luta que vale a pena ser lutada, no miudinho, todos os dias. A luta contra o jornal que anuncia “medidas equivalentes a racionamento”. A luta contra a propaganda do metrô de que trem lotado é bom para pegar mulher. Esses são discursos que quero escrachar, denunciar, ridicularizar, sempre que eu puder e conseguir.

Já a ideia de que “devemos abrir mãos de nossos privilégios” (Castro, Alex) – essa é uma ideia que quero ver sendo debatida, disseminada, até mesmo contestada. Mas nunca, jamais, banida – ainda que ela tenha sido enunciada por um homem-branco-hétero-cis.

***

A Mary W. comentou o lance do Alex com as feministas muito melhor do que eu (óbvio). Para mim, a parte mais tristemente reveladora da resposta dela é o P.S., em que o Alex explica como foi que o escritor “ó-tão-poderoso” (para usar uma expressão tipicamente alex-castrista) conseguiu seu espaço na revista ó-tão-poderosa:

Ele foi lá e se ofereceu para escrever de graça.

No que eu me pergunto: o que as pessoas ó-tão-revoltadas com o Alex Castro estão fazendo para que seus textos e ideias sejam lidos e divulgados? Elas estão entrando em contato com diversos veículos, oferecendo conteúdo, comprometendo-se a escrever regularmente e de graça – ou estão olhando fixamente para a caixa de entrada do gmail esperando aquele (1) em negrito com um convite para escrever uma coluna paga na revista de sua preferência?

(Disclaimer: sim, eu também sonho com o dia em que a Piauí vai me mandar esse maravilhoso e-mail, beijo pra todos vocês que tão na mesma.)

A vida real, ela é bem ridícula. Ela é feita de escritores que escrevem de graça e de não-escritores que não entendem que é possível escrever de graça. Para escrever de graça, não precisa nem ligar para a Revista Fórum. Basta, por exemplo, criar um blog.
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