Antônio

Na estação Luz, bem ali por onde passam as pessoas que vão da linha azul para a amarela e da CPTM para a linha azul, existe um homem.

Ele sorri e olha para o alto. Não vê nenhum de nós que transitamos pela estação. Seus olhos brilham de orgulho e esperança. 
 
(Para ser sincera, acho dificílimo definir objetivamente, plasticamente, um brilho no olhar. O que faz um olho brilhar? Não é uma pergunta retórica de supermercado querendo saber o que nos faz feliz. De verdade: o que faz com que um olho brilhe a ponto de que quem o olhe diga, “este olho reluz”? Não sei dizer, mas sei que Antônio – esqueci de dizer que o homem se chama Antônio – tem um imenso e incontestável brilho no olhar.)
 
Antônio sorri com a boca um pouco aberta e tem o olhar fixo em algum ponto não alcançado por nós, que vamos da linha azul para a amarela ou da CPTM para a linha azul.
 
Tudo bem: se Antônio não olha para nós, nós também quase não olhamos para Antônio – no que, aliás, fazemos muito bem. Antônio é apenas uma peça publicitária, apenas uma imagem trabalhada pelo mocinho do fotoxope. Teria o mocinho virado a noite ajustando o brilho daquele olhar? Ou teria dado um control cê control vê qualquer e voltado mais cedo para casa numa sexta-feira à tarde?
 
Seja como for, Antônio segue firme em seu orgulho e indiferente a nós que não paramos de passar. Seu orgulho é tipicamente paulista – a propaganda é do metrô, do governo ou da Sabesp, já não sei e não importa. 
 
É preciso reconhecer, porém, que o mocinho do fotoxope acertou: Antônio tem mesmo todo o jeito de locomotiva do Brasil.
 
Não por acaso, ao lado de Antônio está escrito:
 
GENTE QUE MOVE SÃO PAULO
 
Mas a frase poderia ser mais precisa:
 
GENTE QUE LOCOMOVE SÃO PAULO
 
Ou:
 
GENTE QUE, Ô LOCO, MOVE SÃO PAULO
 
Ou ainda:
 
GENTE QUE, LOUCA, MOVE SÃO PAULO
 
Mas essas são gracinhas que faço agora.
 
Quando passo por Antônio, ouço uma única frase:
 
(Ouço, de fato. Não se trata de alucinação visual e sim auditiva: vejo uma frase e escuto outra quando a leio para mim mesma:)
 
GENTE QUE MORRE EM SÃO PAULO
 
Sinto um calafrio e fujo de Antônio como se ele fosse não o produto finamente acabado do mocinho do fotoxope, mas uma obra de arte com propriedades místicas.
 
Quando passo por Antônio, tenho certeza de que seu olhar altivo transfigura-se em olhar de desprezo e volta-se para mim – afinal, não (loco)movo São Paulo.
 
Desço as escadas rolantes pelo lado esquerdo, pedindo licença suavemente a cada um que teima em não deixar a esquerda livre.
 
Quando chego na plataforma – ufa – já esqueci Antônio.
 
Volto a ser gente que (faz o que mesmo?) em São Paulo.
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