Um Conto de Duas Sopas

Fiquei meio doentinha esses dias e, embora já esteja plenamente recuperada hoje, minha avó, mais amorosa impossível, fez questão de vir me trazer uma sopa – ao que lhe agradeci intensamente.

Ocorre que eu mesma tinha feito uma sopa ontem.
 
Foi inevitável comparar a minha com a dela.
 
O que eu mais temia aconteceu:
 
Minha sopa deu um pau na sopa da minha avó. Mas um pau.
 
Infinitamente melhor.
 
***
 
Esta parece ser apenas uma história insuportável de sucesso culinário e descaso com os mais velhos, mas na raelidade é uma história insuportável de luto da infância.
 
Existe uma única desvantagem em saber cozinhar, e a desvantagem é esta: perceber que muitas das comidas mágicas da sua infância são perfeitamente replicáveis por você mesma na vida adulta – frequentemente, com resultados muito melhores.
 
Pois, na infância, mágico não era apenas o sabor: era a própria aparição miraculosa da comida no prato. Um minuto você está brincando de cabaninha; no minuto seguinte, pimba – um prato de sopa! Vinda de onde, feita como? Você não sabia; você até podia suspeitar que o preparo da sopa transcorrera na cozinha, mas era impossível saber ao certo: o único fato incontestável era que a sopa, não mais que de repente, surgira à sua frente.
 
Referimo-nos à descoberta da não-existência de Papai Noel e do Coelhinho da Páscoa como dois marcos importantes da superação da infância (alguns incluiriam Deus nesta lista).
 
Parece-me que um marco muito mais importante é o dia em que você descobre como são feitas as sopas.
 
Afinal, o que é dar adeus a renas voadoras ou a um coelho falante perto de dar adeus a um prato de sopa que magicamente se materializa diante de você?
 
Mais importante ainda é o dia em que você descobre que a sua sopa de agorinha mesmo é melhor do que a melhor sopa da sua infância.
 
De repente, não existe mais aquele “ingrediente secreto” que sua avó usava. Existe uma hora de caldo de legumes em fogo baixo. Não existe “tempero misterioso”. Existe a paciência de lavar e picar três alhos-porós grandes em rodelas fininhas. Existe, enfim, trabalho e dedicação. 
 
Trabalho e dedicação estes que – você se dá conta – eram os tais ingredientes secretos e temperos misteriosos da sua avó.
 
E de repente você está fazendo sopa como ela.
 
De repente você está fazendo sopa melhor que ela.
 
(Fazer uma sopa melhor que a da sua avó, a grande cozinheira da família, é um pouco como matar os pais.)
 
Daqui a pouco ela está fazendo oitenta anos (e ainda está te fazendo sopa).
 
Você sabe que é impossível retribuir em igual medida tudo o que ela lhe fez. Que a única retribuição possível é passar adiante o que você ganhou em trabalho e dedicação, em amor e sopa.
 
Minha avó me criou para ser uma mulher que faz sopas melhores do que ela.
 
Não consigo pensar em um amor maior.
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12 comentários sobre “Um Conto de Duas Sopas

  1. Eu estou aqui na dúvida entre escrever um comentário imenso ou aproveitar o mote e escrever no blog. Amei tanto seu post e não pelas razões que usualmente amo a) ser tão bem escrito que a gente precisa ler a segunda vez pra aproveitar não só a forma mas também o conteúdo e b) a sensação de: “olha aí, também eu, ai que legal ter isso em comum com a Camila porque se ela é tão sensacional e eu faço/penso/digo isso que nem ela sou um pouco sensacional também”. Porque eu não cozinho melhor que minha mãe ou avós, eu cozinho diferente (e isso tem uma história e estórias). E eu não era criança com uma comida que, cataploft, tava no prato (até invejei, em certa medida). A gente era convocada pra ocupar a cozinha. Não como brincadeira (embora fosse divertido), do arrumar a mesa ao rasgar as folhas da salada (só não tínhamos muito acesso a facas #frustrações). E ainda tem o lance da lei do cão e tal. Enfim. Só pra repetir: é tão bom te ler. É tão bonito. É um pouco como ficar revendo meus preferidos do Nicholas Ray: tem tanta complexidade que a gente vai alternando afetos.

    • Quando você disse que cozinha diferente, pensei na hora na combinação carne e canela, tão estranha para nós, brasileiros – e, suponho, para os seus pais também. Fui privilegiada por ter a comida puft-cataploft no prato, sei bem – mas hoje em dia acho que um privilégio tão grande quanto é ser convocada a ocupar a cozinha, como você foi. Um beijo, querida.

    • Rodrigo, deixei um comentário no seu blog mas não sei se ele sumiu, se caiu na malha fina da moderação ou o quê, então reproduzo-o aqui: “Rodrigo! Adorei a sua leitura. Colocar-se no lugar dos pais é, sim, sempre, uma elaboração do luto (da posição única e exclusiva de filha / de quem recebe cuidados). Um beijo enorme!”

  2. Camila adorei sua crônica. Até mesmo porque cresci entre panelas e fogão. Toda minha infância tem ligação direta com comida, bate papo, risadas na cozinha que era o QG da mulherada. Sua crônica me fez lembrar de minha vó Maria que fazia coisas deliciosas. Boas lembranças tenho. Se desejar conhecer, escrevi duas postagens sobre isso:
    http://sacudindoasideias.wordpress.com/2013/05/05/cozinha-laboratorio-de-lembrancas-e-magia/
    http://remisson.com.br/2013/06/03/usina-de-transformacao/

    Sem dúvida fazer uma comida é um ato de amor.
    Abraço,

  3. Incrível como nossos pais e avós, idolos máximos e soberanos da infância, não são tão bons assim. Descobrir isso não é fácil, mas ver como eles investiram na gente a ponto de nos tornarmos melhores em algumas coisas é muito satisfátorio. Só nos resta gratidão!

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