A Liga do Barril

A história, como eu a lembro, é assim: P. e seus amigos, uns 15 anos de idade, picharam alguns muros, em 1969 ou 1970. Não sei se a pichação como a entendemos hoje já existia naquela época, e tampouco sei se é correto chamar inscrições a giz de pichação. O que me disseram é que os meninos escreveram “Liga do Barril” em muros do bairro, a giz. Era o nome da turma deles – e, aos 15 anos, você tem certeza de que a Liga do Barril é para sempre.

Tanto espalharam seu nome pelo bairro, que um policial viu.

Veio perguntar para os meninos que Liga do Barril era aquela.

Se eles se interessavam por política.

Se aquilo era coisa de subversivo.

A história não tem graça nenhuma, adianto desde já: o policial rapidamente se convenceu de que Barril não era um código secreto para Foice ou Martelo (“ô seu guarda, a gente só quer saber de estudar, a gente não sabe nada desse negócio de política não!”), mandou os meninos apagarem as marcas a giz, e pronto.

Graças a Deus, me contaram, não aconteceu nada demais.

Graças a Deus, ninguém ali se interessava por política.

Graças a Deus, ninguém ali era subversivo.

Tudo acabou bem. 

***

Conheço pessoas que sofreram marcas profundas da ditadura.

A minha marca foi esta outra: de giz, no muro. Apagada às pressas.

Estas foram algumas lições que a ditadura me ensinou:

Que, se você se interessa por política, alguma coisa você tem para esconder. Alguma você fez. 

Que, se você se interessa por política, você está a um passo de ser subversivo. Você é, por princípio, suspeito.

Que quem não deve, não teme – e quem não deve certamente não se interessa por política.

Quem não deve é gente que só cuida de estudar e trabalhar, e deixa o interesse pela política para os subversivos que não têm mais o que fazer.

Que um policial pode lhe perguntar, a qualquer momento, se você se interessa por política.

(Aliás, que um policial pode lhe perguntar, a qualquer momento, qualquer coisa.)

E, quando ele lhe perguntar o que quer que seja, é bom saber a resposta certa.

***

Encontrar as marcas da ditadura no Brasil é um jogo dos sete mil erros. 

Mas este não é um post sobre o Brasil – é um post sobre mim.

Em mim, a grande marca que a ditadura deixou foi esta: o aprendizado de que, no mundo, existem as pessoas que estudam, trabalham e não querem saber de política. Estas estão a salvo. Para elas, tudo acabará bem.

E existem as pessoas que querem saber de política – e não querem saber de estudar ou trabalhar. Estas são as que foram se meter onde não deviam. Se apenas tivessem se limitado a trabalhar e estudar, como fazem os bons cidadãos! Mas não: foram inventar de fazer graça.  Depois se metem em encrenca e ainda reclamam. 

*** 

O post é sobre mim, mas minha história não tem nada de especial. Esta dicotomia trabalho/estudo (gente séria e competente, bons cidadãos) x ativismo político (gente preguiçosa e/ou incompetente, que em vez de assistir aula prefere participar de reunião do C.A.; em vez de trabalhar duro, prefere ser sindicalista etc.), para citar Noel, é coisa nossa, muito nossa. Mesmo minha TL, que é decidamente esquerdista, criticou Sininho com base nesta dicotomia. Afinal, “ser cineasta” não é um trabalho de verdade, para o imaginário popular – não é como se ela fosse médica ou engenheira. Então, ela foi encaixada precisamente nesta segunda categoria: de pessoa que se interessa por política e não quer saber de estudar ou trabalhar.

E todo mundo sabe que gente assim sempre acaba se metendo em confusão.

***

Cada vez que questionamos o trabalho de Sininho, encarnamos o guarda que perguntou à Liga do Barril, talvez não com estas palavras, mas certamente com este espírito: 

Afinal, vocês são estudantes ou uns subversivos que só querem saber de política?

O Estado policial, para citar Emicida, é nóis.

*** 

O caminho em direção a um país menos escroto é árduo e incerto. Suspeito, porém, que ele inclui um importante passo: o reconhecimento das marcas que a ditadura deixou impressas em nós.

Mesmo que sejam de giz – mesmo que tenham tentado apagá-las.

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