Cabô o mito da cordialidade?

Olhei meio rápido para esta pesquisa e não entendi muito bem a comoção que ela está gerando. Achei que fosse apenas mais uma a confirmar aquilo que eu e você já sabíamos: que a violência lava-que-cobre-tudo no Brasil é sempre minimizada, atenuada, justificada, “mas pera lá”, “não é bem assim”, “você está exagerando”, “deixa disso”, “anistia ampla, geral e irrestrita para os assassinos da ditadura”.

Do tipo: o racismo até existe no Brasil, claro – mas não aí onde você está vendo (e sobretudo não em mim, jamais!), isso que você está dizendo é um problema socio-econômico e não racial.

Ou: alguns militares realmente torturaram durante a ditadura – mas no geral, fala sério, nossa ditadura foi uma ditabranda, poxa!

Ou: a polícia às vezes exagera na violência, é óbvio – mas esses vândalos infiltrados também fazem por merecer, né?

Analogamente, achei que, nesta pesquisa, as pessoas fossem dizer que a violência contra a mulher é errada (claro que sim!) – mas essas piriguetes também usam umas roupas enfiadas no útero que até parece que elas estão pedindo, não?

Não: aparentemente, as pessoas não acham nem mesmo que a violência contra a mulher é errada.

As pessoas – 2/3 delas – acham que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”.

Deixemos as roupas de lado por um instante para ter a real dimensão do horror:

Mulheres. Merecem. Ser. Atacadas.

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O mito da cordialidade sempre fez todo o sentido para mim; sempre informou minhas tentativas de entender quem somos. Esse “não somos racistas” / “não somos violentos” / “somos uns fofos” que recobre a abissal violência da nossa sociedade sempre foi uma característica definidora, para mim, do que é “ser brasileira”.

Mas, ultimamente… Estou com a impressão de que o tal mito da cordialidade não está se aplicando mais, viu.

Parece que o mito diz respeito a outra era. Parece que, cada vez mais, estão caindo as máscaras. Não há uma tentativa (ainda que mal-sucedida) de disfarçar ou minimizar as violências. Não há mais pudor; não há mais um ímpeto de dizer que o horror, na verdade, era outra coisa, nem-tão-horrível-assim.

É isso: parece que não há mais pudor. Ao contrário, há o *orgulho* do horror. A afirmação da violência em todo seu esplendor.

Há os adolescentes amarrados em postes. O leilão para comprar armas para atirar em índios. As mulheres que, descubro agora, devem ser atacadas.

Não estou sabendo direito o que pensar. Só sei que estou com vontade de usar shortinho e minissaia pelo resto do ano agora. Como ato político mesmo.

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10 comentários sobre “Cabô o mito da cordialidade?

  1. O espantoso é que 2/3 das entrevistadas são mulheres. Ou seja, mulheres relativizando a violência contra outras mulheres.

    • o tipo de comentário que parte de quem acha que as mulheres, no fundo, são as culpadas pela violência que sofrem.

      • verdade…sempre que vejo esse tipo de comentário acho muito, MUITO estranho…quer dizer que se fosse só homem pensando assim tava tudo bem?

  2. A gente não sabe se fica horrorizada, indignada ou se simplesmente joga a toalha. Confesso q, como vc, fiquei com uma vontade louca de andar de roupa curta como forma de protesto. Ou quem sabe engrossar o número na marcha das vadias e posar de seios de fora. Ainda não sei. O q sei é q algo precisa ser feito. Pra ontem.

  3. Que as mulheres sempre tenham sido responsabilizadas pela violência que sofrem realmente não é novidade. O que espanta, e concordo muito com a reflexão do texto, é que agora ninguém mais tenta relativizar nada. É a barbárie nua e crua mesmo. Não é melhor nem pior para a violência em si, acho. Mas é mais chocante porque quebra o paradigma com que estávamos acostumados, o tal mito da cordialidade. Obrigada pelo texto, Camila. Já tinha pensado sobre isso, mas não estava conseguindo organizar as ideias.

  4. Alguns subversivos mataram gente, queriam implantar comunismo aqui… mas eram poucos, no geral os subversivos nao eram de violência.

    néééé?

  5. Acho que cordialidade é isso mesmo, não? Tratar emocionalmente de algo que deveria ser tratado por uma racionalidade institucionalizada. Ao invés de organizar uma sociedade que resolva os problemas enfrentados pelas pessoas, (des)organizamos uma sociedade que justifica a violência. Não é tão mito assim, não.

  6. Também não compreendi a surpresa da maioria quanto a pesquisa do IPEA. E a maioria que conheço e se surpreendeu são exatamente aqueles que consideram amulher de rocupa curta alguem que está pedindo para ser estrupada.
    Então, o choque, na realidade, em deles mesmos. Se as feministas dizem, somos erradas. Mas se uma pesquisa toca nessa ferida, a maioria abre os olhos.
    Tem gente que deve ter vergonha de ser quem é.
    Abraços.

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