Não desenhe

Não, não quero que você desenhe, obrigada. Por favor, não perca seu tempo. Se não entendi o que você comunicou através de palavras, não é um infográfico da Folha que vai me ajudar a entender. Nunca consegui (captar? sacar? apreender?) infográfico sequer. Aliás, taí: qual o verbo apropriado para a interação com infográficos? Lemos livros, assistimos a filmes, ouvimos música – e com infográficos, é para fazer o quê? Talvez a Folha espere que, só de olhar para eles, eu adquira subitamente uma profunda compreensão do mundo e da vida – assim como você acha que eu magicamente hei de entender tudo se você apenas desenhar. Mas diagramas, setinhas, quadradinhos e circulinhos não são mais poderosos, creia, que as palavrinhas que pululam das páginas dos dicionários. Ao menos não para mim. Se não entendi, em vez de desenhar, por favor explique tudo mais uma vez – desta nova vez, preferencialmente, usando ainda mais palavrinhas, concatenadas em ainda mais frasezinhas e ainda mais paragrafinhos. Quanto mais palavrinha, melhor. Palavrinhas sucedem-se uma-após-a-outra nas frases e isso me é sumamente reconfortante – pois sua explicação pode ser sobre a reprodução dos sacis ou sobre o quadrado de gauss, não importa; o que importa é que sempre saberei que o começo da sua explicação está láááá no alto da página à esquerda em letra maiúscula, e o fim está ali na última palavra que você colocou antes do ponto final do texto (ou de interrogação, se você for metido a espertinho). E, olha que demais – se, no meio da sua explicação, eu ficar com uma dúvida sobre a reprodução dos sacis, sabe o que vou fazer? Vou voltar para a palavra láááá no alto da página à esquerda e ler tudo de novo. E de novo e de novo e de novo até eu entender, ou perceber que o quadrado de gauss realmente não é para mim. Mas um desenho, não faço ideia – não sei onde começa nem onde termina. Eu sei muito bem quando terminei de ler um texto (e não estou falando de filosofices “os textos nunca terminam de serem lidos”, “1968 foi o ano que nunca acabou”, não, filho, estou dizendo que quando chegou aquele último fatídico ponto final ou, se você for espertinho, de interrogação, eu vou poder dizer, num sentido muito imbecil, que efetivamente li aquela bagaça). Mas eu nunca sei quando terminei de olhar para um desenho. Ou um infográfico. Não sei onde é para olhar primeiro, não sei o que é importante e o que é meramente acidental. Não sei se você pintou essa setinha de rosa e aquela de azul porque assim ficou mais bonito ou se com isso você está querendo denunciar, através das cores, a caretice dos papéis de gênero na sociedade. Eu não sei, entende? E seria tão fácil saber. Bastaria você enunciar: “estou criticando a caretice dos papéis de gênero na sociedade”, pronto: foram necessárias dez palavrinhas, apenas dez, dentre as centenas de milhares que tio Aurélio e tio Antônio compilaram com tanto carinho para nós. Dez palavrinhas e ufa, você não precisa desenhar nada. Basta dizer.

Entendeu ou quer que eu reescreva?
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3 comentários sobre “Não desenhe

  1. não sei se estou sendo ingênua, mas sempre entendi que a pergunta “quer q eu desenhe” é uma forma engraçadinha (mas não muito) de dizer q a pessoa é um analfabeto completo ou funcional.
    eu tb entendo melhor palavrinhas do que desenhos ou vídeos. e to até sem saber se eu consegui entender o q vc escreveu tão lindamente. vou continuar lendo.

  2. Ha! Te imaginei numa exposição da tal da arte conceitual, onde o argumento da obra (em textos enormes ao lado dela) é sempre muito, mas muito melhor que a obra em si.

  3. O infográfico, se usado como substituto único de uma matéria completa (densa?), isso sim seria um erro – há quem use os 140 caracteres de um tweet pra isso, não duvido mesmo que tais Folhas estejam fazendo isso. Mas se usado como com um colaborador do conteúdo, qual o problema de utilizar uma ferramenta que facilitaria a compreensão do leitor que deseja atingir?

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