Sobre o iRolezinho ou Leave the mequefegues alone

Sim, não vou negar: eu também senti vergonha alheia ao ver gente tão emocionada por conta de um telefone [mentalize uma galera empolgadaça entrando aos pulos e berros na loja da Apple no Brasil]. Eu também achei patético, coxinha, tudo isso aí que vocês acham.

E é justamente por isso que tenho de fazer uma pergunta meio chata, para mim mesma e para vocês que, como eu, se definem como ~de esquerda~:

Por que é que o pessoal dos rolezinhos – gente que pira num boné, nuns óculos escuros, numa camiseta de marca – são uns lindos, uns fofos, uns queridos – e os macfags que invadem a loja da Apple são um bando de babacas?

Vamos nos decidir. Todos eles atribuem um valor extraordinário a determinados objetos. Se esse for o nosso critério para julgar as pessoas, teremos de concluir que ou bem são todos uns lindos ou bem são todos uns babacas.

Ou, talvez, a gente possa concluir que nenhum deles se enquadra em um julgamento tão rápido, rasteiro e maniqueísta.

Tenho impressão de que faríamos bem se parássemos de julgar com tanto desprezo a afeição que outras pessoas nutrem por coisas que não são as mesmas de que a gente gosta. O mundo é este e nos definimos pelo consumo sim – não é porque você prefere livros da Cosac Naify ou maçãs orgânicas que você é menos consumista ou ~ligado nas coisas materiais~ do que o mano que curte o boné da Adidas ou o coxinha que baba no iPhone. Não estou dizendo que somos apenas o que consumimos, mas sim que somos também o que consumimos. A expressão “Sociedade de Consumo” não foi cunhada por acaso.

A diferença entre o cara do rolezinho e o cara do iRolezinho não está nem nos objetos que eles apreciam (óbvio) nem (o que é muito menos óbvio) em alguma diferença de caráter intrínseca ao fato de um ser pobre e o outro ser rico.

A diferença é que no rolezinho teve choro, teve ranger de dentes e sobretudo teve polícia.

No iRolezinho, teve apenas O Globo registrando a empolgação daquela gente bronzeada que foi mostrar o valor que o ser humano é capaz de dar a um  telefone.

Ouso dizer que essa diferença de tratamento é que deveria ser o foco do nosso espanto e da nossa revolta – e não o fato de que algumas pessoas se empolgam demais com determinados objetos.

Senão – se considerarmos os macfags uns rematados babacas – seremos obrigados a considerar os rolezistas pelo menos um pouquinho babacas também (afinal, eles também gostam de produtos de grife).

Então, em vez de:

– considerar todo mundo babaca porque todo mundo está a fim de comprar os produtos da grife X ou Y (caindo naquela velha cilada egocêntrica de achar que *eu* sou melhor que todos eles, afinal meu negócio é rolezinho na biblioteca);

– dividir o mundo em macfagas babacas e rolezistas fofos (caindo naquele velho preconceito da esquerda uspiana – e eu posso dizer porque, querendo ou não, eu faço parte desta esquerda uspiana – de achar que todo pobre, por ser pobre, é um amor de pessoa);

estou me forçando a lembrar que todo mundo está apenas tentando sobreviver como pode na tal Sociedade de Consumo – com a diferença de que, nesta luta pela sobrevivência, uns são recebidos pelos flashes dos fotógrafos enquanto outros são recebidos pelos cassetetes da polícia.

É essa diferença de tratamento que importa, afinal.

Não sei se o mundo seria um lugar melhor se subitamente os coxinhas parassem de dar importância aos produtos Apple – mas tenho certeza de que o mundo seria um lugar infinitamente melhor se os pobres pudessem simplesmente consumir em paz.

(…and let the unfollows begin…)
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26 comentários sobre “Sobre o iRolezinho ou Leave the mequefegues alone

  1. Fiquei encantado com a singeleza do seu raciocínio, Camila.

    De minha parte, acho bem mais simpáticos os rolezeiros porque o consumo, para as classes baixas, é como se fosse um passaporte para cidadania. Eles consomem para não serem tão discriminados (embora a cor da pele não possa ser disfarçada, e negros bem vestidos de carro são às vezes confundidos com ladrões).

    Já para uma parte da elite (incluindo os macfags) o consumo é mera ostentação.

    Mas adorei o seu contraponto.

  2. Querida, fiquei aqui fazendo uma restrospectiva mental: acho que nunca falei que os rolezeiros eram lindos e fofos. Eles apenas são. E esse é o problema: a sociedade que aplaude os i-rolezeiros (e, sim, a sociedade os aplaude – não eu ou você, mas a sociedade sim) rejeita os rolezeiros. E essa é a porra. Os caras tem direito de ser e de circular em espaços ditos públicos. Ponto.
    Indo um pouquinho mais longe, tem sim uma coisa bacana na ostentação do povo da perifa. Como disse o Marcos acima, é um passaporte (insuficiente, mas passaporte) pra cidadania. ou seria, caso eles não fossem reprimidos.
    Os i-rolezeiros? Sinto muito. Apenas babacas. Nenhuma comparação possível. Dessa vez, discordamos mesmo. (E comentei porque você me cutuca, como de hábito, a ponto de eu não deixar passar.).
    Beijos!

    • Rê, tenho impressão de que a gente discorda bem menos do que você está achando. Eu concordo com você e com o Marcus: se o ato de comprar coisas caras e de grife é o mesmo nos dois casos, simbolicamente o valor desse ato é bem diferente num caso e no outro, como ele tão bem colocou: cidadania cá e ostentação acolá. Ou, colocado de outra forma: em um caso, compra-se para estar incluído; no outro, compra-se para excluir. Eu também vejo e entendo essa diferença. Só acho que a linha que divide o consumo/inclusão/cidadania do consumo/exclusão/ostentação é mais tênue do que gostaríamos de supor. O “funk ostentação” não tem esse nome por acaso.

      Quando você diz que “a sociedade que aplaude os i-rolezeiros rejeita os rolezeiros” – também estamos plenamente de acordo. Aliás, é esse o ponto central do post: eu argumento que o problema é esse e exclusivamente esse. Quando digo que uns são recebidos por fotógrafos e outros por policiais, é exatamente isso que você colocou: a sociedade aplaude uns e rejeita outros. Então, nenhuma discordância aqui.

      Eu só discordo mesmo quando você diz que os i-rolezeiros são babacas. Essa é a única parte com a qual eu não consigo concordar.

      Eu acho coxinha, ridículo e no limite do compreensível ficar na porta de uma loja esperando que ela abra e, quando ela finalmente abre, sair gritando como se fosse gol. Mas eu também acho coxinha, ridículo e no limite do compreensível ir a uma balada bate-estaca na Vila Olímpia. (Aliás, não precisa ser na Vila Olímpia: pode ser em qualquer lugar.) Coxinha, ridículo e no limite do compreensível: formar uma caravana da felicidade e ir ao programa do Silvio Santos. Ou do Faustão. Em suma. Eu posso continuar e, se eu for usar isso – fazer coisas que me parecem absurdas e ridículas e coxinhas – como critério definidor da babaquice alheia, só vamos sobrar eu, você, o Marcus e os laminados como gente não-babaca e legal. (E é claro que, na minha vida pessoal, eu só quero mesmo ter contato e amizade com você e o Marcus e os laminados. Mas não é disso que estou falando.) O que eu não quero (e aqui vou enfatizar: *eeeeeeeueueueueueueueu* e apenas eu não quero) é ser uma pessoa de esquerda que acha que pessoas que curtem a Apple são babacas e imbecis apenas por curtirem a Apple (ainda que essa curtição seja em um nível bem superior a uma simples curtida do Facebook).

      Eu acho o seguinte. Ter um comportamento racista faz de você um babaca. Fazer uma piadinha homofóbica faz de você um babaca. Pirar loucamente no seu iMac não. Pirar loucamente na sua iCoisa faz de você um coxinha. Mas não um babaca. É só isso que eu acho.

      Beijos e que continuemos discordando e concordando e conversando sempre <3

      • Sim, a gente concorda em um monte de coisa.
        Mas no sentido dessa “piração no consumo”, acho que a gente discorda, pelo menos por enquanto :-). Porque, dizendo de novo, a piração no consumo de quem sempre foi excluído do consumo me parece de natureza diversa da piração no consumo dos incluídos. E aí não vou fechar no produto x ou y: piração no consumo, vinda de incluídos: não tenho a menor tolerância. A menor. Acho todos uns babacas, juro. E, sim, pode ter até amigos meus fazendo fila na loja da Apple. Evidentemente, não acho que são babacas em todas as dimensões da vida: nessa sim.
        Os rolezeiros e sua piração no consumo: me lembra muito o filme do João Moreira Salles, “Notícias de uma guerra particular”. Aquelas entrevistas dizem. Pessoas que não querem ser incluídas “por baixo”: querem ser incluídas (no maravilhoso mundo do consumo pirante), ponto. No fantástico documentário “African Pop” aparece um tipo de “desfile-ostentação”, onde os caras têm que desfilar com (suas) roupas de marca e ir mostrando as etiquetas enquanto desfilam. Mesmo tipo de coisa, acho.
        Continuemos conversando.
        Beijos, amore. Adoro te ler, mesmo quando não concordo.

      • Eu também não quero ser essa pessoa de esquerda, porque, afinal, o consumo está em todas as esferas das nossas vidas. E concordei com cada palavra do seu texto e dos seus comentários.

  3. Eu diria que a resposta está no que acontece depois que a compra foi feita: se todos estão inseridos em dispositivos que agenciam o desejo, por outro lado o sentido que pode assumir um branco-rico etc etc etc com um iPhone é um; o de um pobre-preto etc etc etc com um boné de marca X é outro; por fim, quando o pobre-preto etc etc etc se apropria daquilo que estava subliminalmente reservado ao branco-rico etc etc etc, aí é uma fissão atômica!

    • Diego, vc viu aquela matéria mostrando donos de lojas de marca desesperados com a associação dos seus produtos à classe C? Taí a sua fissão atômica :)

  4. Vc é uma talentosa cronista, leio muito seus textos. Mas será que ser consumidor de livros, maçãs orgânicas ou boné Adidas [ou consumidor de grifes] não tem mesmo diferenças importantes?

  5. Obrigada, Camila mas a eu estaria infinitamente mais de acordo com você se na sua conclusão, ao em vez de dizer “Não sei se o mundo seria um lugar melhor se subitamente os coxinhas parassem de dar importância aos produtos Apple – mas tenho certeza de que o mundo seria um lugar infinitamente melhor se os pobres pudessem simplesmente consumir em paz.” você tivesse dito: Não sei se o mundo seria um lugar melhor se subitamente a esquerda uspiana – de achar que todo pobre, por ser pobre, é um amor de pessoa – resolvesse o problema da sua culpabilidade e fosse capaz de admitir que pobres também podem ser babacas, mas tenho certeza de que o mundo seria um lugar infinitamente melhor se coxinhas e pobres e uspianos de esquerda se dessem conta do quanto somos todos formatados para simplesmente consumir e que as “capelas” que nos definem são sabiamente entretidas para que continuemos a querer fazer parte de uma delas “contra” todas as outras.

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  8. Deixei um comentário no mural de uma amiga no Facebook algo parecido com isso que vc escreveu. O que me envergonhou não foi os caras fazerem fila na frente da loja. Foi exatamente eles poderem fazer enquanto que outros não podem sequer entrar no shopping…. O que me envergonhou, foi que aparentemente para ser brasileiro com orgulho e com amor é preciso pertencer a uma determinada classe social e ter uma determinada cor. Isso é muito triste.

  9. Oi, Camila!
    Gostei muito do seu texto (como de praxe).

    Acho que são todos uns babacas mesmo. A diferença é que os endinheirados tiveram, em teoria, a opção de superar a babaquice, já que tiveram acesso a uma formação ~diferenciada~. Tiveram à distância da mão ferramentas intelectuais de que os funkeiros nunca ouviram falar. E a porteira do shopping está (e esteve) sempre aberta pra eles.

    Mas discordo da equivalência que vc propõe entre ambos e o povo que compra orgânico. A opção desses últimos é muito frequentemente um tiro no pé. Tirando, é claro, os hipsters que colecionam selinhos de “Fair Trade”, tão tristemente frequentes em nosso meio (da mesma forma com que muita gente usa camiseta dos Ramones “porque é tendência”), todo aquele que propõe alguma coerência entre o conhecimento de que o mercado é assassino (em tantos níveis) e o movimento da própria mão em direção à carteira se fode, social e economicamente. E, se tem pouca grana, se fode GRANDEMENTE (jantando salgadinho Fofura palitinhos de queijo, p.e.).

  10. Perfeito o texto. Só acho que realmente é algo muito triste e decepcionante a importância que se dá às marcas, à grife aqui no Brasil.
    Pode não ter nada a ver diretamente com esse fato, mas tenho a impressão que o público dos estádios de futebol vêm caindo muito por conta desse comportamento extremamente fútil e cretino da nossa classe média e elite, que adora Miami, iphones, ipads, roupas de grife e desprezam, muitas vezes com preconceito, o futebol.
    Obs: sou de classe média e tenho uma vida bastante confortável, mas nunca vou compactuar com esses imbecis que vem surgindo. Desculpe o desabafo!

  11. Aí mulher, eu te amo, eu sou muito sua fã, de verdade.
    Tá, trabalhei em shopping e nunca vi grandes diferenças entre o pessoal do rolezinho e a galera riquinha que pira nuns eletrônicos. Eu sou de esquerda e gosto de Cosac Naify, mas o preconceito vai mesmo direcionado ao pobre. Conheço antipetistas que, até hoje, reclamam do Bolsa Família porque uma vez, veja bem, uma vez, uma senhora foi na televisão dizer que o valor do Bolsa Família era absurdo, a calça jeans da sua filha adolescente custava 300 reais e ela não conseguia comprar, porque o Bolsa Família pagava pouco. Ok, essa senhora está errada em usar um dinheiro importante para algo supérfluo. Mas cadê a cobrança em cima do rico que compra uma peça de roupa por quatro dígitos, em lugar de doar esse dinheiro a uma instituição que precisa?
    Mas cada um, claro, só pensa em seu próprio umbigo, não é verdade?!

  12. Mas não são todos uns babacas? Inclusive eu e você, e nossas canetas caras, camisetas revolucionárias, moleskines e livros da Cosac Naify. A fetichização de objetos para construção de valor é um dos processos mais antigos da sociedade, e nós somos todos uns babacas por atrelas nossa identidade a esse processo.
    Reconhecer isso deveria estar no manual “Esqeurda 101”, porque é o primeiro passo para largar o vício, admití-lo, já dizia o AA. Como apontou magistralmente, o problema dos rolezinhos é a apartação e segregação de espaços elitizados, ciando subcidadãos, mas isso não faz dos rolezistas fofos, apenas vítimas.
    Tenho um pouco de saudade do tempo que não vivi e talvez não tenha existido em que havia uma clareza maior da relação entre pessoal e político e a posição da esquerda contra a sociedade de consumo era mais ativa. Aliás, divagando é essa postura, tendo sido real ou não, que alimenta discursos retardados como o de Constantino sobre a esquerda caviar.

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