Não usemos o nome de Bill Evans em vão

No Brasil, somos especialistas insuperáveis em negar nosso próprio racismo endêmico. Basta dizer que, outro dia, tuitei a frase, extraída de uma entrevista com um especialista em linchamentos, “se um branco e um negro cometem o mesmo crime, a probabilidade de o negro ser linchado é maior”. Foram necessários poucos segundos para eu receber como resposta o argumento “ah mas os negros são linchadores também”. (Alguém disse que não eram?) Aponte qualquer evidência de racismo que necessariamente surgirá alguém para tentar minimizar o que você disse, sugerindo que não é bem assim e que o “problema principal” é de ordem socio-econômica. Não existem exceções a esta regra.

Nos Estados Unidos, ainda que em grau menor do que aqui, o racismo e o negacionismo também estão alive & kicking. No jazz, especificamente, o negacionismo frequentemente usa como argumento a mera existência de um músico que, por acaso, me é extremamente caro – Bill Evans.

Bill Evans é um dos músicos mais importantes da história do jazz. Como este não é um post sobre música, vou me limitar a mencionar uma das várias maneiras pelas quais Bill Evans mudou o jazz para sempre. Juntamente com o baixista Scott LaFaro e o baterista Paul Motian, Bill Evans simplesmente inventou um jeito novo de se tocar no formato piano-baixo-bateria. Antes dele, baixo e bateria tocavam sempre casadinhos, e sempre com a função de marcar o tempo da música. Bill Evans (e incluo seus parceiros aqui, porque no jazz, talvez mais do que em qualquer outro tipo de música, a criação é sempre coletiva) inventou que não precisava ser assim: ele libertou o baixo de seu papel de condutor do ritmo, tu-tum, tu-tum, convidando-o a voos melódicos mais livres junto do piano. O resultado – uma conversa entre piano e baixo erigida sobre um fundo em que predominam os belíssimos pratos conduzidos por Paul Motian – pode ser ouvido aqui.

Ah – Bill Evans era branco.

Por causa disso, sempre que começa uma conversa sobre as origens negras do jazz; sobre o pressuposto óbvio e básico de que o jazz é uma música que nasceu entre os negros e que é parte fundamental da cultura negra norte-america; e que os negros que criaram o jazz foram vítimas de violências às quais os brancos estavam imunes – do tipo: ter que entrar pela porta dos fundos dos bares onde tocavam; receber uma porcentagem ínfima do que músicos brancos, quase sempre piores do que eles, recebiam para tocar (isto quando chegavam a ser contratados); etc. – sempre, sempre que começa esta conversa, um branco há de surgir para lembrar triunfalmente:

“Ah, mas teve o Bill Evans!”

Como se a mera existência de Bill Evans invalidasse ou de alguma forma pusesse em questão a história e a constituição negras do jazz.

É verdade que Bill Evans existiu e foi importante. É verdade que o jazz é uma forma cultural negra. Essas duas verdades  não se anulam e nem teriam por que se anular.

A música de Bill Evans permaneceu e permanecerá. É triste que seu nome seja invocado em tentativas de minimizar tanto a agência criativa dos negros fundadores do jazz quanto a opressão inegável à qual estes músicos foram submetidos.

***
Este parece ser um post sobre racismo, jazz e Bill Evans. Mas é também um post sobre a morte do cinegrafista e o uso que já começa a ser feito dela.
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3 comentários sobre “Não usemos o nome de Bill Evans em vão

  1. O problema do racismo no Brasil é sério, como é sério em todos os países do mundo. Alguns países ignoram mesmo. Outros não. Mas nunca o Brasil foi mais racista do que os EUA… Nossa patológica autoestima, um problema mais sério que nossa cegueira social… é um problema bem mais grave do que o racismo e achamos que somos ruins e piores em tudo. Mas nem em sonho. Só quem não conhece os EUA fala isso… nem com um presidente negro os EUA é menos racista do que o Brasil. Assim como não somos menos machista pelo simples fato de termos eleito uma mulher para a presidência da república. O fato é que a cultua da negação, o tal negacionismo a que você se refere não se aplica apenas ao racismo, mas a toda espécie de preconceito e de desigualdade… Nós ainda não conseguimos colocar a mão nas feridas e resolver os nossos problemas sociais… Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa… racismo é uma fato universal, como se lida com ele é que uma construção social e cultural…

  2. To aqui quebrando a cabeça para ver se entendi adequadamente a metáfora “Bill Evans – racismo – black block”

    A principio, tendo a pensar que Bill Evans = cinegrafista da Band. Assim o paralelo seria: sempre que alguém reclamar que a polícia é violenta e truculenta, aqueles favoráveis a ação da polícia chamarão pelo cinegrafista Santiago. E os policiais dirão: “nós só somos violentos porque os manifestantes também são”.

    Mas acho que a gente deve realmente parar e pensar a respeito do incidente com o cinegrafista. Porque um individuo que leva um morteiro pruma manifestação está assumindo a possibilidade de matar alguém. É um ato tão inconsequente quanto um policial disparar uma arma de fogo para uma multidão.

    E aí acho que só há duas formas intelectualmente honestas de enxergar o fato:

    OU a morte do cinegrafista é um fato triste, porém, inevitável, já que em toda revolução/mudança social há inocentes que sofrem. E portanto, apoia-se o uso de métodos violentos e entende-se que a morte de inocentes é um MAL NECESSÁRIO.

    OU condena-se o uso de artefatos letais pelos manifestantes (black blocs ou não), e considera-se que a morte do cinegrafista é um ato triste e indesejável. E trata-se de tomar providência para que isso nao ocorra novamente (desestimulando o uso de foguetes, rojões, coquetel molotov, espancamento de policiais, incendiar veículos com gente dentro, etc, etc, etc).

    Me incomoda a facilidade com que as pessoas fazem causa-efeito com violência policial – violência nas manifestações. Como se fosse impossível quebrar o ciclo de violência e bater menos do que apanhou (e se isso é impossível estamos lutando exatamente para que? Para trocar oprimidos e opressores de lugar, mas manter a mesma estrutura desigual e injusta?).

    Me incomoda mais ainda a facilidade com que as pessoas eximem de responsabilidade os manifestantes. Um dos motivos da polícia ser cruel e truculenta é que os policias militares são julgados por tribunais próprios, pouco transparentes, que raramente punem excessos, mesmo que esses excessos resultem em morte.

    Estimular essa impunidade por outros setores da sociedade me parece um jeito muito equivocado de promover a busca por um mundo melhor. Então, o sujeito que atira um rojão contra um grupo de pessoas não é assassino, nem criminoso nem irresponsável: é apenas um garoto que estava lutando por um mundo melhor e que acabou envolvido numa fatalidade.

    No auge das manifestações em junho do ano passado o discurso que imperava na minha timeline do facebook era “eu nao me sinto a vontade para dizer como uma pessoa oprimida da favela, que apanhou a vida inteira de policiais, deve se comportar ou se manifestar. Se eles quiserem quebrar, que quebrem, se quiserem bater que batam”.

    Sinceramente, encaro essa forma de pensamento como uma passagem expressa para retornar a barbárie. Se queremos uma polícia responsável, temos de querer uma população e manifestantes responsáveis também.

    Aliais, é interessante observar alguns comportamentos em relação a morte do santiago. Antes que as investigações apontassem os culpados (e antes mesmo que a morte cerebral fosse decretada), já tinha uma quantidade enorme de postagens atribuindo o incidente a bombas de fumaça/gas lacrimogenio da policia. A globo news/Bom dia Brasil chegou a emitir uma noticia nesse sentido.

    Assim que as investigações avançaram, as postagens mudaram de tom. Trataram de tentar minimizar a importância da morte e a focar nas muitas outras vezes em que a policia foi truculenta e provocou mortes (como se uma coisa justificasse a outra).

    Mas enfim… nem sei ao certo qual sua opinião a respeito. E obrigado por ter aumentado meu parco conhecimento sobre jazz e meu não tão parco conhecimento sobre racismo nos EUA.

    • Sobre o jazz – de nada. :-) Sobre o Bill Evans e a relação com o cinegrafista… Depois desta semana, acho que podemos simplificar e voltar ao título do texto, que pede que o nome dele não seja usado em vão. Foi tudo o que não conseguimos fazer com Santiago.

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