O sonho da solução imediata

Existe o fato: um menino de 15 anos é vítima de linchamento. E existe os que aprovam o fato, apoiando os linchadores.

Denunciar o SBT e sua apresentadora não é esquecer nem desconsiderar a violência sofrida pelo menino nem relevar a responsabilidade dos criminosos. Denunciar o programa é reconhecer que o fato é indissociável de sua generalizada aprovação pela sociedade – e que esta aprovação está sendo criminosamente insuflada por uma emissora de TV que é concessionária de um serviço público.

(Aliás, nem é só de aprovação que se trata – não é só que Sheherazade achou bonito o que foi feito com o menino. Ela conclamou outras pessoas a cometerem o mesmo crime – e, na condição de adulta responsável pelo que diz, deve prestar contas disso tanto quanto a emissora para a qual trabalha.)

Chamar a atenção para a necessidade dessa responsabilização não oblitera a necessidade de que também sejam encontrados e punidos os responsáveis por torturar e humilhar o menino. Afinal, é disso que se trata: de impedir que esse crime se repita. Enquanto não inventam uma solução mágica que impeça esse crime de acontecer novamente, a gente faz o que pode. E uma das coisas que podemos fazer é mostrar que a opinião da sociedade não é unívoca – que nem todo mundo acha que menino-pobre-de-15-anos bom é menino-pobre-de-15-anos morto.

É possível manifestar essa opinião – mais que opinião, aliás, eu a chamaria de posicionamento ético – de várias formas: fazendo denúncias formais ao Ministério Público contra o SBT e sua apresentadora; cobrando, questionando e boicotando o SBT; cobrando, questionando e boicotando os patrocinadores e apoiadores do programa SBT Brasil.

***

Então você vai dizer “ah, mas isso não resolve o problema – mesmo se demitirem a apresentadora, e daí? Os linchamentos não vão deixar de acontecer por causa disso”.

É verdade: não estou propondo nenhuma solução rápida, fácil e imediata.

Aliás, sabe quem é que gosta exatamente desse tipo de solução?

Os linchadores.

Linchadores-justiceiros adoram uma solução imediata, rápida e eficaz. Para eles, os problemas são bem fáceis de resolver. Basta identificar O Mal – de preferência pela classe social e pela cor da pele – e eliminá-lo com as próprias mãos.

***

Se realmente quisermos viver em um país democrático, teremos de nos acostumar com a ideia de que as eventuais soluções para os nossos problemas serão mediadas por instituições democráticas.

Teremos, em suma, de renunciar ao sonho da solução imediata.

Anúncios

2 comentários sobre “O sonho da solução imediata

  1. O que mais me entristece nessa jornalista – branca, loura, privilegiada na sociedade – é que ela procura culpar as pessoas erradas. Que tal, ao invés de “leve um bandido para a sua casa”, criarmos a campanha “exija que o filho do político estude numa escola pública”? Aí sim teremos uma educação de base digna e responsável, para que atos de linchamento e menores de idade infratores não se repitam com tamanha frequência.
    Mas eu acho que ela tem preguiça de pensar.

  2. Pingback: Educação pela pedra (bruta) | Cronista Amadora

Os comentários estão desativados.