Por que nos indignamos com os políticos corruptos mas não com as empresas corruptoras?

Tenho uma teoria de que as palavras que aprendemos durante a infância moldam nossa compreensão do mundo por muito mais tempo do que gostaríamos ou supomos.

De criança, por exemplo, aprendi que “corrupto” era o mesmo que ladrão – só que a gente chamava de “corruptos” os políticos, sendo os demais ladrões chamados apenas de ladrões mesmo. Para mim, “corrupção” era simplesmente “ladroagem”: assim como ladrões invadiam casas e roubavam tudo, da mesma forma agiam os políticos corruptos, que roubavam todas as riquezas do país. Meu conceito de corrupção era assim simples e puro: ninguém jamais me contou que, se havia um corrupto em algum lugar, haveria também um corruptor.

Além disso, aprendi que “corrupto” era um termo quase equivalente a “político” – na prática, as duas palavras podiam ser usadas intercambiavelmente. Compare: “os políticos gostam de aumentar os impostos” e “os corruptos gostam de aumentar os impostos”. Convenhamos, não há grande diferença entre a primeira e a segunda frase.

Para a menina que eu fui, o Brasil funcionava da seguinte forma: de um lado, havia os cidadãos produtivos, que trabalhavam, pagavam impostos, geravam riqueza e contribuíam com a sociedade de alguma forma. Do outro, os políticos corruptos que apenas se aproveitavam do trabalho dos outros, através da cobrança de impostos e da corrupção. Todos os cidadãos – desde o operário do chão-de-fábrica até o presidente da empresa – eram, em alguma medida, explorados pelos políticos corruptos. Pensando bem, era praticamente uma visão marxista do país: bastaria substituir “capitalistas” por “políticos” e “proletariado” por “restante da população” para se ter uma ideia do Brasil em que eu acreditava.

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Então você vai me dizer que esta é a visão de mundo de uma criança de 7 anos, e que ninguém pensa assim depois de adulto. Todo adulto, inclusive, já ouviu falar na lenda urbana do político honesto, aquele que continua morando em uma casinha simples depois de anos de vida pública (se bem que esse critério da casinha ficou um pouco ultrapassado depois que um político que morou a vida inteira num sobradinho do Butantã foi preso justamente por corrupção). Nós, adultos, somos espertos e sabemos que o mundo é mais complexo do que essa trama de novelinha das sete em que tudo se resume a polícia x ladrão, político x cidadão!…

Será que sabemos mesmo?

Se realmente estamos cientes de que políticos são corrompidos por megacorporações que pagam generosas propinas para maximizar seus lucros, eu gostaria de saber onde é que estão os posts no Feissy denunciando o SIEMENSalão. Onde estão os brados indignados com os ALSTrOMbadinhas. Tá certo que meus trocadilhos são horríveis, mas por que as mesmas mentes brilhantes que cunharam os epítetos “petralha” e “tucanalha” não fazem coisa parecida com a OGX e a Odebrecht? Por que pedimos o impeachment do Alckmin mas achamos natural que a Siemens, uma empresa declaradamente picareta, ainda mantenha contratos com o estado de São Paulo?

A verdade é que empresa não vira meme. Ninguém se dispõe a inventar xingamentos engraçadinhos com grandes corporações. A figura do político safado é imensamente mais popular e odiosa que a do empresário safado. Aliás, sugiro guglar as duas expressões: enquanto “político safado” é Maluf ou Sarney, “empresário safado” é tara sexual.

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Por falar no Doutor Paulo, parece-me que aplicamos uma de suas máximas às empresas de modo geral: “roubam mas fazem”. Empresas podem até cometer ilegalidades, mas, no final do dia, produzem coisas e geram empregos. Já os políticos, ninguém sabe direito o que fazem – eles apenas roubam, sem produzir nada que compense os danos infligidos à sociedade.

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O político safado é uma figura que amamos odiar porque ele representa um problema incrivelmente fácil de resolver. Basta que eles sejam substituídos – seja por derrota nas urnas, impeachment ou morte – para que, um dia – quando o mundo for dominado pelos bons e puros de coração –, tudo se resolva. Enquanto isso não acontece, a gente xinga bastante no tuíter, torce pela morte do Sarney e desopila o fígado – e repete tudo igualzinho no dia seguinte. 

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O problema de questionar a conduta das empresas corruptoras é que, uma vez que você começa, é impossível parar – e é impossível repetir tudo igualzinho no dia seguinte. Porque, num primeiro momento, você fica indignado com a Siemens e inventa trocadilhos infames. Depois, questiona se existem leis capazes de coibir crimes como os praticados por esta empresa. Então, questiona se existe alguma possibilidade de ética empresarial para além da ética do lucro. Enfim, questiona como seria viver em um mundo em que o bem público fosse um valor mais importante que os bens privados.

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Não acho errado nem ingênuo protestar contra políticos corruptos, muito pelo contrário. Longe de mim achar que devemos aliviar com partido algum – como, aliás, já acontece com o PSDB. Não é novidade para ninguém que, mesmo estando no centro de um escândalo muito mais grave do ponto de vista dos danos para o patrimônio público do que o mensalão, o PSDB continua pagando de partido honesto e bonzinho para gente que enche a boca para criticar (frequentemente com razão) o PT.

Acho apenas que não faria mal se, para cada xingamento de petralha, tucanalha ou equivalente que proferíssemos, nos obrigássemos a passar pelo menos uma hora pesquisando o papel da iniciativa privada nas mutretas em que os ditos petralhas ou tucanalhas estão envolvidos. 

Quem sabe assim conseguiremos debater não como crianças de 7 anos de idade, mas como crianças de 7 anos e meio. Já seria um grande avanço.

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9 comentários sobre “Por que nos indignamos com os políticos corruptos mas não com as empresas corruptoras?

  1. O corporativismo é tão nocivo para a sociedade, quanto a corrupção. Beneficiar empresas que pagam propinas para ganhar licitações é um prática comum no Brasil, tanto no lado do PT quanto do PSDB, eu continuo reclamando dos governantes porque no fim é eles que aceitam a propina, a empresa ta fazendo papel dela de ganhar a licitação e prestar o seu serviço, agora vem você querer desviar o foco, chamando de crianças que fica repetindo tal coisa, texto podre e nojento o seu, típico de pessoas medíocres de esquerda.

    • Bem se vê que o amigo Igor sabe criticar. Não parte para a “ignorância” de xingar, além de expor seu ponto de vista de defender as empresas corruptoras, afinal, elas “estão na delas”…..
      Podre por podre….

    • segundo a sua “lógica” então as empresas corruptoras estão certas? é esse mesmo o papel delas? oferecer propinas para políticos? amigo, acho que o medíocre aqui é você

    • E os políticos tem obrigação de se manter no poder então assim na sua visão eles estão corretos em serem corruptos. Um cara que trapaceia em um concurso está justificado pois é obrigação dele passar no concurso. Você é ridículo.

  2. Unico erro do seu texto é não apontar que a Siemens e Astrom tem contratos em todos os estados, sendo os maiores com o governo federal, e que infelizmente eles continuam em vigor sem interessados em investigar. Cito o que aconteceu no metro de Porto Alegre em termos de cartas marcadas e não vejo ninguém investigar mesmo depois das denuncias do que aconteceu em São Paulo..

  3. Muito bom seu texto, Camila. Já estou divulgando por aí. De fato, satanizar o Estado (ou, pelo menos, só ele) servirá apenas para desviar a política das instituições tipo Congresso, Planalto e etc para os iates e jatinhos dos podres de ricos – o que, convenhamos, é bem pior. Ignore os médio-classistas que se prestam ao triste papel de “advogados de empresários” nos comentários e continue com reflexões pertinentes e relevantes como essa. Nós precisamos.

  4. “Podre, nojento e medíocre”. Pelo nível do comentário, alguém está projetando fora, o que na realidade está dentro. “A empresa ta fazendo o papel dela” – ou seja, é papel da empresa corromper o governo ~sic~. Dois pesos, duas medidas. É por esse tipo de pensamento que vivemos num mundo de desigualdade. Onde a norma se aplica apenas a alguns, enquanto há afortunados que não precisam prestar contas. Luz, irmão, luz!

  5. Acredito que parte dessa conduta de relevar a culpa do corruptor deva-se ao papel da mídia, afinal quem sustenta o 4º poder se não as empresas por meio de compra de tempo em propagandas? Qual veículo da mídia iria denunciar uma empresa e tratar o corruptor como um verdadeiro bandido correndo o risco real de perder seus anunciantes?
    Isso nos leva a outro ponto, o fato de que as pessoas querem a informação pronta e, de quebra, a opinião já formada para apenas repeti-la, sem necessidade de pesquisar fontes, analisar dados e chegar a uma conclusão por conta própria.
    O viés filosófico, se me permite uma pequena consideração, seria a perturbação inconsciente que a abdicação da sua autoridade provoca no cidadão em nome da sensação de segurança que o Contrato Social nos traz. Esse pacto de transferência de autoridade ao Estado causaria um incômodo por não mais sermos capazes de decidir sobre o rumo de nossas próprias vidas, mas aceitar as decisões impostas pelo Estado, que geralmente apenas visam atender ao interesses de uma pequena elite, o empresariado.

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