O casamento da prima

Era o casamento da minha prima, ao qual compareci emburrada porque tive de faltar ao acampamento da escola. Se, na época, eu fosse mais ligada na conversa dos adultos, poderia ter argumentado para os meus pais que não faria sentido cancelar um compromisso para celebrar um casamento fadado a durar menos de um ano – mas quem queria saber da droga da conversa dos adultos quando meus devaneios eram preenchidos pela expectativa do bailinho do acampamento, quando meu namorado me tiraria para dançar?

(S. era meu namorado há um ano – mais do que viria a durar o casamento de minha prima, portanto –, mas ele nunca sequer pegara minha mão. O acampamento teria, além do bailinho, outras duas excelentes oportunidades de pegação de mão – gincana noturna e gato-mia – e eu não estava nem um pouco disposta a desperdiçá-las.)

Dada minha insuficiente capacidade argumentativa, porém, só me restou ir ao casamento da prima. Mamãe fez o que sabia fazer melhor – ser minha mãe – e caprichou na chantagem emocional, enfatizando que minha prima ficaria muito triste caso eu não comparecesse ao evento mais importante de sua vida – e me consolou dizendo que S. haveria de pegar minha mão logo mais, era só eu ter um pouquinho de paciência.

(Desnecessário dizer que meu relacionamento com S. terminou pouco depois – sem que ele jamais tivesse pego minha mão.)

A parte da igreja foi meio chata, principalmente porque os adultos brigaram comigo quando perguntei bem alto “ué, mas cadê a barriga da prima?” Acontece que a prima estava grávida de quatro meses e bem barriguda, mas justo naquele dia o vestido que ela usava escondia magicamente o redondo da barriga. Então os adultos me explicaram que era assim mesmo: que, para casar, a mulher não podia ter barriga nenhuma, e por isso ela estava escondendo a dela, que se o padre visse qualquer redondinho na barriga não haveria casamento algum.

(Suponho ser esta a origem de minha perene insatisfação com minha própria barriga, que insiste em exibir um redondinho por mais que eu tente escondê-lo atrás de vestidos mágicos.)

Mas a parte da festa – que foi quando descobri que os adultos também faziam seus bailinhos – até que foi legal. Meus pais beberam e fumaram um cigarro mais fedido que o Free de todos os dias, e poucas vezes os vi tão alegres.

Alegre mesmo, porém, estava um amigão de meu pai, que além de beber e fumar e dançar ainda corria pelo salão e cantava bem alto, sempre a mesma música. No bailinho dos adultos tocava Madonna e Michael Jackson, mas o amigão do meu pai não parecia se importar muito: volta e meia ele gritava mamãe-eu-quero-mamar, apesar de que não era carnaval e de que, cá entre nós, ele já era bem grandinho.

Mas não era só isso. Entre uma música e outra, ele se abaixava até minha altura, segurava meu rosto entre as mãos e dizia:

– Mas você é uma menina muito especial mesmo, hein! Que menina especial que você é! Meus parabéns, viu!

E voltava a rodopiar pelo salão, pedindo chupeta para o bebê não chorar.

Assim foi a noite toda. Não vou dizer que não me senti lisonjeada com a atenção, mas fiquei sobretudo curiosa: como ele descobrira que eu era tão especial? Será que ele sabia que eu fora a oradora da turma na formatura do Jardim 5? Que eu sabia cantar todas as músicas do filme da Turma da Mônica com a Tetê Espíndola? Que eu era craque no pebolim? E que eu já tinha até um namorado?

A festa, que estava legal, começou a ficar aflitiva porque eu não via a hora de conversar com meus pais a sós para esclarecer aquele mistério: como é que aquele moço sabia tantas coisas a meu respeito?

Enfim, o momento tão esperado chegou. Assim que entramos no carro, comecei:

– Animado o seu amigo, né, papai.

Meu pai riu e comentou com minha mãe que até eu tinha reparado o quanto o sujeito estava alegre.

– Sabia que ele me disse que sou muito especial?

Meu pai não sabia.

– Papai, por que ele disse que sou muito especial?

A resposta de meu pai foi daquelas para não esquecer:

– Porque ele estava bêbado, filha.

***

Às vezes, ainda hoje, acontece de alguém segurar meu rosto entre as mãos e dizer, em arroubos de entusiasmo, que sou muito, muito especial.

Felizmente, meu pai já me explicou há muito tempo que, quando o entusiasmo é grande demais, não sou eu que sou especial.

Especiais mesmo são a bebida, o cigarro e o bailinho.

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5 comentários sobre “O casamento da prima

  1. “Quando o alcool entra a verdade sai”
    Você é especial sim, só alguem especial poderia escrever como você escreve!

  2. Nem preciso dizer que amei seu texto. Li na Confeitaria e não resisti, tive que vir visitar o seu blog. Parabéns, vou começar a ler tudo! :D

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