Uma condição necessária para que não sejamos escrotos

Não acho que a empatia seja algum tipo de emplastro do Brás Cubas capaz de curar todos os males. Acredito inclusive que, dado que empatia nada mais é que assimilar a experiência alheia à experiência própria, no limite isso significa reduzir o outro ao eu – o que, convenhamos, não é exatamente uma boa ideia. Além disso, uma hipotética sociedade que só se deixa mover pela empatia e não consegue pensar em termos frios e abstratos conseguirá arrecadar milhares de reais para pagar o tratamento médico do Zezinho, um garotinho pobre e doente – mas, quando confrontada com a impessoalidade dos números do sistema de saúde, essa mesma nem-tão-hipotética-assim sociedade chiará contra o aumento de impostos que poderiam ajudar centenas e milhares de Zezinhos, apenas porque “10% a mais de imposto para a saúde” é algo abstrato demais, distante demais dos nossos corações e muito menos tocante do que o rostinho sofrido do Zezinho. Nossa revolta com o aumento do IPTU, digo, com o aumento do imposto para a saúde, não se deve ao fato de termos experiência em Brasil e sabermos que o dinheiro dos impostos provavelmente irá para o bolso de políticos safados – pois, até aí, como garantir que o dinheiro pró-Zezinho realmente chegará no Zezinho e não será surrupiado por, sei lá, seu tio espertalhão? A revolta é porque desconhecemos – ou preferimos desconhecer – os meandros do processo pelo qual o dinheiro do imposto é transformado em remédio, leito e médico pro Zezinho.

A verdade é que é muito mais fácil comover-se com alguma coisa quando se põe um rosto no sofrimento. Não é por outra razão que 1) se você quer que um carro lhe dê passagem no trânsito, convém capturar o olhar do motorista. O motorista que não dá passagem é o motorista que ignora que atrás do volante também bate um coração. Se o motorista olha no seu olho, ele geralmente fica constrangido demais para ignorar a sua buzinadinha; 2) entrevistas com pensadores notadamente obscuros costumam ser muito mais facilmente compreensíveis que seus textos teóricos – e não porque nas entrevistas esses pensadores falem em vez de escrever, mas porque nas entrevistas eles estão diante de um rosto, frequentemente um rosto de espanto, e é difícil falar academicices horas a fio quando se tem diante de si um rosto angustiado de quem não está entendendo nada.

Mas, como todos sabemos, 1) existem motoristas que, olhando no fundo do seu olho, dão uma risadinha e não dão passagem; 2) existem pensadores que soam tão crípticos em suas entrevistas como em qualquer artigo acadêmico; 3) existem pessoas incapazes de perceber o quanto certas palavras são extremamente desrespeitosas, quando bastaria se colocar no lugar do outro para sentir o desrespeito na pele.

Como você se sentiria se todos os jornais e colunas de fofoca do país insinuassem – ou mesmo declarassem abertamente – que você é um homem de mentirinha? Ou que você não é realmente uma mulher?

Às vezes, afirmar o óbvio é necessário: esta moça é uma pessoa. Tão pessoa quanto o Zezinho, sabe?

Por que será que é tão difícil assim se colocar no lugar dela?

***

Não, a empatia não irá salvar o mundo. Ela não é condição suficiente para resolvermos os problemas estruturais da sociedade.

Mas, porra, é uma condição necessária para que não sejamos escrotos.

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10 comentários sobre “Uma condição necessária para que não sejamos escrotos

  1. A empatia é mesmo necessária. Só que numa visão meio individual. Não que ela tenha que ser assim, mas é dessa forma que funciona, quando funciona.
    Acho que é o mesmo que pensar “não faço para os outros aquilo que não gostaria que fizessem comigo”. Um dia o troco é dado. Quem não paga agora, pagará amanhã.
    Empatia é essencial.

  2. `Você é uma dessas pessoas que deveria reunir alguns balões e sair voando, tal como fez o padre curitibano anos atrás e deixou a humanidade mais inteligente por sua simples exclusão a mesma. Lendo seu blog, percebo que você é uma típica pseudo-pensadora de esquerda, que só soube ler Marx mas nunca adentrou no território de Milton Friedman, L.V. mises, F. Hayek, Frédéric Bastiat, Roberto Campos, José Monir Nasser e Olavo de Carvalho. Tudo aqui ignora explicitamente qualquer argumento que não seja a favor do maniqueísmo opressor x oprimido.

    Sua professora de literatura disse que você tinha algum talento, não é? Isso foi o motivo nevralgico para você iniciar esse blog, certo?! Sua mais nova, inédita e pontual comentarista argui que você tem talento, no máximo, para colorir revistinhas do K. Marx enquanto não ampliar seu horizonte teórico. Faça-nos um favor: siga a dica.

    • Laurita, fofa, você nem pra colorir revistinhas de reaças tem talento. Faz um favor? Vai procurar a sua turma! :)

  3. Muito bom o texto, Camila! Adoro te ler. (Acordou bastante azeda a moça Laurita acima, não?)

  4. Laurita, pelo visto vc não conhece a autora desse blog. Se a conhecesse certamente nunca afirmaria que ela precisa *ampliar seu horizonte teórico*. A Camila é uma pessoa não apenas culta, como inteligente, talentosa, esforçada e que, acima de tudo, sabe dialogar (isso para mencionar apenas a dimensão intelectual). Portanto, minha sugestão: caso vc queira *dialogar* com ela e com todos por aqui, contribua com argumentos, reflexões, críticas e comentários mais fecundos. E não com essa meia dúzia de palavras ofensivas e vagas.

  5. Minha esposa diz que eu tenho excesso de empatia. Não seria um problema – segundo ela – se nós não morássemos no “país do foda-se”. Faz parte da cultura italiana esperar que OS OUTROS exercitem a empatia, mas não o contrário. Empatia não é tontice: já andei esmurrando uns escrotos por aqui. :)

    Feliz Natal!

  6. O teu texto é sucinto, enxuto, bom de se ler. Não acho que você seja uma pseudo-pensadora de esquerda, até porque não sei o que seja isto. Se é pseudo, é falso? Se é falso, então não é…o que? Pensadora? Pensadora de esquerda? O rótulo de esquerda tem sido aplicado, ultimamente, a título de xingamento. Uma mania da época, imagino. Também não entendo de empatia, mas me vi envolvido pelo texto. isto é empático? Abraço.

  7. Gente, mas quanto ódio pra um coraçãozinho só… Nunca imaginei que um texto sobre empatia pudesse suscitar tamanha raiva, Freud explica talvez? Eu sempre acho muito estranho que as pessoas percam tempo para comentar em algo que odeiam, desprezam. Como se fosse absolutamente necessário marcar o seu ponto de “não gostei, não concordo, você é feia chata e cara de mamão”, essa compulsão a dar opinião sobre tudo que leva aos comentaristas de portal… Essa idéia de querer machucar, ferir, destruir o outro mesmo que seja virtualmente tão forte atualmente… Acho preciso pensar mais, tentar entender esse fenômeno melhor, o que na nossa sociedade leva a isso? Desemboca na raiva onipresente. Adoraria ver um texto seu sobre o assunto, Camila. Você tem conseguido pensar e escrever coisas que meu cérebro pós maternidade gostaria de conseguir elaborar. Beijos

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