Um amor de empregada

A mulher tinha fixação por empregadas.

Não por qualquer empregada, claro: pelas suas empregadas.

As empregadas eram suas inimigas, suas algozes e também sua salvação. Ruim com elas, pior sem elas, costumava dizer. Como viver sem uma empregada quando se tem três camisas por dia para passar e oito pessoas por dia para alimentar, entre café, almoço e janta?

Só que as empregadas por vezes lhe causavam tanto desgosto que era de se perguntar se não seria mais saudável todo mundo usar camisa amarrotada e comer no McDonald’s, só para que seu coração não fosse partido mais uma vez.

“Primeiro teve a Rosa, uma menina boa, ótima, responsável, trabalhadeira, silenciosa, dormia em casa, nunca reclamava – mas um dia casou e nunca mais voltou! Ofereci até aumento, mas ela não quis nem saber. Não veio em casa nem quando chamei para tomar um café e olhar as crianças. Casou e sumiu. E era como se fosse da família! Nessas horas a gente vê a falsidade da pessoa. Toda quietinha, respeitosinha, e vai embora com o primeiro marmanjo que aparece sem me dar nenhuma satisfação.

Depois, teve a… Ah, uma que era clarinha, não lembro o nome. Boa, também. Limpinha, sabe? Veio da Bahia pra ficar. Lá o pessoal passa uma necessidade… Ainda bem que aqui eles encontram trabalho à vontade. Começou bem, a clarinha. Desengordurava o fogão que era uma beleza. Um dia lavou as cortinas na mão, até economizei o dinheiro do Takeda – quando eu disse que as cortinas iam pra lavanderia, ela falou ‘a senhora não se preocupe que eu dou um jeito.’ E não é que deu mesmo? A cortina passou de bege a cor de creme. Ah, era bem boa, a clarinha. Mas foi só até chegar a primeira conta de telefone desde que ela estava com a gente. Trezentos e setenta reais! Você pode imaginar uma coisa dessas? Ela esperava todo mundo dormir e ligava pro noivo lá na Bahia, vê se pode. Agora, você acha que eu paguei? Fiz ela pagar cada centavo. Afinal, noivo não é marido e minha casa não é lugar de safadeza.

Então tem essa outra, a última. O problema dessas moças é que elas são muito avoadas, ficam com a cabeça lá longe, ainda mais se não são de nenhuma igreja. Igreja é bom porque foca. Sem igreja é só festa, bebida e namorado. Você vê, essa na primeira semana quebrou um cristal importado, um cristal que me custou uns novecentos reais… Como ela vai me pagar? O cristal é mais do que ela ganha no mês, e esse é que é o problema: elas não sabem dar valor para o que está fora do alcance delas. O jeito é parcelar, né? Mas duvido que essa aí fique. Parecia um amor, a moça. Mas depois que cobrei a primeira parcela do cristal – dividi em doze vezes, para não ficar pesado –, ela está estranha, só fala o necessário. Quer dizer, só fala o necessário comigo. Com o namorado, em compensação, é o dia inteiro no celular. Essa é outra que daqui a pouco vai-se embora com o primeiro que levar.”

Disse a ela que tivesse fé. Mais cedo ou mais tarde, ela haveria de encontrar um amor de empregada.

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