A caridade e o cacete

Dando continuidade à minha obsessão por discursos de políticos (no meu Feissy há vários exemplos), voltemos a Giovanni Queiroz, deputado federal pelo Pará, em sua fala de 11/12/2013:

“[Os índios] querem água, eles querem comida, eles querem condições de trabalho, de habitação decente, eles querem ser civilizados. Nós todos aqui fomos um dia índios, aliás fomos macacos, comprovadamente um dia fomos macacos. Quatrocentos mil anos atrás, ou quatrocentos milhões de anos atrás, nós éramos apenas uma pequena bactéria.”

Eis, portanto, a evolução humana para este senhor: pequena bactéria –> macaco –> índio –> homem civilizado.

Mas hoje não quero falar apenas sobre Giovanni Queiroz. Seria fácil xingar o nobre deputado e esquecer que eu mesma, cerca de quinze anos atrás, provavelmente concordaria com ele.

Depois que minha mãe morreu, tornei-me espírita, e o espiritismo tem uma concepção bastante própria de evolução espiritual. Para os espíritas, como se sabe, não importa o corpo, mero invólucro material, e sim o espírito eterno e imortal que o habita, que evolui ao longo de inúmeras reencarnações.

Mas apesar de ser o espírito e não o corpo aquilo que realmente importa, verifica-se um fenômeno bastante curioso na evolução espiritual dos povos: por uma grande coincidência, os povos mais baixos na escala de evolução espiritual são todos indígenas ou negros, e os mais elevados são os europeus brancos (deve ser a mesma coincidência que leva alguns espíritas a afirmar que heterossexuais são mais evoluídos espiritualmente que homossexuais).

Cheguei a assistir no centro espírita ao filme “A Missão”, de Roland Joffé, e aprendi que os personagens de Jeremy Irons e Robert De Niro eram espíritos evoluídos cuja missão era iluminar o caminho dos nada evoluídos índios.

Portanto, a ideia de “levar o progresso aos índios”, que é o que a bancada ruralista alega fazer, soaria não apenas lógica como muito caridosa aos meus ouvidos de quinze anos atrás.

***

Minutos antes de expor sua notável teoria evolutiva (mezzo moral mezzo biológica) segundo a qual índios são seres intermediários entre macacos e homens, Giovanni Queiroz recomendara abertamente “dar um cacete” em invasores de terras.

A princípio, essa parte do cacete foi a que mais me repugnou: um deputado admite publicamente ter incitado o crime de tortura, e a plateia aplaude.

Passados alguns dias, a parte de dar água, comida e civilização aos índios está me parecendo tão repugnante quanto. Pois, neste caso, a eliminação do outro não vem através do cacete – vem através de um discurso bonzinho e fofo, de ajuda e caridade.

Só que “ajudar os índios” é fácil.

Difícil mesmo é deixar os índios viverem em paz.

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7 comentários sobre “A caridade e o cacete

  1. Sim, são os índios a evolução natural de um deputado, depois deve vir o homem civilizado, mas o tempo desta evolução natural passa mais divagar em Brasília. A maior parte do Brasil já é índio, ele ainda é um deputado.

  2. Vamos dar água e comida ao índio. Tipo: AGORA eles merecem isso. AGORA eles precisam ser enxergados dignamente. Que pessoinha de mentalidade limítrofe, esse deputado, hein? Pois é, é bem difícil deixá-los viver em paz, sem impor sua ganância sobre outros, de uma cultura tão bela e rica que deveria ser muito preservada. Não é superior à nossa cultura. Não é melhor, mas é digna de conhecimento, preservação e respeito. Aliás, é o mínimo.
    O meu marido é espírita. Eu tenho um pé e metade do corpo também no espiritismo. Gosto muito. Para mim, não é apenas religião, é também filosofia.
    Abraços.

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  5. Mais uma vez você matando a pau não apenas expondo o enorme senso-comum que governa o mundo a nosso redor mas, principalmente – eu diria, nos lembrando que somos imersos nesse mundo e perfeitamente capazes de reproduzir tais discursos.

    Eu também já fui espírita quando jovem. Não era um fanático mas era bem fascinado com toda a teoria e tals. E fui até secretário de doutrina (tipo secretário de educação) de encontros juvenis. E meu desencanto ocorreu quando do debate sobre aborto, percebi sempre a culpabilização da mulher. Aí pulei fora. E com o tempo comecei a reparar em outras coisas que não prestava atenção por puro preconceito mesmo – desses que eu não me dava conta, pois afinal, eu tinha até amigos negros (shame on me).

    Enfim, sem fazer um tratado sobre as incoerências espíritas e de outras religoões; Apenas para agradecer mais um ótimo texto mesmo ;)

  6. O texto soou contraditório, especialmente por este trecho: “por uma grande coincidência, os povos mais baixos na escala de evolução espiritual são todos indígenas ou negros, e os mais elevados são os europeus brancos (deve ser a mesma coincidência que leva alguns espíritas a afirmar que heterossexuais são mais evoluídos espiritualmente que homossexuais)”.

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