Por que as formigas não caem

– Mamãe, por que as formigas não caem? 

– Não caem de onde?

– Das paredes. Elas andam pelas paredes como se andassem pelo chão. Eu não consigo andar na parede, os cachorros não conseguem andar na parede. Como é que as formigas conseguem?

Minha mãe suspirou, largou o que estava fazendo, abaixou-se até a minha altura e falou: 

– Você está perguntando só por perguntar ou você quer mesmo saber?

Eu queria mesmo saber.

Então minha mãe me pôs no colo e falou que havia duas explicações para a minha pergunta: a explicação tonta e a explicação verdadeira. E que se eu estivesse perguntando só por perguntar ela me daria a explicação tonta, mas, como eu realmente queria saber, ela me daria a explicação verdadeira, que dava um pouco mais de trabalho para explicar porque era muito mais simples.

Mas eu tanto tanto tanto queria saber que pedi para ela me dar as duas explicações – a verdadeira e a tonta também.

Ela achou justo e começou.

A explicação tonta é que as formigas tinham uma substância pegajosa nas patinhas que facilitava a aderência delas à parede. Assim como a gente produz cuspe pela boca, as formigas produziriam uma espécie de cuspe pelas patas, e esse cuspinho formigal era o que as fazia escalar qualquer parede sem a menor dificuldade.

O problema da explicação tonta é que vai ver ela nem estava totalmente errada. Ela, minha mãe, não entendia nada de formiga – vai ver as bichinhas têm mesmo um grude nas patas. Mas, mesmo que o grude fosse uma realidade, certamente não era esse o motivo pelo qual as formigas não caíam das paredes, disse minha mãe muito séria.

Então ela anunciou que ia começar com a explicação verdadeira, mais simples e mais difícil de explicar. Eu me concentrei bastante para tentar entender.

Ela fechou bem a mão e disse:

– Olha aqui pro meu punho. O meu punho é a Terra. Você sabe o que é a Terra?

– É o mundo.

– Sim, o mundo. Então faz de conta que minha mão é o mundo e eu sou uma criatura gigantesca no espaço sideral. Qual é o seu tamanho nesse mundo?

– Se o mundo é o seu punho eu… eu sou só uma formiguinha.

– Isso, o mundo está cheio de formiguinhas – de pessoas. E elas estão no mundo todo, você sabe, né?

– Claro que sei! No mundo todo, menos onde é muito frio e onde é muito quente.

– Muito bem. Agora eu, criatura gigantesca do espaço sideral, estou vendo você aqui no meu punho, bem pequenininha, uma formiguinha dependurada de cabeça pra baixo. E você não cai! Por que, você pode me explicar?

É que na época eu não conhecia a música, mas se conhecesse certamente teria dito que minha cabeça ficou rodando de uísque com guaraná, de tão impressionada que fiquei:

– Mas então quer dizer que eu sou uma formiguinha de cabeça pra baixo no mundo? 

– E por que não?

Pensando bem, de fato não havia problema algum naquilo. Menina, formiga, de pé, de cabeça pra baixo – eu continuava sendo eu mesma. O problema ali era outro.

– Tá bom, eu sou uma formiguinha de cabeça pra baixo, mas então por que eu não caio do mundo?

Minha mãe suspirou e perguntou:

– Já ouviu falar num negócio chamado gravidade?

Eu nunca tinha ouvido falar. Depois de xingar a minha escola, minha mãe explicou que gravidade era uma força de atração que a Terra exercia sobre tudo o que tinha em cima dela.

– É por isso, por exemplo, que quando a gente pula a gente não sai voando – porque a Terra atrai a gente de volta pro chão. E é por isso que as formiguinhas de cabeça pra baixo no meu punho não caem – porque a Terra está exercendo a força da gravidade sobre elas. Entendeu?

Para ser bem sincera, eu ainda estava um pouco impressionada com o fato de viver de cabeça pra baixo sem nem saber disso.

Nessa hora minha mãe me abraçou e me deu um beijo.

– Mas é isso mesmo. Você não sabe que está vivendo de cabeça pra baixo. Você está apenas vivendo. Sou eu, a criatura gigantesca do espaço sideral, que estou vendo isso e estou dizendo. E tem mais, hein? Outra criatura gigantesca do espaço sideral (seu pai) pode chegar lá da cozinha, inclinar o pescoço e ver o meu punho de modo que a formiguinha Camila esteja no topo e a formiguinha japonesinha é que esteja de cabeça pra baixo. A isso chamamos perspectiva, filha.

Eu confesso ter ficado um pouco aliviada em pensar que vai ver eram as crianças japonesas que estavam de cabeça pra baixo e não eu.

Mas o alívio logo cedeu lugar a uma sensação muito mais interessante – aquele arrepio de quem descobre uma coisa nova, uma novidade que sempre esteve bem debaixo do seu nariz e você nunca se dera o trabalho de perceber.

– Então a formiga também não sabe que ela às vezes fica de cabeça pra baixo?

Minha cabeça voltou a rodar mais que os casais. A formiga, afinal, estava apenas vivendo a vida dela. Ela não sabia que subir na parede ou no teto era mais extraordinário do que andar pelo chão. Para ela, tudo aquilo era apenas o chão – apenas o mundo. Da mesma forma eu, que estava aqui me achando muito normal caminhando pelo chão da sala quando de repente alguma criatura gigantesca do espaço sideral estava se perguntando agora mesmo como é que eu conseguia me manter agarrada ao mundo sem despencar espaço afora.

Então eu torci para que a criatura gigantesca do espaço sideral tivesse uma mãe como a minha, que lhe pusesse no colo e lhe falasse de grudes, perspectivas e gravidades.

Eu poderia encerrar este post com alguma enfadonha lição de moral sobre a diferença entre explicações tontas e verdadeiras, mas o que eu queria mesmo dizer é que sinto muita saudade da minha mãe.

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33 comentários sobre “Por que as formigas não caem

  1. Sinto muito, Camila. Não sou capaz de imaginar a falta que vc sente da sua mãe. Mas posso te dizer que admiro a simplicidade (aparentemente tão sincera) com que vc explica isso ao seu leitor. Consegui até sentir uma ponta de saudades daquele momento de vcs duas.
    Já te disse inbox outro dia, e repito aqui, ler vc é muito bom. Abraços.

  2. E eu só queria te dizer que esse texto me fez chorar e desejar, do fundo do coração, que eu um dia tenha dado uma explicação dessas pra minha flha, Camila. Quero ser uma mãe pelo menos parecida com a sua. Um beijo pra você.
    Helê

    • Helê, a gente se conhece super pouco, mas uma coisa eu posso dizer: lendo os seus textos e posts, desconfio fortemente de que você dê altas explicações pra Jubs, todos os dias <3 Um beijo pra você também!

    • E a paciência deles? Pra carregar na cacunda, pra explicar a força da gravidade. Teu pai e minha mãe, olha, eles mandavam bem :)

  3. Cam, fico lendo isso e pensando como seria tão lindo que você escrevesse livros pra crianças. Que dizem assim, coisas tão profundas desse jeito tão simples. E, claro, elas vão ler, e ficar impressionadas, e não vão entender a referência ao uísque com guaraná nem à cabeça que rodava mais que os casais. Vai ser uma imagem, um brilho engraçado do texto. E, quem sabe, um dia vão ouvir a música e vão se dar conta que já conheciam aqueles trechos. Do seu livro.
    Beijo grande.

    • Ô, Rê, que comentário mais lindo <3 Sabe que o meu livro preferido da Clarice é um infantil, né – e tem uma hora em que ela diz algo como "se você não conhecesse esta palavra, peça para um adulto lhe explicar o que é". E minha mãe, que estava lendo o livro para mim, caiu na gargalhada ao ler esta frase (claro que eu não conhecia a tal palavra). Fiquei pensando que a tal frase, hoje, teria de ser um pouco diferente. Acho que eu diria "se você não conhece esta música, põe 'dois pra lá dois pra cá' no youtube". Obrigada pela leitura tão generosa e atenta, querida!

      • Poxa, Camila, acho que a Renata tem razão … Já pensou em escrever um livro infantil? Acho que seria incrível … (com certeza eu compraria para os meus futuros filhos). E esse infantil da Clarice que vc falou, eu não conheço mas vou procurar correndo!

        • Thaís, chama-se A Mulher Que Matou Os Peixes – como citei aquela frase de cabeça, por favor considere que há 95% de chances dela pertencer a outro livro em vez deste. Independentemente disso, o livro é o máximo e recomendo-o demais.

          • Valeu, Camila. E independente da frase Clarice é sempre Clarice <3 , de qualquer jeito vale a pena ler!

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  6. Perdi um familiar recentemente e… ah, sabe quando o texto chega no momento mais propício a lágrimas?

  7. Hoje tem tudo pro dia acabar tão chato como começou, mas, pelo menos agora, que terminei de ler o texto, tenho um sorriso no rosto – e que saudades de minha mãe! que saudades de minha infância!

  8. apoio a Renata. Uma das coisas que mais me encanta é a que eu “reencontro”, que um dia li ou ouvi num filme que ainda não conseguia entender e depois, tchanrã.

    mas meu comentário verdadeiro é: também sinto falta das mães e dos pais de vocês (sua, do Mayco, da Rê) não como vocês sentem, mas por vocês sentirem e eu sentir vocês… e me dá uma dor fina e assustadora das saudades que vou sentir e que, talvez, nunca consiga dar forma ou letra.

  9. Ô Camila, obrigada por nos botar no colo e explicar essas coisas do sentimento… Que boniteza de texto, menina!

    Ah! Acho que vc herdou o talento da sua mãe!

  10. Lembro, com saudade, de uma das observações de sua mãe. Quando iniciei as aulas de piano com você, pedi que ela comprasse um metrônomo pra gente e ela disse que você tocaria seguindo as batidas do seu coração, metrônomo pra quê ? Mesmo assim, ela comprou.
    Saudades também.

    Um grande beijo,
    helô

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