1,7%

Você passa a vida tentando ser educada e simpática e razoável com todo mundo, na medida do possível. E passa a vida tentando escolher pessoas educadas e simpáticas e razoáveis – como atributos mínimos, critérios básicos – para se relacionar de volta.

E aí você percebe que – oh meu deus! –, mesmo sendo educada (certamente) e simpática (um pouco) e razoável (talvez), há quem não goste de você. Ou melhor – não gostar é da vida, estou falando de coisa mais forte. Você percebe que há quem *desgoste ativamente* de você.

Então você se lembra de que:

Você é ateísta (e não ateia, porque ateia é uma palavra muito feia, apesar de que geleia, que rima com ateia, é uma palavra linda).

Você é contra Belo Monte, a favor do aumento do IPTU em bairros ricos (inclusive no seu), a favor de destruir a santa quando o Papa tá passando e a favor de cotas raciais em tudo quanto é canto.

Você é a favor da legalização de todas as drogas ilícitas e a favor da popularização de todos os relacionamentos moderninhos, apesar de não ser praticante nem de uma coisa nem de outra.

Você não comemora a prisão do Zé Dirceu nem tampouco vai estourar aquela champanhe quando o Sarney morrer.

Você é a favor da legalização do aborto, é contra uva passa na comida e não acha graça em humor politicamente incorreto.

E você ainda estranha que alguém “ativamente desgoste” de você?

Pesquisas mostram que 98,3% dos brasileiros te excluiriam do Feissy, te bloqueariam no Tuíto e orariam toda noite pela salvação da sua alma, se apenas soubessem o tipo de pessoa que você é.

Então, bem – então você deixa de mimimi.

Então você cresce.

E lembra que a vida, a vida de verdade, acontece no 1,7%.

P.S. Post inspirado em – e plagiando um – e-mail do Paulo Candido (que, se você for do 1,7%, você provavelmente sabe quem é).

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35 comentários sobre “1,7%

  1. Não sou contra uva passa na comida nem sei quem é Paulo Candido. Sou a minoria da minoria e só estou aqui por causa da cota. =P

  2. ah, que amor esse texto, Cami!
    Eu continuo te amando, mesmo que vc não goste de uva-passa :-)
    Beijos!

  3. Menos é mais, não é mesmo? (risos) Grande abraço. P.S.: acho que não me conhece, pois é a primeira vez que comento por aqui. Eu recebo os posts por email, compartilho quando o assunto é muito bom, como no caso da discussão do machismo etc e tal. Bom, era isso! Sucesso e sigamos!

  4. Parte do 1,7% que sabe quem é o Paulo Candido, apoia tudo o que vc postou acima (incluindo algumas das práticas heterodoxas) e só lamenta que você não goste de uva passa na comida se apresentando.
    Rezarei pela salvação da sua alma ;)

    • Na minha família também – uva passa sempre foi comida chique de quando vinha visita. Sou mais pão com mortadela mesmo, viu.

  5. Meu deus (com minúsculas, já que sou ateu), quem diabos será esse tal de Paulo Cândido que vai me transformar em minoria privilegiada?

    • Recomendo Paulo Candido sem restrições, para pessoas dos 8 aos 80 anos, de todos os gêneros, inclinações religiosas e orientações sexuais :-)

  6. Camila,
    Ainda que eu me posicione de forma idêntica a você, sem tirar nem por (atualmente até em relação as passas), eu prefiro me definir como atéia, acho o feminino da palavra ateu bem bacana…
    Mas acho que os 1,7% são delírio… pesquisa mentirosa, propaganda enganosa. Claro que devemos nos louvar e assumir em alto e bom tom aquilo que somos, que acreditamos, que sentimos, que pensamos, que escolhemos etc..etc.. etc… Mas o lance, o grande lance, é a conversa na grande roda. Com o público todo. Coisa mais chata a vida em comunidade de iguais… Tem uma hora que os filhos começam a nascer mancos. Enfim, reconsidere. O momento é o de incluir e se abrir para os 98,3%… O prazer virá dali, as verdadeiras vitórias, o aprendizado e o grande sentido de estar vivo. A posição do isolamento, do auto-exílio entre irmãos, repõe energias, diverte, mas não muda nada e não melhora ninguém.

    Você não é pessoa que vai se abster de uma boa disputa a céu aberto, para todo mundo ver, e este blog nos deixa certos disso. Então se assuma nega, libera a franga e corre para o abraço dos 98,3% pois o mundo está precisando de ação de verdade.

    Claudia

    • Claudia, longe de mim desprezar os 98,3% – acho que a gente oscila, né, tem momentos de se fechar na bolha e tem momentos de se abrir para o universo. Mas (na minha cabeça) o post é menos sobre essa oscilação do que sobre o que li uma vez numa frase de caminhão: “Nem Jesus agradou a todos”. Sim, devemos nos abrir para os 98.3% – mas devemos também aprender a aceitar o fato de que boa parte dos 98.3% não se abrirá para nós. Beijo grande e obrigada pelo seu comentário.

  7. ahahah.
    até com a uva passa na comida eu concordo. se bem que gosto de castanha no arroz… contraditório? e, sim, sei quem é o Paulo Cândido! Acho que esse “nosso” 1,7% é bem interessante, cê não acha?

  8. Tb acho que geleia, mesmo tendo perdido o acento, é a única palavra bonita de todas que terminam e éia. Passa na comida, nada contra. Sei quem é Paulo Candido.

  9. Camila, conheci seu blog recentemente pelo texto sobre o racismo, a Fernanda Lima, a Fifa, o conselho da sua vó, ah quase esqueci o Primo Levy, que também teve uma participação fundamental na história! Fazia tempo que não lia um texto tão bom! Sobre o assunto foi definitivamente o melhor e mais bem escrito! Foi particularmente bom encontrar alguém que partilha ideias semelhantes (não sabia dessa história de 1,7%, confesso que fiquei meio desolada, esperava pelo menos uns 10%!). Diferimos em alguns pontos, obviamente. Vc tem problema com uva passa, eu com azeitonas, eu não tenho vontade de quebrar santa, porque aliás nem estava sabendo que o papa ía passar, fiquei alegrinha com a prisão de José Dirceu e vou ficar aliviada com a partida do Sarney, mas definitivamente sou a favor de cotas raciais em tudo quanto é lugar, da legalização do aborto e de aumentar todos os impostos para quem pode pagar (cadê os impostos sobre grandes fortunas?). Ah, e sou feminista de carteirinha e, definitivamente ODEIO piada ofensiva a qualquer minoria. Pelo pouco que conheci até agora, tornei-me sua fã, admiradora de seu talento, mas sobretudo de sua coragem. Parabéns pelo seu blog! (ah, tente fechar os olhos e ouvidos para os comentários tolos e maldosos! “Eles não sabem o que fazem”, nem o que dizem!). :-) Abraços, Juliana.

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