Precisamos ouvir sobre sexo

Escrevi ontem mais um post sobre “revenge porn” (não gosto desse nome, mas ele tem a considerável vantagem de ser mais curto do que “fotos e vídeos íntimos compartilhados sem a autorização da mulher”). A frase mais importante do meu post de ontem é:

“Eu não tenho contato atualmente com nenhum adolescente sequer.”

Em todos os textos que li sobre esse assunto – a começar pelos meus -, não vi até agora ninguém que se dispusesse a, de fato (ênfase no “de fato”), ouvir o que os adolescentes têm a dizer a respeito.

Em compensação, um comentário comum é:

“Por que as meninas se submetem a esse tipo de coisa? Não sabem que estão correndo um risco ao expor sua intimidade para as câmeras? Por que, afinal, essa moda agora de filmar e fotografar a transa? Na minha época, não tinha nada disso! Será que essas moças não sabem que ‘suas vidas podem ser destruídas’? Não sabem que correr esse risco não vale a pena?”

Em primeiro lugar, eu diria que propagar a ideia de que “vidas são (ou podem ser) destruídas” é marcar um gol contra: é reforçar a ideia de que o revenge porn é algo tão mas tão humilhante – e que uma imagem de uma moça transando tem tanto mas tanto poder de destruição -, que frente a esse terror todo o suicídio torna-se uma alternativa, se não desejável, pelo menos plausível.

Em segundo lugar, entendo perfeitamente que você não queira se deixar filmar ou fotografar durante o sexo: em se tratando de relações sexuais, esta é uma possibilidade tão legítima (e potencialmente prazerosa) quanto qualquer outra.

Mas, por favor, considere que sempre haverá quem queira. E querer é um desejo tão legítimo quanto não querer.

Considere, acima de tudo, que se estamos discutindo o caso de jovens mulheres que escolheram ter suas relações sexuais filmadas ou fotografadas [longo suspiro e pausa para uma maravilhosa citação]: não é sobre você que devemos falar. Não são os seus valores nem a sua época que estão em jogo. Não importam as suas práticas sexuais, os seus costumes, a sua opinião sobre o que é “de bom senso” e o que não é. Não adianta dizer que na sua época, quando você era adolescente, não era assim. As coisas mudaram e, fundamentalmente, o foco não é você. As mulheres que estão passando pela experiência de ter a própria intimidade exposta contra a sua vontade são ou adolescentes ou muito jovens. E é a experiência delas (e dos meninos também) que não estamos sabendo ouvir.

Estamos tão chocados que, por vezes, simplesmente balançamos a cabeça de um lado para o outro e dizemos: “esses jovens de hoje em dia fazem cada uma, tsc tsc”. Mas desde que o mundo é mundo, os “jovens de hoje em dia” fazem coisas que os jovens de outrora consideram estranhas e incompreensíveis – e graças a deus continuarão a fazê-las.

Se nós, os velhos jovens de outrora, quisermos realmente oferecer algum apoio aos jovens de hoje em dia, a primeira atitude a tomar não é sair dizendo o que eles devem ou não devem fazer. (Especialmente em se tratando de um assunto tão delicado quanto sexo! Você gostaria se lhe dissessem “olha, eu sei que você gosta de transar na posição X, mas você está errado: a posição Y é melhor pra você”? Então por que você acha que um adolescente gostaria de ouvir você dizer que a transa dele deve ser assim ou assado?)

A primeiríssima coisa a fazer é, simplesmente, ouvir.

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6 comentários sobre “Precisamos ouvir sobre sexo

  1. É preciso se libertar de todas as amarras e compreender que as pessoas são diferentes e os gostos ou desgostos de cada um não devem ser ditados por terceiros. É tarefa de cada indivíduo se descobrir e seguir, na medida do possível, aquilo que sua personalidade determina. A sociedade está impregnada de valores que, na verdade, mais parecem símbolos de opressão e desconsideração da real liberdade que, em tese, pertence a cada ser humano. Machismo, patriarcado e tantas outras ideologias criadas com a finalidade de impor limites ao livre desenvolvimento das personalidades já estão deveras ultrapassados e precisam der substituídos por um modelo novo de pensamento.

  2. No seu post sobre o assunto Lola comentou que antigamente não se filmava, mas se falava bastante. Acho que essa coisa dos vídeos é só a ”evolução” natural do que antigamente eram as conversas de bar com homens comentando ”comi, faz isso, aquilo etc” por causa da facilidade de se ter celulares com câmera. Ou seja: a unica novidade é o vídeo em si, a mentalidade de não preservar a intimidade da mulher deve ser tão antiga quanto o patriarcado.

  3. Pingback: O último revenge porn da história « AlineValek

  4. Se as pessoas não dessem tanto ataque de pelanca ao ver a periquita da vizinha no WhatsApp, ninguém ia se sentir tão humilhado ao ponto de querer se matar. Mas não, vamos apontar e julgar, porque ela fode e eu não ¬¬

  5. Você tocou no ponto crucial da questão. Excelente! A propósito, adorei o último conselho (A primeiríssima coisa a fazer é, simplesmente, ouvir.), serve para todas as circunstâncias da vida! Bjs,

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