Precisamos falar sobre sexo

Um minuto depois de publicar este post, confesso ter sentido uma vergonhinha: cá estou eu dizendo indignada que o machismo é feio, bobo e cabeça de melão *suspiros*. Eu não vou dizer que isso é intelectualmente raso porque ainda acho que é muito necessário – esse discurso pode parecer clichê para você que está me lendo e que lê pessoas modernetes da internet, mas no mundo lá fora, aquele mesmo onde Feliciano é presidente da Comissão de Direitos Humanos do Brasil, este discurso não só não é clichê como ainda é (tristemente) muito necessário.

Mas eu vou dizer, sim, que esse discurso é insuficiente.

Não cheguei a me arrepender de ter escrito o post, mas acho que me arrependeria se o deixasse parar por ali. É preciso continuar falando, conversando – mesmo que não se tenha (como é o meu caso agora) nenhuma ideia clara a respeito.

Eu não tenho contato atualmente com nenhum adolescente sequer; então, tudo o que vou escrever a seguir é pura especulação, com base em duas informações que me chamaram a atenção esses dias:

1) Campanhas anti-anorexia podem estimular a anorexia (o que não é nada surpreendente, se lembrarmos que o “diga não às drogas” estimula o consumo de drogas e que a gravidez na adolescência é muito mais comum entre adolescentes que foram criados em religiões ferrenhamente anti-sexo). As campanhas de saúde pública anti-anorexia costumam mostrar mulheres assustadoramente magras que morerram logo depois, numas de “se você virar anoréxica olha só o que vai acontecer”. E o ponto é que as meninas que já têm alguma predisposição a transtornos alimentares transformam aquela mulher num modelo a ser atingido, numa heroína romântica, num exemplo de determinação, superação e contestação dos padrões da sociedade. Ou seja: se a mensagem que se deseja passar é “anorexia leva à morte, não faça isso”, a mensagem efetivamente recebida é “ser anoréxica é ser rock star”.

2) O Paulo contou aqui no blog que já tem gente dizendo: “a moda agora é sair pelada na internet e depois se matar”.

Acho que não é preciso dizer que este tipo de comentário é dos mais deploráveis e asquerosos que já li na internet – e olha que já li muito comentário de portal na vida.

Mas o que é mais assustador nesse comentário é que ele pode, sim, comunicar uma verdade que talvez não estejamos preparados para ouvir.

Enquanto nos horrorizamos e escrevemos posts tipo “olha só o que aconteceu com essa menina cujo vídeo íntimo foi compartilhado, a menina se matou, pqp que sociedade machista horrorosa a nossa!”, a mensagem que queremos passar obviamente é “pqp que sociedade machista horrorosa a nossa”. Mas fico pensando se a mensagem que efetivamente está chegando para muitas meninas com a divulgação desses suicídios não é outra: talvez a mensagem que chega é que se matar é uma opção possível e válida num caso desses.

E outra: por mais que sempre tomemos o cuidado de dizer que o problema não são as fotos e vídeos em si, que dar vazão ao desejo é OK, o problema é o cara compartilhar os registros depois… Estamos tentando dizer isso, eu sei, mas será que a mensagem que chega, cada vez mais, não é outra? Será que não estamos comunicando que fotos e vídeos íntimos são, em si, tremendamente poderosos e perigosos – e, justamente por isso, “proibidos”, da mesma forma que “proibidas” são as drogas?

Com isso, fico pensando se o escarcéu que estamos armando com esses casos (escarcéu este absolutamente compreensível, claro: estamos todos horrorizados) não acaba transformando as tais fotos e vídeos íntimos em algo imenso e perigoso, quando deveríamos tentar transmitir a ideia de que são um fato comum e banal da vida (voltarei a este ponto mais adiante). Pensem nestas possibilidades:

– Será que fotografar a transa não virou ou está virando o novo transar sem camisinha – isto é, uma coisa que se sabe arriscada e perigosa e, por isso mesmo, extremamente atraente? Acho que a questão não é explicar para as meninas “veja bem, cuidado que o cara pode te ferrar depois”. Não, acho que é precisamente o contrário. Você acaba topando tirar as fotos justamente porque o cara pode trair sua confiança depois. Correr esse “risco” – por que não? – pode ser excitante.

– As fotos viram uma espécie de prova de amor e/ou de confiança. Será que um menino adolescente não se sentiria “traído”, de certa forma, se sua namorada se recusasse a se deixar fotografar por ele? “Como assim você não quer que eu te fotografe, você não confia em mim?” Será que esse tipo de chantagem emocional ocorre entre adolescentes? Como eu disse, não conheço nenhum adolescente, mas acho essa hipótese provável.

Agora chega a parte impossível do post: a parte do “mas e daí? o que fazer?”. E eu vou arriscar aqui duas ideias:

– Ninguém precisa ter estudado Freud para saber que nossa sociedade é narcisista num grau nunca antes visto na história deste mundo (beijo, Lula): somos todos caçadores de likes no Facebook, somos definidos pelas múltiplas aprovações e rejeições alheias. Tiramos foto de cada passo e cada sorriso das nossas crianças; foto do nosso “look do dia”; foto da nossa comida; foto dos nossos cachorros; foto dos nossos gatos; foto do show de rock; foto da missa; foto do funeral; e colocamos tudo isso no instagram. Por que é que justamente o sexo, uma atividade no mínimo tão importante quanto todas essas outras, iríamos deixar de fotografar e compartilhar? Fotos de gente transando, vale lembrar, serão cada vez mais a regra em nosso mundo. [Antes que alguém me acuse de “defender o opressor” ou qualquer besteira do tipo: sim, é claro que o homem que compartilha a foto íntima de uma mulher contra a vontade dela está errado e é um escroto. Não é isso que está em discussão. Apenas estou chamando a atenção para o fato de que ele não é um escroto criativo e original: ele é um escroto típico do nosso tempo.] Meu ponto é: em vez de contribuirmos para transformar fotos e vídeos íntimos em bichos de sete cabeças, precisamos começar a vê-los como o que realmente são: fotos toscas de instagram. Fotos não mais toscas e banais do que fotos de bolos de chocolate ou de gatinhos fofos. “Ah mas é sexo, né, então é diferente”. Sim, mas a necessidade do olhar do outro – seja para o seu bolo, seu gato ou sua performance sexual – é rigorosamente a mesma.

– Imagino que minha tese já tenha ficado clara: estamos contribuindo inadvertidamente para a fetichização de fotos e vídeos íntimos. É como se, hoje, a coisa mais depravada que se pudesse fazer durante o sexo fosse fotografar e ser fotografado. E, gente, por favor. Não me interessa combater esse fetiche em si – mas me interessa, sim, combater a ideia de que este seja ou tenha que ser o único e/ou principal fetiche. Eu não quero viver em um mundo em que a maior sacanagem que eu possa fazer durante o sexo seja tirar fotinha. O sexo, muito mais do que a zuêra, não tem limites. Existem infinitas possibilidades de práticas e delícias e maravilhas sexuais a se descobrir e realizar, e um adolescente está apenas começando a explorar este universo.

– Eu acho, em suma, que um dos caminhos possíveis é falar mais sobre sexo. Com mais gosto e mais vontade. Mais biscatagem e mais zuêra. Sexo, afinal, não é uma coisa para ser levada assim tão a sério. Lembro de uma entrevista em que o baterista T. S. Monk se queixava da seriedade e da sisudez de jovens músicos preocupados em “resgatar a tradição do jazz” e coisas assim. Ele disse algo que nunca esqueci: “olha, eu vou dizer o que é um assunto sério – a guerra é um assunto sério. Quando estou tocando, eu quero é me divertir”. E é isso. É tão isso. Sexo não é para ser “encarado com responsabilidade”. Vamos deixar a responsabilidade para a hora de pagar as contas, gente. Sexo é para desfrutar, gozar, se divertir e se apaixonar.

Tenho impressão de que esta é a mensagem tão simples – e tão difícil – que todos esses nossos posts de revolta não estão conseguindo comunicar.

* Post inspirado neste. Porque a coisa mais importante que a Mary W. já me ensinou é que é preciso, sempre, continuar a pensar.
Anúncios

12 comentários sobre “Precisamos falar sobre sexo

  1. Concordo demais com você e entendi bem o ponto. Lembrei da história de uma moça, já adulta, que teve fotos dela nua (mas não transando) vazadas por um ex e os amigos fizeram um blog de apoio em que todo mundo posava fotos nuas – os rapazes e as moças. Pra banalizar mesmo a nudez, pra aquilo deixar de ser algo escândaloso. Quer dizer, sobre a babaquice do cara a gente pode ter menos controle, mas podemos atuar no discurso posterior com “ok, é horrível, é uma merda, mas e daí?”. No futuro cada vez mais gente vai ter foto trepando espalhada por aí. E nosso esforço tem que ser pra deixar claro que a maior parte das pessoas adultas ou trepa, ou gostaria de trepar, então não tem nada desabonador nessas imagens – o que não diminui em nada o quão grave é a atitude de vazer esse tipo de coisa. Ter foto sua trepando espalhada por aí não pode ser definidor de absolutamente nada.

    • Iara, acho que toda dificuldade está em COMO dizer esse “ok é horrível mas e daí” sem desconsiderar o sofrimento do outro. Talvez uma formulação melhor seja “ok é horrível mas passa”. Porque, ao que parece, essas meninas que se mataram em nenhum momento acreditaram que ia passar.

      Tenho uma amiga que é professora de crianças bem pequenas, e ela conta que, quando as crianças chegam à escola pela primeira vez, frequentemente têm a sensação de que foram abandonadas ali e a mãe não voltará n-u-n-c-a-m-a-i-s. E aí todo o trabalho dela é tentar situar essa criança no tempo, digamos. Ajudar a criança a circunscrever aquela experiência terrível num período limitado de tempo, que tem hora pra acabar. “Sua mãe foi embora, é verdade, mas ela vai voltar” – a estrutura dessa frase é a mesma de “Aconteceu uma coisa horrível com você (revenge porn), é verdade, mas vai passar”. E me parece que adolescente também tem isso, de não ver com muita clareza que as coisas têm um fim (aliás, esqueça adolescentes – pense em qualquer um de nós, adultos, no fim de um namoro. A sensação é de terror infinito mesmo).

      Mas voltando – como mostrar para os adolescentes, da forma menos professoral possível, que as coisas PASSAM? Essa é uma pergunta que não para de ressoar na minha cabeça.

  2. Pingback: Precisamos ouvir sobre sexo | Recordar, Repetir e Elaborar

  3. acho q pode ser uma solução. vamos começar uma onda gigantesca e mundial, viralizada, de fotos transando. penso mesmo em algo que ultrapasse as fotos de gatinhos, de pratos e de drinks. todo mundo postando sexo. até eu, uma anônima, to topando.

  4. Pingback: “Pornô de revanche” leva a morte trágica de duas garotas no Brasil · Global Voices em Português

  5. Uau…não sei..li e comecei a falar “não não e não” e agora é um grande “não sei”…e isso é bom. A dúvida e questionamento nos faz crescer…

Os comentários estão desativados.