Coisa de adulto

Como vivem os adultos? Essa é uma pergunta que, sem que eu a formulasse explicitamente, passei boa parte da minha infância tentando responder. O que é que os adultos fazem detrás das mesas abarrotadas dos escritórios e das portas fechadas dos quartos? Quantos mistérios haveriam de se esconder por entre pilhas de papéis, carimbos e post-its? Quantas coisas estranhas haveriam de acontecer no quarto dos meus pais quando eles mandavam eu ir dormir no quarto da minha avó?

Agora tenho mais de 30 anos e, já ouvi dizer, sou adulta.

E descobri que todas as coisas que eu achava que eram de adulto são de uma facilidade inenarrável, uma estupidez tremenda, uma simplicidade atroz.

Eu achava que a vida dos adultos consistia em atividades como namorar, trabalhar, cuidar da casa, do cachorro, do filho.

Não que eu estivesse propriamente errada. Os adultos realmente fazem tudo isso, é verdade. Eu mesma, inclusive, tirando a parte do filho e do cachorro, faço todas essas atividades.

O que eu não sabia é que elas não eram nada diferentes de tudo o que eu fazia aos cinco anos.

Consideremos as atividades de trabalhar e cuidar da casa:

Aos cinco anos, eu ia à escola todos os dias e já fazia lição de casa. No que isso é diferente do meu trabalho hoje? Só o que mudou é que, em vez de empilhar bloquinhos e recortar e colar figurinhas, eu hoje empilho, recorto e colo palavrinhas – mas, em essência, é tudo a mesma coisa.

Aos cinco anos, eu já arrumava o meu quarto. Hoje eu arrumo cerca de metade de uma casa inteira (a outra metade quem arruma é meu marido). Meia casa é aproximadamente o dobro de um quarto só, mas hoje eu tenho o dobro do tamanho que tinha aos cinco anos – nada mais justo que o tamanho do espaço a ser limpado tenha dobrado também. Ou seja: também aqui não mudou nada.

Trabalhar o dia inteiro, fazer almoço, lavar a louça, sofrer com os textos a serem escritos, morrer de culpa com os textos que não foram lidos: tudo isso, qualquer criança de cinco anos faz (basta ela já ter uns vinte ou trinta anos nas costas).

O que nunca me contaram é que ser adulto é coisa muito diferente disso tudo e não tem a ver com o que os adultos dizem que fazem. (Os adultos, acima de tudo, mentem.) Os adultos, a se fiar no que eles próprios contam, acordam cedo, trabalham, brigam com o chefe, assistem novela, reclamam no tuíter e vão dormir. Mas nada disso contém a essência do que é um ser humano adulto formado e completo.

Um ser humano adulto formado e completo faz e resolve coisas que combinam determinados substantivos e determinados verbos:

– recibo, darf, declaração, cadastro, inventário, formulário, retificação, rubrica, visto, imposto, via, firma, nota fiscal, nota fiscal paulista; 

– preencher, assinar, datar, autenticar, arquivar, estornar, documentar, dar baixa.

Ainda não entendi muito bem em que consistem essas coisas de adulto, mas já deu para perceber que elas geralmente envolvem estes substantivos e estes verbos, quase sempre no futuro do gerúndio. Por exemplo:

O adulto vai estar preenchendo a retificação do visto.

O adulto vai estar dando baixa no cadastro da nota fiscal paulista.

O adulto vai estar assinando o formulário da rubrica.

Sempre que vejo anúncios prometendo amores perdidos em poucos dias, pênis gigantescos em poucas pílulas ou um inglês perfeito em poucas semanas, suspiro de impaciência: até hoje, nunca vi o único anúncio que certamente incitaria meu clique imediato:

RESOLVO COISA DE ADULTO EM TRÊS HORAS 

É o que eu mais queria na vida. Não um milhão em barras de ouro, uma barriguinha sarada ou uma casa no campo do tamanho ideal: apenas alguém que resolvesse coisas de adulto para mim, só isso.

Mas, ao que parece, é mais fácil realizar o sonho de ter um milhão de casas de ouro ou uma barriga do tamanho ideal do que resolver coisa de adulto.

Então, sigo com minha agradabilíssima vida de criança – lendo texto, escrevendo blog, escrevendo tese – tudo para adiar o terrível instante de encarar as coisas de adulto, que pelo menos têm o mérito de desnudar toda a minha impotência e insignificância no mundo. 

Algumas pessoas combatem o próprio narcisismo olhando para o céu e pensando que são apenas um pontinho irrelevante no universo.

Consigo o mesmo efeito contemplando um cartório ou uma agência bancária.

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21 comentários sobre “Coisa de adulto

  1. Camila, meu pai faz minhas coisas de adulto. No dia que ele morrer, trasnfiro automaticamente pra um dos meus irmãos. Nasci velha mas uma velha que nunca soube fazer nada de adulto.

    • Minha tia faz a maioria das minhas coisas de adulto também – as poucas que ela não faz são suficientes para me deixar em pânico.

  2. sou igual a você. E acho que vou ser assim pro resto da vida. Meu sonho de ter grana era contratar uma secretária ou secretário pra resolver coisas de adulto pra mim. Como não dá, alugo muitos adultos à minha volta.

    • Exatamente. Acho que deve ser a única coisa boa de ser uma celebridade, por exemplo. Se vc é suficientemente célebre, certamente haverá um encarregado de cuidar das coisas de adulto pra você. Morro de inveja.

  3. Lembrei-me de que quando tinha 26 anos, minha prima de 14, num almoço na casa de minha avó, vira pra mim e me pergunta “Daniel, como é ser adulto?”.
    Aí eu, cidadão com menos de 30 mas já separado, na batalha, pagando DARF (eu tinha um ME na época), aluguel e o escambau, numa fase meio niilista da vida, percebi que nunca tinha parado pra pensar que para alguns, eu já era adulto.
    Como eu não quis azedar as perspectivas da minha prima logo no começo de sua adolescência, me saí com essa (e acho que acabei mandando bem):

    – Ser adulto, Amanda, é poder tomar sorvete antes do almoço. :p

  4. Ser adulto é ser obrigada a passar 8 horas dentro de um escritório, mesmo quando não se tem nada de importante a fazer. Ser adulto é também poder, em dias assim – de ócio, descobrir blogs como este, tão bom de ler.

  5. Ser adulto é receber dia 10, pagar todas as contas e se ver no dia 20 com 200 reais pra passar o resto do mês. Fim.

  6. Não sei se vc planeja um dia ter ou criar filhos, mas posso te garantir que só depois disso você passa para o “lado de cá” [digo “cá” porque eu tenho dois]. Aí vc já é uma pessoa que precisa cuidar dos outros. Para mim ser adulto é isso, acima de tudo. O resto é acessório até que vc tenha alguém em casa esperando você chegar com o leite e o pão para o lanche.

  7. “É preciso amar,as pessoas como se não houvesse amanhã, pq se vc parar pra pensar… na verdade não há… vc diz que seus pais não o entendem, mas vc não entende seus pais. São crianças como vc, o que vc vai ser, quando vc crescer”…
    Ser adulto é fazer o que seus pais faziam e ter um sentimento de compreensão das ações que eles tinham e vc achava absurdo.
    Ser adulto é ter responsabilidade, mas entender o mundo de outro jeito… é ser criança num corpo maior.
    Sou uma criança grande feliz!
    Andréa Figueira

  8. Eu, definitivamente, não poderia ler isso em hora melhor.
    Nunca tive tantas coisas de adulto pra resolver como nos últimos 5 meses.
    Que saudade da tia da escola.

    Valeu Camilets.

  9. Delícia de texto, Camila. No fundo, sempre me senti uma adulta incompetente por não conseguir definir muito bem o que é “ser adulto”; ou o quê “deve fazer um adulto”. Ou ainda, por não preencher os requisitos necessários de como ser um “bom adulto”. Meu lado emocional que ainda tem 10 anos fica confortável em saber que há outros adultos nem sempre sabendo fazer “coisas de adultos” direito. Meu lado emocionalmente crescido concluiu que o ser adulto continua a ser humano, e que ter dúvidas e dificuldades é ok. =D

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