O problema mesmo é o machismo

O que as pessoas não entendem é que sempre se dá um jeito de botar a culpa na mulher. Se transou, é porque deu, então é puta; se não transou, é porque não quis dar, então é histérica. De qualquer forma, é culpada.

***

Quando eu tinha 17 anos, comecei a receber e-mails me chamando de puta, de vadia e algumas vezes até me ameaçando de morte – e, em anexo, fotos de gente transando. Não era eu nas fotos e nunca ficou comprovada a identidade do remetente, mas faço uma boa ideia de quem seja: um homem com quem não transei, e que ficou xatyado com essa minha recusa.

Esses e-mails e essas fotos me assombraram por anos, e foram enviados não apenas para mim como para várias colegas de faculdade (não sei se alguma delas se lembra disso – provavelmente não). Esse é o único assunto sobre o qual, em três anos de análise, não consegui falar. Cheguei a ir a uma delegacia com meu pai para prestar queixa. Não lembro exatamente o que o delegado disse, mas foi basicamente que 1) essas coisas de internet são difíceis de resolver; 2) eu deveria escolher melhor minhas companhias.

Repare que não era eu que estava nas fotos. E ainda assim. Ainda. Assim. Eu me sentia culpada. Era uma culpa difusa, sem objeto preciso (culpada do quê? de não ter escolhido bem minhas companhias? de mexer com essas coisas de internet, que são difíceis? de não ter transado com aquele homem? de ter transado com outros homens em vez daquele? ou talvez – oh meu deus – de sequer pensar em sexo? as possibilidades eram infinitas.)

Mais de dez anos depois, leio sobre uma moça que se matou depois que fotos dela fazendo sexo foram compartilhadas sem a sua autorização.

Eu não sei nada sobre essa moça, mas posso imaginar algumas coisas.

Imagino que ela tenha ouvido que não há mesmo muito o que fazer com essas coisas que acontecem na internet.

Imagino que ela tenha recebido o sábio conselho de se relacionar com pessoas melhores.

Imagino que ela tenha sentido uma imensa e transbordante culpa.

Imagino que ela tenha se perguntado o que fez de errado – e, na dúvida, talvez ela tenha imaginado que, de errado, ela fez absolutamente tudo.

Sobretudo, imagino que ela não tenha se dado conta do seguinte:

Que a questão não é que ela transou.

A questão é que ela é uma MULHER que transou.

E, em sendo mulher, sempre haverá um exército de gente se sentindo absolutamente no direito (para não dizer no dever) de julgar a sua vida sexual.

(Note-se que, quando uma história envolve o julgamento da vida sexual de uma mulher, o autor é sempre Kafka: a condenação é sempre certa.)

Eu não sei o que fazer, de imediato e concreto, para impedir que novos suicídios como este aconteçam.

Mas talvez fosse um bom começo considerarmos algumas coisas:

O problema não é que ela transou. O problema não é que ela tirou foto enquanto transou. O problema não é que o ex-namorado é louco e/ou mau-caráter e ELA deveria ter arrumado homem melhor. Em suma, o problema não é que ela estava usando minissaia, como costumam dizer em caso de estupro.

O problema mesmo é o machismo.

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13 comentários sobre “O problema mesmo é o machismo

  1. Oi Camila, você focou o ponto central, o grande problema do “macho” é lidar com a sexualidade feminina, que depois de tantos séculos de tabu, assusta mesmo, embora o macho alfa diga que só goza depois que a parceira atinge o clímax , uma tremenda mentira, pois apenas 30% das mulheres conseguem atingir o orgasmo. Mas enfim, o grande problema mesmo é a sexualidade feminina, veja o meu depoimento sobre um lance que aconteceu comigo. http://anaeufrazio.blogspot.com.br/2013/10/tive-dias-de-fran-menina-que-teve-video.html.
    Abraço querida.

  2. Eu soube desse caso e fiquei muito triste. Que bom que existem pessoas como eu, você e muitas outras que entendem parte do que essa criança (sim, ainda era uma criança) passou. O machismo anda desenfreado e ainda é, infelizmente, um tipo de educação muito comum no Brasil e mundo afora. O Justin Bieber veio aqui, uma garota filmou ele dormindo em sua cama. Quem não presta? A menina. O Caio Castro também saiu com uma garota que tirou uma foto com ele. O que ele disse? Que foi ela quem fez o papel de “vagabunda”. O homem sempre sai ileso nessa história. Ele pode, ela não. Até quando? Daí precisa (“precisa”?) uma adolescente MORRER por conta de um absurdo desses pra gente acordar e ter um choque de realidade.
    Abraços.

  3. Coisas absurdas como o que houve com essa menina me tocam como homem. Mesmo que nunca sejamos babacas como o namorado dessa garota, por mais que tentemos, há um machismo intrínseco em nossas atitudes. Conversando com uma amiga, fiquei pensando se ela não tem razão ao dizer que muito do suposto cavalheirismo masculino não é um machismo disfarçado. Por que precisamos puxar a cadeira para uma mulher sentar, será que não é porque enxergamos a mulher como o “sexo frágil”?
    Há tempo não comento algum dos seus textos por falta de tempo (mentira, muitas vezes é por preguiça mesmo, rs), mas sempre os leio. Mesmo que discorde em alguns textos mais explicitamente políticos, os teus textos sempre provocam reflexão, o que infelizmente não é tão comum. Sem puxa-saquismo nenhum, estão faltando colunistas da tua qualidade nos grandes “jornalões” e nas revistas de maior circulação. Justamente por isso parei de ler esses jornais e revistas.

    • Puxa, obrigada, Junior. Deus me livre de escrever o que quer que seja apenas para as pessoas concordarem comigo. Ouvir que meus textos provocam reflexão é um elogio tremendo – obrigada mesmo.

  4. Pior foi ver depois uma besta na internet dizer que agora era “moda sair pelada na internet e depois se matar”. Li um livro excelente do Primo Levi sobre o holocausto em que ele discute com muita pertinência a questão de ver com clareza quem são vítmas e quem são algozes por cima das falhas de caráter de quem quer que seja: “I do not know, and it does not much interest me to know, whether in my depths there lurks a murderer, but I do know that I was a guiltless victim and I was not a murderer.” [não sei e não me interessa muito saber se nas minhas profundezas habita um assassino, mas eu sei que fui uma vítima sem culpa e não um assassino.” Ele fez esse comentário porque ele mesmo fala no seu livro sobre judeus que nos guetos e nos campos de concentração foram covardes e pusilânimes para tentar sobreviver.

  5. Pingback: Obrigada, Alexandra Chong (um post sobre o Lulu) | Revista Wireshoes

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  7. Esse comentário que você menciona é tão apavorante quanto revelador. Citei-o no meu último post – obrigada por entrar na conversa, com Primo Levi e tudo.

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