Uma salada

INGREDIENTES

A alface – Os nacionalistas que me perdoem, mas para esta salada tem que ser a americana, aquela que vem numa bolinha. Primeiro você ranca fora as folhas externas, que são ligeiramente mais escuras (são umas duas ou três folhonas), até aparecerem folhas-médias mais clarinhas e brilhantes. São essas que você vai comer. Lava, rasga com as mãos num tamanho que você considere adequado para a sua boca, escorre. Eu gosto de secar a alface numa centrífuga porque água pode servir para muita coisa, mas como tempero de salada é que não serve.

As ervilhas – Os pão-duros que me perdoem, mas para esta salada tem que ser aquela mais cara, a francesa. Economize na conta do celular, da internet, da TV a cabo, mas na ervilha não economize nada. Pois quando você compra a ervilha barata e abre a lata, invariavelmente metade dela contém apenas a alminha das ervilhas, aquela casquinha branca, e as ervilhas mesmo, em todo seu esplendor de bolinhas verdes, já foram desta para melhor (minha hipótese é que elas morrem e reencarnam na lata de ervilha cara). Uma vez comprada a ervilha superfaturada, você abre a lata e lava. Uma por uma?!, há de me perguntar o cozinheiro inexperiente. Não, companheiro, você apenas despeja um quarto da lata (ou até um pouquinho menos) numa peneira, e taca a peneira debaixo d’água por uns bons dez segundos, chuá chuá. Ao desligar a torneira, as ervilhas vão estar pingando e você vai estar estando com cara de bobo: e agora, o que faço com um bando de ervilhas pingantes? Então você faz o seguinte: equilibra a peneira em cima dum copo e enquanto isso vai cuidar da vida, quer dizer, da sua salada, que enquanto isso toda a água aderida às ervilhas há de encontrar seu caminho até o copo.

O palmito – sua avó lhe ensinou o truque, não? O palmito a gente compra aquele que estiver boiando. Dos palmitos-titanic você foge. Pega o palmito flutuante, lava (esse sim um por um), seca com papel-toalha (de preferência aquele do elefantinho, que é um luxo), e corta em, bem, pra mim um palmito rende umas nove rodelas. Pra essa salada é preciso um palmito e meio. Precisamente.

O alho-poró – a primeira providência a se tomar é jogar fora todo livro de receita e bloquear todo site de culinária que lhe diga que a parte escura do alho-poró não presta pra nada. Uma vez esconjuradas essas fontes de informação menos confiáveis que a própria Veja, você arranca um pedação da parte escura do alho-poró, e aí lava-lava-lava com o mesmo afinco que o ratinho do Castelo Rá-Tim-Bum lavava uma orelha e outra orelha, porque nessa parte do alho-poró costuma haver terra. Depois de lavar, você corta o pedação de alho-poró em várias tirinhas e as tirinhas você corta em quadradinhos. 

A salsinha – Imagina que o Ken vai dar um maço de flores enorme para a Barbie. É um buquê de salsinha mais ou menos do mesmo tamanho que você vai usar. Você vai lavá-la e depois picá-la sem grande obsessividade, apenas o suficiente para partir cada folhinha em dois ou três pedaços. E por favor, não jogue fora nem se preocupe se houver uns pedacinhos de cabo de salsinha na sua salada. Possível objeção 1: “salsinha não tem gosto, só serve pra deixar a comida verde” – eu não sei onde você aprendeu isso, mas nunca é tarde para aprender o seguinte: a salsinha, crua, é um dos maiores elementos de refrescância que uma salada pode ter. Possível objeção 2: “Ain credo como assim vou comer o cabinho da salsinha” – aqui só posso evocar o pai nordestino que diz para o filho choroso diante de um prato de miúdos de bode: “mas oxe, seje hómi”. Gente, por favor. Não é uma buchada, não é uma rabada, não é uma língua de boi. É apenas uma salsinha. Simplesmente sejem hómis e comam. 

O abacaxi – bom, obviamente só adianta incluir esse ingrediente se o abacaxi estiver doce. Será preciso uma fatia grande. Eu descarto o centro do abacaxi, porque não é com todo ingrediente que eu quero ser hómi – com abacaxi, recomendo ser mulherzinha mesmo. Este é um ingrediente essencial para compor com a salsinha no quesito refrescância.

O peito de peru – sem aquela casquinha demoníaca ao redor, por favor. Uma fatia só já basta. Rasga nuns sete ou oito pedaços que tá bom demais.

Sal, pimenta-do-reino moído na hora, azeite, aceto balsâmico.

MODO DE PREPARO

– A alface que você rasgou, espalha ela por todo o prato como quem espalha pétalas de rosa por uma cama de motel. Espalha de modo que não se veja o fundo do prato. 

– A ervilha que está lá na peneira, espalha por cima da alface. Não vá fazer uma pilha de ervilha no meio do prato, faz favor. Espalha direitinho, sem preguiça.

– Repete com os quadradinhos de alho-poró o que você acabou de fazer com a ervilha.

– Agora os abacaxis, vai espalhando também pelo prato todo. A esta altura sua salada já deve estar parecendo uma bandeira do Brasil estilizada, toda verde e amarela.

– A salsinha você espalha também pelo prato todo, mas tente mirar mais em cima dos abacaxis que do resto. Abacaxi e salsinha é uma combinação tão boa que merecia um nome tipo Romeu & Julieta só para eles. Por exemplo: Apolinário & Maria Flor.

– Aqui você pára e tempera tudo com sal e pimenta-do-reino. “Ué mas tá faltando ingrediente”. Sim, colega, mas você não quer salgar ainda mais o que já é salgado por natureza, não? Obedece a tia e tempera bem com sal e pimenta-do-reino neste ponto do processo, nem antes e nem depois.

– Agora sim você espalha os pedacinhos de peito de peru e as rodelas de palmito por todo o prato. Aproveite para dizer adeus à bandeira do Brasil.

– Pode começar a ficar empolgado que a sua salada já está quase pronta.

– Visualize uma espiral de uma volta só cujo centro está bem no meio do prato. Pegue o aceto balsâmico e trace sua espiral. A espiral toda deve durar não mais do que dois segundos e meio para ser traçada. Você não quer, repito, você definitivamente não quer uma salada carcada no vinagre. É só para dar um gostinho.

– Visualize uma pintura do Pollock, pegue o azeite e encarne o Pollok na sua salada por uns bons sete ou oito segundos. Você quer, repita comigo, você definitivamente quer uma salada carcada no azeite. E aqui vocês vão me perdoar mas eu usei um azeite especial que meu pai me trouxe da Itália e eu não sei dizer onde encontra esse tipo de azeite por aí – no Pão de Açúcar eu sei que não tem, talvez em mercado de rico vocês achem. É um azeite sabor manjericão, amigos. Desculpe.

– Agora você tira foto e põe no instagrão. Pode aplaudir se quiser.

– A parte de ser feliz comendo acho que não preciso explicar. 

– Vou explicar mesmo assim: tente fazer “garfadas perfeitas”, misturando todos os ingredientes numa garfada só; ou então faça garfadas semi-perfeitas, combinando o doce da ervilha ou do abacaxi com o salgadinho do palmito ou do peito de peru. 

– De preferência, faça esta salada para quem você ama. Amor e salada nunca hão de ser demais.

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10 comentários sobre “Uma salada

  1. Em respeito à culinária obsessiva: quando você diz “pra mim um palmito rende umas nove rodelas. Pra essa salada é preciso um palmito e meio. Precisamente.”, você está dizendo que precisa de 13 rodelas, 14 rodelas ou precisamente 13 rodelas e meia?

    • Paulo, eu diria que precisamente 15 – isso porque toda e qualquer coisa que eu corto em rodelas invariavelmente sai rodando pra fora da tábua, o que é a senha para eu comer imediatamente a rodela fujona. Assim, 15 rodelas significam que a salada terminará com 13 ou 14 rodelas de palmito. Espero ter solucionado a sua dúvida :-P

  2. recomendo: seje homi e coma o centro do abacaxi. de preferencia num dia de calor infernal, entrando na geladeira aberta, pegando a fatia ja cortada num potinho de geladeira – hum, já está geladinho – e coma, sem ninguem ver, o centro do abacaxi junto com tudo, mordendo como se fosse um sanduíche de verão.
    (entrei no clima do post?)
    (odeio salsinha)

  3. Por um livro de receitas de saladas da Camila. Ou pelo menos um tâmbler? Com foto e tudo? Hein? Hein???

  4. Concordo com a marymeggie, por um livro de receitas de saladas e massas da Camila! Seria o peito de perú o “elemento ogro” da salada e o abacaxi o “elemento divertido”, ambos da categoria “interessância”? Taí um livro de culinária que eu compraria!

    • Que amor, vc lembrou desse outro post! Exatamente – o abacaxi é o elemento divertido, e o peito de peru é o que mais se aproxima de um elemento ogro, embora não seja ogro de verdade (quantas calorias tem uma fatia de peito de peru – 0,45?). Obrigada pela força – qualquer hora eu escrevo outra receita de salada ou massa por aqui, prometo ;-)

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