Um militar, cem civis

Generation Kill é o relato de um repórter que passou alguns meses junto de uma divisão de elite do Exército dos EUA durante a invasão ao Iraque, em 2003. Em determinado momento da invasão, um soldado atira em um menino desarmado de cerca de 12 anos. Depois de alguns empecilhos burocráticos, o exército americano presta socorro à vítima – e o comandante faz um bonito discurso para seus comandados:

“Ao atirar, precisamos nos certificar de que estamos sob ameaça. É preciso ver que estas pessoas são exatamente como nós. É preciso ver além das cabanas, dos camelos, das roupas diferentes que eles vestem. Eles são apenas pessoas. Esta família aqui pode perder um filho. Além disso, atiramos em seus camelos. Um camelo morto pode significar a renda de um ano inteiro. Não estamos aqui para destruir o modo de viver dessas pessoas.”

Vai dizer que você não se emocionou? Que não escorreu uma lagriminha? “Existe esperança para a humanidade!” “Existem pessoas boas no mundo!” “Ah se a PM do Rio fosse assim!”

Então você continua lendo o discurso:

“Não estou dizendo para vocês não se protegerem. Se for o caso de perder um militar versus uma centena de civis, salvarei o militar.”

Não é que não existem pessoas boas no mundo. Não só elas existem como, em um bom dia, elas podem até mesmo ser você (ou eu) (ou o comandante do Exército dos EUA).

O problema é que, se você tiver paciência para ouvi-las por tempo suficiente, você descobrirá que mesmo as melhores pessoas, em seus melhores dias, acreditam sinceramente em que:

1) Somos todos iguais.

2) Todas as vidas são igualmente valiosas.

3) Algumas vidas valem cem vezes mais do que outras.

***

Texto original, p. 230:

“We must be sure when we take a shot that we are threatened. You have got to see that these people are just like you. You’ve got to see past the huts, the camels, the different clothes they wear. They’re just people. This family here might lose a son. We shot their camels, too. If you kill one camel, that could be a year’s income. We are not here to destroy their way of life.”

“I’m not saying don’t protect yourselves. If it’s a case of losing one Marine versus one hundred civilians, I will save the Marine.”

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