Metrô Clínicas, onze horas da noite

Era um dia em que, às onze da noite de um sábado, eu esperava o trem na plataforma vazia da estação Clínicas. Era, portanto, um dia de um tempo mítico, quando ainda não havia nova classe média e o metrô era vazio nas noites de sábado. Pois hoje dizem que o metrô não é insuficiente e precário por ser insuficiente e precário, mas porque as pessoas – sempre elas, as malditas pessoas, que agora além de tudo ainda têm mais dinheiro para gastar e mais uma linha do metrô para tomar – insistem em utilizá-lo.

Naquele tempo mítico, então, a linha verde no sábado à noite estava mais para uma pintura de Hopper do que para a deliciosa balada alternativa que é hoje. Compartilhávamos solitariamente o espaço da plataforma esperando o próximo trem, que ainda não vinha com aquele aviso de que este é o enésimo novo trem do metrô!!! Os enésimos novos trens do metrô de hoje vão de 1 a 30, remetendo imediatamente às pizzarias abertas desde 2003!!! e ao nosso estranho mundo onde trinta trens em vinte anos e dez anos assando pizza viraram feitos merecedores de três pontos de exclamação.

Mas nem só de passageiros é feita uma plataforma – há também a presença etérea e inapreensível da Voz do Além, aquela que nos conclama a desembarcar pelo lado esquerdo do trem e que nunca sabemos ao certo se é voz de gente-humana-como-a-gente ou se é uma simples gravação automatizada.

Aquele dia, a Voz do Além anunciou que deveríamos nos manter atrás da linha amarela – não a que liga a Luz ao Butantã, que esta nem existia na época, mas aquela que indica a distância segura entre o trem e a plataforma.

Só que nós, os passageiros, éramos apenas três, talvez quatro – e um de nós postava-se insolente à frente da linha amarela, criança desafiando os limites impostos pelos pais. Ou melhor: adulto percebendo que pode, sim, fazer tudo aquilo que papai e mamãe um dia lhe impediram de fazer. Comer chocolate antes do jantar? Eu posso. Sair do banheiro sem lavar as mãos? Demorô. Ultrapassar a linha amarela? É nóis.

Quer dizer, nóis não – era ele. Um rapaz de camiseta vermelha, nariz empinado e olhar desafiador, quebrando regras e exalando virilidade.

A Voz do Além sumiu por alguns instantes.

Quando reapareceu, já não era do além. A voz oficial do metrô não apenas não era automatizada como era muito mais do que apenas humana: era uma voz carioca.

– Ô da camisa verrmelha. É, é com você merrmo que eu tô falando. Pra trás da linha amarela, ô cumpadi.

Naquela época em que a expressão vergonha alheia não era moda nas redes sociais, e em que a única rede social possível em um sábado à noite parcialmente passado no metrô Clínicas eram os olhares trocados na plataforma esvaziada, os dois ou três passageiros de trás da linha amarela nos entreolhamos fingindo não reparar em nada enquanto o cumpadi da camisa vermelha dava um passo para trás de cabeça baixa, porque papai e mamãe podiam não estar ali, mas o metrô de São Paulo, encarnado em um carioca gozador, estava.

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9 comentários sobre “Metrô Clínicas, onze horas da noite

  1. O metrô é campeão em dar aquelas broncas em público. Você vai sentando na escada e vem o anúncio, no alto-falante: “No metrô, não é permitido sentar nas escadas”. A criança corre cinco metros e “segure suas crianças. evite acidentes”. E a tem a de um amigo meu, que vomitou no lixo da estação, e ouviu um “atenção funcionária da limpeza, comparecer à plataforma 2”. Mas carioca pra mim era inédito. Seria mais legal se fosse sempre assim.

    • Neste caso a bronca foi num nível didi-mocó (“ô da poltrona”) de personalização (“ô da camisa vermelha”) – foi isso (além do carioquês, como você bem disse) que eu achei o mais legal :-D

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